obra pedagógica joão de deus

A obra pedagógica sob a égide João de Deus deve a sua origem ao poeta e pedagogo autor da Cartilha Maternal, publicada em 1877, e a Casimiro Freire, fundador da Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus em maio de 1882. Esta associação passou depois a designar-se Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas, de que ficarão só estes dois últimos sob proposta de João de Deus Ramos, continuador da Educação Popular iniciada pelo seu progenitor. Aquele fundou os Jardins-Escolas João de Deus e os Cursos de Didática Pré-Escolar, cuja pedagogia reflete a pedagogia do pai, do filho e dos que lhe sucederam.

Vida e Obra de João de Deus

João de Deus de Nogueira Ramos, poeta lírico e pedagogo, nasceu em S. Bartolomeu de Messines a 8 de março de 1830 e pertenceu a uma família simples e numerosa. Até 1849, viveu na sua terra natal e frequentou as aulas eclesiásticas dadas pelo padre Joaquim Veríssimo dos Reis e Almeida que o preparou para os exames de Ordens Menores ao sacerdócio. Admitido a exame e aprovado, recebeu a prima tonsura e os quatro graus das ordens menores a 23 de setembro de 1848, na capela do Palácio Episcopal de São Brás de Alportel.

Em 1849, fez os exames preparatórios à Universidade de Coimbra, matriculando-se depois no 1.º ano do curso de Direito. Concluído o 1.º ano, regressou a São Bartolomeu de Messines, ficando alguns meses no seminário de Alportel com os seus irmãos que ali se preparavam para o sacerdócio. Em Alportel, conheceu Cândida, para quem escreveu poemas como “A Pomba” que, segundo Teófilo Braga, marca “a primeira manifestação poética do seu talento incipiente” (BRAGA, 1930, 12), manifestação publicada, em 1866, no jornal O Eco do Lima.

Concluiu o 3.º ano do curso em 1853. No início deste ano letivo, em 15 de setembro de 1852, João de Deus e os seus pais fizeram a Escritura do património para se habilitar às Ordens Sacras, escritura esta que transitou de seu irmão, o P.e João Gregório Ramos, por este ter falecido.

No ano letivo subsequente, 1853-1854, matriculou-se no 4.º ano, mas perdeu-o por faltas, pois passou grande parte do tempo no Seminário de Faro com seu irmão António Ramos, compondo ali o poema “Ao Túmulo”, publicada em Coimbra na Estreia Literária em dezembro de 1858).

De 1854 para 1855, matriculou-se de novo no 4.º ano de Direito e no 1.º ano da Faculdade de Filosofia como aluno voluntário, obtendo o grau de Bacharel em Direito. No final deste ano, publicou o seu primeiro poema, intitulado “A Oração”, na Revista Académica de Coimbra, revelando “em todo o seu esplendor o talento poético” no meio da “geração académica” (BRAGA, 1930, 13-14). Nos três anos letivos subsequentes, não se inscreveu em Direito nem em Filosofia, pois não pensava concluir o curso.

Em 1856, refere ao cónego António Caetano da Costa Inglês que o clero algarvio está a obstar à sua ordenação: “Fez-se o requerimento, e como sabe, não foi ainda despachado” (DEUS, 1898, 306-307). Em 1857, numa outra carta escrita ao mesmo cónego, revela que decidira não se ordenar porque o clero fizera da sua “dignidade moral” um problema, sem nada esclarecer consigo. Considerando que a sua consciência não podia ser sujeita a averiguações mesquinhas e convicto das suas crenças religiosas, afirmava: “Aquilo para que a providência do homem não criou um tribunal, está ainda no mundo sujeito a uma certa justiça. É dessa que eu não prescindo, e a essa que tudo isso e muito mais pertence” (DEUS, 1898, 308-313).

Desta forma, e por imposição do seu amigo Manuel de Paula da Rocha Viana, no ano letivo de 1858-1859 matriculou-se no 5.º ano, acabando a formatura em Direito. A 23 de março de 1859, João de Deus renunciou ao património que seus pais haviam constituído para ele seguir a vida eclesiástica, a favor de seu irmão António Ramos.

Terminados os estudos, deixou-se ficar por Coimbra. Sempre rodeado de amigos, ditava-lhes versos que eles transcreviam. Graças a estes amigos coletores, como Manuel da Rocha Viana, João Vilhena, Pinto Osório, Guimarães Fonseca, Rodrigo Veloso, foram publicados poemas seus em vários periódicos, especialmente a partir de 1858, que demonstram a ascensão da primeira fase do seu talento poético.

Ainda em Coimbra, também se dedicou à pintura, recebendo elogios de todos os que se relacionavam com ele, e tocava viola de arame. Associada à veia literária e poética, desenvolveu uma intensa atividade na imprensa, colaborando em vários jornais e revistas de Coimbra, Beja e Évora. De março a maio de 1860, colaborou n’O Académico – Publicação académica, científica e literária com outras figuras eminentes, publicando no 1.º número duas poesias, “Gaspar” e “Amor” (O Académico, 1, 1 mar. 1860, 19 e 44). Segundo Alberto Teles, o fundador deste periódico, ao selecionar o grupo de redatores encarregados da publicação, terá “apresentado ao público o grupo de prosadores e poetas da escola de João de Deus”, constituindo “um estímulo para novos e maiores cometimentos” (TELES, 1905, 225-226).

Depois destes anos preenchidos por dificuldades económicas e familiares, (in)decisões pelo sacerdócio, ensino académico pouco atrativo, inconstância de residência e alguma boémia, regressou a São Bartolomeu de Messines em 1861. Na passagem por Beja, foi contratado para a redação de O Bejense, a troco de lhe pagarem as despesas, pois sempre fora arredio ao dinheiro. A 30 de outubro de 1861, saiu o primeiro número deste jornal, inteiramente escrito pelo poeta. Neste periódico, publicou grande parte da sua produção poética, antes e depois de ser redator, e escreveu muita prosa, entre 1861 e 1895, de que é exemplo o artigo publicado no n.º 150, de 7 de novembro de 1863, sob a epígrafe “Os Lusíadas e a Conversação Preambular”.

Com efeito, Tomaz Ribeiro publicara em 1862 o poema “D. Jaime ou A Dominação de Castela”, precedido de uma longa “Conversação Preambular”, da autoria de Feliciano de Castilho; os elogios contidos neste prefácio mereceram uma veemente crítica de João de Deus, especialmente pelo facto de Castilho ter proposto que Os Lusíadas fossem substituídos nas escolas por “D. Jaime”. Esta polémica foi considerada por muitos o preâmbulo da Questão de Coimbra e, segundo Teófilo Braga, contribuiu “para a dissolução do ultrarromantismo”: com o seu artigo, João de Deus, “começa o fenómeno moral e intelectual da dissidência da Escola de Coimbra, em 1865, proclamada na carta Bom Senso e Bom Gosto e no folhetim Teocracias literárias, repelido pelo Jornal do Comércio”, que só será bem entendido, “sobretudo na transformação da poesia lírica em Portugal”, se estudarmos “João de Deus como seu precursor”. Ele “precedeu no movimento filosófico e crítico os Dissidentes de Coimbra, e, sem conhecer a renovação das doutrinas nem teorias sociais, nem a síntese monística das ciências físicas ou naturais, nem a indisciplina revolucionária; sem ter em vista romper com o passado nem proclamar novas afirmações, […] fecundou duplamente a poesia portuguesa, pela sua obra e por uma influência imediata […]. Nenhum de entre os modernos poetas tem como ele uma individualidade tão sua, e ao mesmo tempo intensamente nacional” (BRAGA, 1930, 20-21).

Por volta de 1864, deslocou-se para Évora, onde colaborou na redação da Folha do Sul, de Montemor-o-Novo, com Rocha Viana e Filipe Simões, publicando um ano depois algumas composições desta segunda fase artística. Surpreendido pela Questão Coimbrã em 1865, e achando-se deslocado das utilidades de um jornal político de província que se esgotava na polémica, abandonou a Folha do Sul e regressou a São Bartolomeu de Messines, dedicando-se à caça, à tradução, à escrita de “poesia objetiva e idílica” e à contemplação da natureza, de que é exemplo o poema “Remoinho”, que é um texto infantil (BRAGA, 1930, 19-20 e 23).

Após a eleição a deputado pelo círculo de Silves, a 5 de abril de 1868, devido à influência de amigos, deslocou-se para Lisboa, onde permaneceu até ao fim da sua vida, prestando juramento nas cortes a 18 de maio. Com desprestígio e certa inaptidão exerceu o cargo, permanecendo uma só legislatura na Câmara dos Deputados.

Em Lisboa, conheceu Guilhermina Battaglia, vinte anos mais nova, com quem teve uma filha, Maria Isabel (19/12/1869), e com quem se casou a 4 de maio de 1874. Depois do casamento, nasceram mais três filhos, José do Espírito Santo (4/04/1875), João de Deus Ramos (26/04/1878) e Clotilde Rafaela (24/10/1882); o terceiro filho foi eleito pelo pai para a sucessão da sua obra pedagógica.

Conhecido e admirado como poeta, foi em 1893 que publicou Campo de Flores, coligido por Teófilo Braga, sob as suas vistas. Esta obra integra as obras precedentemente publicadas – “Flores do Campo” em 1868, “Folhas Soltas” em 1876 e “Ramo de Flores” em 1879 –, com acrescentos de dispersos e inéditos, tal como a segunda edição em 1896, obra póstuma. Com a mesma preocupação de escrever para os simples, criou literatura infantil, sendo considerado “o poeta emblemático da infância”. Sensível aos problemas sociopolíticos e culturais da época, denuncia, através da sua poesia, a situação da mulher, o abandono infantil, a fome, a pobreza, a indiferença e a repressão social, a inércia política, a injustiça e a discriminação, a escravidão, a falta de habitação, a escola e o analfabetismo (CHÁ-CHÁ, 2009, 41-42 e 62) (CHÁ-CHÁ, 2009, 41-42 e 62).

Em 1870, publicou com António José de Carvalho, o Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil, cujo desígnio exprime no prólogo: “tão necessário a todos os que desejem falar sem erros de pronúncia, tão vulgares entre pessoas ainda razoavelmente instruídas” (DEUS, 1890, 5). Para além de outras obras que traduziu, verteu do escritor francês Barrau Os deveres dos filhos para com os seus pais em 1875, adaptando-o em 1877 com textos graduados, que em 1881 passaram a fazer parte da Arte de Leitura: segunda parte, um volume independente da Cartilha, incluindo no final a Tábua de Pitágoras para as operações da adição e multiplicação.

Em 1876, publicou Leituras correntes – seleta clássica para uso das escolas, com textos do padre António Vieira, e em 1877 Primeiras leituras, obras “aprovadas pelo governo para uso das escolas primárias”. Até à página 25, todos os textos são graduados – ou seja, com as sílabas de cada palavra destacadas com tonalidades alternadas de cinzento e preto, a fim de facilitar a leitura dos fonemas – e do Padre António Vieira, “cujo estilo é lei” (DEUS, 1877, 52).

Em 1877, publicou a Cartilha Maternal ou Arte de Leitura. A par da alfabetização a adultos e crianças, João de Deus realizou gratuitamente Cursos de Leitura/conferências em casa para professores de todos os distritos de Portugal, muitos dos quais eram enviados pelas câmaras municipais para aprenderem a ensinar pelo seu método. Desenvolveu esta atividade até ao fim da sua vida, com o apoio da mulher, que lhe sucedeu no trabalho após a sua morte.

À medida que o método ia sendo aplaudido e propagado em todos os municípios pelos professores que ensinara, iam surgindo recensões do mesmo em diferentes jornais, com opiniões e argumentos a favor e contra. Destas apreciações, foram compiladas: A Cartilha Maternal e o Apostolado (1881), com textos publicados entre 1877 e 1878; e A Cartilha Maternal e a Crítica, publicada após à sua morte (1897), com documentos saídos entre 1878 e 1883. João de Deus considerava a sua Cartilha Maternal “um instrumento de civilização” superior a qualquer crítica e uma “das mais perfeitas ou a mais perfeita das que se tem publicado em Portugal e lá fora” (DEUS, 1881, 9), sendo a obra que de facto o notabilizou como pedagogo. Assim, embora tivesse sido conhecido e admirado como poeta antes de publicar a Cartilha, a partir de 1878, preocupado unicamente com os problemas circundantes ao ensino, João de Deus submete a poesia ao serviço da educação, compondo literatura para crianças e defendendo na imprensa o seu método com prosa e sátira às críticas que lhe eram feitas pelos seus detratores.

Ainda como obra póstuma, foi publicado Prosas (1898), de novo com a coordenação de Teófilo Braga, onde se encontram diversos artigos e cartas do poeta pedagogo, essenciais para a sua biobibliografia e o seu pensamento. A publicação do seu método de escrita e de contar foi-lhe muito solicitada, mas só em 1896 foi publicada a Arte de Escrita, tendo a 2.ª edição anotações de seu filho João de Deus Ramos; em 1914, saiu a Arte de Contas, sistematizada e completada pelo seu discípulo Frederico Caldeira e com uma nota introdutória de Ramos.

No seu 65.º aniversário natalício, em 1895, e por ocasião do seu falecimento, em 1896, os estudantes promoveram grandes manifestações de homenagem ao poeta pedagogo, como “preito de admiração, simpatia e gratidão” pela sua obra. No dia 8 de março de 1895, foi realizado um cortejo do Terreiro do Paço até à casa de João de Deus, tendo o rei D. Carlos I, antes do cortejo, ido a casa do poeta para o condecorar com a Cruz de Santiago, e o governo emitido decreto “relevando João de Deus do pagamento dos direitos de mercê da Gran-Cruz de São Tiago” (BRAGA, 1905, 497). Esta apoteose foi celebrada em vários distritos e capitais e foi notícia em dezenas de periódicos de Sul a Norte do país; a informação impressa foi coligida por Teófilo Braga, com a colaboração de Maria Isabel Ramos, filha do poeta, e em 1905, por ocasião do 75.º aniversário do seu nascimento, foi publicada em O Festival de João de Deus.

João de Deus faleceu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa, dez meses depois daquela apoteose. O seu corpo esteve deposto na igreja da Estrela e foi velado por estudantes, devendo-se a estes a organização do cortejo fúnebre desde a igreja da Estrela até ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou sepultado: o seu corpo foi levado num coche real por um grupo numeroso de estudantes, sendo transladado mais tarde para o Panteão Nacional. Em o Resistência, Teófilo Braga publicou um artigo – “João de Deus” –, em que nos possibilita entender a influência da obra do pedagogo e poeta na sociedade da época: “O sentimento é uma força imensa, que precisa ser aproveitada e dirigida […]. É a morte que nos incorpora na humanidade; os que foram egoístas ofuscam-se na sombra do esquecimento; os que viveram para os outros sobrevivem na memória infinita dos que ficam. João de Deus morrendo ficou imortal” (BRAGA, Resistência, n.º 96, 19 jan. 1896, 22-23). Por Projeto de Lei proposto por Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, entre outros, foram pagas as despesas do funeral do pedagogo e foi concedida à família de João de Deus uma pensão anual de 1.000$000 réis, isenta de impostos.

João de Deus é recordado na toponímia, em bustos e estátuas – no Jardim da Estrela em Lisboa, no Penedo da Saudade em Coimbra, e no Jardim de Faro –, em instituições e museus de Lisboa e Silves (que também lhe dedicam uma Biblioteca) e em especial nos jardins-escola fundados em seu nome; a sua memória é perpetuada em mais de uma centena de locais, inclusive a Avenida João de Deus na Madeira.

Divulgação do método João de Deus na Madeira

Casimiro Freire, natural do Pedrógão Pequeno (1843-1918), tornou-se republicano em 1862 e foi um dos fundadores do Centro Republicano em 1876. Casado com a sogra de João de Deus, Maria Madalena Battaglia, tornou-se, desde a publicação da Cartilha Maternal, um dos maiores propagandistas do método João de Deus. Impressionado com a situação do ensino em Portugal, como a falta de escolas e de professores e a elevada taxa de analfabetismo, urgia a necessidade de soluções alternativas à educação implementada, cuja iniciativa privada deveria solucionar os “devassos da monarquia” (Um apóstolo da Instrução…, 1930, 9-11 e 72).

Não obstante as reações, nasceu em redor da Cartilha Maternal uma obra de solidariedade social. Depois de vários intentos, fundou a Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus a 18 de maio de 1882, na redação de cujos estatutos colaboraram, além de João de Deus, Jacinto Nunes e Bernardino Pinheiro; os estatutos foram aprovados por Alvará de 16 de agosto de 1882 e pelo Governador Civil de Lisboa, Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque. Pela importância que a associação e os respetivos estatutos assumem perante o método de João de Deus, e tendo em consideração a sua repercussão histórica na Madeira, transcrevemos dois artigos:

Art.º 1.º – A Associação das Escolas móveis tem por fim ensinar a ler, escrever e contar pelo método de João de Deus, os indivíduos que o solicitarem, até onde o permitam os seus meios económicos, enviando nesse intuito às diversas povoações da nação portuguesa, professores devidamente habilitados. […]. Art.º 15.º – Só pode ser investido no encargo do professorado quem estiver no gozo dos seus direitos políticos e civis e apresentar documento, passado pelo autor, […] de que tem inteiro conhecimento do método de João de Deus” (AEMJD, 1882, 3 e 6).

Estes estatutos deixam-nos claro a necessidade de uma iniciativa privada devidamente organizada a fim de aplicar o método do pedagogo de leitura, escrita e contas com professores habilitados. A partir de então, a associação torna-se para Casimiro Freire uma “obsessão de toda a sua vida e lhe dá um lugar perpétuo entre os beneméritos da sua Pátria”, fundando este organismo “de que foi tesoureiro durante 26 anos, e que o seu esforço e abnegação sustentaram contra os poderosos inimigos do método e a indiferença geral” (Um apóstolo da Instrução Popular…, 1930, 11).

João de Deus estabeleceu diversos contactos, a fim de iniciar a primeira missão na cruzada contra o analfabetismo. Entre setembro e outubro de 1882, escreveu a Antero de Quental (Vila do Conde), Jacinto da Silva Alves (Mafra), Azevedo Castelo Branco (Vila Real), Luís Mascarenhas (Faro), Pedro Viana (Marinha Grande), solicitando o seu apoio e manifestando o desejo de um bom começo, a fim de evitar polémicas desagradáveis como as que a Cartilha lhe tinha provocado.

O Visconde de Castanheira de Pera, preocupado com a falta de “instrução dos operários da sua fábrica e dos seus conterrâneos”, solicitou que ali se realizasse a primeira missão da escola móvel. Iniciada a 24 de novembro de 1882, com dois cursos, um diurno para crianças a partir dos sete anos e um noturno para adultos de ambos os sexos, terminou no dia 25 de fevereiro de 1883 com a realização dos exames, no fim de 61 lições efetuadas pelo professor João António Epifânio Baleizão. Inscreveram-se nos cursos 58 alunos, tendo-se apresentado a exame apenas 21 alunos (AEMJD, Relatório 1882-1883, 1).

Em 3 março de 1888, a associação publicou o mapa das missões realizadas e entregou-o no parlamento. Este facto levou as câmaras à resolução da lei de 2 de agosto de 1888 e da portaria de 11 do mesmo mês, declarando a Cartilha Maternal método nacional e nomeando João de Deus comissário geral do método, com o vencimento anual de 900$000 réis. Até esta data, a associação apresentava no seu Relatório 1886-1888 saldo positivo; a partir de então, reduziram-se “os donativos extraordinários”, pois “afigurou-se a muitos subscritores que esta associação havia perdido a melhor justificação da sua existência, depois da lei de 2 de agosto de 1888”, e quando o presidente da associação, Bernardino Pinheiro, apresentou, na sessão de 25 de junho de 1890, na câmara dos deputados, o “seu projeto de lei para a criação de escolas móveis distritais, com mais fundamento se julgou terminada a missão” da associação (Id., Relatório 1889 a 1892, 1893, 6). O cargo de comissário geral seria extinto em 1892 por Oliveira Martins, e em 1895 o método foi retirado das escolas pela direção geral da instrução.

Por ocasião da morte de João de Deus, a 11 de janeiro de 1896, a associação tinha realizado 68 missões, correspondendo à mesma quantidade de escolas, cada uma com dois cursos de alfabetização, um diurno para crianças e um noturno para adultos, concretizando-se 136 cursos de alfabetização. A partir de 1901, novas atividades foram desenvolvidas para a promoção da alfabetização, o desenvolvimento das missões e angariação de fundos. Em 1901, a direção da associação criou uma Comissão Auxiliar de propaganda, que incluía Teófilo Braga, entre outros, e publicou uma circular, «invocando o auxílio público para as Escola Móveis», que resultou em 367.500 subscritores e uma soma de 1.110.000$000 réis (Id., Relatório, 1897-1904, 7 e 9).

Neste mesmo ano, foram realizadas 16 missões, 9 das quais começadas entre julho e dezembro. Em novembro de 1901, João de Deus Ramos (1878-1953) publicou o Guia Prático e Teórico da Cartilha Maternal ou Arte de Leitura de João de Deus na Imprensa da Universidade de Coimbra, enquanto estudante de Direito desta universidade, um intento que seu pai havia idealizado sem nunca o conseguir concretizar. Nas últimas duas décadas da sua existência, embora com maior número de missões realizadas, novas dificuldades surgiram e novas iniciativas foram tomadas. No final de 1903, um ano após a conclusão do curso de direito na Universidade de Coimbra e sendo então professor no Colégio Camões, em Lisboa, João de Deus Ramos iniciou as conferências nas províncias de propaganda do método de João de Deus, sendo a primeira em Viseu, a convite do subinspetor escolar local, António de Bastos Pinto. A partir de então, e à semelhança do que seu pai fazia em casa, realizou conferências em todos os distritos de Portugal, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de missões das escolas móveis. Em sequência da Circular do Ministério da Guerra, de outubro 1901, que mandou “ensinar pelo método de João de Deus os recrutas das escolas regimentais”, foram realizadas “missões nos regimentos de infantaria” em vários concelhos e distritos, de que são exemplo as primeiras conferências e missões realizadas na Madeira.

A par desta atividade de conferencista, no ano escolar de 1905-1906 tornou-se 1.º secretário da associação e, em fevereiro de 1905, iniciou a publicação da revista A Instrução do Povo – Publicação mensal da Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, sendo o seu diretor até 1910. Esta publicação tinha como objetivo principal “contribuir eficazmente para a extinção do analfabetismo, […] advogando os ideais pedagógicos de João de Deus, ideais que encontraram em Casimiro Freire o seu mais tenaz e sensato propagandista”, refere Ramos na página de abertura (RAMOS, 1905, 1). A esta, sucederá o Boletim de Propaganda em novembro de 1908, tendo a sua última edição em 1919.

A Portaria de 16 de abril de 1906, emanada da 2.ª Repartição da Direção Geral da Instrução Pública, por Ernesto Hintze Ribeiro, reconheceu o eminente serviço propagandístico prestado por Ramos, a favor do método de leitura e escrita do pai, e oficializou a continuação do trabalho desenvolvido em todas as escolas primárias do país, dum modo especial as escolas que habilitavam para o magistério primário, normais e distritais.

Entre várias alusões ao sucesso da associação nestes primeiros anos do séc. XX, destaca-se o contributo do irmão de João de Deus, o padre António Ramos, e do filho do pedagogo, João de Deus Ramos, que foi coloca na lista dos sócios de mérito (AEMJD, Relatório, 1905-1906, 8-11). Sob proposta de João de Deus Ramos foram criadas Comissões Auxiliares de propaganda em 1907, sendo o seu regulamento aprovado no ano seguinte e constituindo-se em várias regiões de Portugal, inclusive na Madeira.

Em sequência dos sucessos obtidos pela associação, o Parlamento aprovou duas cartas de lei, publicadas no Diário do Governo de 10 de agosto e de 15 de setembro de 1908, em que concede vários benefícios e isenções à Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus (Id., Ibid., 5-13). Até à reformulação dos estatutos, em agosto de 1908, a Associação tinha finalizado 219 missões, estando em funcionamento 4 missões. Sob proposta de João de Deus Ramos, passou a denominar-se Associação de Escolas Móveis João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas, alargando o campo da atividade pedagógica sob dois aspetos. O primeiro está relacionado com a escola móvel e a criação de bibliotecas ambulantes e de outras atividades de cariz social e educativo, como a organização de “gabinetes de leitura” a funcionar durante a realização de cada missão, e a realização de palestras e conferências populares rurais, a fim de sensibilizar o povo para a utilidade da instrução, proporcionando-lhe noções de progresso social e económico, conforme o 2.º e 3.º pontos do 1.º artigo. Pelo artigo 17.º, o tempo de cada missão foi alargado para cinco meses, podendo ser alargado até oito meses para aperfeiçoamento e mediante autorização da direção, segundo o 25.º artigo. Outro aspeto está relacionado com a fundação de um modelo português de escola infantil, segundo o espírito e a doutrina da obra pedagógica João de Deus, para crianças dos três aos sete anos (AEMJDBAJE, Estatutos, 1908, 3, 6, 8). Desta forma, o primeiro Jardim-Escola João de Deus foi inaugurado a 2 de abril de 1911, em Coimbra.

Nova reformulação de estatutos acontece em 1911 e em 1914, passando a instituição a denominar-se Associação de Escolas Móveis e Jardins-Escolas João de Deus; a idade das crianças para os jardins é alargada, passando a ser dos quatro até aos nove anos. Faz ainda parte dos seus fins a realização de conferências e leituras públicas na sede da associação, bem como a criação de uma universidade popular e de um Museu João de Deus em homenagem ao autor da Cartilha (AEMJDJ, Estatutos, 1914, art. 1.º, 3, 2).

Neste mesmo ano, foi publicado o Regulamento e Programa das Missões, em que podemos observar a aplicação do pensamento de João de Deus. O programa iniciava-se com a leitura, seguia com a caligrafia dos algarismos, para prosseguir com as contas e a escrita propriamente dita. A título de exemplo, sintetizamos o programa das lições das missões:

1.º período (50 lições) – Para o professor se familiarizar com os alunos, os primeiros quatro dias são dedicados à leitura, seguindo as lições da Cartilha Maternal. Depois da “aprendizagem caligráfica dos algarismos”, pode-se “alternar o ensino da leitura, escrita e contas”, com classe dividida em pequenos grupos: ensinando a ler até ao fim das lições da Cartilha, a caligrafia das letras até à lição da letra z, e a contar com a ajuda do primeiro caderno da Arte de Contas. Para a lição da leitura pela Cartilha em ponto grande, são formados grupos de três, quatro ou cinco alunos no máximo, mas a leitura é individual.

2.º período (37 lições) – Exercícios de leitura de textos graduados nos Deveres dos Filhos, acompanhados da doutrina da Cartilha, continuação da aprendizagem caligráfica até ao fim do alfabeto minúsculo, acompanhada de exercícios de ditado de palavras, e conhecimento da subtração e divisão por coluna.

3.º período (37 lições) – Exercícios de leitura dos restantes textos com diversas formas de letra impressa nos Deveres dos Filhos ou noutro livro escolhido a propósito, aprendizagem caligráfica das letras maiúsculas, continuação do ditado de palavras soltas e de pequenas frases cuja análise dos elementos verbais já tenha sido feita e exercícios de problemas, em cuja solução entre uma operação de números inteiros, terminando com a aprendizagem prática de medidas e pesos (AEMJDBAJE, Regulamento e Programa das Missões, 1914, 12-15).

A 20 de outubro de 1918, faleceu Casimiro Freire. A associação perdeu o seu fundador, mas entende que a melhor homenagem a prestar-lhe é o seguimento do seu exemplo cívico. Se a oscilação do número de missões realizadas desde o início até ao final do séc. XX parece ter influência nas discussões e nas contradições geradas em torno da Cartilha, a falta de recursos materiais, no entanto, foi um problema gerido com muita tenacidade, porque a associação era sustentada por quotas dos sócios e por subsídios, donativos e legados diversos de adeptos notáveis, que assim combatiam o ineficiente sistema educativo monárquico. Por outro lado, o sucesso obtido pelas Escolas Móveis pelo Método de João de Deus influenciou o plano republicano da instrução popular. Atendendo ao êxito destas escolas, o decreto de 29 de março de 1911, de que João de Deus Ramos foi um dos redatores, determinou a criação de escolas móveis em zonas de difícil criação de escolas fixas. No entanto, só começaram a funcionar pelo decreto de 25 de outubro de 1913, que criou neste mesmo ano 172 escolas destinadas a adultos, tendo uma frequência anual de 13.000 inscritos até à sua extinção em 1930.

A criação das escolas móveis oficiais enfraqueceu, sem dúvida, a atividade da Associação das Escolas Móveis pelo Método João de Deus, que pôs fim à sua atividade de escola móvel no ano escolar de 1920-1921. De 1882 a agosto de 1921, realizaram-se 487 missões, matricularam-se/alfabetizaram-se 28.941 alunos, dos quais 12.727 realizaram exame e deram provas públicas de terem aprendido a ler, escrever e contar.

Com a reformulação dos seus estatutos em 1926, a instituição passou a denominar-se Associação de Jardins-Escolas João de Deus, tendo como objetivo principal “realizar um modelo português de escola infantil, seguindo o espírito e doutrina da obra educativa de João de Deus, para abrigo, educação e ensino de crianças de ambos os sexos, de quatro até ao limite máximo de nove anos de idade” (AJEJD, Estatutos, 1926, art.º 2.º, 1). Até 1953, data do falecimento de João de Deus Ramos, fundou 11 Jardins-Escolas em Portugal.

A Associação de Jardins-Escolas João de Deus, depois Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), mantém em atividade, no começo do séc. XXI, quase meia centena de jardins-escolas distribuídos por diversos pontos do país, inclusive na Madeira. Os Jardins-Escolas João de Deus recebem apoio financeiro do Ministério da Educação e do Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

Difusão do método João de Deus na Madeira

À semelhança do elevado número de iletrados de Portugal Continental, que no censo da população do reino de 1 de dezembro de 1890 rondava os 79,2 % ou 4.000.929 num total de 5.049.729 habitantes, no distrito do Funchal observava-se uma taxa de iletrados muito elevada, tendo algumas freguesias uma população completamente analfabeta, especialmente a feminina. Desta forma, o processo de divulgação do método de João de Deus na Madeira foi idêntico ao de Portugal Continental, sendo padres, escolas regimentais, presidentes das câmaras municipais, professores, comissários, coronéis, entre outros, a delinear a sua implantação.

Em setembro de 1878, um ano após a publicação da Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, o padre João Maurício Henriques (1852-1901), do Funchal, fez o Curso de Leitura em casa de João de Deus. Embora se ignore a influência deste clérigo na divulgação do método joanino na Madeira, é provavelmente a ele que se devem os primórdios da sua implantação. Além da sua notória colaboração na imprensa local, de que é exemplo o Diário de Notícias da Madeira, o padre João Henriques foi capelão militar.

No mesmo ano, Miguel Gomes da Silva, capitão diretor da Escola Regimental do Batalhão de Caçadores n.º 12 do Funchal, manifestou pessoalmente ao pedagogo o desejo de adotar a Cartilha Maternal na classe de cabos. Em carta a João de Deus, de 5 de fevereiro de 1880, refere o que já havia dito dois anos antes: “Tendo sido nomeado diretor da escola regimental do batalhão de Caçadores n.º 12, em conformidade do regulamento a que se refere o decreto de 22 de dezembro do ano próximo findo, resolvi, em cumprimento dos desejos que em 1878 pessoalmente manifestei a v., adotar para a classe de cabos a Cartilha Maternal ou Arte de leitura, de que v. é autor” (DEUS, 1900, 175).

Em setembro de 1879, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, conde de Carvalhal, enviou a Lisboa o professor Teodoro Henriques para aprender a ensinar pelo método de João de Deus. No seu regresso à ilha, Teodoro Henriques divulgou-o aos professores das escolas públicas e privadas. “Em 1 setembro de 1879, dirigiu o conde de Carvalhal, presidente da Câmara Municipal do Funchal, um ofício ao Dr. João de Deus, apresentando-lhe Teodoro João Henriques (padre), encarregado pela mesma Câmara de estudar o novo processo de ensino de leitura às crianças, organizado por aquele distinto poeta e zeloso apóstolo da instrução popular. O professor Henriques esteve alguns meses em Lisboa, sendo ele quem no regresso à Madeira divulgou entre o professorado público e particular o processo de ensino que aprendera com o ilustre autor da Cartilha Maternal” (SILVA e MENESES, II, 1978, 362).

Teodoro Henriques, em carta datada a 5 de fevereiro de 1880, pedia a João de Deus 16 coleções dos Quadros ParietaisCartilha Maternal em ponto grande para o ensino simultâneo, que significava uma escola por cada coleção. Para além da alfabetização que promovia, tencionava fazer vários cursos na ilha. “Terá a bondade de me mandar na viagem de 20 deste mês 16 coleções das tabelas do método. Está tanta gente desejando aprender, e não posso ensinar simultaneamente. Desejava que viesse uma coleção encadernada, para levar de um lugar para outro, como um livro, pois tenciono estabelecer cursos em diferentes pontos da cidade” (DEUS, 1900, 175)

A 5 de março de 1880, Teodoro Henriques já ministrava a professores e professoras o Curso de leitura sobre a Cartilha Maternal com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, sendo convidado pelo comissário de estudos a dar formação a professores públicos em setembro. “Os professores e professoras a quem estou lecionando estão quase a completar o curso. Depois que comecei a ensinar, e com as explicações que recebi de v. é que comecei a ver as excelências do método. Realizou-se em mim o rifão: docendo discimus. A câmara está com a melhor vontade e não se tem poupado a despesas. O comissário de estudos já me pediu para eu lecionar aos professores públicos no mês de setembro, por ser de férias, se o governo não mandar antes que eles aprendam” (DEUS, 1900, 176).

Três anos mais tarde, em 8 de outubro de 1883, Teodoro Henriques informava João de Deus de que o seu método fora argumento das conferências pedagógicas realizadas na Madeira, tendo sido evidenciado o problema de falta de material didático, pois os professores que tinham feito a formação com ele tinham reconhecido a superioridade do método, mas não o podiam transmitir além dos confins do Funchal, pelo facto de as câmaras rurais não terem adquirido os quadros parietais para as suas escolas, como fizera a câmara do Funchal: “Desde que aí estive nunca mais tive notícias de v. senão por ocasião da vinda das tabelas. Muitas vezes cá tenho falado em v. e muitas pessoas têm perguntado pelo método de escrita, que se torna indispensável. Ainda hoje nas conferências pedagógicas, falando-se à cerca do método de v., alguém fez notar a falta do método de escrita. Tenho instado e têm pedido os professores, para que as câmaras rurais mandem buscar as tabelas para as suas escolas, como fez a câmara do Funchal. Ensinei os professores; reconhecem a excelência do método, mas estão sem o poder transmitir” (DEUS, 1900, 207).

Até 1907, não encontramos literatura que nos forneça informação sobre a implantação do método de João de Deus na Madeira. Em julho de 1907, João de Deus Ramos iniciou conferências sobre o método de João de Deus a convite do Coronel Joaquim Maria Alves, comandante militar. As quatro primeiras realizaram-se na Escola Regimental de Infantaria n.º 27, no Funchal, a 5, 6, 7 e 8 de julho, sendo a assistência constituída, na sua maioria, por “oficiais do regimento, oficiais inferiores e representantes da imprensa local”, entre outros. Deste evento, a imprensa regional fez notícia de onde se extrai o seguinte: “O sr. João de Deus Ramos realizou ontem a terceira conferência sobre a cartilha de seu glorioso pai, versando o assunto, num estilo fluente e leve, que a todos prendeu pela suma clareza” (Boletim das Escolas Móveis…, 2, jun.-dez. 1907, 37-38).

Durante esta estada na ilha, João de Deus Ramos convidou algumas entidades eminentes para propagar o método de seu pai. Cinco meses depois, em 23 de dezembro 1907, foi constituída a Comissão Auxiliar das Escolas Móveis pelo Método João de Deus na Madeira, composta pelo Visconde de Cacongo (presidente), Mariano Augusto Machado de Faria e Maia, Diretor das Obras Públicas do distrito (vice-presidente), Francisco Xavier Teixeira (vogal), Manuel Augusto Martins, advogado (tesoureiro) e Cândido Gomes, diretor da escola regimental de infantaria n.º 27 (secretário), sendo o primeiro, o segundo e o terceiro (amigo e colega de João de Deus Ramos em Coimbra) convidados diretamente por João de Deus Ramos.

Embora Cândido Gomes tivesse assumido compromisso com Ramos de constituir a comissão no Funchal, explica na ata de 23 de dezembro que a demora se deve “à necessidade que lhe pareceu haver de preparar a opinião pela propaganda jornalística e pessoal, pois é infelizmente sabido como é difícil implantar e fazer vingar ideia nova, por mais altruísta e utilitária que seja, neste meio, apático, e estragado pelos desmandos passionais ou de uma política, arquimesquinha, ou de uma intolerância religiosa desmascarada. E se não veja-se como o diário nacionalista local – O Jornal – tem atacado as Escolas Móveis, pela confusão de que sejam ateístas e pela deplorável persuasão de que nada de bom e útil e grande, possa germinar e fortificar fora do seu campo religioso” (Ibid., 32).

A comissão tem por fim prestar, na ilha da Madeira, o maior auxílio possível à divulgação do método do autor da Cartilha, quer angariando sócios, quer fazendo festas e representações e promovendo conferências, quer fazendo propaganda à instituição fundada há 26 anos por Casimiro Freire; a título de exemplo, refere-se o produto de uma récita realizada no Teatro D. Maria Pia do Funchal no início de 1908. Os membros desta comissão decidiram, então, oficiar várias pessoas ilustres da Madeira, pedindo-lhes a sua inscrição. Em funcionamento desde 1907 até ao ano escolar de 1913-1914, teve cerca de 240 sócios inscritos, que contribuíram com as suas quotas para a Associação das Escolas Móveis, iniciando com uma subscrição de 163 sócios, como se constata nos relatórios da associação deste período. Mesmo depois da extinção da referida comissão, a associação continuou a ter subscritores madeirenses, tendo em setembro de 1921 como sócio Manuel Augusto Martins.

Depois de algumas diligências de João de Deus Ramos, para efetivamente ter uma organização local de propaganda das Escolas Móveis pelo Método João de Deus na Madeira, realizaram-se seis missões: Funchal, Calheta e São Roque do Faial, como se ilustra na seguinte tabela como síntese dos relatórios da associação nos períodos indicados.

Missões das Escolas Móveis pelo método João de Deus realizadas na Madeira

Número da missãoLocalidadesData de começoAlunos matriculados mmmatriculados inscritosinscritosProfessoresData de ExamoesAlunos Admitidos a exames
97Funchal (Madeira), regimento de infantaria n.º 2715/11/190730Jacinto Simões20/04/190842
00Funchal (Madeira), bateria n.º 3 de artilharia20/11/190728Jacinto Simões20/04/190823
20Calheta (Madeira)29/05/190850Jacinto Simões31/10/190838
38S. Roque do Faial (Santana - Madeira)14/06/190950Jacinto Simões20/11/190938
40Funchal26/07/190950Maria Amália Pinheiro Furtado23/12/190930
26Funchal04/11/191240Jacinto Simões01/07/191337
Total248Total208

A 197.ª missão (1.ª na ilha) funcionou no Regimento de Infantaria n.º 27, a cargo do professor Jacinto Simões. Começaram as aulas pelo método João de Deus – leitura, escrita e contas – em 15 de novembro de 1907 a duas turmas (uma noturna e uma diurna, supõe-se) com 30 soldados analfabetos matriculados. Depois de cinco meses de funcionamento, realizaram-se as provas de aproveitamento, em 20 de abril de 1908, sendo apurados 42 recrutas – pelo que terá havido aulas de alfabetização paralelas às da missão ou inscrições no decorrer das aulas. A 200.ª missão (2.ª na ilha) funcionou na Bateria n.º 3 de Artilharia com o mesmo professor da missão anterior. As aulas começaram em 20 de novembro de 1907 com uma turma de 28 analfabetos matriculados, realizando-se exame cinco meses depois, em 20 de abril de 1908, no qual ficaram aprovados 23 soldados.

Na ata da reunião em que foi constituída a Comissão Auxiliar do Funchal, o secretário Cândido Gomes, capitão de infantaria n.º 27, referia “que se estão realizando duas missões das Escolas Móveis, nesta cidade – uma com duas turmas no 27 de infantaria e outra com uma só na Bateria n.º 3 de Artilharia. E aproveita a ocasião para com prévio assentimento do seu ex.º comandante, convidar a comissão a assistir a uma lição no 27 (onde se estão instruindo cerca de 300 recrutas analfabetos). Ficou resolvida a visita para a segunda semana do próximo janeiro. Nesta altura o secretário pediu licença para apresentar o referido professor Jacinto Simões, o qual fez uma concisa e clara explanação do método de leitura, e referiu o estado de aproveitamento dos recrutas citados, e que apenas contam 23 lições. Refere-se à extrema dificuldade com que lutou nos primeiros dias para entender e fazer-se entender por aqueles alunos dada a rudimentaríssima linguagem, de que dispõem, e assim mesmo muito deturpada; atualmente, porém, estão vencidas as maiores dificuldades e o ensino vai decorrendo muito satisfatoriamente” (Ibid., 32). Como citado, cerca de 300 analfabetos estavam a ser instruídos na infantaria 27, pelo que é possível inferir que, além dos 30 recrutas inscritos na missão da escola móvel, se alfabetizavam muitos outros pelo método João de Deus.

O professor Jacinto Simões também nos confirma fatores intrínsecos à retração dos recrutas perante a aprendizagem: “Verifico uma falta de vontade, um horror ao ensino por parte dos soldados que me faz redobrar de esforços. Duas são as causas principais deste retraimento, a vida selvagem que levavam antes de assentar praça, vegetando encravados entre dois montes, sem convivência com gente culta, fora de todo o contacto civilizador; e o receio de que, sabendo ler, os façam cabos e os acorrentemos dois anos de serviço ao regimento. […] Independentemente destes fatores poderosos da sua quase recusa ao ensino, existe o entorpecimento do cérebro, mercê da falta de estímulo pelas razões acima apontadas. É desolador ver estes homens disporem de um limitadíssimo vocabulário, sendo quase necessário ensiná-los a falar, e encontrando grande dificuldade em compreenderem a lição do r. Indolentes por natureza, falta-lhes a espontaneidade que na classe civil se encontra no aluno que vai à escola com o fim de aprender” (Ibid., 31).

Além das realidades aludidas, a “imprensa reacionária” local, de que é exemplo O Jornal, atacou as escolas móveis considerando-as “ateístas”, com a pretensão de “extinguir o sentimento religioso de toda a face da terra”, e que nada de bom e útil poderia germinar fora do campo religioso. Perante esta calúnia, Jacinto Simões e Cândido Gomes defenderam a Associação das Escolas Móveis no jornal O Povo e no Diário de Notícias, apelando à opinião pública em prol desta instituição (Ibid., 31-32).

A 220.ª missão (3.ª na ilha) funcionou na Calheta, tendo como professor Jacinto Simões. Começou a 29 de maio de 1908 com 50 alunos matriculados e, terminados os cinco meses, foram realizadas as provas de aproveitamento em 31 de outubro do mesmo ano, sendo apurados 38 alunos. A 238.ª missão (4.ª na ilha) foi realizada em São Roque do Faial – Santana, sendo lecionada pelo mesmo professor. Começaram as atividades letivas a 14 de junho de 1909 com 50 alunos inscritos. Findos os cinco meses, realizaram-se as provas em 20 de novembro do mesmo ano, sendo apurados 38 alunos. Embora não tenhamos encontrado documentação sobre o processo de realização das missões até aqui descritas, supõe-se que as primeiras tenham sido requisitadas pelas escolas do regimento e as outras duas pela Comissão Auxiliar do Funchal, por ser prática comum às escolas móveis.

A 240.ª missão (5.ª na ilha) funcionou no Funchal, a cargo da professora Maria Amália Pinheiro Furtado, sendo requisitada pela Comissão Auxiliar do Funchal. Começaram as aulas pelo método João de Deus – leitura, escrita e contas – a 26 de julho de 1909, tendo-se matriculado 50 alunos. Terminado o prazo normal do funcionamento das missões, cinco meses, realizaram-se as provas de aproveitamento a 23 de dezembro de 1909, sendo apurados 30 alunos, 11 do sexo masculino e 19 do sexo masculino. Supõe-se que a professora desta missão seria madeirense, visto não ter lecionado em mais nenhuma missão fora da ilha.

A 326.ª missão (6.ª e última a ser realizada na ilha) foi requisitada pela Comissão Auxiliar do Funchal e funcionou nesta cidade, a cargo do professor Jacinto Simões. Começada em 4 de novembro de 1912 com 40 analfabetos inscritos, teve uma frequência muito regular, tendo desistido apenas 3 alunos até à realização das provas de aproveitamento, em 1 de abril de 1913. Esta missão continuou, para aperfeiçoamento dos 37 alunos aprovados em exame, desistindo, depois, 3 deles e realizando-se provas finais de aperfeiçoamento em 1 de julho, comparecendo os 34 alunos restantes. Ao contrário das missões realizadas anteriormente, esta contém mapa de frequência e aproveitamento dos alunos e exemplares dos exames realizados por Francisco Gomes Dias em 1 de abril e em 1 de julho de 1913. As missões encerravam o seu trabalho na data dos exames, geralmente realizados nos Paços do Concelho perante a presença da imprensa e de identidades locais. Nestas missões foram alfabetizados cerca de 248 alunos, dos quais 208 realizaram exame.

O motivo da descontinuidade das missões na ilha da Madeira terá sido o facto de as escolas móveis oficiais terem começado a funcionar na ilha pelo decreto de 25 de outubro de 1913. Em 1919, existiam 9 escolas móveis oficiais e, em 1922, era 11 o número destas escolas no distrito.

Até fins do séc. XX, não encontramos vestígios oficiosos da implementação e intervenção da pedagogia João de Deus na Madeira. No início do séc. XXI, em 2000, a Associação de Jardins-Escolas João de Deus celebrou um protocolo com a Santa Casa da Misericórdia de Machico. No início de 2001, iniciou-se a atividade do Jardim-Escola João de Deus com 22 crianças, dos 3 a 5 anos, constando “Atividades Extracurriculares de caráter Educativo e Cultural” desenvolvidas em Machico-Madeira no Relatório da Associação de Jardins-Escolas João de Deus de 2001.

No dia 8 de julho de 2002, foi efetuada a compra do edifício sito na Avenida Estados Unidos da América, n.º 163, no Funchal, para o primeiro Jardim-Escola João de Deus na Região Autónoma da Madeira. Imediatamente depois, tiveram início as obras de conservação e ampliação do imóvel, que iniciou o seu funcionamento a 31 de outubro de 2003, com as valências de creche, com 90 crianças, e jardim-de-infância, com 25 crianças, dos 4 meses aos 2 anos e dos 3 aos 5 anos, respetivamente. A inauguração contou com a participação das mais destacadas individualidades da região autónoma, nomeadamente o presidente do Governo Regional da Madeira, o secretário e a diretora regional de Educação, o diretor regional de administração e pessoal da Secretaria Regional de Educação, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, e os corpos gerentes e os diretores dos restantes Jardins-Escolas da associação. Estes, aproveitando o evento, realizaram a conferência pedagógica anual de avaliação para refletirem sobre as práticas de forma a “incrementar uma maior qualidade educativa” (AEMJD, Relatório, 2003, 7, 29, 66-67, 71). No Relatório de 2011, observa-se que o Jardim-Escola do Funchal contava com 187 crianças, das quais 80, com idades entre os 4 meses e os 3 anos, frequentavam a creche, e 107, com idades entre os 3 e os 6 anos, frequentavam o jardim-de-infância.

O método de João de Deus resulta de um conjunto de respostas às questões educativas que se foram colocando ao longo da sua existência. A idealização da doutrina pedagógica de João de Deus serviu de base à pedagogia de seu filho João de Deus Ramos que, ancorado no contexto da Escola Nova, idealizou um modelo de escola aberto e recetivo às novas conceções pedagógicas, cuja aplicação foi seguida de forma inovadora pelos seus sucessores.

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Cecília Varela CHÁ-CHÁ

 (atualizado a 10.08.2016)