landi, giulio

Variante do nome: de Landi (Piacenza, 30/05/1498-c. 27/04/1579, sepultado na Igreja de S. Fiorano de Lodi). Filho de Federico, conde de Bardi de antiga e poderosa família nobre, e de Caterina Pallavicini. Administrou como secretário do Estado Pontifício as cidades de Assis, Fano, Fermo, Macerata e Sora. Em 1519, em Paris, conheceu o abade florentino Lorenzo Bartolini, através do qual entrou em contacto com Jacques Lefèvre d’Étaples (1450-1536/38), Erasmo de Roterdão (1466-1536) e Josse Clichtove (1472-1543), dos quais assimilou as tendências pré-reformistas que podem ser vislumbradas em grande parte da sua obra, incluindo a Insulae Materiae Descriptio.

Erudito nos estudos de filosofia, retórica, letras gregas e latinas, licenciou-se em Direito na cidade de Roma, onde viveu longamente, inscrevendo-se no Collegio dei Magnifici Dottori e Giudici, tornando-se membro da Accademia delle Virtù com o nome de Sere Stentato e ligando-se ao grupo romano de Ippolito de’ Medici (1511-1535), a quem dedica o manuscrito da Insulae  Materiae Descriptio. Redigida em latim por volta de 1534, esta relação, misto de relato e tratado, descreve a ilha da Madeira segundo os tópicos clássicos da época, fornecendo, embora no limite entre realidade e fantasia mítica, elementos tão concretos e pontuais de tipo naturalístico, social, económico e folclórico, que fizeram supor uma estadia real de Landi na ilha da Madeira, provavelmente entre 1525 e 1529. A quem presumiu um possível exílio de Landi da corte romana para a ilha da Madeira (qual “exul ab aula Romana”, como resulta dos catálogos dos mss. de Isaac Vossius (1618-1689)), responderam vários críticos confutando tal conjetura (LENZI, 1973, 199; PELOSO, 2004, passim): de facto, a obra – assim como se deduz da dedicatória a Ippolito de’ Medici – representa a reelaboração dos apontamentos tirados durante uma viagem com toda a probabilidade realmente executada. O texto, que tem algumas características na linha de Erasmo de Roterdão e de Thomas More (LENZI, op. cit., 199), teve inicialmente uma ampla circulação manuscrita, como testemunha uma carta de Claudio Tolomei, de 11 de abril de 1545, na qual o literato comunica ao próprio Landi que só teve a oportunidade de ler o seu manuscrito (portanto na versão original) durante um dia, encontrando-se esse na posse do bispo de Nocera, Paolo Giovio (1483-1552). Do manuscrito da Descriptio encontraram-se até agora dois exemplares, conservados na Biblioteca Ambrosiana de Milão (Mss., G.22 inf.) e na Biblioteca del Museo Civico de Pádua (C. M., 179).

A obra latina de Landi foi publicada só em 1574, em Piacenza, por Francesco Conti, acompanhada pela tradução em italiano do P.e Alemanio Fini ou Finio (m. 1586, c.) (La Descrittione de l‘Isola de la Madera, gia Scritta ne la Lingua Latina, dal Molto Ill. Signor Conte Giulio Landi, et Hora Tradotta dal Latino ne la Nostra Materna Lingua, dal Reuerendo m. Alemanio Fini, ne la Quale si Contengono Molto Belle, e Delettevoli Narrationi; e Massimamente l’Agricoltura del Zucchero, e li Costumi de gli Huomini di quel Paese, e Particolarmente il Giuoco di Canne e il Modo di Lottare, e la Caccia de li Tori a Piedi e a Cavallo e v’è Posta Anco la Descrittione Latina del Primo Autore di Tutte le Souradette Cose, Acciò Possa il Lettore Leggere in Quella Lingua che Sia Piu di Gusto Suo). Contudo, a versão latina manuscrita diverge bastante desta edição de 1574. Alguns anos mais tarde, em 1599, a versão latina foi plagiada e publicada em Roma, pelo padre madeirense Manuel Constantino ([Símbolo]Constantino, P.e Manuel), doutor em teologia em Salamanca e professor da Sapienza de Roma, com o mesmo título, Insulae Materiae Descriptio.

Quando Landi era académico em Roma, publicou em Piacenza, em 1538, por Gabriele Giolito de Ferrari, La Formaggiata di Sere Stentato al Serenissimo Re della Virtute, elogiando de forma simpática o queijo de Piacenza (uma segunda ed. saiu em 1575 na cidade de Veneza, por F. Coattino, mas em versão censurada, incluída no liv. II das Lettere Facete et Piacevoli, di Diversi Grandi Huomini, et Chiari Ingegni Pubblicate da Francesco Turchi). Landi publicou também, em 1545, em Veneza, por Gabriele Giolito, La Vita di Esopo Tradotta e Adornata dal Landi; em 1551, na mesma cidade, por Aldo Manuzio, organizada por Anton Francesco Doni, a Vita di Cleopatra Reina d’Egitto; em 1561, em Cremona, por V. Conti, duas cartas escritas, em 1549, pela morte do papa Paulo III, incluídas na obra Lettere Volgari di Diversi Huomini Saggi e Bei Spiriti; e em 1564 e 1575, respetivamente em Veneza, por Gabriele Giolito, e em Piacenza, por Francesco Conti e G. A. de’ Ferrari, dois volumes de diálogos morais e religiosos (que já deviam estar acabados em 1560) intitulados Le Attioni Morali, com dedicatórias a personalidades ilustres.

Bibliog. impressa: COSENTINO, Paola, “Landi, Giulio”, in Raffaele Romanelli (dir.), Dizionario Biografico degli Italiani, vol. LXIII, Roma, Istituto dell’Enciclopedia Italiana, 2004, pp. 385-388; DARTORA, Margherita, “‘Le Attioni Morali” del Conte Piacentino Giulio Landi: l’Etica fra Tradizione Aristotelica e Controriforma”, Bollettino Storico Piacentino, vol. XCVII – I, Piacenza, Tip. Le. Co., 2002, pp. 45-72; FIGORILLI, Maria Cristina, Meglio Ignorante che Dotto: L’Elogio Paradossale in Prosa nel Cinquecento, Napoli, Liguori, 2008, pp. 118-122; GARIN, Eugenio, “Echi Italiani d’Erasmo e di Lefèvre d’Etaples”, Rivista Critica di Storia della Filosofia, I, XXVI, 1971, pp. 88-90; LANDI, Giulio, Formaggiata di Sere Stentato al Serenissimo Re della Virtude, Piasenza [i.e., Venezia], Ser Grassino Formaggiaro [i.e., Gabriele Giolito de Ferrari], 1542, ed. por CAPATTI, Alberto, com apres. de FERRERO, Carlo Scipione, Milano, Consorzio del Grana Padano, 1992; LENZI, Floremi, “I Dialoghi Morali e Religiosi di Giulio Landi: Lefèvre d’Etaples ed Erasmo”, Memorie Domenicane, N. S. 4, 1973, pp. 195-216; PELOSO, Silvano, “Tradição Literária e Experiência de Viagem na ‘Insulae Materiae Descriptio’ de G. L.”, in Actas do I Colóquio Internacional de História da Madeira (1986), Funchal, DRAC, 1989, pp. 184-193; Id., “G. L. e a ‘Insula Materiae Descriptio’: Novos Documentos”, in Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira (1989), Funchal, DRAC, 1990, pp. 993-999; Id., “Da Piacenza alle Isole Fortunate: la ‘Insula Materiae Descriptio’ del Conte G. L.”, in KEMENY, Tomaso e GUERRA, Lia (orgs.), Scritti in Ricordo di Silvano Gerevini, Firenze, Nuova Italia, 1994, pp. 185-203; Id., Al di là delle Colonne d’Ercole: Madera e gli Arcipelaghi Atlantici nelle Cronache Italiane di Viaggio dell’Età delle Scoperte. Con la Prima Edizione Integrale della Insulae Materiae Descriptio (c. 1534) di Giulio Landi, Viterbo, Sette Città, 2004, pp. 155-157; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, vol. II, fac-símile da 2.ª ed. de 1946, Funchal, DRAC, 1984, pp. 215-216; TOLOMEI, Claudio, Delle Lettere. Libri Sette, vol. I, Napoli, Albergo de’ Poveri, 1829, pp. 220, 355 e 362; digital: BRACCESI, Simonetta Adorni, “Tra ‘Favellar Coperto’ e Censura: la Formaggiata di Sere Stentato (Giulio Landi), 1542”, http://www.academia.edu/6625155/Tra_favellar_coperto_e_censura_la_Formaggiata (acedido a 10-02-2015).

Mariagrazia Russo