madeira (noites da)

O Funchal assumiu-se enquanto cidade turística a partir do século XIX. Cidade virada ao mar, ponto de passagem para muitos destinos, foi também desde logo porto de abrigo, um descanso temporário para quem chegava do mar, mas também para muitos outros que procuravam os ares das serras da Madeira para a cura de várias doenças, como a tuberculose. A baixa da cidade encerrava os principais hotéis que se estendiam depois, com a ajuda da linha do comboio até ao Monte. Destacavam-se entre os Hotéis o Reid’s Palace Hotel, Royal Hotel, Grand Hotel Central, Hotel Bella Vista e no Monte, os Hotéis Reid’s Mount Hotel, Monte Palace Hotel e Hotel Belmonte. O Reid’s Palace Hotel foi desde 1891 uma referência no turismo madeirense. O semanário londrino The Sketch publicitava o Funchal como um destino privilegiado dos britânicos.

No que diz respeito à música, anunciava-se momentos musicais durante a tarde e noites dançantes. O jornal The Illustrated London News, de 12 de Dezembro de 1931, alargava o leque dos hotéis da cidade com atividade musical, incluindo nessa lista o Hotel Savoy, O Hotel Atlantic, o Hotel Continental, o Hotel Miramar e o Hotel Golden Gate. A ação musical acontecia sob a forma de audição musical ao chá e ao jantar, havendo regularmente o emblemático Dinner Dance, que incluíam também as épocas festivas do Natal e fim de ano. Os turistas que aportavam ao Funchal podiam optar por várias carreiras marítimas regulares com origem na Inglaterra, entre elas as companhias Blue Star, Royal Mail Line, Booth Line, Elder Dempster Line e a Union Castle Line, proveniente dos portos de Londres, Southampton e Liverpool. Muitos dos músicos estrangeiros a residir no Funchal, nomeadamente os que tocavam nos hotéis, nas décadas de 20 e 30 do século passado, davam lições particulares de instrumento.

Os músicos Juvenal Abreu (violoncelista) e Zeca da Silva (pianista), que iniciaram as suas práticas musicais na década de 30, testemunharam ter recebido aulas com esses músicos, sendo o local de aprendizagem o hotel onde tocavam e residiam. No que diz respeito ao género musical que ficou conhecido como Noites da Madeira, baseado em repertório instrumental vocacionado para o Music Hall e para a dança, que a partir dos anos 40 foi desenvolvido em exclusivo por músicos madeirenses, temos a convicção que a sua natureza e diversidade o afastava da matriz nacional continental. Esta convicção, nasce pela consulta das músicas tocadas e repertório escolhido que apontavam e muito para a música inglesa, americana, latino americana, temas de eleição do teatro musical inglês, das peças da Broadway e dos filmes. O público-alvo, maioritariamente anglo-saxónico, era também o motivo destas escolhas. Os diferentes clubes, ao estilo inglês reservados exclusivamente aos sócios e convidados assim como os casinos do Funchal, contribuíam para o colorido das noites da cidade.

Já em 1910, o Guide And Plan of Funchal, um dos primeiros roteiros turísticos em língua inglesa, referia quais as atividades ao nível do entretenimento, lazer e ocupação de tempo livre disponíveis aos visitantes. O Strangers Club, no Casino Pavão, segundo os autores da publicação, tinha uma excelente orquestra que tocava todos os dias das 16 às 18 horas e das 21 às 24 horas. O Guild Clerks, o English Club e o Novo Club Restauração, são outros dos espaços elitistas, que tinham também momentos musicais, um acompanhamento de fundo nas cerimónias e dias festivos. O Verão no Monte, trazia à beleza da paisagem a música ao vivo ao chá, jantar e bailes nos célebres Monte Palace Hotel e Hotel Belmonte. A Moon Light Band, constituída por excelentes músicos madeirenses, era presença assídua nos anos 30 do século passado. Rivalizando com o sul de França e a célebre côte D’Azur, o Funchal apresentar-se-ia a partir da Segunda Guerra Mundial como um destino de qualidade. Pelos relatos recolhidos, a quando da investigação realizada sobre as Noites da Madeira, soubemos que quase todos os hotéis, casinos, clubes, cabarets e quintas com restaurante, mantinham uma presença musical regular. Estas práticas musicais iniciavam-se, por vezes às 15.30 (chás dançantes), seguindo-se a música ao jantar (19.30 às 20.30) e a música para dançar das 21.30 à 1 hora da madrugada.

O espectro das práticas musicais alargara-se. As noites musicais nos hotéis, casinos e clubes noturnos, orientados para a dança e o Music hall, mais as bandas filarmónicas (12 na altura), tunas, orquestras de palheta e a Grande Orquestra de Amadores de Música iriam constituir, os principais vetores da dinâmica artística da Ilha da Madeira, até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Os Casinos Pavão, Victória (anos 20 e 30) e Vigia, os Hotéis Reid’s, Savoy e Bellavista e os Clubes Solar da Dona Mécia, Tivoli, Flamingo, Swing, Royal tinham soirées musicais muito participadas, salientando-se The Swing Madders com Quinídio Teixeira, o Conjunto de Tony Amaral, com Max e Carlos Menezes, Tinos Cubanos com Libertino Lopes e Amadeu Pestana e a Orquestra Tivoli com o pianista Carlos Veríssimo. O Monte Palace Hotel recebeu, ao exemplo de outros hotéis da Madeira, os gibraltinos refugiados da 2ª Guerra mundial. O governo britânico custeou a sua estadia, permitindo assim o funcionamento em pleno das estruturas e atividades ligadas ao turismo da Madeira. No período de 1940 a 1945, a comunidade gibraltina (cerca de 4.000 pessoas) era constituída na sua maioria por mulheres, jovens e crianças. Os Chás Dançantes e os momentos musicais nos hotéis do Funchal aproximaram estes turistas forçados, da população local, sobretudo os jovens rapazes do Funchal. Para os funchalenses, em especial os homens, as gibraltinas representavam um modelo de mulher sofisticado e acessível ao contacto, tanto nos cafés da baixa do Funchal como nos afamados e muito participados chás dançantes.

O mundo estava em guerra, mas as noites musicais na cidade do Funchal aconteciam diariamente, trazendo artistas como Tony Amaral e Maximiano de Sousa (Max). Primeiro no Hotel Bellavista (1942), onde o madeirense Fred Jones, diretor do Hotel, incentivava os músicos à prática da improvisação, fornecendo-lhes discos de grandes nomes do Jazz americano e depois, a partir de 1945, no Flamingo. Este espaço, vocacionado para o Swing Jazz, iria ser o primeiro do género em Portugal, lançando para o espaço nacional esse que seria considerado por muitos em Lisboa, como o melhor grupo que até então aparecera, o Conjunto de Tony Amaral. Os pontos de encontro da noite da capital passavam pelo Maxime, Ninas e Clube Americano. Alguns músicos madeirenses destacaram-se a nível nacional. O Diário de Lisboa, pela mão do crítico e redator Augusto Fraga, relatava na sua última edição de dezembro de 1951, o prestígio e fama do Conjunto de Tony Amaral, considerando-o o melhor conjunto musical que se exibira no país até aquela altura, com categoria sólida e grande classe, que obteria sucesso internacional se estivesse noutro país. Em entrevista ao Diário de Notícias da Madeira de 1 de janeiro de 1951, Tony Amaral falava também das suas atuações no continente, incluindo vários saraus na Câmara Municipal de Lisboa e no Círculo Eça de Queirós. Para além de Max e Tony Amaral, o quinteto incluía Carlos Menezes, o primeiro guitarrista de Jazz em Portugal, um virtuoso, que se iria destacar como solista na Orquestra Ligeira da Emissora Nacional nas décadas seguintes. Aos 21 anos era já músico profissional. Nas suas atuações diárias no Flamingo, o som da sua guitarra elétrica, os seus solos e improvisos foram uma inovação, atraindo a atenção de nacionais e estrangeiros.

Com 24 anos já em Lisboa, maravilhado com o som da guitarra elétrica, dos discos americanos, cria ele próprio um dispositivo de captação do som, seguindo-se a construção de um modelo de sua autoria, introduzindo assim a guitarra elétrica em Portugal. O “modelo Carlos Menezes’’ foi durante muitos anos construído e vendido pela Custódio Cardoso, uma das empresas mais importantes do panorama musical lisboeta, por mil escudos. Dotado de uma grande sensibilidade e versatilidade Carlos Menezes atuou em grupos, orquestras, uma das quais a Orquestra da Emissora Nacional (desde os anos 50 até ao final da década de 80) e a solo, numa longa carreira percorrendo muitos países, e continentes. Dos artistas do seu tempo, apenas Max e Amália Rodrigues ombrearam no número de digressões. A famosa revista Melody Maker, teceu um elogio ao guitarrista Carlos Menezes, através de um conceituado crítico musical, o jornalista Steve Race. Este considerou-o como um dos melhores do seu tempo. São muitas as cartas de louvor e admiração pelo músico madeirense, algumas delas tivemos o grato prazer de as ler e recolher cópia. Carlos Menezes ficou ainda conhecido por tocar a guitarra Havaiana, um instrumento muito utilizado na música americana.

Na década de 50, muitos dos músicos a tocarem nos hotéis e cabarets da Madeira, são contratados para o continente. De entre eles, destacam-se Raul Abreu, Alberto Amaral, Freitinhas, Barrinhos, João Moura, Nóbrega, Luiz Abreu “Mascote’’ e Antero Gonçalves. Os Casinos da Figueira da Foz, Espinho, Estoril e os melhores espaços noturnos da capital portuguesa iriam conhecer entre outros, Zeca da Silva, Artur Andrade, Fernando Olim, Tachi, Hélder Martins, Antero Gonçalves, Jimmy de Sousa, Carlos Freitas e o sempre presente Max. Fervilhavam os ritmos da América do Sul: rumba, samba, cha-cha-cha, bolero, tango, e nas noites de Lisboa, Luanda e Lourenço Marques, existia sempre um músico insular imediatamente reconhecido pela sua musicalidade e talento. O «cha-cha-cha em Lisboa», na voz de Max espelha o ambiente quente da noite musical da capital, e a importância dos nossos músicos, integrados em orquestras famosas como a de Ferrer Trindade, como foi o caso de Luiz Abreu, conhecido como «mascote».

Libertino Lopes foi um dos expoentes de referência da noite musical madeirense dos anos 50, pianista e contrabaixista, compositor, Libertino Lopes começou no já mítico «Flamingo», espaço nobre da música dos anos 40, tocando contrabaixo e depois piano. Haveria de ser no «Solar da Dona Mécia», na vizinha Rua dos Aranhas que o seu grupo o «Tinos Cubanos», lançaria os ritmos quentes da América do sul, antes de, ao exemplo de muitos outros jovens músicos madeirenses, lançar-se numa carreira nacional. Lisboa, Figueira da Foz, Ponta Delgada, e as orquestras de bordo da rota das ilhas, serviram para revelar o seu talento. Ficaria no entanto, sempre lembrado por em parceria com Max, ter composto «Porto Santo». Curiosa esta associação entre os dois músicos e amigos, através de uma canção, que começou nas palavras e música do próprio Max. Um jingle publicitário de encomenda, solicitado ao cantor madeirense pela sociedade Águas do Porto Santo, empresa que explorava a água mineral da ilha dourada. Em pouco mais de uma hora, ao piano do Solar da Dona Mécia, Libertino Lopes compôs a segunda parte da canção. O que começou por ser um jingle publicitário, transformou-se em Lisboa num sucesso nacional, sempre recordado pela voz de Max. Escutemos hoje o «Porto Santo» com mais atenção, pois a segunda parte da canção, tem a mão criativa de Libertino Lopes. Os «Irmãos Freitas» foram também responsáveis por muita da música vocal e instrumental composta nas décadas de 50 e 60. Revistas à portuguesa, marchas e hinos para equipas desportivas, incluindo a do Marítimo e Nacional e até publicidade, a mais conhecida do grande público, a que envolveu o lançamento da Cerveja Coral.

Canções populares, a partir das formas da tradição madeirense, como o bailinho e mourisca, e sobretudo muita apresentação pública, nos palcos do Funchal, em espetáculos construídos de base, com libreto, música, produção, dos «Irmãos Freitas». Mário, Rufino e José, davam o seu talento ao projeto. José de Freitas, salientava-se dos restantes irmãos pela sua musicalidade e conhecimento teórico. Músico de primeira linha, desenvolveu carreira nacional acompanhando o cantor Max, integrado no Quinteto de Tony Amaral. Passou pelo Casino Estoril, inaugurado pela orquestra madeirense em 1949, regressando definitivamente à ilha em 1953. A partir dessa altura foi membro da Orquestra do Savoy. Os pianistas Hélder Martins e Zeca da Silva tornaram-se também conhecidos no panorama musical português, primeiro em Lisboa, depois através das inúmeras atuações em Luanda, Lourenço Marques, onde eram verdadeiros ícones da noite musical. O seu gosto pelo Jazz, levou-os ainda aos clubes de Joanesburgo e Cidade do Cabo, na África do Sul, sendo ainda de referir as canções originais de Hélder Martins, gravadas por artistas nacionais e a prestação musical de Zeca da Silva, no acompanhamento em estúdio de vários cantores entre eles, José Maria Tudela na canção «Kanimambo». Hélder Martins seria uma presença assídua no Hot Club Jazz em Lisboa, ombreando-se em Jam sessions com outros madeirenses, Max e Carlos Menezes, para além do habitual quarteto da casa liderado por Bernardo Moreira. A primeira digressão do cantor Max aos Estados Unidos da América, em 1956 foi o coroar de uma carreira nacional de muito sucesso.

Desde 1946, a voz madeirense ganhou o reconhecimento do meio musical lisboeta, integrando na altura o conjunto de Tony Amaral. Max, era um exemplo versátil de cantor e entertainer, que se expressava musicalmente em muitas áreas, nomeadamente o Swing, estilo muito próximo do jazz, e que naturalmente fazia parte do seu repertório de canções, tanto nos hotéis do Funchal onde atuou, como posteriormente em Lisboa e Madrid. Nesta sua incursão por terras americanas, apresentou-se com enorme sucesso na NBC, num espetáculo ao vivo, ao lado de Groucho Marx, esse lendário nome da comédia e do cinema. Os contratos sucederam-se, e Max volta ao sucesso, durante cinco semanas como artista convidado no El Chico, em e posteriormente no «Flamingo» em Hollywood, dois clubes de música ao vivo, de primeira linha, dos Estados Unidos. Acompanhado por excelentes orquestras, conquista novamente o público no Carnegie Hall, em Nova Iorque, participando como convidado num espetáculo na sede das nações unidas.

Durante dois anos e meio, a sua vida profissional passou pela estrada, percorrendo muitas das principais cidades americanas, cantando para americanos, e aqui acentuamos esse fator, pois torna-se necessário não confundir, esta passagem profissional de Max pela América, com outras digressões de artistas portugueses, que como todos sabemos, apenas atuam dentro das comunidades de emigrantes e como tal não têm o reconhecimento por parte do público local. Max efetuou várias digressões com os «Nicholas Brothers», regressando a Portugal com um prestígio artístico, só alcançado por Amália Rodrigues. O mesmo Max que esteve também na origem do «Hot Clube de Jazz», em Lisboa por volta de 1952, tinha como repertório base muitas das canções de variante jazzística, latino americana, e algumas em português como a sua sempre eterna «Noites da Madeira». Esta canção, com assinatura conjunta do pianista madeirense Tony Amaral, reflete a direção em que seguia o cantor madeirense, antes da música mais comercial o ter desviado para um repertório mais simples. Os discos e as partituras eram os complementos mais importantes para desenvolver toda uma atividade profissional que passava pela animação musical, de âmbito internacional, nos palcos dos hotéis e casinos da Madeira, para um público estrangeiro, habituado a correr mundo e a dançar ao som de excelentes orquestras. Na década de 40, os discos eram comprados no Funchal aos representantes das editoras Capitol, MGM e RCA. Em relação ao repertório, um dos livros comprado por encomenda foi o «American Home Song Álbum», publicado pela AMSCO Music Publishing Co., em Nova Iorque, em 1941. Eram também feitos arranjos a partir de composições “clássicas’’, mas o grande suporte das práticas musicais, era “tirado de ouvido’’, a partir dos discos e da Rádio, sendo a BBC uma referência dos músicos desta época.

Para além de Lisboa e Londres, os instrumentos musicais eram também comprados aos músicos dos paquetes de cruzeiro que aportavam ao Funchal. A exceção acontecia em relação aos pianos. Estes no princípio do século XX, podiam ser alugados ou comprados nalgumas casas comerciais do Funchal. A partir dos anos 30, porém as encomendas são feitas diretamente ao estrangeiro, no caso dos hotéis, existindo na ilha magníficos pianos das marcas, Ronisch, Pleyel, Bluthner, Ritter e Steinway. A profissão de músico, com estatuto remuneratório e direitos sociais, permitiu longos contratos aos músicos madeirenses naqueles espaços, nalguns casos durante 30 e mais anos de atuações regulares. Em relação aos vencimentos, os músicos dos hotéis e casinos recebiam mais que um bancário, professor ou funcionário público, cujos ordenados rondavam os mil e quinhentos a mil e oitocentos escudos, por mês, durante a década de 60. Conta-se mesmo um episódio passado no Casino da Quinta Vigia, onde em 1965 atuava o pianista Tony Amaral Júnior (filho do então consagrado Tony Amaral). Um empresário continental, ligado à atividade do espetáculo e entretenimento pretendia contratá-lo. Ao ser confrontado com o ordenado auferido pelo músico no Casino da Madeira, comentou «impossível…você ganha mais que o Senhor Presidente do Conselho….». O Secretariado Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo promovia através da Inspeção dos Espetáculos, a regulamentação e fiscalização da atividade musical, em todos os seus domínios. Com muita cautela, reserva e sobretudo fechando os círculos dos papéis e deveres burocráticos, foi possível controlar e reprimir os desvios à norma do pensamento único.

No que diz respeito aos contratos de músicos e artistas em geral, a empresa contratante, a Inspeção de Espetáculos e o artista tinham prévio conhecimento do teor dos documentos, nomeadamente montantes a receber, prazo de atuação e suas características. Quando o artista era estrangeiro, representado por um agente, este fazia fé na obrigação de cumprir as leis do trabalho do país, na altura muito restritivas à presença de estrangeiros. No caso da Madeira, o agente comunicava através do contrato que o seu representado tinha em seu poder uma viagem de regresso. Ao concluir o contrato cabia em simultâneo ao agente (ou músico) e estabelecimento onde foi prestada a atuação, comunicar por escrito à Inspeção dos espetáculos o fim da prestação do serviço. As contas mal saldadas entre os músicos e as casas de espetáculo tinham geralmente um fim rápido, bastando participar por escrito aos serviços. Pelos vários documentos consultados, era costume resolver-se estes assuntos num prazo curto, não transitando os mesmos para o Tribunal de Trabalho. As empresas arriscavam a interdição do local, o encerramento forçado e a não atribuição de Utilidade Turística, esta última, que as isentava de taxas e impostos, colocando-as numa lista de “bons estabelecimentos’’, os mais procurados pelos guias de turismo e agências especializadas. São também frequentes as cartas da Inspeção dos espetáculos às empresas para que não estabelecessem contratos com agentes de espetáculo não credenciados pelo organismo oficial, subentendendo multas e processos. As circulares estabeleciam a ordem após a denúncia, o boato e a carta anónima, por vezes fruto da rivalidade entre empresários. O reportório musical carecia também de autorização, estando regulamentado através do Contrato autorização. A Sociedade de Escritores Teatrais Portugueses, estabelecia Contratos Autorização com empresas que representavam os vários espaços noturnos.

No caso do Funchal, os hotéis, casino, clubes, cabarets, restaurantes com música, faziam-se representar pela Nilsson Sousa Lda. O regime censurava o reportório musical, sendo os autores das letras alvos de muitas leituras e descodificações por parte dos censores. O contrato era válido por um ano sendo prorrogado por períodos sucessivos de igual tempo. Nele constava a lista de reportório executado ao longo do mês nos vários estabelecimentos com música ao vivo. Numa tabela anexa vinham os montantes a pagar pela utilização do reportório nacional e internacional, nas várias vertentes de apresentação: variedades, bailes, audição musical às refeições, concertos e recitais. Estava também contida uma cláusula de interdição de transmissão pela radiodifusão sonora ou visual, no todo ou em parte qualquer tipo de espetáculo não abrangido por um Contrato Autorização.

A Sociedade de Escritores Teatrais Portugueses, antecessora da Sociedade Portuguesa de Autores, representava muitos compositores cujo reportório não era tocado na Madeira. Por via do turismo e pela necessidade de cantar em inglês, apesar de preenchidas as folhas mensais do reportório executado, os músicos madeirenses escapavam ainda assim da criva e da mira da Censura, que estava presente em todas as manifestações artísticas dirigidas ao público. Os músicos-compositores madeirenses a tocar nos hotéis do Funchal, costumavam preencher essas folhas mensais acrescentando também as suas composições. Mesmo que as não tocassem, auferiam mesmo assim no final do ano civil dos respetivos direitos de autor. O Liceu do Funchal, a Escola Industrial do Funchal e a Escola das Artes e Ofícios foram também focos importantes no fenómeno da divulgação musical. Sobretudo os conjuntos académicos que marcariam um novo tempo. Formados por jovens estudantes, como Gabriel Cardoso, Sérgio Borges ou Luís Jardim entre tantos outros, contribuíram pela sua ação num movimento imparável, conduzindo muitos destes projetos às luzes da ribalta. Muitos destes jovens passaram pelos hotéis e outros espaços de música ao vivo do Funchal, durante o seu percurso de vida musical.

Alguns dos projetos alcançaram o estrelato. O Conjunto Académico de João Paulo com o cantor Sérgio Borges e os Demónios Negros com Luís Jardim, fizeram carreira artística em Lisboa a partir de 1965. Discos, espetáculos na rádio e TV, entrevistas nas revistas e jornais, atenção mediática a jovens autodidatas e intuitivos, sem formação musical do ponto de vista da leitura, escrita e técnica instrumental. Nascidos na senda da ‘beatlemania’, que atingira a Madeira muito antes da capital, alcançariam o estatuto de estrelas, salientando-se a título de exemplo a exceção no cumprimento do serviço militar obrigatório por parte do Conjunto Académico de João Paulo, substituído por atuações para as tropas colocadas na Guiné, Angola e Moçambique, com tempo para uma digressão pela África do Sul, Canadá e Estados Unidos. O cantor Sérgio Borges venceria ainda o Festival da Canção RTP de 1970 com a canção «Onde Vais Rio Que Eu Canto». As récitas e serões em recinto fechado, patrocinados pela Mocidade Portuguesa e FNAT, revelariam também muitos talentos, não só na área da música mas também do teatro, dança, declamação, locução e apresentação de espetáculos. No Cine Parque, Cine Jardim e Teatro Municipal a presença de artistas profissionais quer da Madeira quer do continente e de Espanha, davam a cor à atividade artística madeirense, sobretudo aos fins de semana à noite com matinées ao domingo à tarde. O mercado artístico-musical madeirense tinha uma zona geográfica bem definida: a cidade do Funchal. De facto era na capital da Madeira que toda a atividade, oferta e procura de trabalho existia, movimentando os músicos, cantores e orquestras. Os hotéis por via do turismo, consistiam a saída mais evidente, para quem queria fazer música a tempo inteiro (músicos profissionais) ou em tempo parcial (músicos amadores, nas noites de folga e nos meses de férias das orquestras).

As «Noites da Madeira», desenvolvidas nos hotéis, casino, restaurantes de luxo, bares e clubes noturnos ocupavam uma grande parte dos músicos locais. Alguns com contrato de exclusividade, por muitos anos. O estatuto de músico de hotel, com carteira profissional, estava devidamente regulado e legislado Regulamento da Carteira Profissional dos Músicos, Lisboa, Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, 1973. O ensino doméstico, no que diz respeito à prática de teclado (piano e órgão) e instrumentos de corda (guitarra portuguesa e viola) foram uma realidade até ao 25 de Abril de 1974, ministrado este por músicos ou professores de música do ensino oficial. O canto era uma das vertentes deste ensino particular, que assumia nalguns casos, um reforço às aulas recebidas na Academia. Estas eram ministradas pelos professores tutelares do curso de canto daquela instituição. A música ligeira e o Swing/Jazz eram também, enquanto estilos e modos de tocar, ensinados por músicos profissionais da noite musical funchalense. Fernando Olim, guitarrista e Tony Amaral Júnior, pianista, foram dois exemplos bem conhecidos durante a década de 70, que recebiam em suas casas um leque variado de alunos. Ainda na década de 60 e até ao 25 de Abril de 1974, uma outra vertente para o desenvolvimento de carreira profissional como músico, passou pelos barcos e paquetes da carreira das ilhas e carreira da África Portuguesa. Os navios «Vera Cruz», «Funchal» ou «Infante Dom Henrique» tinham a tocar nas suas orquestras de bordo, muitos músicos madeirenses. Com a inauguração do aeroporto novos empreendimentos turísticos, entre eles o complexo da Matur e o Hotel Holyday In em Machico, levaram muitos músicos, artistas e grupos madeirenses a expandirem a sua atividade musical àquela vila madeirense, alargando assim a zona geográfica com apetência pelo trabalho artístico não só dos grupos vocacionados para a dança, mas também os grupos de folclore, grupos de dança e trios de música erudita, que respondiam ao desafio de um hotel de cinco estrelas, com clientes de primeiro mundo.

As cadeias hoteleiras Holyday In, Sheraton e Hilton instalavam-se na Madeira, contratando várias orquestras, grupos de folclore, fadistas, mágicos, bailarinos, disco jóqueis, introduzindo também a componente animação e sobretudo a complementaridade das várias vertentes. A carreira nacional para os músicos madeirenses sofre um revés a partir do 25 de Abril de 1974, pois sem as colónias, o país artístico resumia-se apenas ao continente português. Sendo os ordenados pagos na noite musical da Madeira superiores ao resto do território, assiste-se pela primeira vez já em 1975, à contratação de músicos continentais e músicos refugiados de Angola e Moçambique, para os hotéis e boates da região. Até ao final da década de 70, os hotéis reuniam tanto os forasteiros como os residentes através da música ao vivo. Excelentes músicos e intérpretes locais e nacionais, garantiam uma boa e diversificada prática musical. Nas décadas seguintes, a música far-se-ia sobretudo nos bares da cidade, da Zona Velha à Marina do Funchal, com pequenos grupos vocacionados essencialmente para a animação musical.

Bibliog.: CAMPINA, Maria. Panorama Musical da Madeira, In Das Artes e da História da Madeira, Funchal, Vol. I, Nº 1, 1950, p. 13; Arquivo Regional da Madeira; CLODE, Luiz Peter – Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses séc. XIX e XX, Funchal: Caixa Económica do Funchal, (1983); FREITAS BRANCO, Luís. Músicos Madeirenses. In Das Artes e da História da Madeira, Funchal, Vol. VI, Nº 33, 1963, p.48. Arquivo Regional da Madeira; MARQUES, Henrique Oliveira (1986) – Dicionário de Termos Musicais, Editorial Estampa, Lisboa; SARDINHA, Vítor e CAMACHO, Rui (2006) Noites da Madeira. Funchal: Diário de Notícias da Madeira e Associação Musical e Cultural Xarabanda.

Vítor Sardinha

(atualizado a 22.07.2016)