nóbrega, maria augusta correia

Nasceu na freguesia da Camacha, a 28 de fevereiro de 1929, e faleceu na mesma localidade, a 7 de fevereiro de 2007. Era filha de Manuel Correia e de Maria Baptista. Em 1958, casou com Álvaro João de Nóbrega, de quem teve seis filhos, quatro raparigas e dois rapazes.

Fez o ensino primário na Camacha, prosseguindo os estudos no Funchal, no Colégio de Santa Teresinha, em regime de internato. Mais tarde, fez o curso de professora do ensino oficial primário na Escola do Magistério Primário do Funchal. Concluído o curso, em 1955, começou a lecionar na Camacha, função acumulada com o cargo de diretora em várias escolas daquela freguesia. Ministrou ainda o ensino na Campanha Nacional de Educação de Adultos e na telescola, aposentando-se em 1987, após trinta e dois anos de atividade pedagógica.

No seu percurso como formadora, conseguiu despertar o interesse para o folclore e para as tradições madeirenses, em especial, nas gerações mais jovens, ao fundar, em 1969, o Grupo Folclórico Infantil da Camacha e, em 1978, o Grupo Folclórico Juvenil da Camacha, para dar continuidade ao trabalho iniciado com as crianças da primeira associação. Fundou ainda o Grupo de Romarias e Tradições da Camacha e reorganizou o Grupo das Romarias Antigas do Rochão. Dirigiu todos estes grupos, que contaram sempre com o seu auxílio e acompanhamento, nas participações em diversos eventos, dentro e fora da região.

A partir de 1984, desenvolveu uma importante atividade no setor da etnografia e do folclore, junto das comunidades de emigrantes. Neste sentido, foi convidada para realizar palestras e dar formação, na Venezuela, aos grupos de folclore madeirenses de La Vitoria, de Caracas, de Margarita e de Maracay. Também na Madeira e em Lisboa proferiu palestras e participou em congressos, apresentando os temas “Formação de grupo”, “Trajes” e “Tradição do Espírito Santo”, em diversos eventos, nomeadamente, no Estágio de Formação e Reciclagem de Folclore (Inatel, 1990), no I Congresso Internacional de Folclore (Inatel, 1991) e no I Congresso de Folclore da Madeira (Ponta do Sol, 1994). Deu, assim, um impulso no desenvolvimento do folclore regional, pela sua dedicação a esta vertente da cultura popular.

Na verdade, Maria Augusta Nóbrega cedo manifestou interesse pelo folclore e pelas tradições madeirenses. A par do seu envolvimento nos agrupamentos musicais, procurou recolher, promover e preservar uma parte do património cultural da sua terra, dando especial atenção aos costumes da Camacha, freguesia das suas origens. Começou por coligir, na déc. 60, peças de artesanato e de uso popular, às quais foi juntando, ao longo da sua vida, outros elementos etnográficos. Das recolhas dos testemunhos sobre vivências tradicionais, à literatura oral, à poesia popular, à fotografia e ao traje típico, Maria Augusta contribuiu para dar a conhecer o património cultural material e imaterial madeirense. Entre os elementos do seu espólio, destaca-se uma coleção de bonecas, vestidas com os trajes característicos do arquipélago, que estiveram patentes ao público, em diversas exposições. A primeira exposição de bonecas foi realizada em 1987, na Camacha. Nos anos seguintes, expôs na África do Sul, nas Comemorações de Bartolomeu Dias; no Funchal, no Teatro Baltazar Dias; no Inatel, no Estágio de Formação e Reciclagem de Folclore e na Casa do Povo da Camacha.

Entretanto, realizou outras exposições, no âmbito da etnografia madeirense, resultado das suas pesquisas e recolhas: Fotografias Antigas e Atuais: Traje Regional (Camacha, 1994); Postais de Natal (Camacha, 1995 e 1996); Percurso Musical e Instrumental (Camacha, 1995); Temas da Páscoa: Tradição dos Ovos de Páscoa (Camacha, 1996); Pentecostes e Tradição do Espírito Santo na Camacha (Camacha, 1997 e 1998); Objetos de Madeira, Passado, Presente e Futuro (Inatel, 1998); Licores Caseiros e Naturais (Camacha, Curral das Freiras e Santo da Serra, 1998); Sagrado Coração de Jesus (Camacha, 2004) e 35 Anos: Arquivo Fotográfico do Grupo Infantil da Camacha (Camacha, 2004).

Foi mentora do projeto de construção de uma aldeia etnográfica, parte integrante da decoração natalícia na baixa do Funchal, para mostrar os costumes e tradições dos seus conterrâneos; a aldeia etnográfica continuou a ser construída anualmente no Lg. da Restauração. Colaborou em diversos eventos socioculturais realizados na Madeira, quer com a presença dos seus grupos, na animação da Festa da Flor, do cortejo de Carnaval e das festividades do fim de ano, quer na organização das festas populares da maçã, do artesanato e do Espírito Santo, na Camacha. De 1982 a 1995, fez parte da comissão organizadora das festas do Concelho de Santa Cruz, dirigindo os trabalhos da feira O Nosso Concelho, instalada nos jardins da Câmara Municipal, junto à igreja matriz. Mais tarde, documentou esta experiência no livro Festas Populares de Santo Amaro: Catorze Anos (1982-1995) de Participação nas Festas Populares de Santo Amaro e do Concelho em Santa Cruz (2006).

Publicou ainda o resultado das suas pesquisas, em volume, dando à estampa os livros, Retalhos, Poesia Popular (1994); Tradições Madeirenses, vol. I, O Traje Regional, Achegas para a sua Divulgação (1999); Tradições Madeirenses, vol. II, Adereços, Achegas para a sua Divulgação (2001); Tradições Madeirenses, vol. III, A Carapuça, Achegas para a sua Divulgação (2004); A Magia do Vinho (2001) e O Fascínio dos Licores (2002), constituindo, em conjunto com a sua atividade em prol da cultura popular, um contributo para a preservação da memória cultural madeirense.

Foi agraciada com uma salva de prata (1985), com uma pena de prata (1991) e com uma estrelícia dourada (1995), pelo GRM e pela SRTC, em reconhecimento pelo empenho e dedicação à cultura popular madeirense. Em 1995, foi condecorada pela Presidência da República, com o grau oficial da Ordem Portuguesa da Instrução Pública.

Obras de Maria Augusta Nóbrega: Tradições Madeirenses, vol. I, O Traje Regional, Achegas para a sua Divulgação (1999); Tradições Madeirenses, vol. II, Adereços, Achegas para a sua Divulgação (2001); Tradições Madeirenses, vol. III, Adereços, Achegas para a sua Divulgação (2004); A Magia do Vinho (2001); O Fascínio dos Licores (2002); Festas Populares de Santo Amaro: Catorze Anos (1982-1995) de Participação nas Festas Populares de Santo Amaro e do Concelho em Santa Cruz, (2006).

Bibliog.: NÓBREGA, Andreia, “Uma Vida em Defesa de um Sonho – Maria Augusta Nóbrega, Guardiã das Tradições”, JM. Revista Olhar, n.º 217, 9 jun. 2007, pp. 8-11; “Palavras, para Quê? A Obra Impõe-se!… Homenagem à Folclorista Prof. Maria Augusta”, Folclore, n.º 7, [2007], pp.8-9; “Augusta Nóbrega Deixa Etnografia Mais Pobre”, Diário de Notícias, 8 fev. 2007, p. 19; “Aldeia Etnográfica Dentro da Cidade”, Jornal da Madeira, 9 dez. 2011, pp. 10-11.

Sílvia G. Gomes

(atualizado a 05.08.2016)