lomelino, edmundo da conceição

Capitão, professor, pianista e autor de música para teatros de revista. Edmundo da Conceição Lomelino foi capitão do exército, condecorado pela participação na I Grande Guerra. No domínio social, ganhou relevo por ter sido um músico especialmente ativo entre as décadas de 1930 a 1950, altura em que compôs a música para alguns dos principais êxitos do teatro de revista madeirense.

Desconhece-se com quem terá estudado música, mas a sua atividade musical começou a destacar-se no período entre as duas grandes guerras. No Diário de Notícias, de 29 de abril de 1921, surge o primeiro registo conhecido sobre o seu talento musical, sendo referido numa notícia, que era «um mestre consagrado na arte do piano e compositor de real mérito». O prestígio no domínio social e musical deveria ser elevado visto que no ano seguinte, em 1922, foi convidado para integrar a Comissão de Concertos e Festas Musicais das Celebrações do 5.º Centenário da Descoberta da Madeira, juntamente com Manuel dos Passos Freitas, o cantor lírico e bandolinista Júlio Câmara, de entre outras individualidades da época. Ainda durante esta década há notícias que referem a sua participação musical em récitas de caridade (no Colégio Lisbonense) e eventos de homenagem aos Bombeiros Voluntários do Funchal.

O seu período áureo musical iniciar-se-ia, no entanto, na década de 1930, quando começou a compor, com alguma regularidade, música para teatros de revista e se dedicou ao ensino na Escola Industrial e Comercial “Augusto Aguiar” (Funchal), cujos alunos integraram o elenco de muitas das suas revistas. O género “revista” já ocupava um lugar de destaque no panorama musical madeirense desde cerca de 1909, mas só atingiu o seu período mais fértil, nas décadas de 1930 e 1940, incentivado pelas atividades da mocidade portuguesa e pela época dos centenários que então se vivia. Inclusivamente, os programas de concerto referiam frequentemente que as récitas seriam «em benefício do Fundo de Camaradagem dos Centros Escolares da Mocidade Portuguesa (Masculina e Feminina) da Escola Industrial e Comercial “António Augusto de Aguiar”».

Na Madeira, o género revista ocupou culturalmente um lugar de especial relevo, por ter reunido libretistas, coreógrafos, figurinistas, cenógrafos, caracterizadores e músicos regionais, entre os quais se destacou Edmundo da Conceição Lomelino. Atualmente, ainda subsiste um repertório de revistas extenso, derivado da ação de músicos como: Augusto Graça, Manuel Ribeiro, Dario Flores, os Irmãos Freitas e Edmundo Conceição Lomelino. No domínio dos libretos, a variedade de autores é igualmente elevada, destacando-se nomes como Alberto Artur Sarmento, Adão Nunes e mais tarde Teodoro Silva. No domínio da coreografia, a personalidade que se destacou foi Eugénia Rego Pereira.

As revistas compostas por Edmundo Lomelino alcançaram um enorme sucesso entre o público do Funchal, com apresentações esgotadas por diversas vezes, no Teatro Municipal Baltazar Dias. Entre as apresentações mais importantes, destacam-se as revistas: Água Benta; A Primavera; A Madeira em festa (1938), também representada nos Açores; Carnaval (1939); Bolas de Sabão (1944), com três antes espetáculos esgotados antes da estreia; Flores da Madeira (1945); Sónia boneca encantada (1948); Sentinela Alerta (1953), com a participação de militares do Batalhão Independente de Infantaria N.º 19; e, finalmente, Deixa Passar, uma das últimas revistas madeirenses, deste período áureo do teatro de revista regional.

As histórias das revistas estavam maioritariamente ligadas a cenas características da Madeira – um «arraial nos Canhas», uma «exposição de flores», um «bailarico» – a críticas de costumes ou a acontecimentos políticos da época. Na revista Carnaval, por exemplo, o texto do libretista Teotónio da Silva (1900-1976), o dramaturgo com quem o compositor colaborou mais frequentemente nas suas revistas, representou uma paródia à conferência de Munique de 1938, onde a Inglaterra e a França cederam às intenções da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, assinando o “Acordo de Munique”. Esta revista foi produzida de acordo com o espírito de sátira política no Estado Novo, incluindo um número patriótico intitulado “Glória a Portugal”.

Musicalmente, Edmundo Lomelino foi um compositor que se dedicou aos novos géneros musicais de influência americana – rumbas, one steps, tangos e outros – e nacionalistas – fados, bailaricos e hinos patrióticos – que marcaram a vida musical madeirense, a partir do final da década de 1920. Entre as suas obras para piano destacam-se A Little Kiss, American Intermezzo (One Step), publicada pela Valentim de Carvalho e Desalento (Valsa Lenta). Edmundo da Conceição Lomelino faleceu em 1962.

Bibliog.: CLODE, Luiz Peter (1983), Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses Sécs XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal; ESTEIREIRO, Paulo (2008), “Edmundo da Conceição Lomelino”, 50 Histórias de Músicos na Madeira, Funchal, Associação de Amigos do Gabinete Coordenador de Educação Artística; MELO, Luís Francisco de Sousa, CARITA, Rui (1988), 100 Anos do Teatro Municipal Baltazar Dias: 11 de Março 1888-1988, Funchal, Câmara Municipal. Periódicos consultados: Diário de Notícias e Jornal da Madeira.

Paulo Esteireiro