mesa do centenário /ou grupo do centenário e V centenário da descoberta da madeira

 

Grupo de tertúlia literária fundado por João dos Reis Gomes na déc. de 10 do séc. XX, e que perdurou até 1940. O Grupo do Centenário ou Mesa do Centenário, mais conhecido por Cenáculo, surge durante a preparação das bases do programa comemorativo do V Centenário da Descoberta da Madeira. Neste sentido, a Mesa do Centenário reenvia, igualmente, para o grupo de intelectuais madeirenses que se reuniu, no dia 2 de agosto de 1922, no teatro Dr. Manuel de Arriaga (posterior teatro municipal Baltazar Dias) para formar uma comissão, com o intuito de promover os festejos dos 500 anos do descobrimento da Madeira.

Pertenciam ao Cenáculo, personalidades de suma importância da sociedade e cultura madeirenses do séc. XX, que influenciaram decisivamente o meio cultural e artístico. O prestígio social, os cargos importantes que ocuparam na sociedade, nas áreas do ensino, da comunicação, do campo militar, da religião e do funcionalismo público e privado foram determinantes para a longevidade e notoriedade do grupo de tertúlia.

Presidia e liderava o Cenáculo o distinto militar, escritor, professor do liceu e diretor da escola industrial e comercial do Funchal, João dos Reis Gomes. Do grupo também faziam parte intelectuais como o historiador e padre Fernando Augusto da Silva, um dos autores do Elucidário Madeirense; Alberto Artur Sarmento, professor de ciências e investigador da história insular; Adolfo de Figueiredo, crítico de teatro e antigo diretor da Alfândega; o médico António Rodrigues dos Santos; Rui de Bettencourt da Câmara, jurista e genealogista; Emanuel Ribeiro, professor do ensino técnico das belas artes; Azevedo Ramos; Alfredo César de Oliveira, vogal do município do Funchal e antigo empregado do banco Rocha Machado; Adolfo de Noronha; o médico João Francisco de Almada; o professor Alfredo Miguéis; Elmano Vieira, jornalista e escritor; o escultor Francisco Franco e o seu irmão Henrique Franco; Luís Pinheiro, crítico literário e funcionário da Alfândega; Baptista dos Santos; Fernando Câmara, poeta e decorador; Francisco Bento de Gouveia; o jornalista Soares de Andrade; o musicólogo Dário Flores; Assis Esperança; ou o poeta Jaime Câmara.

Segundo César Pestana, o grupo era caracterizado como profundamente conservador, religioso e com espírito rígido, embora liberal e eclético, sendo que, numa sociedade profundamente católica, seria previsível a marginalização dos livres-pensadores ou ateus.

O Cenáculo era constituído hierarquicamente por três categorias de membros: os efetivos, os correspondentes e os honorários. Como sócios honorários, fizeram parte personalidades de grande prestígio regional, nacional e internacional, nomeadamente a atriz Maria Matos, Amintas de Lima, poeta e cônsul do Brasil na cidade do Funchal, e o governador do distrito e guarda-mor da Saúde, João Ferreira.

O grupo reuniu-se, primeiramente, na redação do Heraldo da Madeira, jornal de que foi diretor João dos Reis Gomes, entre 1905 e 1915. Assumida a direção, em 1916, do Diário da Madeira, o Cenáculo passou a reunir-se diariamente, durante a noite, numa sala privada no hotel Golden Gate. Neste contexto, a imprensa constituiu um meio de propaganda cultural fundamental, em que se destacaram os periódicos Heraldo da Madeira e o Diário da Madeira, órgãos de comunicação oficial da tertúlia. Era nestes jornais que o relato da tertúlia e dos debates vinha a público.

O grupo foi criticado por alguns intelectuais, como César Pestana (“os processos literários estacionaram, permaneceram imutáveis, vivendo-se ainda sob o influxo do velho academicismo dogmático e inerte. […] prevalecem ainda uma literatura e uma crítica de constrangimento, que o próprio meio favorece – consequência e reflexo do velho conformismo académico de que o ‘Cenáculo’ foi expressão acabada” (Id., Ibid., 22)) e o visconde do Porto da Cruz, sendo que este último tentou entrar, por diversas vezes, no Cenáculo (“daquele famoso centro intelectual, conhecido por ‘Cenáculo’ e que pelo protocolo e pelo acacianismo de que se rodeou caiu no ridículo” (PORTO DA CRUZ, 1953, III)). As reuniões eram inacessíveis ao público, sendo apenas para os frequentadores admitidos pelo círculo. O grupo era seleto, guiado pela sobriedade e por uma disciplina austera e académica. Os seus elementos debatiam a literatura, os novos autores, arte e os problemas da cidade do Funchal, chegando mesmo a serem consultados pelas autoridades autárquicas sobre aspectos ligados à estética da cidade. Nos últimos anos do Cenáculo, a tertúlia, ainda presidida por João dos Reis Gomes, realizava-se, todas as tardes, no café Apolo.

Para além de presidir o grupo de tertúlia literária Mesa do Centenário/Cenáculo, João dos Reis Gomes, madeirense ilustre, lançou, coordenou e promoveu o programa das festas comemorativas do V Centenário da Descoberta da Madeira, revestidas de grande esplendor e magnificência, entre 29 de dezembro de 1922 e 4 de janeiro de 1923. O programa provisório das festas comemorativas foi publicado no Diário da Madeira, órgão oficioso da celebração, em 1919. Por conseguinte, o grupo organizador das comemorações, intitulado “Mesa do Centenário”, reuniu-se no dia 2 de agosto de 1922, no teatro Dr. Manuel de Arriaga, com o intuito de formar várias comissões. As reuniões seguintes foram realizadas numa das salas da Alfândega do Funchal, sob permissão do diretor, Adolfo de Figueiredo, também ele integrado na comissão executiva das festividades. No palácio de S. Lourenço, sob a presidência do governador civil, Eduardo da Rocha Sarsfield, ficou instalada a comissão executiva para organizar e dirigir as celebrações.

Foram instituídas 18 comissões para coordenar as festividades do Centenário: a comissão de honra, a comissão executiva, a comissão técnica e diretiva, a comissão angariadora de fundos, a comissão de propaganda e publicidade, a comissão de obras, a comissão do grande cortejo histórico, a comissão de solenidades religiosas, a comissão teatral, a comissão do baile, a comissão de ornamentações públicas, a comissão de turismo e receção de forasteiros, a comissão de concertos e festas musicais, a comissão de exposição industrial e feira, a comissão bibliográfica e de produtos da escola industrial, a comissão de festejos desportivos, a comissão de festejos náuticos e a comissão de jogos hípicos e cavalhadas.

Ligados a estas comissões estavam distintas e ilustres personalidades madeirenses do panorama cultural, industrial, comercial, militar e religioso, nomeadamente: o bispo do Funchal, António Manuel Pereira Ribeiro, o presidente da Junta Geral e senador pela Madeira, Vasco Gonçalves Marques, Adolfo Sarmento de Figueiredo, Alberto Artur Sarmento, o jornalista e escritor Ciríaco de Brito Nóbrega, Fernando Augusto da Silva, Fernando Tolentino da Costa, João dos Reis Gomes, Leandro António Rego, Cândido Pereira, Emanuel Ribeiro, o jornalista e escritor Elmano Vieira, o poeta Jaime Câmara, o jornalista e escritor José Cruz Baptista Santos, Carlos W. Frazão Sardinha, o enólogo João Higino Ferraz, o banqueiro Henrique Augusto Vieira de Castro, Edmundo da Conceição Lomelino, Francisco Bento de Gouveia, o proprietário da firma vinícola F. F. Ferraz, Francisco Figueira Ferraz, Manuel Gregório Pestana Júnior, Álvaro dos Reis Gomes e Fernando Lomelino.

Para além da organização destas comissões, foi nomeado Amintas de Lima, cônsul do Brasil, como representante do corpo consular na Madeira nesta festividade solene, no âmbito da divulgação e propaganda das festas no estrangeiro. Os países com representação consular na Madeira que aderiram ao programa festivo foram os seguintes: Brasil, EUA, Inglaterra, Itália, Alemanha, Argentina, Espanha, Bolívia, Bélgica, Dinamarca, Holanda, Suécia, Uruguai, Libéria, Guatemala, Haiti, Venezuela e Roménia.

Celebrar e eternizar na memória de todos os portugueses, especialmente os madeirenses, o V Centenário do Descobrimento da Madeira era de suma importância, na medida em que marcou o início da glória das descobertas e da expansão marítima lusitana, colocando a Madeira como ponto geográfico de destaque na odisseia portuguesa. Foi publicado no Diário da Madeira que as festas do V Centenário eram um contributo para o reconhecimento de uma eterna dívida ao navegador português, a “a síntese mais bela”, um “coro evocador do passado” e a “gratidão pelo feito que foi a origem de nós próprios” (DM, 4 ago. 1922, 2). Por conseguinte, foi elaborado um programa de festas ousado que trouxe à ilha milhares de turistas e fez do Funchal uma capital dinamizadora da cultura portuguesa. Devido à elevada ocupação do Reid’s Palace Hotel, foram reabertas as dependências do antigo Reid’s Carmo Hotel para fazer face aos pedidos de alojamento.

O programa elaborado por J. Reis Gomes previa: a receção do alcaide de Santa Cruz de Tenerife, Andrés Orosco Baptista, do coronel da guarnição de Tenerife, Galdador Garcia y Rodriguez, e de alguns habitantes tenerifenhos no Palácio do Governo Civil, no da Junta Geral e no da Câmara Municipal do Funchal; um baile estilo séc. XV na Qt. Pavão, no qual se dançava e trajava de acordo com a época dos descobrimentos; uma serenata na Pontinha com embarcações ornamentadas de acordo com a época histórica; espetáculo pirotécnico e iluminação festiva nas principais ruas da cidade, circunscrevendo igualmente a Pontinha e a fortaleza do ilhéu; três sessões, no teatro Dr. Manuel de Arriaga, da peça Guiomar Teixeira, adaptação do romance histórico da autoria de João dos Reis Gomes, cuja ação privilegia a época dos descobrimentos; apresentação da maquete, lançamento e bênção da primeira pedra para o monumento de João Gonçalves Zarco, da autoria do escultor madeirense Francisco Franco, situado no eixo da Av. Zarco e da Av. Dr. Manuel de Arriaga (apenas inaugurado em maio de 1934); Te Deum na igreja da sé, cerimónia solene celebrada pelo bispo da Diocese do Funchal, D. António Manuel Pereira Ribeiro, contando com a presença do P.e José Marques Jardim, dos cónegos Manuel Mendes Teixeira e Manuel Miranda e das restantes entidades oficiais do concelho; uma romaria ao túmulo do navegador e 1.º capitão donatário do Funchal, João Gonçalves Zarco, situado na igreja de S.ta Clara; a realização de jogos hípicos medievais e desportivos no campo do Almirante Reis; exposição agrícola, industrial e artesanal madeirense (vinho, açúcar, lagares, engenhos, tecidos, bordados, obras em vimes) na Pç. do Marquês de Pombal (posterior Av. do Mar); exposição retrospetiva de objetos históricos e culturais na escola industrial António Augusto de Aguiar, na R. João Tavira; encerramento dos festejos com um cortejo histórico imponente composto por carros alegóricos.

No âmbito destas comemorações, foram planeadas duas publicações, nomeadamente um opúsculo comemorativo intitulado V Centenário do Descobrimento da Madeira, da autoria de diversos colaboradores, como Jordão Henriques, Carlos Azevedo de Meneses, Luís de Ornelas Pinto Coelho, Manuel Ribeiro e João dos Reis Gomes, com a coordenação de Fernando Augusto da Silva, e a publicação do grande projeto que foi o Elucidário Madeirense, uma obra de pendor enciclopédico que reúne um manancial de informações infindável sobre a Madeira, abarcando diversas áreas do conhecimento, com a coordenação de Fernando Augusto da Silva e de Carlos Azevedo de Meneses.

No opúsculo comemorativo reuniram-se excertos dos poemas épicos Insulana, de Manuel Tomás, e Zargueida, de Francisco de Paula Medina e Vasconcelos; estâncias em que Luís Vaz de Camões menciona a Madeira; poemas de Luís de Ornelas Pinto Coelho; artigos sobre indústrias, etnografia, agricultura, geologia, fauna e flora madeirenses; composições de Manuel Ribeiro, Ramos Coelho, Antonino Pestana, Pestana Reis, Eduardo Pereira e Jaime Câmara.

De carácter nacional, a comemoração do V Centenário do Descobrimento da Madeira suscitou interesse internacional por parte de regiões e países como as ilhas Canárias, a Inglaterra e a América do Norte. No âmbito das festividades e consequente visita de milhares de turistas, foram propostas várias obras de melhoramento no Funchal, tais como a limpeza e reparação das ruas e das ribeiras, saneamento, calcetamento, obras e fomento de algumas indústrias locais, a fim de exibir a cidade condignamente. Aliás, foram diversas as empresas mais conhecidas e que fazem parte da história da Madeira que contribuíram com valores de subscrição para as festas do V Centenário, sendo elas: Blandy Brothers & C.ª (10.000$00), The Western Telegraph Company Ld. (10.000$00), Hinton & Sons (7.500$00), Read, Castro & C.ª (5.000$00), Rocha Machado & C.ª (5.000$00), Leacock & C.ª (5.000$00), Madeira Embroidery & C.ª (2.500$00), Cossart Gordon & C.ª (2.000$00). O valor total das subscrições atingiu os 107.301$00.

Foram diversos os eventos culturais e desportivos que abrilhantaram as comemorações, homenageando a Ilha pelo seu contributo histórico-cultural enquanto território português. Realizaram-se desafios de futebol entre as equipas do Clube Desportivo Nacional, Clube Sport Marítimo e o Clube Desportivo de Tenerife, uma parada desportiva com a representação de todos os clubes filiados na Associação de Futebol do Funchal, um campeonato de tiro aos pratos e pombos, no cais do Reid’s Hotel e Garden-Party, um torneio de esgrima, no casino Pavão, uma gincana com números pedestres e de veículos e jogos hípicos, no campo do Almirante Reis.

O final de ano madeirense foi abrilhantado pelas festas do V Centenário, tendo sido adquiridos foguetões e fogos aquáticos à empresa Manuel da Silva & Filho, de Viana do Castelo, e reforçada a iluminação e a decoração de rua e de edifícios. No âmbito das festividades, a banda do regimento da infantaria 27 foi aumentada. Nas festas também participaram o grupo musical Passos de Freitas e o Orfeão Madeirense, sob direção de Manuel dos Passos de Freitas, atuando no Monte Palace Hotel, numa festa em honra dos excursionistas de Tenerife. Aos vizinhos tenerifenhos foram oferecidos um lanche no Terreiro da Luta e um chá no Monte, por Henrique Vieira de Castro, e um jantar pelo cônsul de Espanha.

Para além de exibições musicais nas ruas do Funchal por artistas madeirenses, foram convidados, a propósito da visita dos excursionistas tenerifenhos, o Quarteto Tenerifenho, composto pelos artistas Matilde Martin, Jorge Sansón, Luíz de Armas e Victoria Carvajal, que atuou brilhantemente em concertos no teatro Dr. Manuel de Arriaga, interpretando óperas e temas de compositores clássicos conhecidos, tais como: Giuseppe Verdi (“Simon Boccanegra”), Richard Wagner (“Tannhauser”), Jules Massenet (“Manon”), Frédéric Chopin (“Polonesa em Si Bemol Maior” e “Valsa Op. 62”), Teobaldo Power (“Cantos Canários”) e Wolfgang Amadeus Mozart (“Don Giovanni”), José Serrano (“La Canción del Olvido”), Alvarez (“La Pandereta”), Charles Gounod (“Fausto”), Isaac Albéniz (“Sevilla”), Gioachino Rossini (“Il Barbieri di Siviglia”), António Gomes (“Salvator Rosa”), Ambroise Thomas (“Hamlet”), Sergei Rachmaninoff (“Prelúdio N.º 5”), Amadeo Vives (“Maruxa”).

Também no teatro Dr. Manuel de Arriaga foram realizadas três récitas de gala da peça Guiomar Teixeira (romance histórico, 1912), de João dos Reis Gomes. Guiomar Teixeira, obra inspirada na novela histórica Tristão das Damas (1909), composta por quatro atos e cinco quadros, juntou, em simultâneo, à encenação da peça teatral a projeção do filme de curta-metragem O Cerco de Safi (rodado na Madeira, em 1913, sob direção de André Valldaura) no momento da ação de uma batalha entre cristãos e muçulmanos no Norte de África, método inovador para a época de J. Reis Gomes. O romance desenrola-se no início do séc. XVI, com personagens que fazem parte da história da Madeira, nomeadamente Cristóvão Colombo, Tristão Vaz Teixeira, João Gonçalves da Câmara e João Esmeraldo. Num primeiro plano, os atores comentam, dentro da fortaleza de Safi, a batalha que é projetada num segundo plano. O processo de montagem laboratorial do filme foi executado pela companhia cinematográfica francesa Pathé-Frères.

Na peça, participaram como atores personalidades ilustres da sociedade madeirense, tais como Álvaro dos Reis Gomes, Amélia Faria Sarmento, António Trigo, Carmen Henriques, César Santos, Deolinda Trigo, Ema Trigo, Fialho de Almeida, Francisco Bettencourt, Henrique Tristão Bettencourt da Câmara, Isabel de Oliveira, Joaquim de Menezes Alves, Jorge Ferreira, José da Câmara Lomelino, José Jardim, José Mégre, Leandro Camacho, João dos Reis Gomes, José Calisto Ferreira, Maria Dulce Reis Gomes, Maria Sales, Raul Dória e Sofia de Figueiredo.

Os trajes da época, os adereços, a cenografia e o décor para a peça foram desenhados por Cândido Pereira, e a execução do cenário esteve a cargo dos artistas Gayo e Ripoli, de Madrid. A peça foi um dos pontos altos da cultura madeirense e das festas do Cinquentenário da Descoberta da Madeira.

A exposição retrospetiva na escola industrial António Augusto de Aguiar expôs a histórica janela da residência de Cristóvão Colombo, um retrato de João Gonçalves Zarco e de personalidades da história madeirense, cartografia relativa ao arquipélago, bibliografia relativa à história, aspectos dos costumes e da cultura madeirense, trabalhos de professores de desenho, de composição artística e de desenho ornamental.

O grande cortejo histórico encerrou as festas do V Centenário da Descoberta da Madeira, no dia 4 de janeiro de 1923, e contou com a participação de todas as entidades oficiais do concelho, que seguiram em romaria. O cortejo incluiu os imponentes carros alegóricos de carácter histórico desenhados por Cândido Pereira e Emanuel Ribeiro: o carro da descoberta de Gonçalves Zarco, representado por uma majestosa caravela ao estilo do séc. XV (construída e doada pela empresa Arsenal do Cabrestante, de João de Araújo), com 4 m de comprimento e ornamentada com figuras segurando tridentes e tocadores de búzio e com os cestos de gávea dos mastros adornados com escudos heráldicos; o carro do infante D. Henrique, em estilo gótico, que transportou duas estátuas alegóricas que representavam a história e a navegação, os bustos de João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, trabalho escultórico de José Pereira, professor da escola industrial Afonso Domingues; o carro das nações, oferecido pelo corpo consular, ostentando os escudos dos países com representação oficial na ilha; os carros alegóricos dos desportos e das indústrias de bordados, açúcar, vinho e vimes, ofertados pelas respetivas indústrias.

O itinerário do cortejo histórico estabelecido privilegiou as principais artérias da cidade do Funchal: R. Gago Coutinho (R. da Praia), Av. Zarco, Av. Dr. Manuel de Arriaga (troço a sul), R. Capitão Tenente Carvalho de Araújo (Aljube), R. do Comércio (Ferreiros), R. dos Netos, R. de S. Pedro, R. do Dr. Sequeira, R. do Dr. Vieira (Carreira), R. da Ribeira de S. João, R. de S. Lázaro, R. Serpa Pinto, R. Hermenegildo Capelo, Av. Dr. Manuel de Arriaga (troço a norte), Av. Zarco e Av. Gago Coutinho, finalizando no Arco Triunfal dos Descobridores, construído propositadamente para o cortejo histórico.

Por conseguinte, o V Centenário da Descoberta da Madeira, como marco histórico, contribuiu diretamente para o surgimento da Mesa do Centenário/Cenáculo, como tertúlia literária, e para projetos como a publicação do importante opúsculo comemorativo V Centenário do Descobrimento da Madeira e do Elucidário Madeirense, que eternizaram através da escrita a súmula do conhecimento sobre a ilha da Madeira.

Bibliog.: CARITA, Rui e MELO, Luís Francisco de Sousa, 100 Anos do Teatro Municipal Baltazar Dias (1888-1988), Funchal, Eco do Funchal/CMF, 1988; Correio da Madeira, 28 jul. 1922; 26 ago. 1922; 23 set. 1922; 27 set. 1922; 1 out. 1922; 5 out. 1922; Diário da Madeira, 4 ago. 1922; 12 set. 1922; 24 set. 1922; 29 out. 1922; 12 nov. 1922; 22 nov. 1922; 3 dez. 1922; 10 dez. 1922; 12 dez. 1922; 17 dez. 1922; 21 dez. 1922; 22 dez. 1922; 30 dez. 1922; 3 jan. 1923; 4 jan. 1923; 5 jan. 1923; 7 jan. 1923; GOUVEIA, Horácio Bento de, “Funchal de Ontem, Funchal de Hoje”, DN, Funchal, 21 ago. 1982, pp. 5 e 11; PESTANA, César, “O Cenáculo: Academias e Tertúlias Literárias da Madeira”, Das Artes e da História da Madeira, vol. XVIII, n.º 38, 1968, pp. 21-23; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vol. III (1910-1952), Funchal, CMF, 1953; SILVA, Fernando Augusto da (coord.), Publicação Comemorativa do V Centenário do Descobrimento da Madeira, Funchal, Comissão de Propaganda e Publicidade do Centenário, 1922; Id. e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. III, Funchal, DRAC, 1998; VIEIRA, G. Brazão, “Páginas de Memórias: Um Grande Vulto que a Morte Levou: João dos Reis Gomes”, Das Artes e da História da Madeira, vol. I, n.º 2, 1950, pp. 17-19.

Fernanda de Castro

(atualizado a 05.02.2017)