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António de Matos, 1856.

Nascido no Funchal a 20 de agosto de 1822, António Joaquim de Matos Júnior foi o primeiro pastor protestante de nacionalidade portuguesa a exercer o seu múnus eclesiástico em território nacional. Batizado a 2 de setembro do mesmo ano na igreja paroquial de Santa Luzia, passou a viver com seus pais no Caminho do Monte, na capital madeirense. Era filho de António Joaquim, originário da Calheta, na ilha de São Jorge, Açores, e de Helena Luísa de Matos, que era funchalense. António Joaquim (sénior) seria comerciante de vinhos, embora com outros investimentos, o que lhe permitia sustentar a sua família com um nível de conforto inusitado para a maioria dos madeirenses da época.

Nada se conhece do primeiro encontro de Matos com as ideias calvinistas, numa região e num país que ainda vivia em quase completo monolitismo religioso na primeira metade do séc. XIX. Esse encontro não se terá dado antes da chegada ao arquipélago do médico escocês Robert Kalley (1809-1888), iniciador da missionação protestante na região, onde se fixou em 1838 devido à condição de saúde de Margareth Crawford (?-1851), sua esposa. Foi, pois, durante a sua juventude que António de Matos se converteu à fé cristã reformada, abandonando a tradição religiosa da sua família e figurando mesmo entre o grupo dos primeiros cinco diáconos ordenados na constituição da primeira igreja presbiteriana portuguesa, a 8 de maio de 1845, tendo William Hewitson (1812-1850) como pastor.

Em Matos, Robert Kalley viu um promissor proclamador das virtudes bíblicas, pelo que, a fim de se preparar para o exercício da função pastoral partiu para a Escócia em 1846, juntamente com o também jovem Henrique Vieira. Por esta altura, apesar de já terem surgido acesas reações à pregação de Kalley, que culminaram na sua prisão durante seis meses na cadeia do Funchal em 1843, Matos e Vieira já não terão assistido ao assombroso tumulto e perseguição religiosa a que Kalley e seus seguidores foram sujeitos em agosto de 1846.

Após quatro anos de estudos em Glasgow e Edimburgo, e da sua ordenação pastoral na Igreja Livre da Escócia, António de Matos iniciou finalmente a sua carreira ministerial entre as comunidades protestantes madeirenses entretanto exiladas nos EUA. A caminho de Illinois em 1850, Matos visita em segredo os seus correligionários na Madeira e as comunidades já estabelecidas em Trindade e Tobago.

Três anos antes da chegada de António de Matos à América do Norte diversas sociedades missionárias daquele país tinham recebido informações de que a adaptação dos madeirenses às condições climáticas das ilhas caribenhas não estava a ser fácil. Gerou-se então um movimento de apoio aos exilados madeirenses com origem nos EUA, tendo sido prometido trabalho e terra a mais de uma centena de famílias. Entre Springfield e Jacksonville, no estado de Illinois, os madeirenses viriam a estabelecer os seus novos lares, o que para a grande maioria constituiu o fim da peregrinação forçada pelos acontecimentos de 1846. Matos organizou então a primeira igreja presbiteriana de língua portuguesa em solo americano logo a 15 de março de 1850, em Jacksonville, onde se manteria com algumas intermitências ao longo de 20 anos. Para além do seu ministério pastoral na igreja daquela cidade e na comunidade logo a seguir formada em Springfield, António de Matos viajou extensivamente, em particular na costa leste dos EUA, promovendo a causa dos exilados madeirenses entre as igrejas protestantes americanas, durante os primeiros dois anos da sua permanência ali. Foi numa destas viagens que Matos teve o seu primeiro encontro com Isabella Paterson (1821-1867), filha de um professor escocês imigrado nos EUA, que se viria a tornar sua esposa. O casamento realizou-se a 6 de setembro de 1852, em Nova Iorque, indo o casal depois morar em Jacksonville, onde Matos já tinha construído casa.

No inverno seguinte, Robert Kalley, que tinha ficado viúvo e casado de novo com Sarah Poulton (1825-1907), chegou a Illinois para cooperar com Matos no trabalho que este desenvolvia entre as comunidades madeirenses. Durante os 14 meses que Kalley se manteve em Springfield, a relação entre os antigos «tutor» e «pupilo» nem sempre foi pacífica. Para além de questões que tinham a ver com o governo das igrejas e as relações por vezes tensas entre os fiéis madeirenses, Kalley e Matos também discutiram com alguma veemência questões estritamente doutrinárias, chegando o missionário escocês a considerar Matos «hiper-calvinista» (LANGUM, 2009, 71). Concomitantemente, gerou-se uma intensa discussão acerca da necessidade do batismo para pessoas a quem já tinha sido administrado esse mesmo sacramento na Igreja Católica Romana, posição que Kalley defendia, uma vez que não o considerava válido. A celeuma acabou por se alastrar às próprias comunidades, o que originou a divisão da igreja em Jacksonville, cujas fações se acabariam por reunificar em 1856. Dois anos mais tarde novos problemas irromperam, o que gerou uma nova divisão na comunidade, e outras subsequentes. Seria necessário esperar até 1900 para que todos os grupos de protestantes madeirenses cindidos ao longo do tempo se voltassem a juntar em Jacksonville.

No que diz respeito à vida pessoal e familiar de António de Matos sabe-se que ele e Isabella tiveram três filhos: James Paterson, nascido a 20 de fevereiro de 1854, Hewitson, nascido a 16 de abril de 1856, e Frederic Sandeman, nascido a 10 de setembro de 1860. O primeiro acabou por se incompatibilizar com o pai ainda na adolescência, Hewitson viria a falecer com apenas nove anos de idade e o mais novo foi o único a seguir as pisadas do progenitor, tornando-se pastor presbiteriano na Europa. Apenas passados dois anos do fatídico desaparecimento do segundo filho do casal, a tragédia voltou a ensombrar a família, com a doença de Isabella, que se revelaria mortal em dezembro de 1867.

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St. Andrews, Lisboa, 1872.

Num curto período de dois anos, sucedeu-se em catadupa na vida de António de Matos um conjunto de acontecimentos intempestivos: em agosto de 1868, Matos resignou ao pastorado da igreja em Jacksonville e em outubro do mesmo ano tomou idêntica atitude para com a comunidade em Springfield; entre as duas resignações, a 30 de setembro, casou com uma jovem madeirense chamada Maria Vieira (1842-1878). A 6 de julho do ano seguinte nasceu uma filha do casal, Lena, que viria a falecer com apenas 15 anos. Este segundo casamento de António de Matos com Maria Vieira durou, de facto, pouco mais de um ano, pois em meados de 1870 já Matos estava de regresso à Europa com seu filho Frederic, deixando a mulher e a filha nos EUA. O rompimento matrimonial viria a formalizar-se em 1875, através de um processo de divórcio interposto por Maria Vieira.

É possível que na resignação ao pastorado das igrejas em Jacksonville e Springfield, Matos já tivesse em mente o seu regresso a Portugal, pois em 1869 tinha sido contactado pelo pastor da igreja escocesa em Lisboa, Robert Stewart (1828-1903?), para ali o coadjuvar no seu trabalho pioneiro desenvolvido entre os portugueses que se iam convertendo à fé reformada na capital. Foi, pois, em 1870 que António de Matos iniciou a segunda fase da sua vida pastoral, finalmente no seu país de origem, já que se tinha tornado cidadão norte-americano em 1876. Em Lisboa, e em toda a metrópole, Matos tornou-se o primeiro pastor português a exercer a sua missão, cerca de dois séculos após a ordenação de João Ferreira de Almeida, na distante Indonésia, como primeiro pastor protestante português. Curioso que, ainda nos EUA, António de Matos tenha revisto para a Sociedade Bíblica Americana precisamente o texto da tradução bíblica de Almeida, a primeira a ser completada em língua portuguesa no séc. XVII.

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Igreja Escocesa, Funchal, 1875.

Foi durante a estadia de Matos em Lisboa, e por sua direta intervenção, que a igreja presbiteriana (comunidades escocesa e portuguesa) adquiriu o vasto edifício do extinto convento conhecido como dos Marianos, na rua das Janelas Verdes, na zona ribeirinha de Santos. Para além do seu trabalho bem sucedido entre a comunidade de Lisboa, com dezenas de novos aderentes, António de Matos esteve também alguns meses no Porto com intensa atividade; só não se demorou mais naquela cidade porque a doença que o atormentava – a tuberculose –, responsável pelo falecimento da sua primeira mulher, se agudizou durante a permanência no Norte.

Foi preciso esperar quase 30 anos para que António de Matos pudesse voltar a residir na sua terra natal: a Madeira. Ali regressou em 1875 para restabelecer a igreja fundada por Hewitson em 1845, da qual ele tinha sido diácono. O entusiasmo inicial foi grande numa Madeira agora mais tolerante. Foi o próprio Matos que escreveu: «Parece que o denso véu que durante 40 anos foi lançado sobre estas Ilhas pelo meio violento da perseguição se levantou para, confio, nunca mais voltar» (ASPEY, 1971, 164). Nos quase três anos que Matos passou na Madeira como pastor da igreja presbiteriana local a situação acabou por não se revelar tão fácil como ele previra. Após um período inicial de grande crescimento da comunidade, começou novamente a alastrar-se a propaganda antiprotestante, o que levou inclusivamente António de Matos a pedir a proteção do cônsul americano no Funchal, apelando à sua condição de cidadão americano e mesmo de funcionário da embaixada, como tradutor, tarefa que vinha desempenhando desde os tempos de pastorado em Lisboa.

É seguro que Matos estava de regresso a Lisboa em 1878, ao contrário da informação que circulava, segundo a qual ele tinha voltado aos EUA e lá tinha falecido. A verdade é que, sem nunca mais ter exercido funções pastorais, António de Matos sobreviveria ainda 11 anos na capital, mantendo-se ao serviço do Departamento de Estado norte-americano como tradutor (LANGUM, 2009, 131). Faleceu a 2 de fevereiro de 1891 e foi sepultado dois dias depois no cemitério dos ingleses, na Estrela. A cerimónia fúnebre foi oficiada pelo capelão da Igreja da Inglaterra em Lisboa, o carismático Thomas Godfrey Pope (1837-1902).

Bibliog.: ASPEY, Albert, Por Este Caminho: Origem e Progresso do Metodismo em Portugal no Século XIX; Umas Páginas da História da Procura da Liberdade Religiosa, Porto, Sínodo da Igreja Evangélica Metodista Portuguesa, 1971; CARDOSO, Manuel Pedro, Cristãos Inconformistas: História da Igreja Presbiteriana de Lisboa, Lisboa, Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa, 2008; [CASSELS, Diogo], A Reforma Catholica em Portugal, Porto, s. n., 1906; FERNANDES, Ferreira, Madeirenses Errantes, Lisboa, Oficina do Livro, 2004; LANGUM Sr, David J., António de Mattos: Um Pioneiro Protestante, Lisboa, Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, 2009; TESTA, Michael P., O Apóstolo da Madeira: Robert Reid Kalley, Lisboa, Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, 2005.

Timóteo Cavaco

(atualizado a 05.09.2016)