martins, henrique

HENRIQUE MARTINSPUB: 11/03/92DN
HENRIQUE MARTINSPUB: 11/03/92DN

Bailarino, coreógrafo, professor de dança, Henrique Aguiar Gusmão Martins nasceu no Funchal, na Freguesia da Sé, a 2 de outubro de 1904. Profissional incansável, vanguardista influenciado por Paris dos anos vinte, marcou a vida cultural madeirense com o seu elevado sentido plástico e criativo, que expressou nos inúmeros espetáculos que levou à cena.

Oriundo de uma família de classe média, cresceu num ambiente ligado às artes. Os pais, José Gusmão Martins e Corina Aguiar Martins, frequentavam os saraus de poesia, o teatro e outras iniciativas culturais que então decorriam nos salões das casas de particulares e das sociedades recreativas e desportivas.

No início do século XX, a vida cultural funchalense animou com a presença de companhias de teatro de Portugal continental e do estrangeiro que viajavam até à Madeira. A ilha beneficiou também da presença de artistas dos navios que faziam escala no Funchal e que levavam à cena espetáculos no palco do Teatro Baltazar Dias.

Foi neste tempo que Henrique Martins se iniciou na dança. Aos seis anos de idade, integrou as aulas da professora Emengarda Vieira, num colégio de ensino primário, situado na Rua do Estanco Velho, propriedade da sua mãe. A aprendizagem continuou com a poetisa Eugénia Rego Pereira, na sua casa, à Rua do Bispo, então ponto de encontro de vários artistas.

Até aos 18 anos, conciliou os estudos com a dança, mas a necessidade de preparar-se para os negócios da família alterou-lhe o percurso. Em 1924, então a frequentar o 6º ano no Liceu do Funchal, por vontade do pai, sócio da fábrica de bordados Madeira House, viaja para Paris, a bordo do Andes, com o objetivo de estudar comércio na École Pigier. Assim aconteceu. Matriculou-se na referida escola e durante seis meses frequentou as aulas, mas o convívio com artistas, jornalistas e escritores em Montparnasse, Saint-Germaindes-Prés e Montmatre muda-lhe o destino.

Incentivado por amigos, frequenta as aulas do professor Jean Oram e dois anos depois, sobe ao palco da sala de espetáculos parisiense Oympia, como segundo bailarino da sua companhia. Entre ensaios e espetáculos, que a família desconhecia, vive em Paris até 1927, ano em que por vontade dos pais viaja até Londres para estudar inglês, objetivo que foi adiado, pois o interesse pela dança fê-lo regressar a Paris e à referida companhia, por mais três anos.

Em 1930, a permanência em França estava comprometida. A família não podia custear a sua vida na capital francesa. Henrique Martins regressou então à Madeira, ingressando na empresa Madeira House – onde desempenhou funções de desenhador e escriturário – e frequentando também o antigo salão da Rua do Bispo, onde então decorria o ensaio da opereta Gente do Mar. Foi a convite de Eugénia Rego Pereira que coreografou o espetáculo. Seguiram-se outros sucessos de bilheteira, como: As asas da fantasia, Sol e Gelo, apresentados no Teatro Baltazar Dias. Henrique Martins conciliou então a dança com outra atividade artística, a pintura. Entre 1937 e 1939 integrou o atelier do pintor polaco Colber que residia na Madeira.

Durante a II Guerra Mundial, a presença de gibraltinos na ilha imprimiu maior dinamismo à vida social e cultural funchalense. Promoviam festas, saraus, espetáculos variados, recorrendo a Henrique Martins como coreógrafo e ensaiador.

Em 1951, abriu uma sala de dança na Rua Fernão de Ornelas onde ensinou danças de salão e iniciou as aulas de ballet. Em 1954 mudou-se para um salão situado no 1º andar do n.º 4, à Rua da Ribeira de São Lázaro, atual Rua Brito Câmara. Ali, ao longo de toda a vida, ensinou gerações a dançar.

Foi com a revista Olha p’ra isto, da autoria de Calado Nunes, apresentada no Teatro Baltazar Dias a 9 de junho de 1958, cujo sucesso foi enorme, que mostrou o seu talento fora da ilha. Com apoio da FNAT (Federação Nacional da Alegria no Trabalho) apresentou o espetáculo no Teatro Variedades, no Parque Mayer. A revista foi levada à cena 29 vezes.

De regresso à ilha continuou a coreografar e a ensaiar espetáculos promovidos por sociedades recreativas, clubes e estabelecimentos escolares, como: Liceu, Escola Industrial e Comercial e Escola de Magistério Primário, que apresentavam as suas récitas à comunidade local.

Com o declínio dos espetáculos na década de 70, continuou a sua atividade de professor e em 1976 foi convidado para ensinar ballet da Academia de Música e Belas Artes da Madeira, onde lecionou durante um ano. Dificuldades financeiras da instituição levaram a que Henrique Martins regressasse ao ensino da dança no seu antigo salão. Por esta altura dirigiu também o Grupo Folclórico Ilhéus.

O entusiasmo não esmoreceu e o mestre preparou um novo tempo. Criou então o Grupo experimental de ballet do Funchal, constituído por 18 jovens estudantes que conciliavam a dança com o estudo. Foi com este grupo que Henrique Martins, com algum apoio dos Serviços Culturais da Câmara do Funchal, levou à cena variados espetáculos no Teatro Baltazar Dias, no final dos anos 70 e princípios de 80, entre os quais se destacam os bailados: Primeiros encontros, Intrusa, Canção da Primavera, Loja dos Brinquedos, Fantasia, Pescador de Pérolas, Do amor e da morte, Romance de la luna luna, Espaço e Jesus Christ Super Star.

Alguns dos espetáculos do Grupo experimental contaram com a participação de bailarinos da ex-Companhia Calouste Gulbenkian, como Carlos Fernandes, seu antigo aluno, Marta Atayde e Ubrike Caldas entre outros, como o levado à cena no Teatro Baltazar Dias, a 4 e 5 de abril de 1978. Mas a falta de apoio efetivo, por parte das entidades culturais, no sentido da profissionalização do grupo ditaram o seu fim. O mestre continuou.

Em abril de 1990, a Câmara Municipal do Funchal disponibilizou uma sala no Teatro Baltazar Dias, onde Henrique Martins deu aulas de ballet a crianças e jovens.

A 11 de março de 1992, a referida instituição distinguiu-o. Em sua homenagem foi então inaugurada uma exposição de pintura e desenho relativa aos seus 50 anos de atividade como bailarino, coreógrafo e pintor.

Criador por excelência viveu de sonhos, de projetos que apesar das dificuldades punha em marcha. Henrique Martins ensinou gerações a dançar e amar a dança. Nas horas vagas pintou retratos, cenas de ballet, figuras mitológicas, desenhou figurinos para o guarda-roupa dos seus bailados. Fazedor de espetáculos, o seu apurado sentido estético revelava-se na idealização da música, na conceção da coreografia, do cenário e do guarda-roupa. Esse saber fazer com beleza e criatividade fez com que permanecesse no tempo. Continuou até ao fim a ensinar a dançar no salão da Rua Brito Câmara, muitas vezes só por amor à arte. Henrique Martins faleceu no Funchal em agosto de 1996.

Bailarino, Henrique Martins
Bailarino, Henrique Martins   
Bailarina, Henrique Martins
Bailarina, Henrique Martins

Bibliog.: JORGE, António Andrade (1979), “Bailarinos profissionais e amadores numa simpática noite de ballet no Funchal”, in Jornal da Madeira, Funchal, 6 de abril; TEIXEIRA, Anjos (1980), “Espetáculos no Funchal”, in Diário de Notícias, Funchal, 3 de fevereiro, pp. 13-16; FLORENÇA, Teresa (1992), “104 anos do Teatro Municipal Baltazar Dias”, Funchal, Câmara Municipal do Funchal; FLORENÇA, Teresa (1992), “Cidade homenageia Henrique Martins”, in Diário de Notícias, Funchal, 16 de março, p. 10.

  Teresa Florença

(atualizado a 22.07.2016)