ingleses

A presença dos ingleses na Madeira está documentada desde o séc. XVI, mas foi na centúria seguinte que eles adquiriram importância desusada. Por outro lado, a fazer fé no relato de Machim, eles teriam sido os primeiros a chegar à Ilha. Esta presença foi manifesta em diversos setores da sociedade e da economia madeirenses ao longo da história, mas será no comércio do vinho e do bordado, tal como mais tarde no turismo, onde mais se sentirá a sua presença e influência.

Foi, sem dúvida, a comunidade estrangeira mais influente e perdulária no arquipélago, tendo-se misturado raramente com os nacionais, pois manteve sempre um estatuto reservado e especial, que lhe permitiu prosperar nos negócios em que se envolveu. De entre as famílias de ingleses, evidenciam-se os nomes dos Blandy, Cossart, Gordon, Hinton, Leacock, Murray, e Phelps, mas outros mais estiveram envolvidos na Ilha em múltiplas atividades. As suas formas de presença e atuação farão com que sejam olhados e imitados pelos locais, influenciando os hábitos e os costumes da sociedade madeirense em domínios como o falar quotidiano, a arquitetura, o mobiliário e as artes decorativas. Os madeirenses tomaram contacto com novas realidades relacionadas com o conforto e o lazer e com a economia, a agricultura e a pecuária por sua influência e iniciativa. Desta forma, o legado da comunidade britânica ao arquipélago é importante e foi explícito na sociedade madeirense. Isto não impede que se recorde o reverso da medalha, a exploração insistente da população rural através de contratos lesivos, pelos quais adquiriam o vinho a preços ínfimos e a troco de manufaturas, por vezes de segunda mão, com valores excessivos. A generalização das fichas ou tokens em substituição do dinheiro, que reforçava tais laços de dependência, está também vinculada a este grupo.

Um dos aspetos de particular significado da ação dos ingleses prende-se com o contrabando de aguardente e vinho. Até 1821, a aguardente estrangeira teve livre-trânsito no porto do Funchal, facto justificado pela ação benéfica no trato e pela falta de aguardente local de qualidade. A partir de então, tudo mudou, com a introdução dos alambiques de destilação contínua; os proprietários locais aproveitaram o momento para solicitar a proibição de aguardente importada, o que veio a acontecer por lei de 31 de julho de 1822. Com efeito, a importação das aguardentes era o grande problema. Os ingleses traziam grandes quantidades de aguardente de França, Itália e Espanha e adulteravam-na na viagem; daí ter-se interditado a sua introdução, conforme lei de 1710.

Entretanto, em 1770, no Funchal, Manuel João da Silva, mestre tanoeiro e juiz do povo, ao passar pela casa do cônsul inglês, Thomas Cheap, na rua da Queimada de Cima, deparou com várias barricas que se dizia serem de pescado seco, mas que eram de aguardente importada, que, de imediato, mandou apreender. Entretanto, foi enxovalhado pelo próprio cônsul e depois preso, por injúrias, por ordem do provedor da Fazenda. A 14 de março, decidiu escrever, da prisão, uma carta ao rei, de que fez registar cópia no tombo da Câmara. Nesta exposição, refere a forma despótica como atuavam os ingleses, que se comportavam mais como senhores da Ilha do que como negociantes. Na extensa missiva, faz denúncias de práticas fraudulentas e de contrabando por parte destes mesmos ingleses que, afirma, contam com a conivência dos feitores e demais oficiais da Alfândega e da Fazenda Real. Refere-se, por exemplo, a entrada de aguardente e demais bebidas alcoólicas, tabaco, roupas e alfaias. Esta descrição espelha o à-vontade com que os ingleses atuavam no porto do Funchal, escudando-se nos diversos tratados existentes.

Nesta época, o contrabando tinha a marca destes mercadores e contratadores, que se assumem, como vimos, como seus principais promotores. Em muitas situações, é evidente a conivência das autoridades, tais como o governador e os funcionários da Alfândega, conseguida à custa de presentes e dinheiro. As próprias autoridades do reino tinham consciência desta realidade.

Com a plena afirmação da hegemonia britânica no Atlântico e Índico, a Madeira foi um pilar importante do vasto império, base imprescindível para o corso marítimo e porto obrigatório de abastecimento das embarcações de malvasia. Desta forma, no decurso do séc. XVIII, a Ilha firmou a sua vocação atlântica, contribuindo para isso o facto de os ingleses não dispensarem o porto do Funchal e o vinho madeirense na sua estratégia colonial. As diversas atas de navegação de 1660 e 1665, corroboradas pelos tratados de amizade, como o de Methuen (1703), foram os meios que abriram caminho para que a Madeira entrasse na área de influência do mundo inglês. A presença e importância da feitoria inglesa no séc. XVIII foi uma realidade. A Madeira funcionava para os ingleses como uma colónia, com um papel fundamental entre a metrópole e as possessões norte-americanas das Índias ocidentais e orientais, assumindo a dupla função de porto de apoio para o corso e para o abastecimento de vinho às embarcações e colónias.

A presença de armadas inglesas no Funchal era constante e o relacionamento com as autoridades locais amistoso, sendo recebidas pelo governador com toda a hospitalidade. Destas, relevam-se as de 1799 e 1805, compostas, respetivamente de 108 e 112 embarcações. Era também assídua a presença de uma esquadra inglesa a patrulhar o mar madeirense.

Posteriormente, a conjuntura política envolvente ao governo imperial de Napoleão Bonaparte repercutiu-se, de forma evidente, no espaço atlântico, provocando uma alteração no movimento comercial. O mútuo bloqueio continental entre França e Inglaterra lançou as bases para uma nova era na economia atlântica. Os tradicionais circuitos comerciais que se iniciavam e finalizavam nos portos europeus desapareceram durante algum tempo, pois o cordão umbilical que os mantinha foi cortado. É evidente a valorização das ilhas, que passaram a dispor de um mercado aberto para os seus produtos, como o vinho, até aqui alvo da concorrência do europeu. O bloqueio não foi assumido e fiscalizado na totalidade. Para a Ilha, ele significou a alteração de algumas rotas comerciais. A Madeira perdeu importância nas ligações com os portos do reino e do norte da Europa, mas em contrapartida ganhou nos contactos com os Açores e com as colónias inglesas do Índico.

A 26 de dezembro de 1807, na sequência da proclamação do major general Beresford, a bandeira britânica foi hasteada no torreão do palácio de S. Lourenço; esta situação persistiu até 17 de agosto de 1808. Anos antes (entre 24 de julho de 1801 e 25 de janeiro de 1802), a conturbada conjuntura europeia e os pactos estabelecidos pela velha aliança tinham levado a que os ingleses se limitassem a ocupar a Ilha, mantendo-se a soberania portuguesa. A partir desta altura, todas, ou quase todas, as embarcações que se dirigiam aos portos franceses e castelhanos foram desviadas para a Madeira. As principais casas comerciais viram reforçada a sua posição, acabando por dominar o mercado de exportação do vinho e de importação de artefactos e alimentos.

Desde o séc. XVII, a feitoria inglesa definiu um estatuto à parte para a sua comunidade, estatuto que lhe permitia ter conservatória e juiz privativo. O espírito de união da feitoria, que persistiu até à pauta de 1842, favoreceu a sua posição na sociedade madeirense e acentuou o fosso com os naturais. Esta situação de privilégio foi sendo negociada nos diversos tratados e pactos, de que se destacam os assinados em 1801, 1802, 1807 e 1814. Este primeiro quartel foi um momento particular da influência britânica no arquipélago que, por força da sua ocupação, permitiu à comunidade de mercadores e residentes consolidar a sua posição hegemónica.

Por outro lado, parte desta influência inglesa foi ganha nos bastidores do poder político e, por vezes, sob o olhar complacente daqueles que, à primeira vista, pareciam ser seus inimigos (os republicanos). O caso do monopólio do engenho da família Hinton é exemplo disso. Os relatórios exaustivos dos cônsules (que surgem na Ilha a partir de 1658) incidem a sua atenção no plano económico. O ponto da situação, feito em julho, era elaborado de acordo com as orientações do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico. A incidência sobre os súbditos de Sua Majestade era, acima de tudo, uma forma de controlo do tráfico comercial de e para as colónias. A Ilha era um dos eixos da estratégia. Foi por isso que, em princípios do séc. XIX, a Ilha foi ocupada por duas vezes pelas tropas britânicas. Mais do que preservar os interesses britânicos na Ilha estava a necessidade de impedir o avanço francês no Atlântico, o que poderia vir a molestar os ainda importantes domínios coloniais. Os tratados sedimentaram a posição confortável dos ingleses, enquanto as leis de navegação do séc. XVII mais não fizeram que reforçar os laços definidos pelo mercantilismo inglês.

O turismo e o vinho estão indissociavelmente ligados aos ingleses. Eles foram os principais mentores, intervenientes e usufrutuários da riqueza gerada. Traçaram os rumos do mercado colonial e o processo de vinificação adequado ao paladar e às contingências da rota e do destino. Eles foram os primeiros turistas na Ilha e também os promotores, desde finais do séc. XIX, dos hotéis de que o Reid’s Hotel é o emblema dourado.

A presença inglesa foi uma constante no quotidiano. Muitos visitantes testemunham-no, destacando a extrema dependência dos madeirenses em relação à comunidade britânica. Em 1873, Álvaro Rodrigues de Azevedo afirmava que “a Madeira está em grande parte anglicizada, na raça, nos costumes, na propriedade, no comércio, na moeda; e a língua inglesa é aqui a mais falada depois da nacional. Se nós somos imprudentes em dizer isto, o que são os governos se o ignoram? E pior, se não o ignoram, pois que o não evitam, o que serão? Só o brio português nos mantem portugueses” (AZEVEDO, 1873, 720). Ainda em 1924, a mesma ideia persistia no testemunho presencial de Raúl Brandão: “Esta ilha é um cenário e pouco mais – cenário deslumbrante com pretensões a vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo o que lhe não cheira a inglês. Letreiros em inglês, tabuletas em inglês e tudo preparado e maquinado para inglês ver e abrir a bolsa” (BRANDÃO, 1926, 264).

As invasões francesas da Península Ibérica, associadas aos tratados de comércio e amizade de 1808 e 1810, e às ocupações da Ilha em 1801/02 e 1807/08, confirmaram e consolidaram o domínio britânico no séc. XIX. A primeira, pelo coronel Clinton, quase não se fez sentir, mas não evitou o nervosismo do governador que, em carta de 26 de julho de 1801 (VIEIRA, 2003, 406), dizia que tinha sido necessário disfarçar o desagrado dos estudantes em todos os aspetos. Com a segunda, o major-general W. C. Beresford conseguiu que o domínio efetivo da Ilha passasse para a administração inglesa. A curta permanência na Ilha foi suficiente para confirmar e reforçar o domínio britânico, através de medidas administrativas que conduziram à diminuição das tarifas aduaneiras em certos produtos ou através de salvo-condutos aos navios. As medidas confirmaram-se pelo tratado de 1810, que perdurou até 1836. A pauta de 1836 acabou com a pauta inglesa, deixando de existir esta situação de privilégio.

O primeiro indício da ambição de fazer da Ilha uma possessão britânica surgiu em 1661, quando, nas negociações para o casamento da infanta D. Catarina com o rei Carlos II, a parte inglesa reivindicou a inclusão da ilha da Madeira no dote. A tradição, que surge quando os documentos se calam, afirma que os madeirenses teriam recusado tal opção, levando a coroa portuguesa a substituí-la pela ilha de Bombaim e a fortaleza de Tanger. A possível doação feita em 1 de novembro de 1656 por D. João IV à infanta D. Catarina contraria aliás o princípio que levara D. Manuel, em 1498, a reverter para a coroa a sua posse, tornando-a realenga para sempre, e por isso inalienável.

A figura de Napoleão associa-se a um período fulgurante da história da Madeira, durante o qual a Ilha e o vinho desfrutaram de uma posição inigualável. Talvez por isso, quando o fatídico imperador passou pela Ilha, em agosto de 1815, a caminho do exílio, o cônsul inglês, Henry Veitch, não encontrou melhor lembrança para lhe ofertar do que um tonel de vinho. A conjuntura europeia protagonizada por Napoleão fizera com que o vinho madeirense adquirisse uma posição dominante no mercado atlântico, aumentando a riqueza dos ingleses, seus principais comerciantes e consumidores. Diz a tradição que o tonel com o precioso rubinéctar regressou à Ilha, reclamado pelo doador, e que em 1840 se desmultiplicou em centenas de garrafas, que fizeram as delícias de inúmeros ingleses. Churchill, de visita à ilha em 1950, foi um dos felizes contemplados.

Existiu, na verdade, uma forte contestação da presença britânica na Ilha. Em 1754, o governador Manuel de Saldanha de Albuquerque afirmava: “A nação inglesa, que é a que aqui faz seu comércio e introduz os géneros de que se sustenta o resto do ano o povo, concorre mais para a sua ruína, pois se não contentam com ganhos moderados, não vendendo coisa alguma sem que tirem o interesse de setenta por cento e como não há outra nação que comercie nestes portos, sendo incansável o cuidado dos ditos ingleses em afastá-los por todos os modos, são estes mercadores obrigados de necessidade a comprar-lhes os seus efeitos pelo que eles querem” (AHU, Madeira e Porto Santo, n.os 48-49). Paulo da Câmara destacou a mudança operada no comércio de vinho em consequência do tratado de 1810: “Antes do nefando tratado de 1810, era inibido aos ingleses comprar vinhos em mosto, porém sendo-lhes isto facultado, tornaram-se os árbitros deste género, e os verdadeiros senhorios da terra” (CÂMARA, 1841, 91). O mesmo é reafirmado por A. R. de Azevedo, veemente britanófobo: “E então o predomínio dos negociantes ingleses de mais a mais fortalecido pela invasão e ocupação desta ilha por tropas britânicas se enraizou, forte e decisivamente, na Madeira.

Os extraordinários preços a que os vinhos desta ilha foram subindo desde o fim do século passado e o que sustentaram no primeiro quartel do presente, não deixavam sentir essa fuga; davam para tudo; a Madeira nadava em oiro; mas, logo que os vinhos decaíram, os proprietários, habituados a largas despesas, que os meios de que dispunham já não comportavam, recorreram ao expediente das antecipações, havendo desses negociantes a conta das futuras colheitas, quando precisavam, géneros alimentícios, fato, calçado, mobílias, dinheiro, tudo; e aqueles poucos que não estavam nestas circunstâncias e os colonos agricultores vendiam aos mesmos negociantes seus vinhos, a prestações mensais, de sorte que, uns e outros, porque essas casas comerciais britânicas eram os quase únicos compradores dos vinhos, e árbitros supremos do preço deles, todos lhes ficaram na mais completa sujeição; o vinho reduzido ao ínfimo valor; os proprietários e agricultores afrontados de penúria; e o negociante inglês auferindo no estrangeiro todos os lucros, ainda avantajados, do negócio de vinhos da Madeira. À deplorável tirania deste humilhante monopólio se eximiam somente duas ou três casas portuguesas, que de própria conta exportavam os vinhos de suas terras e outros comprados, tendo estas casas, por vezes, patriótica e generosamente mantido os preços, para que não descessem ao ínfimo, que o mercado britânico pretendia impor. Assim mesmo a Madeira chegou a miseranda decadência; o vinho, único produto a que se dedicava, era ao mesmo tempo o seu recurso e a sua desgraça, o seu tesouro e a sua pobreza” (AZEVEDO, 1873, 720).

As reflexões supracitadas parecem ter sido o pensamento dominante dos madeirenses no séc. XIX. As próprias instituições sentiram o mesmo problema e não se fizeram rogadas. Em 1814, ao abordar a questão das aguardentes, a Câmara do Funchal também referia o predomínio inglês nas atividades especulativas: “O nosso comércio é absolutamente passivo, os ingleses põem o preço aos nossos vinhos e aos seus efeitos” (ARM, Registo Geral…, t. XIV, fl. 87v.).

Na déc. de 20 do séc. XIX, perante esta afirmação britânica, temos várias reações que evidenciam, por vezes, um ambiente pouco amistoso com as autoridades. Às questões em torno da introdução de aguardentes, associam-se outras como a da liberdade de comércio no Funchal, chegando-se mesmo a sugerir a necessidade de um porto franco, como forma de resolver os problemas da quebra da navegação no Funchal, que estava a ser absorvida pelos portos das Canárias. O governador e capitão-general António Manoel de Noronha é claro quanto a todas as propostas em jogo, afirmando que as mesmas servem os interesses estrangeiros, tendo à cabeça os britânicos: sendo estes os detentores do comércio, ficaria nas suas mãos o principal lucro da situação. Acusa-os ainda de quererem intrometer-se na administração da Ilha; era uma alusão clara à manifestação pública de agrado do cônsul inglês H. Veitch, pela criação de porto franco.

A ação dos ingleses foi dominadora nos sécs. XVIII e XIX, controlando, não só as vias de escoamento do vinho, como também o comércio e abastecimento do mercado local. Uma das estratégias usadas pelos negociantes ingleses era a troca antecipada do mosto por manufaturas.

Os ingleses foram os únicos estrangeiros que conseguiram assumir uma posição privilegiada na sociedade madeirense, criando um mundo à parte e funcionando com instituições próprias e privilégios exorbitantes, tendo o controlo quase total da economia da Ilha e fruindo da sua riqueza. Os lucros provenientes da Madeira eram, indubitavelmente, mais consideráveis para a Grã-Bretanha do que para a sua terra-mãe (Portugal), como consequência do comércio realizado entre ela e a feitoria britânica aí estabelecida, que consistia, presentemente, em mais de vinte casas comerciais e cujas fortunas adquiridas estavam amealhadas na Grã-Bretanha. As outras nações pouco disputavam os ingleses neste seu comércio com a Madeira. Mesmo os portugueses que tentaram competir com eles raramente prosperaram, por terem, como se supõe, menos conhecimento comercial, assim como, provavelmente, um capital e crédito mais pequenos e menos ligações com outros estrangeiros. Os comerciantes britânicos controlavam, para seu interesse, os cultivadores de vinha, fornecendo-lhes de antemão tudo aquilo de que eles necessitam nos intervalos da vindima e nas estações mais baixas. Os seus negócios com os habitantes portugueses do Funchal também devem ter sido intensos; excetuando este facto, parecem não existir muitas relações sociais entre eles.

A britanofobia madeirense, evidente em princípios dos sécs. XIX e XX, confunde-se, por vezes, com a afirmação do liberalismo e republicanismo, quando a origem parece ser outra. Em 1911, os republicanos madeirenses fizeram um ultimatum para os britânicos abandonarem a Ilha, imposição que não foi cumprida. A crise económica, com especial incidência no setor comercial, resultante do recuo do Império Britânico e da perda de algumas das suas colónias, começando com a independência dos EUA., fez catalisar as vozes da revolta. Foi na Madeira que primeiro se fez sentir o impacto negativo da crise do império.

A crise provocada pelo oídio conduziu, segundo A. R. de Azevedo, à debandada geral das casas britânicas; os poucos que ficaram deslocaram as suas atividades para o rendoso negócio do carvão, que servia de suporte à navegação a vapor: “Esta crise medonha regenerou a ilha da Madeira – o mercador inglês, extinto o vinho, liquidou como pôde e retirou-se; das antigas casas britânicas só ficaram as de Newton Gordon & Ca, J. W. & T. Selby, Blandy e Rutherford & Grant, sendo as duas últimas mantidas principalmente pelo valioso negócio do carvão de pedra. Assim a Madeira ficou libertada desses dominadores capitalistas… A ilha da Madeira, em bem o digamos, está, ao presente, livre, abundante, rica e feliz” (VIEIRA, 2003, 422).

A partir de 1640, os ingleses passaram a usufruir de uma posição privilegiada no mercado madeirense, com algumas isenções de direitos, destinadas a compensar o seu incondicional apoio à restauração da monarquia portuguesa. Em 1647, estes cidadãos britânicos que negociavam vinho na praça do Funchal pagavam apenas 1 cruzado por pipa de vinho ou aguardente para o chamado donativo, tendo ficado isentos desse encargo desde 1655. A par disso, cobravam também 300 réis por cada caixa de açúcar, 150 por arroba de casquinha e 200 por saco de urzela. Também se havia concedido aos ingleses a possibilidade de só pagarem a corretagem quando a solicitassem.

Sabemos que não lhes era exigido qualquer direito de despacho de mercadorias por saída; em 1658 todas as chamadas fazendas com origem em Inglaterra pagavam à chegada ao Funchal apenas metade dos direitos estabelecidos. Com o tratado de 1661, abriram-se, de novo, as portas para o domínio inglês do mercado insular, mercê de medidas de privilégio e da isenção dos direitos de exportação do vinho. E em 1662, se ordenou a cobrança desse direito para aqueles – ingleses ou não – que despachassem mercadorias por retorno, isto é, já taxadas à entrada e que seguiam depois rumo a outro porto de destino. Em 1689, foi-lhes concedida a faculdade de se fixarem com casas comerciais de vinho, comestíveis e manufaturas, fazendo entrar na Ilha os artigos de luxo.

O Tratado de Methuen (1703), pôs cobro à situação criada em 1684, ao mesmo tempo que se afirmou a dependência do mercado local em relação ao inglês. Os portugueses tornaram-se consumidores dos panos ingleses e fornecedores de vinho ao mercado colonial britânico. Segundo A. R. de Azevedo: “O tratado trouxe para a Madeira a mais apertada vassalagem ao mercantilismo britânico” (VIEIRA, 2003, 405). E isto foi de tal modo que, em 1722, o município funchalense afirmava que aos vinhos produzidos na Ilha só existiam duas alternativas: “ou embarcá-los para o Brasil, ou vendê-los aos ingleses e por qualquer destes princípios lhes tinha pouca conveniência, porque os ingleses os queriam extrair, como os extraíam, por muito inferiores preços, por vezes a troco de alguns géneros comestíveis que lhes tinha pouca conta os moradores dessa ilha” (VIEIRA, 2003, 405).

A feitoria arrecadava o chamado tributo de nação, isto é, uma quantia sobre os produtos exportados pelos ingleses que, no caso do vinho, era de 240 réis por cada pipa, usado depois para auxílio mútuo e apoio aos serviços médicos e religiosos da comunidade. Esta situação é testemunhada por diversos autores britânicos. Em 1880, H. Vizetelly referia a “feitoria britânica, a qual tinha quase um monopólio do comércio de vinho da Ilha, fixando anualmente o preço do mosto adquirido aos produtores, bem como também os preços a que os vinhos deviam ser exportados. Ao lançar um imposto sobre cada pipa de vinho exportada por eles próprios, criaram os fundos necessários para fazer um cemitério onde os súbditos britânicos podiam ser decentemente enterrados, pois nessa altura, os corpos dos que não eram de fé católica romana eram insolentemente atirados ao mar. Antes de haver este cemitério, um membro da feitoria que não gostava nada da ideia do seu cadáver servir de comida aos peixes, implorou aos seus sócios que o enterrassem, quando morresse, debaixo da sua secretária na casa da contabilidade. Secretamente, fizeram isso e o caixão que tinha sido preparado para o seu cadáver foi enchido de pedras e entregue às autoridades para ser lançado ao mar” (VIEIRA, 2003, 403).

Todos os anos, no dia de Réis, a comunidade e a feitoria retribuíam os favores do governo da Ilha, na figura do governador, com uma oferta de 600$000, que representava metade do vencimento que a autoridade auferia durante um ano. Esta forma de presentear as autoridades da Ilha vinha já do séc. XVII, pois sabemos que o mercador William Bolton mandou vir de Londres um relógio para oferecer ao novo governador, D. António Jorge de Melo.

A criação da dita feitoria é a expressão desta realidade e a manifestação de uma cultura que pretende impor-se e que não aceita qualquer mistura, chegando ao limite de ditar normas e leis próprias para a sua comunidade. As pretensões no sentido da afirmação da soberania britânica na Ilha são expressas por diversas formas e manifestações, a começar pelo debate em torno do descobrimento da Ilha por Roberto Machim, no séc. XV; note-se que, na opinião de alguns autores, o que estava em causa eram os interesses escondidos por detrás de tal teoria. Deste modo, a história revela inúmeros desmandos por parte desta comunidade, a começar pelo desrespeito da autoridade local e continuando na sua ocupação da Ilha (1801-1802, 1807-1814), dando como única explicação a salvaguarda dos interesses dos seus compatriotas. Esta atitude conta, por vezes, com a complacência das autoridades, que, para o efeito são brindadas com algumas ofertas.

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Alberto Vieira

(atualizado a 01.09.2016)