literatura novilatina

No caso das línguas, o termo “novilatino” designa uma língua proveniente do latim. O que, transposto para a literatura, irá designar as produções literárias que se expressam na língua latina e sob a forma de géneros caros aos autores latinos. A literatura novilatina é uma expressão literária que, através de textos, usa a língua latina para exponenciar a excelência do assunto relatado. O seu uso advém do movimento da Renascença e da redescoberta da Antiguidade Clássica. Num pretenso abandono das formas literárias do período medievo, os intelectuais do Renascimento viraram-se para as estruturas clássicas e para o uso do latim, como veículos de expansão do movimento humanista. A isto, junta-se o facto de o latim ser a língua da ciência e de, à época, surgir como ligação de toda a comunidade científica. A literatura novilatina conhece, pois, um impulso sem precedentes durante a Renascença. No mundo das letras, há uma grande quantidade de prosadores e poetas, procedentes das mais diferentes culturas e idiomas. Além de nomes conceituados no panorama mundial, tal como Erasmo de Roterdão, o cultivo da literatura novilatina permitiu a emergência de nomes de nações geograficamente marginais, como é o caso de Portugal.

Em Portugal, o movimento humanista teve por origem histórica a vinda para o reino do italiano Cataldo Sículo (Palermo, 1455-1517), chamado pelo rei D. João II como precetor de seu filho bastardo, D. Jorge, apesar de se apontarem outros dois nomes de relevo, Estêvão de Nápoles e Mateus de Pisano. O humanista siciliano destacou-se pela sua capacidade oratória e pela sua destreza com a língua latina, o que fez com que rapidamente se tornasse secretário do rei, na redação de correspondência diplomática entre o reino, Roma e as principais cortes europeias. Foi ele o responsável pelo discurso de saudação à princesa Isabel de Castela, noiva do príncipe herdeiro D. Afonso. Após a morte prematura deste, continuou como precetor dos filhos da alta nobreza. Do seu legado bibliográfico destacam-se as seguintes obras: Epistole et orationes quedam Cataldi Siculi (1500, parte I), Epistole et orationes quedam Cataldi Siculi (151314, parte II), Poemata (15012), Omnia Cataldi Aquillae Siculi, quae extant opera per Antonium de Castro de nuo correcta, ac nunc primum in lucem edita (1509) e Visiones (151314).

Com a perceção humanista, confirmada com a chegada de indivíduos ligados à Renascença italiana e à operante redescoberta do mundo clássico, a expressão da literatura novilatina retoma a grandeza histórica que a pátria demandava. Era notório o crescimento daqueles que, inflamados pelos feitos épicos da nação, apelavam à recriação da grandeza épica e filosófica de Portugal. Há uma produção intelectual versada em quase todos os géneros dos autores clássicos: historiografia, retórica, epopeia, elegia, lírica e drama.

Das personalidades destacadas em Portugal, além do incontornável Luís Vaz de Camões, refira-se o denominado “Cícero Lusitano”, D. Jerónimo Osório (Lisboa, 1506-Tavira, 1580) que publicou várias obras de destaque: De Nobilitate Civile et Christiana (1542), De Gloria (1549), De Justitia Coelesti (1564) e De Vera Sapientia (1578). Outra figura proeminente da literatura novilatina produzida em Portugal e reconhecido humanista é Diogo de Teive (Braga, 1514-1569). Este autor cultivou, num latim notável, quase todos os géneros literários. Foi um notável orador académico, pedagogo de príncipes, doutrinador político-social, hagiógrafo e assinalável poeta, próximo de Horácio, cultivador de um estoicismo cristão. Das suas obras, destacam-se Commentarius de Redus a Lusitanis in India Apud Dium Gestis  (1548), Opuscula Aliquot Salamanticae, Ioannes Princeps Tragoedia (1558) e Epodon sive lambicorum Carminum Libri Tres (1565). Damião de Góis (Alenquer, 1502-1574) integrou cedo a corte do rei D. Manuel I, contactando com Cataldo Sículo. Durante a sua estada na Feitoria da Flandres, tornou-se amigo de Erasmo de Roterdão. Das suas obras destacam-se Deploratio Lappianae gentis (1540) e Urbis Olisiponis descriptio (1554). Fernão de Oliveira (Aveiro 1507-1581), clérigo dominicano, foi um distinto filólogo, diplomata e escritor. Produziu a primeira gramática da língua portuguesa, Grammatica da lingoagem portuguesa (1536) e publicou a Ars nautica (1570). Por fim, será de referir João de Barros (Viseu, 1496-Pombal, 1570), destacadíssimo historiador que escreveu uma obra virada para o contributo humanista luso a partir da descoberta dos novos mundos. Juntamente com Fernão de Oliveira, foi um precursor da norma da gramática portuguesa, com a edição da Grammatica da Lingua Portuguesa com os Mandamentos da Santa Madre Igreja (1540). Da restante produção, há a realçar Rhopicapneuma ou Mercadoria Espiritual (1532), um diálogo moral alegórico que depressa fez parte do índice da Santa Inquisição, além dos quatro volumes das Décadas da Ásia (1552, 1553, 1563 e 1615, ano de edição, respetivamente). Muitos outros nomes se perspetivam como indissociáveis deste período áureo da cultura portuguesa, como é o caso do matemático Pedro Nunes (Alcácer do Sal, 1502-Coimbra, 1578).

A Madeira dos séculos XV e XVI vivia o apogeu da vertente expansionista atlântica do reino. Fruto do ciclo do açúcar, o florescimento social e cultural foi notório: a diocese do Funchal foi elevada (31 de janeiro de 1533) a maior arquidiocese metropolitana do mundo de então, tendo como dependentes as dioceses do Império Colonial Português nos Açores, no Brasil, em África e no Oriente. A concentração de habitantes de origem flamenga e italiana, com capital para o desenvolvimento da indústria sacarina, também foi notória, tornando a ilha uma bem-sucedida experiência pré-capitalista.

Em maio de 1570, chegam ao arquipélago os primeiros Jesuítas, por carta régia de D. Sebastião de 20 de agosto de 1569, que se vão instalando progressivamente nas imediações da R. dos Ferreiros. Os terrenos para o colégio começaram a ser adquiridos por fins de 1571. As primeiras obras do colégio estavam prontas em 1578, transferindo-se o Santíssimo da capela de S. Bartolomeu para a nova capela de S. João Evangelista, a igreja do colégio. Dadas as condicionantes apresentadas pelo arquipélago da Madeira, o movimento humanista, aliado ao florescimento da literatura novilatina, revelou ao mundo a figura do P.e Manuel Álvares, um dos vultos maiores do Humanismo português, cujo ex-líbris, De Institutione Grammatica Libri Tres (Lisboa, 1572) (Gramáticas), se tornou um marco universal na aprendizagem do latim.

Além do jesuíta oriundo da Ribeira Brava, a Madeira foi um ensaio dinâmico para a abertura de outro tipo de obra literária cultivada pelo Humanismo, a literatura de viagens. Reunindo em si o facto de ser a primeira terra do Novo Mundo, de ter sido uma boa experiência económica e de juntar gentes de várias origens (portugueses, italianos e flamengos), a Madeira possuía todas as condições para despertar a curiosidade do visitante. Por isso, não é de estranhar a produção de textos de viagem em latim, com a Madeira como tema.

Diogo Gomes de Sintra foi um navegador português com data de nascimento desconhecida e que faleceu em Sintra no ano de 1502. Foi um explorador do círculo do infante D. Henrique e, conjuntamente com o italiano Antonio da Noli, descobriu o arquipélago de Cabo Verde. O seu interesse em relação ao arquipélago da Madeira é que, sendo o único dos navegadores próximos do infante a deixar-nos memórias de viagens, nos legou uma obra, escrita em latim pelo alemão Martin Behaim (embora haja apologistas da autoria escrita de Diogo Gomes), De prima inventione Guinee, dividida em duas partes: De insulis primo inventis in mare Occidentis e De inventione insularum de Açores. Na senda da literatura de viagens, há referência à descoberta da Madeira.

Nos primórdios da ilha, a influência italiana foi de um registo assinalável. Os italianos estiveram ligados aos Descobrimentos Portugueses e à ação exercida sobre as populações (colonizadores e/ou nativos) nas novas terras, além da sempre presente influência da Igreja Católica Apostólica Romana. Na Madeira, é evidente a incrementação da cana sacarina, planta trazida da Sicília e o posterior desenvolvimento comercial do negócio do açúcar em que entram, de igual modo, os comerciantes flamengos.

A atração pela ilha também se tornou relevante pelas referências feitas em Itália. Uma delas é La Descrittione de l’Isola de la Madera, Già scritta ne la Lingua Latina, dal molto Ill. Signor Conte Giulio Landi, traduzida pelo P.e Alemanio Fini e editado em Piacenza no ano de 1574, conjuntamente, com a versão original de Giulio Landi, Descrittione de l’isola de la Madera… ne la quale si contengono molto belle, e delettevoli narrationi; e massimamente l’agricoltura del zucchero, e li costumi de gli huomini di quel paese, e particolarmente il giuoco di canne e il modo di lottare, e la caccia de li tori a piedi e a cavallo, de que existe um códice na biblioteca universitária de Leida, outro na Biblioteca Ambrosiana de Milão e outro na biblioteca do Museu Cívico de Pádua, Iulii Landi narratio de insula Materia, qua vulgo Madera, ubi diu exul ab aula Romana vixit. O conde Giulio Landi nasceu em Piacenza a 30 de maio de 1498, tendo vivido a sua juventude em Roma, onde se formou em direito. A sua viagem à ilha da Madeira, embora envolta em motivos desconhecidos, deu-se por volta de 1529, quando recolheu as impressões depois publicadas. A La Descrittione é dedicada ao amigo Hipólito de Médici, filho ilegítimo de Juliano de Médici, duque de Nemours, que conheceu em Roma durante o papado de Leão X. O interesse desta referência deve-se à descrição, em latim, da ilha da Madeira feita pelo conde placentino, que fala das caraterísticas naturais da ilha, dos aspetos sociais e económicos (o ciclo do açúcar), da administração civil, das tradições e das festas populares. O trabalho deste viajante vem dar relevância à literatura de viagens que, na confluência do Renascimento e dos Descobrimentos, incrementa uma nova forma de Humanismo com a descrição das novas terras e novos povos.

No seguimento desta publicação, surge, pela mão do sacerdote madeirense Manuel Constantino, formado em Salamanca e professor na Sapienza de Roma, outra descrição do arquipélago da Madeira, em língua latina: Insulae Materiae Descriptio (Roma, 1599). Manuel Constantino nasceu na Madeira e faleceu em Roma a 28 de novembro de 1614. Escreveu diversas obras em latim: De profectione Pontificis in Ferraricus (Roma, 1598), Oratio in funere Philippi II (Roma, 1599), Historia de origine et principio atque vita omnium regum Lusitaniae (Roma, 1601), In funere Seraphinae a Portugalia Joannis Brigantiae Ducis filiae (Roma, 1604), Gratulatio de S. Pontif. Paulo V (Roma, 1607) e Votum primum ad S.S. Virginem pro salute Scipionis Cardinalis (Roma, 1610). A controvérsia em torno da obra Insulae Materiae Descriptio foca-se no facto de haver indícios de plágio a partir da obra La Descrittione, reproduzindo, quase sem variações, a obra do conde Giulio Landi. A Insulae Materiae Descriptio é uma raridade bibliográfica, sendo que o industrial Henry Hinton adquiriu um exemplar e promoveu a sua tradução pelo P.e João Baptista de Afonseca.

Saliente-se ainda o acompanhamento humanista em relação à pátria feito pelas personalidades intelectuais do arquipélago ou que passaram pela ilha. E refiram-se as duas vertentes do Humanismo ligado à Madeira. Por um lado, o Humanismo ligado às figuras da Igreja que, desde a descoberta da ilha, sempre assumiu um papel de peso na sociedade madeirense; estas figuras, por terem um acesso facilitado ao estudo dos clássicos, quer através do grego, quer através do latim, depressa absorvem o espírito do Renascimento. Por outro lado, naquele que é provavelmente um dos contributos mais válidos dos Descobrimentos Portugueses para o Humanismo europeu, o incremento da literatura de viagens, pela descoberta dos novos mundos e dos novos povos que ficavam para além das Colunas de Hércules, o limite do mundo antigo.

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Paulo Figueira

(atualizado a 11.07.2016)