jorge, jerónimo

O governador Diogo de Azambuja de Melo teve provisão do governo da Madeira passada em 23 de maio de 1594, tomando menagem em 3 de janeiro seguinte e embarcando para a Ilha, onde tomou posse a 20 de abril desse mesmo ano. Militar experiente e com bons serviços prestados na Índia, onde fora capitão, e estivera no cerco de Goa como capitão-mor, face às informações que recolheu em Lisboa, deve ter pressionado a substituição do mestre das obras reais Mateus Fernandes por Jerónimo Jorge, que foi nomeado depois de o governador prestar menagem em Lisboa e antes de o mesmo se deslocar para a Madeira.

Jerónimo Jorge, nascido em c. 1570, foi nomeado em 10 de fevereiro de 1595, por Filipe II, “havendo respeito à informação que tive da suficiência […] na arte da arquitetura” (ANTT, Chancelaria de D. Filipe I, Doações, 8, 202). A nomeação era por três anos, com o ordenado que o seu antecessor tinha tido (cem mil réis anuais), pago anualmente aos quartéis e mediante certidão do seu serviço passada pelo governador. Era então morador em Lisboa, como vem citado na sua nomeação, e trabalhara na capital com vários dos mais importantes engenheiros e fortificadores da época.

Foi com homens da nomeada de Filipe Terzi e frei Vicêncio Cazale que o novo engenheiro da Madeira fez a sua aprendizagem. A sua ligação a este grupo foi tão forte, que pelo menos entre 1606 e 1607 – após o seu trabalho na Madeira –, voltou a trabalhar na barra de Lisboa, entre as fortalezas de São Julião e de São Lourenço do areal da Cabeça Seca. Com Jerónimo Jorge também começou a trabalhar na Barra de Lisboa em 1595, logo dois anos depois da morte de frei Vicêncio, o futuro provedor das obras do reino, Gonçalo Pires de Carvalho.

O novo mestre das obras reais já se encontrava na Madeira logo nos inícios de 1596, dando parecer ao cabido da diocese, em janeiro desse ano, sobre as obras levadas a cabo na igreja de São Jorge, no norte da Ilha. Sabemos que também está no Funchal alguns dias depois, sendo testemunha da venda de umas “casas antigas e muito danificadas” (ARM, Juízo de Resíduos…, Ana Caldeira, 549v.-553) na rua da Carreira; e que, no ano seguinte, lhe nasce uma filha na mesma cidade. Jerónimo Jorge passaria na Madeira 15 anos, mas não em continuidade, voltando a receber alvará de nomeação “por tempo de quatro anos mais […] além do mais tempo por que o já serviu” em 1602 (ARM, Câmara Municipal…, tombo 3, 19). Esteve, assim, a trabalhar em Lisboa nas obras do futuro forte do Bugio, então São Lourenço da Cabeça Seca, onde é depois referido pontualmente.

Desde os meados do séc. XVI que o principal interesse dos ingleses eram os Açores, ponto de escala obrigatório das naus das Índias castelhanas e portuguesas. Para ali foram enviadas grandes armadas corsárias de Inglaterra que, na busca das suas presas, não poucas vezes, acabaram por avançar para as Antilhas e para o Brasil. Estas e outras ações levaram a que se incentivassem as obras de defesa e fortificação do Funchal, então com dificuldades de verbas, sempre desviadas para outras necessidades, principalmente o arranjo das ribeiras.

O governador chega mesmo a comparecer à sessão camarária de 26 de agosto de 1596, pedindo o dinheiro da imposição para acabar as obras da fortaleza central do Funchal, que depois veio a denominar-se São Lourenço. Sentia-se então a necessidade de construção, a norte, de um baluarte que cobrisse a porta e fizesse figura ao padrasto convento de São Francisco. Pelo livro de receita e despesa da fortificação nos finais do séc. XVI e inícios do XVII, percebem-se as dificuldades de verbas nesta época, pelo que só com o governador seguinte se volta à construção do quinto baluarte de São Lourenço.

Durante o governo do vice-rei D. Cristóvão de Moura, com família na Madeira, e do governador Cristóvão Falcão de Sousa, começaram os problemas com os holandeses, que se vieram a agravar progressivamente e a ter consequências negativas, principalmente no Brasil. Este período foi marcado assim por um grande receio de ataques corsários, o que criou uma franca insegurança na Ilha, originando distúrbios de vária ordem, motivados também, em princípio, pelas habituais questões de poder entre o governador, o capitão espanhol e a câmara. Nesse quadro, o governador meteu ombros a iniciar a construção do forte do Pico, que a breve trecho estava levantado em madeira.

Ainda em Lisboa, o governador deve ter estabelecido contatos, de que resultou de imediato o novo alvará de “engenheiro e fortificador” (Id., Ibid., 19) da Madeira para Jerónimo Jorge, datado de 8 de fevereiro de 1602. Deveria ter tido nova provisão em 1606 ou 1607, o que parece não ter acontecido, só voltando a haver provisão em 1611. As obras arrancaram em 1602, o que veio colocar em pânico os padres jesuítas, que possuíam uma quinta na base da fortaleza e que conseguiram protelar as obras, pelo menos na sua passagem a pedra-e-cal.

Face à situação, Jerónimo Jorge acabou por dedicar o seu ofício de mestre das obras reais à diocese, apoiando as obras da igreja da Calheta e traçando em 1604 o paço episcopal, embora o prelado tenha mandado gravar na capela a data de 1600, provavelmente a da sua intenção de instituir a mesma. Por estes anos, é possível que tenha também executado outras obras, como pequenas capelas, caso da de N.ª S.ª da Glória no Campanário, ou trabalhos da responsabilidade da fazenda, como o púlpito da matriz de São Pedro do Funchal. É possível, entretanto, que, face à indecisão em relação à construção da fortaleza do Pico, Jerónimo Jorge tenha mesmo regressado, uma vez mais, às suas obras de São Lourenço do areal da Cabeça Seca, na barra de Lisboa.

Na nova nomeação régia de 1611, Jerónimo Jorge vem como cavaleiro fidalgo da Casa Real, sendo o documento feito em moldes idênticos aos anteriores e referindo que fora assistente das obras do forte de São Lourenço da Cabeça Seca. O mestre trazia consigo os seus filhos Bartolomeu João e João Falcato, que passam também a trabalhar nas obras de fortificação. A pressão destes anos foi para os muros ao longo do cabo do calhau, depois chamado Corpo Santo, pelo que em breve se fechava a muralha por esse lado com nova fortaleza, que pelos meados de 1612 já tinha um governador, embora estivesse, por certo, ainda em obras. Com a renovação das notícias sobre a presença de corsários argelinos, o novo governador, D. Jorge da Câmara, conseguiu pressionar a situação e nos inícios de 1617 encontravam-se em obras as fortalezas de São Lourenço, São João do Pico e Santiago, sendo com certeza difícil arranjar dinheiro para uma tão grande atividade.

Os corsários de Argel já tinham invadido a ilha do Porto Santo em 1615, tendo sido desalojados por uma expedição comandada por Manuel Dias de Andrade que, mais tarde, haveria de se notabilizar por serviços prestados no Brasil. A expedição expulsou os “mouros” da ilha, acudindo ao mesmo tempo às pessoas que estavam refugiadas no interior, mas o mesmo não se viria a passar dois anos depois, tendo sido capturada quase toda a população.

Em julho do ano seguinte, os piratas argelinos atacaram a pequena ilha de Santa Maria, nos Açores, saquearam-na e levaram parte da população cativa para Argel. Como seria de esperar, nos primeiros dias de agosto desse ano de 1617, o Porto Santo sofreu um terrível saque a que quase nada escapou, ficando muito poucos habitantes na ilha. Face à situação, foi então decidido acabar rapidamente a muralha em frente ao cabo do calhau, até à fortaleza de Santiago. Infelizmente, Jerónimo Jorge faleceria no final desse ano, a 26 de dezembro de 1617, tendo sido o seu filho Bartolomeu João a acabar essa fase das obras.

Bibliog.: manuscrita: ANTT, Chancelaria de D. Filipe I, Doações, 8; ARM, Câmara Municipal do Funchal, tombo 3; ARM, Juízo de Resíduos e Capelas, Ana Caldeira; impressa: CARITA, Rui, Introdução à Arquitectura Militar na Madeira – A Fortaleza-Palácio de São Lourenço, Funchal, DRAC, 1981; Id., O Regimento de Fortificação de D. Sebastião, 1572 e a Carta de Bartolomeu João, 1654, Funchal, SRE, 1984; Id., História da Madeira (1600-1700), vol. iii, Funchal, SRE, 1992; Id., Arquitectura Militar na Madeira, Séculos XV a XVII, Dissertação de Doutoramento em História Moderna apresentada à Universidade de Lisboa, texto policopiado, 1994; Id., O Escudo do Reino. A Fortaleza de São Julião da Barra, fotografia de António Homem Cardoso e design e coordenação de Helder Carita, Lisboa, Ministério da Defesa Nacional, 2007; Id., História do Funchal, Funchal, Ed. Associação Académica da Universidade da Madeira, 2013; GUEDES, Lívio da Costa, O Arco de Belém – S. Julião da Barra, Contorno da Enseada de Paço de Arcos, Lisboa, EME, 1986; GUERRA, Jorge, “O Saque dos Argelinos à Ilha do Porto Santo em 1617”, Islenha n.º 8, jan.-jun. 1991, pp. 57-78; VITERBO, Sousa, Diccionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, 1899-1922, 3 vols., reed. fac-similada, INCM, 1988.

Rui Carita

(atualizado a 11.07.2016)