madeira (sociedade de concertos da)

Da iniciativa empreendedora dos irmãos Luiz Peter Clode e William Edward Clode nasceu, em 1943, no Funchal, a Sociedade de Concertos da Madeira. Esta sociedade ganha forma com a sua constituição em janeiro de 1943, em plena segunda guerra mundial, com o sentido de satisfazer a vontade de muitos madeirenses de classe média e alta e com forte ligação à comunidade britânica, na Madeira. Esta sociedade é diretamente responsável pela intensa atividade na “transição” dos espetáculos de índole musical, do plano privado para o plano público, na medida em que os concertos com artistas convidados passaram a acontecer no Teatro Municipal do Funchal, ao invés de nos grandes salões de quintas e solares particulares, propriedade da alta sociedade madeirense.

Depois de reunido o primeiro Conselho Diretivo, formado por personalidades convidadas pelos dois irmãos, ficam constituídos os primeiros órgãos dirigentes daquela sociedade, como abaixo se descrevem:

– Um Presidente de Honra: o Governador Civil do Funchal;

– Uma Assembleia Geral com três elementos: Abel Marques de Vasconcelos, Álvaro dos Reis Gomes e Eduardo Alves;

– Um Conselho Fiscal com três elementos: Leovegildo Rodrigues, Jorge Dória Monteiro e António Bettencourt Sardinha;

– Um Conselho Diretivo com dezassete elementos, presidido por João Abel de Freitas: Alberto Artur Sarmento, Alberto da Veiga Pestana, Alberto Henriques Araújo, Fernão de Ornelas Gonçalves, Frederico Augusto de Freitas, João dos Reis Gomes, José Bettencourt da Câmara, José Leite Monteiro, Júlio da Cunha Santos, Luís da Rocha Machado, Luiz Peter Clode, Nuno de Vasconcelos Porto, Tristão Pedro Bettencourt da Câmara, Visconde de Cacongo, Visconde do Porto da Cruz e William Edward Clode;

– Uma Comissão Executiva com cinco elementos já integrantes do Conselho Diretivo: William Edward Clode, Nuno de Vasconcelos Porto, Luiz Peter Clode, Alberto Henriques de Araújo e José leite Monteiro;

– Uma Direção artística com cinco elementos: Morris Veloza, Sheila Power, Wera da Cunha Teles, Edmundo da Conceição Lomelino e Manuel dos Passos Freitas;

– Uma Comissão de Concertos constituída por sete elementos, alguns deles também integrantes do Conselho Diretivo, da Comissão Executiva e da Direção Artística: Sheila Power, Wera da Cunha Teles, Alberto da Veiga Pestana, Dário Flores, Bettencourt da Câmara, Luiz Peter Clode e William Edward Clode.

De um quadro geral maioritariamente masculino, destacam-se três senhoras, todas com ligação artística à música. Sheila Power “musicista, compositora de música sacra e profana, poetisa e escritora.” (Morais, 2008: 217) que, na Quinta Deão, propriedade dos seus pais, proporcionou, nos anos 30 do século XX, “aos seus amigos e a pessoas apreciadoras de boa música, belíssimos concertos de música, trazendo a esta cidade do Funchal artistas estrangeiros e nacionais, de renome, para se exibirem na casa da referida Quinta Deão” (DNM 16.06.1956, apud Morais, 2008: 217), Morris Veloza e Wera Cunha Teles, ambas amadoras de música tocavam violino e integraram a “Grande Orquestra Madeirense” (idem: 449).

Nos seus mais de 30 anos de existência, pode imaginar-se a panóplia de atividades e concertos proporcionados ao público local, com artistas residentes, artistas convidados e artistas que pela Madeira passavam. Por ser a música o objeto principal da sua atividade, a sua aprendizagem e divulgação tornaram-se igualmente importantes, tendo esta organização fundado, nos anos que se seguiram à sua criação, as seguintes instituições: Academia de Música da Madeira (1946) que viu depois o seu alargamento às Belas-Artes (1956) e mais tarde ao ensino de línguas (1963), tendo gradualmente alterado a sua designação para Academia de Música, Belas-Artes e Línguas da Madeira. Neste processo, foi também criado o Posto Emissor do Funchal (à frente designado por PEF), com a finalidade de proporcionar, aos que não tinham possibilidade de se deslocar às audições públicas, fazê-lo em sua casa ou em grupo com familiares e amigos, através da transmissão radiofónica de música para diferentes públicos, “com o fim de elevar o nível cultural da população funchalense” (Gomes, 2005: 35). Este facto aconteceu pela primeira vez “a 28 de Maio de 1948, data da inauguração oficial daquela estação que na altura funcionou, a título provisório no Teatro Municipal Baltazar Dias”, tendo como principal dinamizador, William Edward Clode, que expressa assim as intensões da direção do PEF: “tem apenas em vista incutir no espírito de toda a gente o gosto pela boa música e o desenvolvimento da radiodifusão da Madeira…” (Gomes, 2005: 36).

Em 1948, esta sociedade, por iniciativa de Luiz Peter Clode, iniciou a publicação, primeiro como suplemento (ao n.º4883) de “O Jornal”, tendo este número sido lançado a 17 de outubro de 1948, a revista “Das Artes e da História da Madeira”. No seu edital, Luiz Peter Clode refere-se assim ao arranque desta publicação:

…lembrámo-nos solicitar-lhe [ao diretor de “O Jornal”] que se criasse neste periódico uma Secção semanal ou quinzenal intitulada Arte e História, na qual colaborariam os mais destacados valores da Madeira. Aprovada a ideia e dado incitamento, para que se prosseguisse, eis que hoje com grande desvanecimento, para todos nos, e com os melhores agradecimentos para o ilustre Director de «O Jornal», se inicia esta Secção que estamos certos preencherá uma lacuna, que há muito se fazia sentir (CLODE, 1948: 1).

Com a necessidade de se manter e não podendo permanecer como suplemento ao referido órgão de comunicação social, estabeleceu-se como “Órgão e Propriedade da Sociedade de Concertos da Madeira” (vd, Vol.I, N.º1), que no seu edital avança:

…esse Suplemento despertou grande interesse tanto no meio culto da Madeira, como em Portugal continental e Brasil. Com esse incentivo, com o auxilio financeiro da S. C. M. e a colaboração preciosa dos melhores escritores madeirenses… (CLODE, 1950: 1).

Devemos realçar o Concerto Inaugural no Palácio de S. Lourenço, no Funchal, a 04 de março de 1943, dirigido por João Dória; o facto de se ter tornado, após atividade regular conjunta, delegada, na Madeira, deste Círculo de cultura Musical de Lisboa, conforme atesta o ofício da Direção daquela instituição assinado por Elisa de Sousa Pedroso e Lourenço Varela Cid, com data de 4 de setembro de 1944; o facto de ter constituído como delegação da Pró-Arte a Academia de Música da Madeira, proporcionando com estas parcerias atividades múltiplas e enriquecedoras da programação que levava a cabo (concerto inaugural a 6 de agosto de 1955); o facto de ter sido pioneira na realização de Festivais de Música da Madeira, com um concerto inaugural a 29 de março de 1959: “…Orquestra de Concerto da Emissora Nacional, sob a direção artística de Frederico de Freitas, que constituiu o grande cartaz do evento.” (Barros, 2012: 43). Segundo o mesmo autor, esta terá sido a primeira vez que a Madeira recebeu uma orquestra com aquelas características. A década de 50 do século XX apresenta-se como o período áureo da SCM, devido ao grande número de concertos com a presença de artistas de renome nacional e internacional, onde os seus sócios tinham sempre lugar assegurado e as audições de música apresentava “preços populares”.

“Ao muito que tem feito a Sociedade de Concertos da Madeira, vai juntar-se, um dia, o muito que está ainda por fazer, dentro dessa sua função cultural, e ela só o fará à medida que forem fortalecendo as raízes da sua organização incipiente.” (Veloza, 1950: 24) Tendo-se extinguido com a revolução de abril de 1974 que, na grande instabilidade gerada na região, permitiu a ocupação, por um grupo de docentes da Academia de Música, Belas-Artes e Línguas da Madeira, que impediu a entrada do seu corpo diretivo. Consequentemente, a Sociedade de Concertos da Madeira suspendeu todas as suas iniciativas e a atividade das instituições que criou, que mereceram não só, por parte da sociedade madeirense e em especial do público do Funchal, mas também da tutela, o reconhecimento pelo trabalho desenvolvido e a contribuição para que a Madeira se constituísse num atrativo polo turístico. Muitas das atividades que instituiu e as instituições que criou, são, ainda no primeiro quartel do século XXI, mesmo com formatos diferentes daqueles com que nasceram, uma referência.

Bibliog.: BARROS, Rogério (2012), O Teatro Municipal Baltazar Dias. Estudo sobre a produção e a realização e espectáculos na área da música clássica (1943-1979), Dissertação de Mestrado, Funchal, Universidade da Madeira, setembro; GOMES, José Vieira, “Luiz Peter Clode e a sua importante faceta no panorama musical madeirense”, Coord. MORAIS, Manuel (2008), Funchal, Funchal 500 Anos, pp. 365-395; GOMES, Vieira Vieira (2005), Fundador da Sociedade de Concertos da Madeira, in Catálogo da Exposição “Luiz Peter Clode e o espólio legado ao Arquivo Regional da Madeira”, Coor. BARROS, Fátima, Funchal, SRTC-DRAC-ARM, pp.13-20; Das Artes e da História da Madeira, Suplemento de “O Jornal”, n.º 4883, 17 de outubro de 1948, N.º1; Das Artes e da História da Madeira, Vol. I, N.º1, Sociedade de Concertos da Madeiram, junho de 1950; PESTANA, Alberto da Veiga (1949), Legítima defesa. Exposição e propostas apresentadas ao Conselho Diretivo da Sociedade de Concertos da Madeira pelo Sócio Fundador e Organizador da mesma Alberto da Veiga Pestana, Funchal, Tipografia Comércio do Funchal; digital: Escritura de constituição da sociedade “Posto Emissor de Radiodifusão do Funchal”, in ARM, disponível em http://armdigital.arquivo-madeira.org/armdigital/documento-do-mes/escritura-de-constituicao-da-sociedade-posto-emissor-de-radiodifusao-do-funchal.html, acedido a 14.10.2014.

Teresa Norton Dias

(atualizado a 15.07.2016)