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Na Madeira, apesar da preferência que os prosadores mostraram pelo conto e pelo romance, alguns autores cultivaram a novela. Tristão Gomes de Castro escreveu, no séc. XVI, Argonautica da Cavalaria, recorrendo a uma imagética associada ao género desde as suas origens medievais. Outros autores, como João dos Reis Gomes, nascido no séc. XIX procuraram inspiração nas lendas fundacionais do arquipélago, nomeadamente na história de Robert Machim e Ana d’Arfet, articulando-as com referências históricas e dando origem a produções textuais nas quais se tornam evidentes as dificuldades que a distinção do género novelesco coloca.

Palavras-chave: literatura; narrativa; lendas.

Teoricamente, a novela é um género fácil de distinguir entre os três géneros narrativos. No entanto, essa distinção torna-se problemática quando se procede à classificação de textos que, apesar da primazia dada a uma ação linear, aprofundam, por exemplo, a dimensão de duas ou três personagens.

Na origem etimológica do termo, estará o adjetivo latino «novus, -a, -um» (novo), o que pressupõe que a novela apresentará um enredo que falará sobre a novidade em eventos desconhecidos, que se desenvolvem numa trama nem sempre favorável. A novela veio a ganhar relativa importância durante a Idade Média, época em que se constrói como um instrumento de diversão e entretenimento, embora as raízes da sua criação estejam, provavelmente, na Antiguidade Clássica. Pela associação ao período medievo, pressupõe-se que a novela seja um produto da canção de gesta, que passou a ser elaborada em prosa. Assim, as primeiras novelas incluem-se nos romances de cavalaria e vão ao encontro de um público que cultiva a narração de acontecimentos incríveis, dentro dos ciclos medievais. Na sua formação como género, a novela de cavalaria medieval relata um conjunto de feitos heroicos, de que são exemplo as inúmeras aventuras que os cavaleiros do Rei Artur vivem na demanda do Santo Graal no conhecido ciclo bretão da Demanda do Santo Graal. Na Renascença, aparece a novela sentimental, como Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro. A novela de cavalaria e a novela sentimental podem ser consideradas manifestações da maturidade do género novelesco.

Por ser vista como uma composição menor, e após este período fecundo, com cultores como Boccaccio, a novela sofrerá, até ao Romantismo, um claro abandono, acontecendo o mesmo com os outros géneros (com exceção da epopeia). No entanto, com a emancipação da burguesia, volta a ser um género popular, que permite a ocupação das horas de ócio, sendo vista como instrumento de divertimento e evasão. O período romântico e pós-romântico é determinante para a definição posterior de novela que, apesar de continuar a ser permeável, no sentido em que conjuga caraterísticas de outros géneros narrativos, se vai constituindo como um género autónomo. Este processo revelará as especificidades fundamentais da novela: uma ação una que se desenvolve a um ritmo veloz (concentrada e com um desenlace único); uma organização temporal sem desvios ou anacronias; uma caracterização do espaço reduzida e associada a uma personagem. No período romântico, surgem a novela picaresca, a novela histórica e a novela policial e de mistério, que rapidamente mostra ser a que mais agrada ao público. A novela histórica é típica da primeira metade do séc. XIX, com autores como Walter Scott, ao passo que a novela de mistério se destaca com a obra de escritores como Conan Doyle e Agatha Christie. No que concerne aos outros tipos de novela, merece destaque a picaresca, que estará mais ligada à novela sentimental e bucólica e cujo sucesso pode ser medido pela publicação em folhetins e em jornais.

De um modo geral, a novela, enquanto narrativa de ficção, apresenta uma dimensão intermédia relativamente ao romance e ao conto. Incidindo sobre um acontecimento narrado de forma linear, apresenta um reduzido número de personagens. Além disso, na medida em que confere maior importância à narração, desenvolve uma intriga simples, num contexto espácio-temporal condensado, com descrições igualmente simples. Assim, na novela, as categorias da narrativa acabam por ser definidas vagamente e a sua perceção decorre de uma ideia acerca da extensão deste género narrativo, segundo a qual essa extensão é menor que a do romance e maior que a do conto. Porém, a extensão da novela não constitui um critério decisivo para uma definição das suas categorias narrativas, o que pode ser comprovado pelo facto de autores como Camilo Castelo Branco apresentarem novelas extensas que, apesar disso, não perdem as caraterísticas deste género literário. Deste modo, mais do obedecer a princípios relacionados com a estrutura ou com a dimensão, a novela deve proceder a uma concentração temática, podendo aliar-se a uma estrutura repetitiva. O lugar da novela dentro do género narrativo caracteriza-se, portanto, por não apresentar a minuciosa elaboração do romance nem a condensação do conto.

Na Madeira, os escritores naturais da Ilha e os que por lá passaram preferiram o romance e o conto. No entanto, existiram cultores da novela, porque as letras, no Arquipélago, acompanharam sempre a tendência da metrópole. Apesar de terem produzido um espólio novelístico considerável, não foram autores com expressão no contexto nacional – circunstância a que não é alheio o facto de a novela ser um género de entretenimento associado a uma certa faixa social. Outro ponto que nunca favoreceu o desenvolvimento literário no Arquipélago foi a ausência de uma massa crítica séria, imune ao espírito de elogio mútuo, o que é já apontado por João Nóbrega Soares na rubrica “Poetas e Prosadores Madeirenses: Júlio da Silva Carvalho”, da Gazeta da Madeira: “A esta lei fatal ainda resiste raro talento, ainda contra ela se afadiga algum coração bem formado, algum espírito melhor esclarecido” (Gazeta da Madeira, 8 mar. 1866, 3).

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Fig. 1 – Capa de Epanaphoras de varia historia portuguesa de Francisco Manuel de Melo Fonte: BNP.

Posto isto, alguns nomes permanecerão no universo cultural e literário madeirense, pela qualidade e, sobretudo, pelo que acrescentaram ao conhecimento do imaginário do Arquipélago. É o caso de Tristão Gomes de Castro, descendente de João Gomes, o Trovador. Nascido a 3 de setembro de 1539, no Funchal, onde morreu a 14 de março de 1611, era filho de Cristóvão Martins de Agrinhão e Joana Gomes de Castro. Escreveu a narrativa Argonáutica da Cavalaria, editada no século XVI. No plano da novela, importa abordar esta obra como uma reminiscência das novelas de cavalaria, com aventuras entre o bélico e o maravilhoso. Leomundo, príncipe grego, apaixona-se por Rocilea, herdeira do trono espanhol, através da contemplação do seu retrato. O herói heleno consegue ultrapassar os vários obstáculos, porém, esbarra na mãe de Rocilea, a rainha de Espanha, que não tolerava os gregos desde que o seu esposo fora assassinado numa guerra com estes, anos antes. Rocilea encontra-se no meio desta situação: por um lado, tem o dever de obediência e fidelidade à mãe e aos intentos da sua nação, por outro, é movida pela paixão por Leomundo, à qual acaba por não ceder. A Argonáutica da Cavalaria constitui uma sequência de episódios engraçados, concebidos para o entretenimento, apresentando um conjunto de elementos próprios deste tipo de texto: seres mágicos, entes maravilhosos, cenas bélicas e linhas simples de desenvolvimento do assunto. O título evidencia a ligação erudita com a Argonáutica de Apolónio de Rodes.

Francisco Manuel de Melo nasceu em Lisboa, a 23 de novembro de 1608, e faleceu a 24 de agosto de 1666. Foi político, militar e escritor, representante do estilo barroco peninsular. Dedicou-se à poesia, ao teatro, à história e à epistolografia. O seu interesse em relação à Madeira deve-se à descrição da Lenda de Machim como um episódio novelesco em «Epanaphora Amorosa», uma parte da obra Epanaphoras de Varia Historia Portugueza (Lisboa, 1660). Considerada uma novela histórica e melodramática, a «Epanaphora Amorosa» é constituída por duas partes. Na primeira, conta-se a aventura de Robert Machim e Ana d’Arfet, os quais, por questões passionais, fogem de Inglaterra e, durante uma tempestade, alcançam a Madeira. A segunda parte da «Epanaphora Amorosa» trata da descoberta do Arquipélago por João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira e Bartolomeu Perestrelo.

Alípio Augusto Ferreira nasceu em Santa Cruz, a 27 de dezembro de 1837. Foi professor primário, escrivão em alguns concelhos do distrito do Funchal e redator principal do periódico Pátria. Escreveu duas novelas, Um Sacrilégio e Um Romance, publicado em seis capítulos. Viveu em Demerara, onde foi redator do jornal O Portuguez. A 3 de agosto de 1915, faleceu em Nova Iorque.Na Madeira, também é cultivada a tradução de novelas. Para o comprovar, existe o trabalho de João Nepomuceno de Oliveira. Nasceu no Funchal, a 15 de maio de 1783, filho do escritor Francisco Manuel de Oliveira. No Funchal, foi Juiz de Balança (1825) e Contador Geral da Junta Real da Fazenda (1830). Traduziu duas novelas francesas: Branca e Izabel ou As Duas Amigas (Funchal, 1841), de Gabriel Marie Legouvé (Paris, 23 jun. 1764-31 ago. 1812), e Estela (Funchal, 1842), de Jean-Pierre Claris de Florian (Sauve, 6 mar. 1755-Scaeux, 13 set. 1794). Como poeta, publicou, num só volume, Poesias ternas e amorosas, oferecidas a huma senhora (1837).

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Fig. 2 – A Filha de Tristão das Damas: Novela Madeirense, de João dos Reis Gomes. Fonte: Museu Quinta das Cruzes – Espólio Major João dos Reis Gomes. Fotografia: Raquel Pinto.

Do ponto de vista da análise literária, A Filha de Tristão das Damas levanta uma questão relacionada com o facto de a obra ser um romance histórico, embora o subtítulo a designe como novela. Dividida em quatro partes – “Um sarau em Machico”, “Na casa de João Esmeraldo”, “Casamento de Colombo” e “Conquista de Safi” –, a história desenvolve-se num ambiente familiar de elites madeirenses, começando, temporalmente, na época dos donatários, um período anterior à perda da independência: “Até o último quartel do seculo XVI – perda da nossa independência – a ilha da Madeira estava dividida em duas capitanias, a do Funchal e a de Machico, de que foram, respetivamente, seus primeiros donatários, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz” (GOMES, 1909, 3). João dos Reis Gomes projeta a situação histórica passada na situação do casamento entre a filha de Tristão Teixeira, conhecido como Tristão «das Damas», 2.º Capitão de Machico, e o filho de João Gonçalves da Câmara, 2.º Capitão do Funchal.

O livro começa com um fenómeno de mise-en-abyme e, simultaneamente, um leitmotiv que alimentará o enredo ficcional histórico: a história de amor entre Robert Machim e Ana d’Arfet. O autor estabelece um paralelo entre esta narrativa e a história de amor de Guiomar, a filha de Tristão, por Yahya ben-Tafut, que não terá um amor desejado por outros, constituindo o segredo e o fio condutor da história. A finalizar a segunda parte, Colombo é interpelado por Filippa, que lhe diz: “Guiomar ama, dizes tu. E quem é o escolhido d’esse coração tão exigente?” (Id., Ibid., 131) Colombo responde-lhe, dizendo que se trata de um segredo, o qual nem à sua noiva pode contar. Guiomar apaixonara-se por ben-Tafut, submetendo-se, desde então, a uma vida de esconderijos, uma vez que Simão, filho legítimo de João Gonçalves da Câmara, a amava.

Na última parte do livro, na batalha pela conquista de Safi, tudo é revelado. Guiomar, disfarçada de soldado, é atingida e, perante o espanto de Simão da Câmara, afirma: “Sim, meu amigo. Inútil é manter-se ainda este mistério que há anos tem envolvido o meu nome e o meu sexo… Sou Guiomar… a filha de Tristão Teixeira…” (Id., Ibid., 239). A história acaba com Yahya ben-Tafut, filho ilegítimo de João Gonçalves da Câmara, a lamentar a morte de Guiomar, ironicamente às mãos dos mouros. Antes do lamento de ben-Tafut, o motivo de Machim volta a estar presente, com Guiomar a declarar: “Tu foste o Machim da minha lenda. A tua pobre Anna só te pede o repouso nesta terra […] que o teu braço duas vezes conquistou para Portugal, partilhando ela, sempre, a tua sorte” (GOMES, 1909, 243). Esta citação sintetiza, grosso modo, o propósito narrativo histórico desta obra de referência de Reis Gomes. No “Epílogo”, é feito um resumo das ações de ben-Tafut após a morte de Guiomar: tornou-se um terror para os maometanos como vingança da morte da sua amada.

Dos autores de novelas relacionadas com a Madeira, o caso de João dos Reis Gomes é o que exige uma atenção maior, com a novela A Filha de Tristão das Damas. Reis Gomes nasceu no Funchal a 5 de janeiro de 1869, filho de João Gomes Bento e de Maria Gertrudes de Castro Gomes Bento. Foi oficial do exército, engenheiro, industrial, professor, escritor, crítico e filósofo de arte. Em 1900, começou a exercer o cargo de professor do Liceu, que desempenhou durante 28 anos. Entre 1929 e 1939, foi diretor da Escola Industrial e Comercial do Funchal. Além de ter sido diretor do Heraldo da Madeira (1904-1915) e do Diário da Madeira (1916-1940), colaborou com outros periódicos de Lisboa – O Dia, O Século e Serões. Foi sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa, sócio de honra da Federação das Academias de Letras do Brasil, vogal do Instituto de Portugal e sócio correspondente da Sociedade de História de Portugal. Na sua vasta produção literária, destaca-se a peça histórica Guiomar Teixeira (Funchal, 1912) e A Filha de Tristão das Damas: Novela Madeirense (Funchal, 1909). João dos Reis Gomes é considerado um dos mais ilustres escritores e jornalistas madeirenses e, igualmente, o primeiro crítico de teatro em Portugal.

O romance e o conto são, de facto, os dois grandes géneros narrativos da prosa madeirense, havendo, no entanto, um conjunto de textos que, muitas vezes, se denominam como narrativa, por não haver uma relação explícita com um género narrativo específico. O Elucidário Madeirense faz notar, na entrada “Literatura”, que no primeiro século de ação humana sobre a Ilha (séc. XV), não há notícia de prosadores, havendo, porém, referência a poetas. Da prosa com intuito novelístico, temos os exemplares apontados, embora A Filha de Tristão das Damas não seja o melhor exemplo de novela, tendo em conta a complexidade advinda da análise das categorias da narrativa: o vasto número de personagens, a ação longa e complexa, abarcada de simultaneidades espaciais e temporais. Merece destaque a existência de um fundo temático ligado às novelas de cavalaria, com uma particular incidência sobre o fundo imaginário comum e fundador da Madeira, alicerçado na lenda de Machim e Ana d’Arfet. No Arquipélago, outros prosadores, como João Augusto de Ornelas, João de Nóbrega Soares, Álvaro Rodrigues de Azevedo ou Horácio Bento de Gouveia, enveredaram, preferencialmente, pelo romance.

Bibliog. impressa: CALDERÓN, Demetrio Estébanez, Diccionario de términos literarios, Madrid, Alianza Editorial, 2004: DÍAZ-TOLEDO, Aurelio Vargas, “Apontamentos Sobre um Livro de Cavalarias Desconhecido: a Argonáutica da Cavalaria, de Tristão Gomes de Castro, Escritor Madeirense do Século XVI”, Islenha, n.º 43, jul.-dez. 2008, pp. 5-22; GOMES, João dos Reis, A Filha de Tristão das Damas: Uma Novela Madeirense, Funchal, Heraldo da Madeira, 1909; Id., A Filha de Tristão das Damas: Romance Histórico Madeirense, Funchal, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal, 1946; LIVRAMENTO, Marco, Machim, um Herói Fundador: Algumas Notas sobre o Tratamento da Lenda de Machim ao Longo dos Tempos, Funchal, DRAC, 2011; MELO, Francisco Manuel de, Epanaphoras de Varia Historia portugueza, Lisboa, Antonio Craesbeeck de Mello, 1676; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira  3.º Período: 1910-1952, Funchal, Câmara Municipal do Funchal,1953; REIS, Carlos e LOPES, Ana Cristina, Dicionário de Narratologia, 7.ª ed., Coimbra, Almedina, 2011; RODRIGUES, José Joaquim, Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1950; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. 2, Funchal, DRAC, 1998; SOARES, João Nóbrega, “Poetas e Prosadores Madeirenses: Júlio da Silva Carvalho”, Gazeta da Madeira, 8 mar. 1866, pp. 1-3; TEIXEIRA, Mónica, Tendências da Literatura na Ilha da Madeira nos Séculos XIX e XX, Funchal, CEHA, 2005; VIEIRA, Gilda França e FREITAS, António Aragão de, Madeira: Investigação Bibliográfica, vols. 1-3, Funchal, DRAC, 1981-1984; digital: DÍAZ-TOLEDO, Aurelio Vargas, “Los Libros de Caballerías Portugueses Manuscritos”, in Destiempos, dez. 2009-jan. 2010, ano 4, n.º 23, pp. 217-231: http://www.destiempos.com/n23/vargas.pdf (acedido a 30 jun. 2014).

Paulo Figueira

(atualizado a 04.03.2016)