mendonça, marceliano ribeiro de

O apelido Mendonça procede de descendentes dos donatários do Porto Santo e de Machico, uma vez que Bartolomeu Perestrelo, primeiro donatário daquela ilha, casou com Beatriz Furtado de Mendonça e João Teixeira, terceiro filho de Tristão Vaz, casou, por sua vez, com Filipa de Mendonça Furtado, tendo nascido desta união Tristão de Mendonça.

Marceliano Ribeiro de Mendonça nasceu no Funchal a 18 de abril de 1805, onde também faleceu, a 5 de agosto de 1866. Seus pais eram Jerónimo Ribeiro dos Santos e Juliana Rita de Mendonça. Foi pai de Luís Alexandre Ribeiro de Mendonça, Barão de Uzel, fruto do seu casamento em Santa Luzia (1835) com Margarida Uzel, filha do major João Crisóstomo Ferreira Uzel e de Maria Cândida Soares.

No arquipélago da Madeira, a instrução secundária esteve, principalmente, confiada aos religiosos da Companhia de Jesus até ao ano de 1759, altura em que foram expulsos da ilha. No seu Colégio, ensinavam os Jesuítas as humanidades nas chamadas Aulas do Pátio e ali dirigiam, além dum curso teológico, as disciplinas de língua portuguesa e língua latina, Filosofia e Retórica. Depois de, em 1837, ter sido instituído o Liceu Nacional do Funchal numa das dependências do Colégio, conhecida como Pátio dos Estudantes, um dos primeiros professores, nomeado provisoriamente, que ali regeram cadeiras foi Marceliano Ribeiro de Mendonça, que se tornaria efetivo em 1838, ano em que assume a direção do Liceu como reitor. Apesar de não possuir habilitações literárias superiores às que havia na ilha da Madeira, foi, no entanto, professor de Latim antes da criação do Liceu do Funchal. Em 1836, aquando da sua criação, tornou-se docente desta instituição, ensinando Português, Latim e Filosofia.

Para além da atividade pedagógica, Marceliano Ribeiro de Mendonça foi comissário de estudos na Madeira, secretário-geral do Governo Civil e presidente do município local, entre outros distintos cargos governativos locais. Escritor de destaque da primeira metade do séc. XIX na Madeira, poeta e jornalista, aos 16 anos já participava nas atividades revolucionárias, e tanto se evidenciou que, em 1828, pediu proteção a um súbdito britânico no Funchal para evitar a prisão e o degredo, tendo permanecido escondido até 1834. Durante os anos em que esteve oculto, instruiu-se e assim conseguiu uma valiosa bagagem intelectual.

Os seus relatórios atestavam a sua qualidade de escrita, tendo publicado na revista Instituto de Coimbra. Sendo um orador nato – recordado, durante muito tempo, pelo discurso notável que proferiu aquando da fundação duma agremiação de socorros mútuos, que chegou a instalar-se no dia 29 de dezembro de 1858 com o nome de Associação dos Artistas Madeirenses e com a assistência de cerca de 400 operários e de muitas pessoas categorizadas da sociedade funchalense –, conhecido pelas orações de sabedoria que proferia na abertura de cada ano letivo, fundou uma Associação de Conferências.

Como poeta e jornalista, Marceliano Ribeiro de Mendonça colaborou de forma especial nas publicações Arquivista, Ordem e Flor do Oceano. Escreveu e foram reunidas as seguintes obras: Princípios de Gramática Geral Aplicados à Língua Latina (Funchal, 1835), pela Officina de T. S. Drumond (com licença da Comissão de Censura), depositada na Biblioteca Municipal do Funchal (BMF); Relatório do Comissário dos Estudos do Distrito do Funchal de 1885 a 1856 (de realçar que o Instituto de Coimbra publicou alguns dos seus relatórios, considerando-os como peças literárias de valor); Elementos de Filosofia Racional e Moral (Funchal, 6 de outubro de 1862), que permaneceu inédito e foi depositado, como obra manuscrita, na BMF; Princípios de Philosophia Racional e Moral: Lições Dadas por Marcelliano Ribeiro de Mendonça, Professor da 4.ª Cadeira e Reitor do Lyceu n.º I do Funchal. Caderno 2.º (cópia ms. de Filomena Gomes Vieira); Filosofia em Coimbra e no Funchal (Funchal, 1852), que se encontra no Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira (CBAM); Método Paralelo de Leitura e Escrita, que se encontra no CBAM; e o romance histórico O Mestre Gaspar Borges (Fragmento de uma Crónica Madeirense), também inédito, em que figura como protagonista o hábil artífice a quem as saudades tão largamente se referem, tendo saído fragmentos deste a partir do n.º 265 do Imparcial de 4 de outubro de 1845. Colaborou, ainda, na obra A Pratical Grammar of Portuguese and English, de Alexander J. D. D’Orsey, capelão anglicano e diretor de um colégio no Funchal.

Os restos mortais de Marceliano Ribeiro de Mendonça foram depositados no Cemitério das Angústias, onde estão sepultados muitos distintos madeirenses. Marceliano Ribeiro de Mendonça era cavaleiro da Ordem de N.ª S.ª da Conceição e tem no Funchal uma rua com o seu nome.

Luís Marino, na obra Musa Insular: Poetas da Madeira, de 1959, transcreve um longo poema, de cuidado estético e ético, de Marceliano Ribeiro de Mendonça com o sugestivo título “A Grandeza do Homem”.

Obras de Marceliano Ribeiro de Mendonça: Princípios de Gramática Geral Aplicados à Língua Latina (1835); Filosofia em Coimbra e no Funchal (1852); Elementos de Filosofia Racional e Moral (1862); Método Paralelo de Leitura e Escrita; O Mestre Gaspar Borges (Fragmento de uma Crónica Madeirense); Princípios de Philosophia Racional e Moral: Lições Dadas por Marcelliano Ribeiro de Mendonça, Professor da 4ª Cadeira e Reitor do Lyceu n.º I do Funchal. Caderno 2.º; Relatório do Comissário dos Estudos do Distrito do Funchal de 1885 a 1856.

Bibliog.: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. VII, Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 2008, p. 125; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; L. C., “Escola Médico-Cirúrgica do Funchal: 1837-1910”, Das Artes e da História da Madeira, vol. VIII, n.º 41, 1971, pp. 41-43; “Mendonça, Marceliano Ribeiro de”, in Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 16, Lisboa/Rio de Janeiro, Editorial Enciclopédia Lda., s. d., pp. 908-909; MARINO, Luís, Musa Insular: Poetas da Madeira, Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, vol. II, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1949; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Alberto de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., vol. I, Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978; VIEIRA, Gilda França e FREITAS, António Aragão de, Madeira: Investigação Bibliográfica (Catálogo Onomástico), vol. I, Funchal, Centro de Apoio de Ciências Históricas – Governo Regional da Madeira, 1981.

António José Borges

(atualizado a 04.01.2016)