marialva, octávio de

Pseudónimo de Octávio José dos Santos. Foi poeta, crítico literário e jornalista, tendo colaborado na imprensa madeirense e em periódicos continentais e estrangeiros. Publicou o seu primeiro livro de poesia, Vislumbres, em 1917. Na sua obra, que também inclui novelas, contos e ensaios, evidenciou uma sensibilidade estética alicerçada na admiração pela cultura clássica, na adesão ao simbolismo e no culto do esoterismo. Revelou o gosto pela polémica e interveio politicamente através da escrita de textos contra a ditadura salazarista.

Palavras-chave: literatura; poesia; ensaio; simbolismo; esoterismo.

Pseudónimo de Octávio José dos Santos, nascido no Funchal a 17 de janeiro de 1898. Autodidata, culto e assaz viajado, era detentor de diplomas esotéricos e colaborou desde muito cedo, como poeta, jornalista e crítico literário, na imprensa madeirense, com destaque para Diário da Madeira, Eco do Funchal, Diário de Notícias e Re-nhau-nhau, e em periódicos continentais e estrangeiros. Publicou, em 1917, o livro de poesia Vislumbres e, em 1921 e 1923, os opúsculos simbolistas A Dança de Salomé e Dança do Cisne. Foi a partir daí que a sua criatividade literária passou a ser reconhecida. A estes livros de poesia seguiram-se outros, além de novelas, contos e ensaios. Era também senhor de uma vasta epistolografia.

Dirigiu, em 1927, a Folha Literária Tribuna Pagã e, em 1933, Independência. Colaborou numa outra folha – Os Novos – com textos parnasianos e simbolistas. Muitos poemas e novelas da sua autoria foram encenados na Estação Rádio da Madeira. Interessou-se por arte, tendo realizado, nos anos 30, uma exposição de 55 desenhos, intitulada Caricaturas Pop, que mereceu o elogio de artistas plásticos da altura. Revelou-se um esteta pelo culto que fazia do Belo e do amor pela cultura clássica, nomeadamente a grega. Pontificou, com Horácio Bento de Gouveia e outros autores ilhéus, em tertúlias, a mais célebre das quais foi A Academia dos Jovens Pagãos. Foi elogiado por vultos como João Gaspar Simões, Ferreira de Castro, António Ferro, Émile Gouiran e Joaquim Matos.

Socorreu-se, no múnus da escrita, de diversos nomes, tendo criado, com eles, várias coleções, que mais tarde rejeitou, mantendo apenas Príncipe d’Arcádia, Cavaleiro do Cisne e Filósofo Y, consistindo a primeira no conjunto dos seus 16 livros de poesia, a segunda em 16 livros de ensaios, contos e outros textos, e a terceira em 16 obras filosóficas e esotéricas. Estas três coleções apresentam-se com números simbólicos e místicos, com destaque para o 7 (16=1+6=7), perfazendo, no total, 48 livros. Na verdade, Octávio de Marialva concebeu a sua vasta obra de modo iniciático, mascarando-se como poeta, prosador e pensador. As máscaras marialvinas assumem, porém, uma unidade incontestável. Via-se, enquanto poeta, como um prestidigitador, um ser que vive a vida como um teatro: teatro do ser. Na sua fase mais moderna, foi influenciado por Fernando Pessoa enquanto Alberto Caeiro, ao qual, aliás, dedicou o poema “À Memória do Guardador de Rebanhos”.

Foi um incansável investigador nos domínios da teosofia, do hipnotismo, da parapsicologia e da naturopatia. Filósofo panteísta e ocultista, bebeu, na elaboração do seu pensamento, em fontes rosacrucianas, teosóficas e do yoga. Luciferino, isolou-se na sua tebaida teosófica, visionando-se, à semelhança de Pessoa, como o “Supra-Camões”. Apesar da indesmentível influência de Caeiro, primou pela originalidade. No poema “Novo Orfeu”, assumiu-se, de certa forma, como um avatar que há de regressar ao mundo, de forma mais espiritualizada, para edificar o futuro como um novo presente (o Eterno Agora), dado o seu tempo verdadeiro ser a eternidade. Tinha como divisa “o Eu é eterno e indestrutível”, definindo-se como um livre-pensador e astrólogo cabalístico. Autodescrevia-se como um sacerdote do ritmo, oficiante esotérico e um grego no modo de conceber a vida e o mundo. Não sem razão, considerava-se um aristocrata do espírito. Manteve, no centro do Funchal primeiramente, e depois, na sua residência, uma sala de estudo onde dava consultas de naturopatia e ministrava os cursos de Mentalismo (Ciência do Poder), Trofotécnica (Ciência da Saúde) e Astrognose (Ciência do Destino). Afirmava que estes três cursos, uma vez reunidos, perfaziam uma ideia iniciática.

Interessou-se também por política e publicou, por altura da Revolta da Madeira (1931), textos inflamados contra a ditadura salazarista no semanário anarcossindicalista Trabalho e União. Chegou mesmo a estar preso no Lazareto, para onde eram enviados os opositores ao Estado Novo na Madeira.

Figura controversa e excêntrica, polemizou com alguns clérigos. Pertenceu à Associação Portuguesa de Escritores (APE) e à Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), de 1989 até à data da sua morte, que ocorreu em 3 de junho de 1992. Em 1989, foi entrevistado pela escritora Maria Aurora Carvalho Homem para o programa televisivo “Letra Dura e Arte Fina”. Em 1990, o Governo Regional homenageou-o pelos seus largos anos de vida literária.

Figura em várias obras de conjunto e em antologias, algumas das quais coordenadas pelo poeta José António Gonçalves. Deixou inúmeros textos dispersos pelos jornais regionais.

Obras de Octávio Marialva: Vislumbres (1917); A Dança de Salomé (1921); Dança do Cisne (1923); Panaceia (1990); Olimpo (25 poemas da Grécia) (1991); Mentalismo (A Ciência do Poder) (1999).

Bibliog.:CLODE, Luís Peter, Registo Bio-bibliográfico de madeirenses – Sécs. XIX e XX, Funchal, Edição da Caixa Económica do Funchal, s/d.; DIONÍSIO, Fátima Pitta, “Exaltação de Olimpo (25 poemas da Grécia)”, Diário de Notícias, Funchal, 24 nov. 1991, p. 28; Id., “Sonhar um Funchal Imorredoiro – Análise de um soneto de Octávio de Marialva”, Islenha, n.º 12, jan.-jun. 1993, pp.141-144; Id., “Marialva e Pessoa – Dois Poetas Convergentes no Orpheu”, Islenha, n.º 26, jan.-jun. 2000, pp.83-88; Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. XVI, Lisboa/Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia, 1945, “Marialva, Octávio de”; MARINO, Luís, Musa Insular: poetas da Madeira, Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; MATOS, Joaquim, “Olimpo (25 poemas da Grécia). Octávio de Marialva”, Letras & Letras, n.º 81, 21/10/1992, p. 7; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. III (o-z), Funchal, Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 1984; SIMÕES, João Gaspar, “Os livros da semana. Poemas de sempre. Poemas de Octávio de Marialva”, Diário de Lisboa, Lisboa, 14 out. 1937, p. 4; TEIXEIRA, Maria Mónica, “Marialva”, in MACHADO, Álvaro Manuel (org.), Dicionário de Literatura Portuguesa, Lisboa, Editorial Presença, 1996, p. 296; Id., Tendências da Literatura na Ilha da Madeira nos séculos XIX e XX, Funchal, Direção Regional dos Assuntos Culturais, 2005; VIEIRA, Gilda de França e FREITAS, António Aragão de, Madeira/Investigação Bibliográfica, vol. I, Funchal, Centro de Apoio às Ciências Históricas, 1981.

Fátima Pitta Dionísio

(atualizado a 26.07.2016)