marques, vasco gonçalves

Vasco Gonçalves Marques Fonte:  Vicentes Photographos, 10 de Outubro de 1933
Vasco Gonçalves Marques
Fonte:  Vicentes Photographos, 10 de Outubro de 1933

Nasceu no Funchal, na freguesia da Sé, a 29 de agosto de 1877, e aí faleceu na casa da sua residência, na Rua dos Netos, a 10 de novembro de 1949.

Diplomado pela Escola Médico-Cirúrgica do Funchal, que frequentou nos anos letivos de 1893/94 a 1896/97, passou a exercer a sua profissão no Seixal, como médico facultativo, e depois como médico do partido da Câmara Municipal do Porto Moniz. Em 1911, adquiriu, por compra, a Farmácia Luso-Britânica, à Rua dos Netos, na esquina com a Rua 5 de Outubro, abandonando, a partir de então, o exercício da medicina para se dedicar inteiramente ao seu negócio e à atividade política.

No final da Monarquia, militou no Partido Regenerador, tendo exercido, entre 1904 e 1913, as funções de secretário da polícia de repressão da emigração clandestina. Implantado o regime republicano, aderiu ao Partido Democrático, liderado por Afonso Costa, passando a fazer parte da Comissão Executiva do Centro Republicano Democrático da Madeira, eleita a 5 de novembro de 1911. A 4 de abril de 1912, por despacho do Governador Civil Santiago Prezado, foi nomeado administrador interino do concelho do Funchal, cargo de que tomou posse no dia 12 do mesmo mês e que exerceu até 31 de dezembro de 1913.

Em 1918, foi eleito presidente da Comissão Distrital do Funchal do mesmo partido, na sequência do assassinato do Visconde da Ribeira Brava, ocorrido a 16 de outubro de 1918. No entanto, em março de 1920, Vasco Marques acompanhou a dissidência de Álvaro de Castro, que originou a criação do Partido Republicano de Reconstrução Nacional, vulgarmente denominado Partido Reconstituinte, passando a liderar a Comissão Distrital do Funchal deste novo partido político, que se estabeleceu na Madeira no dia 30 de maio desse ano. Em 1923, com a fusão entre o Partido Liberal Republicano, liderado por Francisco da Cunha Leal, e este último, nasceu o Partido Nacionalista, no qual se integrou também Vasco Marques. Foi entretanto professor provisório da disciplina de Alemão, no Liceu do Funchal, e chefe de Gabinete dos Presidentes do Ministério Alfredo Ernesto de Sá Cardoso (30 de junho de 1919 a 15 de janeiro de 1920) e Álvaro Xavier de Castro (23 de dezembro de 1923 a 6 de julho de 1924). Colaborou também na imprensa local e foi redator dos jornais O Liberal e O Democrata. Durante o Estado Novo, foi presidente da Assembleia Geral da Associação Comercial do Funchal (1934-1949).

A sua ação política mais relevante foi exercida na Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal e no Senado da República. Presidiu à Comissão Executiva da Junta Geral, resultante das eleições de 30 de novembro de 1913, e que tomou posse a 2 de janeiro de 1914, cargo de que foi demitido na sequência do regime de Pimenta de Castro (janeiro a maio de 1915); retomou-o com o fim da mesma, e renovou-o com o ato eleitoral de 18 de novembro de 1917, interrompido a 19 de janeiro de 1918 com o regime de Sidónio Pais (dezembro de 1917 a dezembro de 1918). Após o Sidonismo, deixou de ser presidente da Comissão Executiva, passando a Presidente da Comissão Administrativa, cargo que exerceu de 19 de fevereiro de 1919 a 13 de julho de 1926. Foi também senador, eleito pelo círculo do Funchal, em 1915-17, 1919-21, 1921, 1922-25 e 1925-26.

Foi notável a sua intervenção no Senado da República, na defesa dos interesses madeirenses, condicionada embora pela sua integração num partido político de âmbito nacional, mas enriquecida pelo conhecimento profundo que possuía dos problemas da Madeira, em virtude do cargo que cumulativamente desempenhava, de presidente da Comissão Executiva e depois da Comissão Administrativa da Junta Geral do Funchal. Denunciou com veemência o centralismo do Terreiro do Paço e o desconhecimento dos reais problemas da Madeira por parte dos políticos continentais, propondo o alargamento da Autonomia da Madeira, no campo administrativo, como um meio imprescindível para o aceleramento da resolução desses problemas, reclamando da limitação das competências e da insuficiência de receitas financeiras da Junta Geral. Num célebre discurso pronunciado no Senado a 6 de março de 1923, afirmou:

“É velha aspiração dos madeirenses conquistarem mais ampla autonomia. Nos últimos tempos, porém, a consciência dos nossos direitos e da nossa maioridade, conjugada com as injustiças e desacertos da metrópole, tornaram essa aspiração mais veemente. […] Pedimos que nos deixem governar a nosso modo a terra em que nascemos e vivemos. Ninguém lhe tem mais acendrado amor do que os seus filhos. […] O que queremos é que nos deixem governar livremente o que é caracteristicamente local, de modo a que possamos suprir deficiências, corrigir abusos, pôr cobro a demasias […)]. Se ao continente lhe não convêm determinadas providências, achamos bem que as não adote; mas deixe que as ponhamos em prática na Madeira. E ninguém receie que o arquipélago se desnaturalize, porque o nosso amor pela Pátria será tanto maior quanto menores forem as razões de queixa que dela tivermos. Nunca sentiremos tanto orgulho de ser portugueses, como quando a Madeira tiver atingido o seu máximo grau de prosperidade” (AR, Debates parlamentares,  Diário 22, 6.ª legislatura, 1.ª sessão, 6 mar. 1923, 4, 6 e 7).

A 6 de dezembro de 1923, numa entrevista ao Jornal da Madeira, no âmbito dum inquérito realizado pelo jornalista Armando Pinto Correia sobre a Autonomia da Madeira, Vasco Gonçalves Marques reafirmou estas alegações, referindo a “inadaptação de diplomas legais emanados do centralismo lisboeta que ótimos para uma região são perniciosos e vexatórios para outras” e anunciando a apresentação no Parlamento dum projeto de lei sobre o alargamento da Autonomia, que não veio a concretizar-se, em virtude da queda do Governo, mas alertando para as dificuldades de discussão política, queixando-se de que “todos vão pela primeira vez a S. Bento crentes na eficácia do seu verbo… mas cedo lhes chega o desengano! Aquilo é terreno sáfaro, onde é preciso semear às mãos cheias, para colher uma parcela mínima”. Por fim, interpelado acerca da hipotética criação dum partido político regionalista, como propusera o Padre Fernando Augusto da Silva, opinou: “Não compreendo bem o que isso seja. Não devemos quebrar os laços que nos unem à Metrópole e sim obter dela a liberdade plena de administração local. Mas isto só pode ser conseguido e mantido com o apoio dos partidos organizados” (CORREIA, JM, 6 de dez. 1923, 1-2).

Bibliog.: Assembleia da República, Debates parlamentares Atas do Senado da República, 1911-1926: http://debates.parlamento.pt/1.ª República/Senado da República 1911-1926; ARM e Diário de Notícias, Atas da Junta Geral, Arquivo Regional da Madeira 1913-1926; CARITA, Rui, Associação Comercial e Industrial do Funchal, 2 vols., Funchal, Edicarte, 2003;CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983, CORREIA, Armando Pinto, “Inquérito do Jornal da Madeira – A Nossa Autonomia”, Jornal da Madeira, 6 de Dezembro de 1923, pp. 1- 2; MARTINS, Teresa Florença, O Movimento Republicano na Madeira – 1882- 913, Funchal, Centro de Estudos de História do Atlântico, 2004; OLIVEIRA MARQUES, A. H. (coord.), Parlamentares e Ministros da I República (1910-1926), Lisboa/Porto, Assembleia da República/Edições Afrontamento, 2000; SILVA, Fernando Augusto da Silva, e Carlos Azevedo de Menezes, Elucidário Madeirense, vol. II, 3.ª ed, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1965; VERÍSSIMO, Nelson, “O alargamento da Autonomia dos distritos insulares, o debate na Madeira (1922-23)”, Diário de Notícias do Funchal, 26 set. 1989, p. 3; Id., 28 set. 1989, pp. 3-4; Id., 29 set. 1989, p. 3; Id., “O alargamento da autonomia insular, o contributo açoriano no debate de 1922-23”, Islenha, n.º 16, jan.-jun. 1995, pp. 22-30.

Gabriel Pita

(atualizado a 05.09.2016)