ioga

A origem do ioga é tão antiga que é imemorável, como prova a descoberta de um selo de argila com uma figura a meditar numa postura de pernas cruzadas da chamada civilização não violenta, talvez já da religião jaina ou jainismo, no vale do rio Indo, muito antes de os povos indo-iranianos chegarem ao subcontinente indiano. A palavra “ioga” vem do sânscrito (da raiz verbal “yuj”, que significa juntar, unir), significando união (esta raiz está presente, e.g., nas palavras “cônjuge” e “conjugar”, na forma de “jug”, com o mesmo significado). Ioga é uma ciência e filosofia de vida que tem origem nos Vedas, a literatura mais antiga até hoje conhecida da humanidade, estando associada à medicina aiurvédica (de “ayur”, vida, e “veda”, conhecimento, da raiz “vid”, que significa conhecimento, verdade, ciência). O nome “ioga” é usado frequentemente nos textos filosóficos védicos no seu sentido mais profundo de estar em sintonia, conexão com o divino absoluto, mas também de agir de forma correta.

O ioga surge nos Vedas (Upanishads), nos Shastra (compêndios) tântricos mais antigos e no Bhagavad-Gita, sistema filosófico indiano que constitui a base do ioga, originando o jainismo, o hinduísmo e, mais tarde, o budismo. O Bhagavad-Gita situa-se no período pré-clássico do ioga, enquanto Patanjali é considerado o autor do texto fundamental do ioga clássico, conhecido como os Ioga Sutra de Patanjali, codificação da ciência do ioga original, datado do fim do séc. III a.C.. Patanjali diz no cap I, versículo I do Ioga-Sutra que a sua tarefa foi editar e corrigir as tradições doutrinárias e as técnicas do ioga. Foi graças a ele que o ioga passou a ser um sistema filosófico na Índia e no mundo.

Com o tempo, formaram-se quatro tipos principais de ioga: karma ioga (ações realizadas com sacrifício pessoal), bhakti ioga (amor espiritual à Consciência Suprema e Una, Deus), raja ioga (de Patanjali, domínio da mente para revelação e união ao espírito ou eu espiritual) e jnana ioga (conhecimento ou identificação com a realidade suprema). Outros processos subsidiários desenvolveram-se também como iogas, designadamente o hatha ioga (posturas e respirações para maior autoconsciência), o japa ou mantra (repetição consciente de frases e sons sagrados) e a kundalini (despertar da energia ígnea espiritual interna). A prática espiritual do ioga é chamada sadhana e começa com o princípio básico de disciplinar a mente para o praticante poder elevar a consciência, o que só acontece se este tiver um propósito ou aspiração devocional forte a um estado sattva (termos sânscrito que significa pureza, mas também existência, realidade), libertando-se da ignorância do mundo ilusório (maya). Posto isto, o objetivo do Ioga é conduzir o praticante à iluminação da consciência (samádhi), através de puja (reverência e transmissão de energia), asanas (posições psicofísicas), mudras (gestos simbólicos), pranayamas (técnicas respiratórias), bandhas (ações físicas com efeitos no corpo prânico ou energético, retendo o prana ou energia subtil em áreas particulares e redirecionando o seu fluxo pela nadi sushuma, canal subtil central que passa pela base da coluna), ioganidra (relaxamento neuro-psíquico), samyama (concentração e meditação, através do controle da mente, para despertar a consciência espiritual), mantras (sons iniciáticos), kriyas (purificação do organismo) e muitas outras técnicas que propiciam o autoconhecimento e a transformação pessoal. Apesar da existência de vários tipos de ioga e de várias técnicas praticadas, na sua essência, todo o ioga é o mesmo porque tem os mesmos objetivos e benefícios.

Na Madeira, dos diversos tipos de ioga existentes, as primeiras aulas de hatha ioga (prática de posturas e exercícios de respiração) terão surgido no início da déc. de 80 do séc. XX. Seguiram-se aulas de swásthya ioga (método do mestre DeRose) e de vidya ioga (práticas respiratórias, posições psicofísicas, relaxamento profundo e técnicas de meditação e concentração). Posteriormente, foi criada a Escola de Ioga do Funchal com prática de ioga integral e começaram aulas de: ayur ioga (prática associada ao conhecimento da milenar medicina aiurvédica); iantra ioga (prática baseada na antiga filosofia indiana de natureza comportamental, matriarcal, sensorial e naturalista, centrando-se no dualismo da energia masculina passiva de Shiva e feminina ativa de Shakti); chakra ioga (prática centrada nos chacras); e ioga dinâmico (método criado por Godfrey Devereux, que deu aulas de ioga na Região em 2012), entre outros tipos de ioga.

Foram também criadas associações como a Ananda Marga Ioga Madeira (organização sem fins lucrativos, também chamada na Madeira Associação Prabháta “Novo Amanhecer”), cuja primeira atividade realizada na Madeira foi em setembro de 2004, oferecendo aulas de ioga, com meditação e mantras, entre outras atividades. A Brahma Kumaris, Academia para um Mundo Melhor, associação internacional sem fins lucrativos com presença em Portugal, começou a deslocar-se à Madeira em 2003, para dar palestras e cursos de raja ioga (práticas de controle mental e meditação). A Organização Internacional Bhaktimarga de Sri Swami Vishwananda (que junta a sabedoria da espiritualidade da Índia com a religião cristã) começou a deslocar-se à Madeira em maio de 2008, para fazer workshops temáticos, cursos de mudras e de atma kriya ioga, retiros e círculos de om healing ou om chanting (técnica de cura em grupo, através do canto do mantra Om).

A Associação Europeia de Terapias Orientais também se deslocou várias vezes à Madeira para dar pequenas formações de ioga, tendo iniciado na Ilha um curso de formação de professores de ioga e iogaterapeutas aiurvédicos em 2009. Do mesmo modo, a Escola de Ioga Integral foi à Madeira dar várias formações e um curso de professores de ioga. Ficaram assim formados muitos professores de ioga certificados, que criaram os seus próprios espaços e escolas ou academias, e.g. a Academia Nova Era e a Escola da Felicidade, além de muitos outros instrutores de ioga que dão aulas por toda a Ilha em escolas públicas e privadas.

Programas como o iogalates (ioga e Pilates), o body balance e os alongamentos, que tonificam o corpo, aumentam a flexibilidade e melhoram o equilíbrio entre o corpo e a mente, assim como a meditação, que faz o centramento da consciência corporal e espiritual, têm por base o ioga.

Bibliog.: impressa: Bhagavad-Gita, Uttar Pradesh, The Divine Life Trust Society, 2000; DAUSTER, Gustavo, Ioga Sutra de Patanjali. Uma Abordagem Prática, Chapada dos Veadeiros, Editora Paraíso dos Pândavas, 2007; KAMINOFF, Leslie, Anatomia da Ioga. Guia Ilustrado de Posturas, Movimentos e Técnicas de Respiração. Análise dos Asanas por Amy Matthews, São Paulo, Manole, 2008; PRABHUPADA, A. C. Bhaktivedanta Swami, Sri Isopanisad. O Conhecimento que Nos Aproxima de Deus, Los Angeles, The Bhaktivedanta Book Trust, 2005; SARASWATI, Swami Satyananda, Ioga Nidra, Munger, Ioga Publications Trust, 2001; Id., Asana, Pranayama, Mudra, Bandha, Munger, Ioga Publications Trust, 2008; digital: “Aulas de Vidya Ioga”, Vidya: Sistema Filosófico de Autoconhecimento: http://vidyaioga.org/atividade/aulas-vidya-ioga (acedido a 28 abr. 2016); PRASAD, Ramananda, O Bhagavad-Gita. O Som de Deus, American International Gita Society: http://www.gita-society.com/languages2011/BhagavadGitainPortugueseLanguage.pdf (acedido a 28 abr. 2016); O Bhagavad-Gita. A Canção do Senhor: https://pt.scribd.com/doc/30758421/Bhagavad-Gita-Swami-Prabhupada-portugues-pdf (acedido a 28 abr. 2016); “Quantos tipos de Ioga existem?”, Vedanta online.org.: http://www.vedantaonline.org/quantos-tipos-de-ioga-existem/?gclid=Cj0KEQiAqK-zBRC2zaXc8MOiwfIBEiQAXPHrXmKSLW4sEbXOsZ27K59QlkgR3enEgq9XxW69gl7immwaAgm18P8HAQ (acedido a 28 abr. 2016); “Tantra, um caminho para a expansão da consciência”, STUM. O Seu Portal de Bem-Estar e Autoconhecimento: http://somostodosum.ig.com.br/conteudo/c.asp?id=1639&onde =1 (acedido a 28 abr. 2016).

Naidea Nunes

(atualizado a 14.11.2018)