ordens e congregações religiosas

As Ordens e Congregações Religiosas são instituições eclesiais que se organizam e funcionam dentro da Igreja Católica com um significativo grau de autonomia em relação à estrutura organizativa canónica das dioceses, consideradas igrejas locais ou particulares. Todavia, as Ordens e Congregações com a sua estrutura, transversal à estrutura territorialmente circunscrita das dioceses, colaboram com estas na edificação espiritual da Igreja de Cristo implantada nas diferentes partes do mundo em comunhão com os bispos diocesanos, denominados canonicamente “ordinários do lugar”. Não se pode estudar cabalmente o processo de expansão portuguesa e mesmo ibérica nos séculos XV e XVI, com a subsequente afirmação dos primeiros impérios planetários modernos, português e espanhol, sem ter em conta o papel da maior relevância desempenhado pelas Ordens Religiosas neste processo. (Lourenço, 2014, 43)

Os membros das Ordens Religiosas e a sua estrutura organizativa “multinacional”, com especial destaque para os Franciscanos, Dominicanos, Agostinhos, Carmelitas e Jesuítas, legitimados pelo seu ideal missionário, foram chamados a acompanhar regularmente as expedições marítimas de descoberta e as armadas de implantação de empórios e colónias ibéricas na África, na América, na Ásia e mais tarde na Oceânia. A primeira grande expansão ultramarina europeia era legitimada, antes das razões económica e política, pela razão religiosa de universalização do Cristianismo, processo subvencionado pelos padroados ibéricos tutelados, por delegação papal, pelas coroas dos reis católicos de Portugal e de Espanha. As Ordens Religiosas tornaram-se os agentes qualificados de evangelização ad gentes e de implantação de novas cristandades que depois se estruturaram em dioceses.

Neste contexto, a formação do Cristianismo madeirense está também intimamente ligada à ação e ao papel desempenhado pelas Ordens Religiosas no processo de expansão universal do Cristianismo, possibilitado pelas viagens marítimas portuguesas e pela implantação do seu império intercontinental. Eram, aliás, as Ordens Mendicantes medievais e, mais modernamente, as suas sucedâneas de vida ativa, como os Teatinos, Jesuítas e Oratorianos, seguidos pelas contemporâneas no “congregações religiosas”, quem, pela sua estrutura organizativa multinacional e habituadas à mobilidade dos seus membros para fins pastorais e missionários, estavam mais bem preparadas para se adaptar àquilo em que o mundo se veio a tornar cada vez mais desde a modernidade. Um mundo globalizado emergia cada vez mais diverso, marcado por um movimento em crescendo de viagens, deslocações, trocas em várias partes do globo, quebrando a lógica das sociedades de tradição medieval, de perfil mais estático.

A gestora Ordem de Cristo

O povoamento do arquipélago da Madeira está umbilicalmente ligado a duas importantíssimas ordens medievais: uma militar e outra mendicante. Primeiramente, ficou ligado à Ordem de Cristo, sucessora direta em Portugal (ou melhor, continuadora com outro nome) da célebre Ordem dos Templários. O Infante Dom Henrique, enquanto grão-mestre da Ordem de Cristo, tornou-se um dos grandes promotores do movimento descobrimentista português. Com a descoberta oficial do Porto Santo e da Madeira, a tutela deste arquipélago no plano político e religioso, fica desde o início sob a alçada do grão-mestrado de Tomar, sede daquela ordem.

Nas primeiras décadas do povoamento, o provimento administrativo, bem como no plano religioso destas ilhas, estava sob a responsabilidade da Ordem de Cristo, que recebia benefícios diretos como pagamento de rendas, dízimos e outras regalias. Foi com uma Carta Régia de D. Duarte, datada de 1433, que se oficializou a entrega da tutela das ilhas madeirenses à Ordem de Cristo. Esta ordem viria a perder a superintendência sobre as ilhas da Madeira e do Porto Santo no século seguinte com a criação da Diocese do Funchal, em 1514. Aliás, o processo de integração deste arquipélago na tutela da Coroa e do Padroado Português começa com a ascensão de D. Manuel ao trono, que sendo então grão-mestre, cargo vitalício, da Ordem de Cristo inicia o processo de transposição dos direitos e deveres para a Coroa, tornando-o território realengo. É sob a tutela da Ordem Militar de Cristo que se criam as primeiras estruturas administrativas e de organização social no arquipélago: constrói-se a alfândega do Funchal, dota-se o capital madeirense dos primeiros edifícios para governo político e religioso e fixam-se os primeiros padres seculares para assumirem a assistência espiritual ao número crescente de comunidades.

A modeladora Ordem Franciscana

Os Franciscanos, presentes desde a primeira hora nestas ilhas, não podiam atender espiritualmente de forma cabal ao crescimento dos agregados populacionais, tanto mais que a vocação franciscana, como a das Ordens e Congregações Religiosas de vida ativa em geral, é fundamentalmente missionária. Cabe aos institutos de vida consagrada lançar as bases para a edificação das novas cristandades e abrir caminho para que sejam erguidas as igrejas locais, ou seja diocesanas, e se tornem pouco a pouco capazes de se autonomizarem, gerando o seu próprio clero. O papel das Ordens e Congregações no quadro das igrejas locais é, pois, supletivo e não constitutivo.

Com efeito, a segunda ordem matricialmente ligada às ilhas do arquipélago da Madeira é a ordem fundada por São Francisco de Assis. Os Franciscanos estão profundamente associados ao impulso pré-moderno de evangelização fora das fronteiras europeias, sendo a sua espiritualidade e o seu espírito “girófilo”  decorrentes da mendicância. De acordo com historiadores como Jaime Cortesão e outros estudiosos, os também chamados Frades Menores foram inspiradores e propulsores, quando não dinamizadores, do investimento em viagens marítimas que viriam a possibilitar os descobrimentos de novas terras e gentes com o fito de evangelizar e encetar trocas comerciais. (Cortesão, s.d., 66)

O ideal missionário de universalização do Cristianismo tinha sido alimentado de forma intensa pela espiritualidade de tradição franciscana e de uma outra a ela associada e com ela promovida, a joaquimita, inspirada em Joaquim de Flora. Esta corrente de raiz milenarista e escatológica esperava a emergência de uma nova era universal de paz e fraternidade. Segundo alguns estudiosos a utopia universal que os franciscanos preconizavam não pode ser separada, como pano de fundo, do movimento expansionista ibérico, onde a Ordem Seráfica detinha uma grande influência nos vários estratos sociais, desde a corte e as casas nobiliárquicas, passando pela burguesia emergente, até ao povo simples. (Franco e Mourão, 2004)

Os Franciscanos, juntamente com os seus irmãos Dominicanos, tinham nascido na baixa Idade Média como um ponto de viragem reformista das Ordens Religiosas medievais clássicas, acompanhando a mudança dos tempos no plano da reorganização social em movimento para as cidades e com a nova mobilidade provocada pelo renascimento do comércio. Como explica Carlos Moreira Azevedo,

As Ordens Mendicantes são a resposta alternativa aos monges. Os Franciscanos unem ideal de eremitismo, pobreza e evangelismo; Os Dominicanos combatem a heresia pela pregação, vivendo segundo os cónegos regrantes de Sto. Agostinho, fomentam a personalidade dos religiosos, obrigam à formação permanente, dispensam das observâncias que impeçam o estudo e a pregação. Os mosteiros passam a conventos e os monges convertem-se em frades. […] Constroem conventos nas cidades, próximos do povo, frequentam universidades para obterem preparação cultural. Desejam superar o mundo feudal, criando a fraternidade com o título de irmãos. Os Mendicantes combinam a vida de estabilidade e a experiência comunitária com a itinerância exigida pela pregação. A Igreja e a sociedade civil seguiram o impulso da fraternidade, criando, por um lado, irmandades, confrarias, ordens terceiras e, por outro, montepios para evitar a usura. (Azevedo, 2014, 29-30)

Nascidas sob o signo da mendicância, a Ordem Menor de São Francisco de Assis e a Ordem dos Pregadores de São Domingos de Gusmão representaram, com efeito, uma importante reforma e metamorfose da vida monástica protomedieval, abrindo-a à dimensão pastoral mais ativa e procurando acompanhar e influenciar os ritmos das sociedades onde os conventos dos consagrados, que passaram a chamar-se fratres (irmãos) e já não simplesmente monges, se inseriam.

No primeiro século das descobertas, muitas caravelas lançadas ao mar para descobrir novas terras eram assistidas espiritualmente por franciscanos. Eram franciscanos os frades missionários que acompanharam os navegadores que descobriram oficialmente o arquipélago da Madeira em 1418, com a chegada ao Porto Santo e, no ano seguinte, à baía de Machico da ilha da Madeira. Foram os celebrantes dos primeiros atos religiosos nestas ilhas ao oficiarem os primeiros ritos litúrgicos, nomeadamente a primeira missa com a bênção da terra e da água, que funcionava, na descoberta dos territórios desconhecidos, como uma espécie de sagração cristã das terras agora tomadas por senhores dos reinos da Cristandade. Estes legitimavam, assim, também perante o Papa a posse da terra não só no plano temporal, mas também espiritual. Teria acontecido aquela primeira celebração eucarística no dia litúrgico da Visitação de Nossa Senhora a Santa Isabel, estando ambas grávidas, o que é outro elemento significativo e um dos traços muito característicos de uma espiritualidade cristã vivida de forma muito intensa na Madeira: a espiritualidade da maternidade divina ou aquilo a que podemos chamar de “complexo natalício madeirense”, que gerou tradições e liturgias populares com originalidades e intensidades que nesta terra subsistiram.

Merecem destaque as ainda hoje celebradas missas do parto na preparação próxima do nascimento de Jesus, começando nas vésperas do dia de Nossa Senhora do Ó e estendendo-se por toda a quadra natalícia, designadas como “A Festa”, o tempo festivo por excelência. Neste período festivo, a construção do presépio e da sua versão madeirense, a Lapinha, assume uma centralidade absoluta na cultura da Madeira e do Porto Santo. Por seu lado, ficou certamente marcada pela pastoral franciscana a tradição das visitas do Espírito Santo na quadra pascal, onde se pode observar um resquício que sobreviveu da importância que foi dada ao culto do Espírito Paralítico pela corrente paracletiana, de fundo joaquimita, de que franciscanos se tornaram destacados intérpretes e promotores.

Não será exagerado afirmar que os Franciscanos se tornaram os primeiros pais espirituais do arquipélago, assistindo pastoralmente e acompanhando a formação dos primeiros povoados madeirenses, fundando as primeiras capelas e, ao mesmo tempo, estabelecendo as primeiras comunidades conventuais. Uma primitiva e embrionária comunidade franciscana teria sido erigida logo em 1440 por frei Rogério junto do eremitério de São João da Ribeira, no Funchal. Mas só 10 anos depois chegou a licença para criar a comunidade canónica, que reunia uma dezena de frades governados pelo Guardião Pedro das Covas. Duas décadas mais tarde, Luís Álvares da Costa erige o Convento de São Francisco no Funchal, permitindo, em 1476, a frei Rodrigo Arruda, considerado nas crónicas “o primeiro missionário das ilhas”, dar maior consistência a esta comunidade inicial, vendo oficializada a Ordem Seráfica da Madeira, de que se tornou vigário.

Esta nova circunscrição jurídica dos Frades Menores englobava as comunidades franciscanas  das ilhas açorianas de Santa Maria e de Angra. Já muito depois da criação da Diocese do Funchal, esta província franciscana interinsular viria a desmembrar-se, reorganizando-se em duas províncias autónomas, passando a da Madeira a ficar denominada Custódia S. Tiago Menor, tendo sido confirmada canonicamente em 1683. Com efeito, se a Madeira sediou a primeira diocese ultramarina, constituída canonicamente em 1514, com jurisdição sobre os territórios que iam sendo descobertos no processo de expansão marítima portuguesa, o processo de afirmação de uma igreja local autónoma com estatuto de diocese tornou-se palco da fundação de comunidades religiosas que também se vieram a tornar mães de outras comunidades. Tal sucedeu primeiramente com os territórios que se povoavam e estruturavam politicamente, que tiveram forte participação dos Franciscanos, e mais tarde com os campos missionários a nível internacional em vários continentes, que beneficiaram de missionários formados na Madeira.

A Ordem de São Francisco conheceu uma significativa implantação na Madeira com o apoio das populações e de famílias de grandes posses, especialmente na costa sul, onde dispersou comunidades, e em toda a ilha, com as suas missões e pregações populares, iniciando a sua presença com experiências de vida cenobítica e eremítica em vários pontos da Madeira. Tornou-se famoso o seu cenóbio arranjado em S. João da Ribeira, onde viveram alguns frades em regime claustral, assim como o oratório construído em Machico em 1461, que durou poucos anos por ter sido destruído e os frades mortos pela aluvião ocorrida em 1467. Nesta parte leste da Madeira, os Franciscanos marcaram ainda presença em Santa Cruz, desde 1527, com a construção de um convento patrocinado pelo mercador genovês Urbano Lomelino. No final do século XVI, alguns frades haveriam de construir um oratório franciscano na Ribeira Brava, em 1581, sob a invocação de Nossa Senhora da Porciúncula, que na primeira metade do século XVIII se viria a transformar num hospício com projeto de se tornar convento, sem que tenha havido recursos suficientes para consumá-lo.

Na vila da Calheta, a Ordem de São Francisco chegou a edificar, em 1670, um convento dedicado a S. Sebastião. Não menos importante foi o cenóbio do Pico da Torre, em Câmara de Lobos, iniciado como “casa de vida pobre” em 1459, que está na origem do Convento de São Bernardino, onde viveu uma das figuras popularmente mais marcantes da história do franciscanismo madeirense, frei Pedro da Guarda. Frei Pedro ganhou fama de santidade e de fazedor de milagres. (Gama, 2014, passim) O seu eremitério tornou-se lugar de peregrinação, romagem e culto popular. Este franciscano de vida muito austera, nascido na Guarda (1435-1505), chegou a ter estátua erguida no lugar da sua habitação e processo de beatificação instaurado, não tendo obtido, contudo, anuência final da Santa Sé. De edificação tardia, há ainda a registar um pequeno convento criado em Belém no ano de 1758.

A importante rede de comunidades franciscanas regulares de vida consagrada, com as suas satélites fraternidades seculares da Terceira Ordem que povoavam a Madeira haveria de sofrer a medida política de extinção das Ordens Religiosas pelo governo liberal em 1834. Perdeu-se então uma presença significativa de homens e mulheres que animavam espiritualmente os agregados populacionais da Madeira e que eram referência para toda a Igreja, nomeadamente através dos serviços de pregação, direção espiritual e missões populares que faziam regularmente.

No final do século XIX, com a restauração da Província franciscana em Portugal em 1891, os Franciscanos fizeram algumas incursões à Madeira para tentar implantar novamente a sua Ordem, mas sem sucesso, tentativa que foi adiada ainda mais com as medidas de proibição das Ordens pela República, em 1910. Todavia, o carisma franciscano manteve-se vivo nas comunidades de leigos herdeiros das antigas fraternidades da Ordem Terceira e viria a ser especialmente reavivado no final de Oitocentos com a constituição de Congregações Religiosas femininas assentes no ideário de São Francisco. Apesar das medidas proibitivas, alguns frades franciscanos passaram pela Madeira durante o período em que vigorou o primeiro regime republicano em Portugal para pregar e visitar comunidades laicais de espiritualidade franciscana organizadas na ilha, assim como para prover novas fundações. Já no tempo do Estado Novo, os Franciscanos lograram consolidar a sua presença na ilha da Madeira. Em 1934, fundam a União Missionária Franciscana, que se torna uma rede de apoio às missões espalhadas por várias paróquias da Diocese do Funchal. No ano seguinte, concretiza-se a refundação de uma comunidade franciscana de religiosos na Penha de França, dirigida pelo padre Rolim.

Até ao ano de 2014, os Franciscanos mantiveram uma comunidade de três membros na Penha de França e a responsabilidade de uma paróquia da Diocese do Funchal. Preparam-se para regressar em 2015 ao Convento de São Bernardino, em Câmara de Lobos, aquando da conclusão das obras de reabilitação deste edifício. Atualmente, existem na Madeira 12 fraternidades da Ordem Terceira de São Francisco ativas, abrigando um número significativo de confrades leigos que vivem sob o carisma franciscano.

Na segunda metade do século XX, o ramo franciscano dos Capuchinhos começa a promover na Madeira missões populares e ações de dinamização de formação bíblica, implantando a modalidade pastoral dos cursos sobre a Sagrada Escritura, realizados regularmente e com apoio de grupos de leigos afetos ao seu movimento bíblico.

De não menor relevância na história da vida consagrada na Madeira foi a criação paralela de uma rede de mosteiros do ramo feminino contemplativo da Ordem Franciscana, as chamadas Clarissas. O mais marcante e influente que pontificou no Funchal foi o Mosteiro de Santa Clara, cuja construção se iniciou em 1492, depois de no ano anterior o papa Inocêncio III ter concedido a primeira bula canónica para esta nova fundação, tendo chegado a autorização final para fundação de mosteiro em 1495, pela Bula Ex injunto nobis do papa Alexandre VI. A comunidade monástica feminina começou efetivamente a funcionar em novembro de 1497, onde se recolheram muitas filhas da nobreza madeirense, num tempo em que a lógica social fazia dos mosteiros femininos uma saída para as filhas da nobiliarquia sem os pretendentes com os pergaminhos esperados. As bases desta comunidade de monjas de Santa Clara foram lançadas por religiosas vindas de Beja alguns anos antes. A centralidade que este mosteiro veio a ter na capital madeirense, tornando-se uma referência religiosa, cultural e até económica, não impediu a criação de outros mosteiros de Clarissas nesta ilha, o que revela a grande procura desta vida de clausura pelas condicionantes sociais conhecidas daquele tempo.

O cónego capitular da Sé, Henrique Calaça de Viveiros, criou em 1653 um recolhimento de donzelas em voto de ação de graças pela restauração da monarquia portuguesa com a subida ao trono de D. João IV. Colocou este recolhimento de raparigas sob a Regra das Carmelitas da Reforma de Santa Teresa, que funcionava ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Encarnação no Funchal. Contudo, no ano de 1660, ao querer transformar esta obra em convento, entendeu ser mais conveniente edificar a nova comunidade religiosa sob as regras das Clarissas, nascendo assim no ano seguinte o Convento da Encarnação como o segundo da Ordem de Santa Clara na Madeira.

Em 1667, cria-se o Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, conhecido também pelo nome vulgar de Convento das Capuchas, também no Funchal. Mais tarde, depois das duas extinções e expulsões das Ordens Religiosas pelo governo liberal e novamente pelo governo republicano, as Clarissas começaram a constituir oficialmente nova comunidade monástica em Câmara de Lobos, o chamado Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade, apelidado popularmente de Convento da Caldeira, onde subsistem até à atualidade. Cumpre-nos registar que, na verdade, a comunidade do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês permaneceu com vida religiosa consagrada, apesar da legislação estatal proibitiva de 1934. As religiosas professas admitiram na comunidade as chamadas pupilas, que formavam e acabavam por emitir votos particulares, embora sem caráter canónico. Resistiram deste modo à lei civil que proibia vida consagrada em Portugal, procurando viver de forma coerente com este carisma monástico e ideal de vida. Só o movimento que implantou a República em 1910 conseguiu encerrar o convento e dispersar as freiras. Serão estas religiosas dispersas que se reagruparão mais tarde para reimplantar as Clarissas em Câmara de Lobos, no ano de 1931. Deste mosteiro que conhecerá mais tarde um significativo crescimento, irradiarão outras fundações na Madeira, nos Açores e no Brasil.

Analisando a larga presença de comunidades da Ordem de São Francisco na ilha da Madeira, podemos de algum modo concluir que a paisagem madeirense, com a sua orografia marcada por grandes declives e ondeada por montes e vales, exibindo vegetação luxuriante, ou seja, permitindo a contemplação de uma manifestação sublime da natureza, atraiu muitos religiosos e religiosas franciscanos de várias proveniências, em particular de várias partes da Península Ibérica.

Ali, a espiritualidade “ecológica” de matriz franciscana tinha um horizonte inspirador propício à fecundação de um imaginário espiritual peculiar, onde a comunhão entre os seres humanos e a natureza se apresentava como vetor distintivo essencial. A confiança na providência divina, a pluriformidade das invocações de Nossa Senhora e dos cultos marianos, a arte efémera natalícia, com particular destaque para a Lapinha, e a importância e o valor da dimensão miraculosa da religião são cunhos fortes de uma espiritualidade que passou diretamente da Idade Média europeia, via pastoral mendicante, para as novas comunidades cristãs reorganizadas de raiz neste arquipélago insular. A rica dimensão popular do catolicismo madeirense tem certamente uma modelação imprimida pelos consagrados Franciscanos nas pregações e nas peculiaridades litúrgicas de algumas festas, com especial destaque para as celebrações do advento e do Natal. Assim, tem muito sentido a lapidar de Otília Rodrigues Fontoura de que a “Madeira nasceu franciscana” (Fontoura, 2000, 53), enquanto nova cristandade ali semeada. Com efeito, a Ordem Franciscana, na sua vertente masculina, teve desde a primeira hora do encargos de assistência espiritual no processo de implantação de nova cristandade no quadro do povoamento deste arquipélago a partir de 1425. Assim sendo, a modelação primigénia do Cristianismo madeirense, que desenvolveu peculiaridades e matizes próprios, não pode ser compreendida sem a influência da herança espiritual desta ordem medieval, fundada por São Francisco de Assis, que chamava irmã à natureza e tratava por irmão todos os seus elementos.

A educadora Companhia de Jesus

Só na segunda metade do século XVI uma nova e não menos célebre ordem conheceu uma preponderante implantação na Madeira. A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola e o seu grupo de estudantes de Paris em 1540 com a aprovação do papa Paulo III, estava a expandir-se de forma exponencial em Portugal e nos seus territórios ultramarinos, investindo fortemente na abertura de campos missionários e na edificação de colégios nas principais vilas e cidades do país e do império. Os primeiros padres jesuítas chegam ao Funchal, em 1566, com o capitão donatário Simão Gonçalves da Câmara, na armada de Sebastião de Sá, enviada para socorrer os seus habitantes contra a espoliação levada a cabo por corsários franceses sob o comando de Bertrand Montlac, filho do marechal francês, Brás Montlac. Poucos anos depois, o rei D. Sebastião assina o alvará em 20 de agosto de 1569, que autorizava a criação de um colégio sob a administração e orientação pedagógica dos Jesuítas na capital madeirense. Sob a invocação de São João Evangelista, as aulas desta nova instituição de ensino começaram a 6 de maio do ano seguinte, dia votivo daquele santo, sob a responsabilidade da comunidade inaciana que se instalara no Funchal sob a chefia do transmontano P.e Manuel Sequeira, antigo mestre de noviciado da Província Portuguesa da Companhia.

Todavia, os jesuítas fundadores desta instituição escolar, presididos pelo P.e Manuel Sequeira, que exercia as funções de reitor, sofreram durante algum tempo a oposição de algumas figuras políticas e religiosas da ilha, como foi o caso do capitão donatário Simão Gonçalves da Câmara, que suspeitava daqueles diligentes padres, imaginando-os “espiões”. Este capitão, primeiro conde da Calheta, que governou a capitania do Funchal durante 44 anos, duvidou até 1580 de que os padres de Santo Inácio fossem verdadeiros religiosos, imaginando-os antes agentes de espionagem ao serviço do rei para informar a Coroa portuguesa sobre o modo de governação daquela ilha, convicção que o levou, em termos práticos, a levantar alguns obstáculos à compra de terreno para o edifício do Colégio e, depois, também a interpor um embargo à provisão de D. Henrique de 1579 em relação às rendas da Ribeira Brava destinadas a sustentar esta escola. Tal atitude antijesuítica ativa foi-se dissipando paulatinamente com a chegada de determinações mais coativas vindas da metrópole.

Os Jesuítas acabaram por consolidar a estruturação de um importante colégio que se tornou um polo de formação e de cultura no seio da capital funchalense, recrutando e educando parte importante da elite madeirense até à primeira metade do século XVIII. Vale a pena retomar a síntese de Carlos Moreira Azevedo sobre a novidade reformista trazida à Igreja pelos Jesuítas:

A Companhia de Jesus nasceu no clima de reforma espiritual e assumiu as atitudes dos movimentos espirituais da época: 1) Olhos abertos para o mundo, observando as necessidades, estudando os problemas. Não se retiram na solidão nem salvam devoções anteriores. Assumem os valores do momento: interioridade, concentração pessoal, apreço pela reforma, são humanismo. Travam os perigos: mundanização, apego, peso demasiado do naturalismo. 2) Mãos abertas para acolher as pessoas extraviadas e pés em movimento para se aproximarem com entrega incondicional para desterrar a miséria e pecado. Importava conseguir sustento para os pobres, organizar centros de irradiação espiritual e de culto, fundar associações modernas, criar centros de educação, reorganizar as forças diretivas. 3) Simpatia acolhedora, compreensão dos que se aproximam, com realismo e eficácia, ajustando o trabalho à capacidade. 4) Viver em urgência apostólica contínua, nascida de uma moção interior. (Azevedo, 2014, 34)

Trouxeram o espírito de reforma católica que apostava no reforço das práticas sacramentais conducentes a uma renovação da vida cristã interior e exterior, na importância da educação e do ensino da doutrina definida pelo Concílio de Trento, procurando contar com os leigos como base de apoio e de organização para promover os seus projetos educativos e pastorais e para irradiar a doutrina católica sufragada pelo magistério da Igreja. O Tribunal da Inquisição, nas visitações que fez à Madeira, contou com a colaboração de qualificadores jesuítas do Colégio do Funchal para levar a cabo as suas inquirições sobre desvios doutrinais e práticas não consentâneas com a ortodoxia católica vigente.

A escolha da Madeira para estabelecer uma base importante da Companhia foi favorecida não só pela sua relevância estratégica, mas também pelo facto de alguns destacados jesuítas da primeira hora da fundação e afirmação desta ordem em Portugal terem origem madeirense, beneficiando o seu estabelecimento na sua terra de origem e a superação das dificuldades dos primeiros anos. Entre os jesuítas madeirenses que se destacaram em domínios diversos no plano nacional e internacional, merecem referência os seguintes.

O primeiro e mais internacional de todos é o padre Manuel Álvares (1526-1583), nascido na Ribeira Brava. Formado nos colégios continentais da Companhia de Jesus, tornou-se reitor do Colégio das Arte de Coimbra, onde elaborou a célebre Gramática latina, que serviu durante mais de 200 anos de manual de base aos estudos humanísticos nas instituições de ensino da Ordem de Santo Inácio espalhadas por vários continentes. Recobrando fama até para além da rede de colégios da Companhia, este que pode ser considerado o primeiro manual pedagógico global mereceu tradução em mais de meia centena de línguas e conheceu mais de 600 edições. Até ao tempo de Pombal, altura em que esta gramática foi destronada do ensino pela proposta de atualização do oratoriano padre António Pereira de Figueiredo, este livro pedagógico teve mais edições do que Os Lusíadas de Luís Vaz de Camões.

Outro jesuíta destacado foi o padre Doutor António Gomes, filho de uma nobre família da Ponta do Sol. Ganhou fama como missionário jesuíta em Goa, depois de ali ter aportado em 1548, pelos talentos oratórios e pedagógicos. Tinha feito a sua formação universitária em Filosofia e Teologia na Sorbonne, em Paris, tendo sido enviado pelo primeiro provincial dos Jesuítas, Simão Rodrigues, para a missão do Oriente com a incumbência de pregar e ensinar Sagrada Escritura, a fim de secundar e continuar a ação de Francisco Xavier. (Pereira, 1967, 109)

Com fama incontornável na História de Portugal, mas com avaliação controvertida, ficou o padre Luís Gonçalves da Câmara (1518-1575), filho do quarto capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara. Pelo facto de ter sido confessor da rainha D.ª Catarina e precetor do rei Dom Sebastião, os detratores dos Jesuítas, especialmente a partir da leitura negativa da Companhia de Jesus tecida pela propaganda antijesuítica pombalina, atribuíram-lhe responsabilidade quase absoluta na desventura da jornada bélica de Alcácer-Quibir. Os dados de que dispomos hoje levam-nos a crer que este aio do jovem rei era prudentíssimo e teria desaconselhado fortemente este projeto perigoso de D. Sebastião, encontrando ouvidos moucos na pessoa do monarca, animado nesta aventura pelos jovens conselheiros da nobreza que almejavam tentar fama em novas aventuras cruzadísticas à maneira medieval. Luís Gonçalves da Câmara era homem reconhecido pela sua competência e sabedoria, tendo sido professor da Universidade de Coimbra e desempenhado funções de grande responsabilidade na Companhia de Jesus, nomeadamente como superior da Casa Professa de Roma e como visitador das Províncias de Espanha e de Portugal.

Outro jesuíta que ganhou algum relevo nas esferas política e religiosa nacionais foi um parente de Luís Gonçalves da Câmara chamado Leão Henriques (1520-1589). Nascido na Ponta do Sol, doutorou-se em Cânones pela Universidade de Coimbra e pela Sorbonne. Foi o primeiro reitor da novíssima Universidade de Évora, criada em 1559, e tornou-se conhecido como deputado do Tribunal do Santo Ofício, responsável pela redação de um dos seus regimentos e como confessor do cardeal D. Henrique, além de ter exercido outros cargos administrativos de primeira responsabilidade da Província Portuguesa da Companhia de Jesus como reitor dos colégios da Companhia em Coimbra, Évora e Braga. Aquando da complexa transição da Dinastia de Avis para a Dinastia Filipina, com assunção de Filipe I ao trono de Portugal, o padre Leão Henrique teria sido acusado de traição à pátria por  alegadamente ter aderido ao partido castelhano. Documentação recente parece corrigir esta história de calúnias, de que Leão Henriques se defendeu, tendo negado ter sido apoiante dos que preferiam a sucessão filipina à frente dos destinos lusitanos.

Por fim, merece ainda destaque o padre Sebastião Morais (1534-1587), primeiro bispo nomeado para o Japão, natural da Madeira e membro da Companhia de Jesus, que tinha já exercido várias funções de governo em comunidades dos Jesuítas de Portugal e Itália. Ganhou alguma celebridade literária na Europa a biografia que escreveu de D.ª Maria, neta de D. Manuel, que acompanhou em viagem que fez a Itália.

Ultrapassadas as dificuldades dos anos iniciais na edificação de um projeto educativo e pastoral consistente e a longo prazo na ilha da Madeira, os Jesuítas acabaram por encontrar os terrenos de dimensão adequada e necessárias autorizações políticas e canónicas para erguer o grande edifício do Colégio e a igreja anexa, hoje património monumental de referência nacional. Os primeiros jesuítas, depois de terem passado por várias residências, acabaram por lançar as bases do Colégio a partir da pequena albergaria da Rua dos Ferreiros, onde passaram a viver no ano de 1572, adquirindo terrenos maiores para a construção do Colégio iniciada no ano de 1576 e ganhando capacidade para formar centenas de alunos. A atribuição dos dízimos da Ribeira Brava em 1559 e, mais tarde, o usufruto de rendas de outras propriedades de que a Companhia virá a tomar posse, como foi o caso da Quinta do Campanário, em 1595, permitirão aos Jesuítas consolidar o seu projeto de ensino na ilha e ganhar folga económica para edificar a magnificente Igreja de São João Evangelista a partir de 1629.

O Colégio dos Jesuítas tornou-se um polo de formação das elites madeirenses, assim como de formação de futuros membros da Companhia de Jesus que viriam a servir as obras da  Assistência de Portugal e nas suas missões ultramarinas. A igreja diocese vai contar também com o apoio do Colégio para qualificar a formação do seu clero, ministrando aulas especiais e dando apoio ao seminário diocesano que entretanto se edificava de acordo com as determinações do Concílio de Trento para o incremento da formação dos sacerdotes, pois já tinha carta régia para a sua constituição desde o ano de 1566. No Colégio, ensinava-se as disciplinas hegemónicas da tradição escolástica, como a Gramática, a Filosofia e a Teologia, nas suas várias especialidades, mas também é importante referir o ensino da Música e a prática do Teatro. Rui Carita, o maior especialista da história desta instituição, regista também o ensino da Medicina e da Matemática, considerando a relevância destes saberes na bibliografia do acervo de mais de 3 mil livros com que chegou a contar a biblioteca do Colégio. (Carita, 2013, 53)

Os Padres da Companhia, além da dedicação ao ensino, participaram na assistência espiritual e sociocaritativa à população, no incremento das práticas sacramentais e na dinamização da catequese, ganhando rapidamente boa aceitação junto das elites e do povo. O Colégio tornou-se um centro de irradiação cultural e espiritual de referência na diocese, sendo ao mesmo tempo um polo de circulação de professores e missionários jesuítas que por ali passavam a caminho das missões, mantendo a atualização relativamente às novidades culturais e científicas a nível internacional, pois beneficiava da rede de informação extraordinária que ofereciam as comunidades da Companhia de Jesus espalhadas pelo globo. Em momentos decisivos da vida da diocese, os bispos do Funchal contaram com a assessoria dos Jesuítas. D. Jerónimo Barreto foi um dos bispos que soube aproveitar e usar os bem preparados padres jesuítas para reforçar a formação do seu clero e garantir assessoria qualificada na aplicação dos decretos conciliares, como aconteceu na realização do sínodo diocesano reunido para adaptar a Igreja madeirense às orientação do concílio tridentino, donde saíram a lume, em 1585, as constituições sinodais que iriam reger a vida da diocese nos séculos seguintes. Importa destacar a promoção de confrarias laicais criadas sob a tutela dos Jesuítas para apoiar o culto de padroeiros e a sua ação educativa e pastoral.

Os quase dois séculos de ação cultural e pedagógica dos Jesuítas na Madeira, que deixaram uma marca forte no plano da sensibilidade e do gosto intelectual madeirense, foram interrompidos pela ordem de expulsão pombalina da Companhia datada de 3 de setembro de 1759, tendo tido aplicação efetiva na Madeira no ano seguinte com o encerramento das aulas do Colégio e a deportação, com grande aparato militar, dos 18 padres jesuítas residentes no arquipélago, em julho de 1760. Diferentemente dos Franciscanos e de outros institutos religiosos expulsos, os Padres da Companhia nunca mais regressaram à Madeira.

A mística Ordem do Carmo

Datam dos princípios do século XVII as iniciativas conducentes à fundação da comunidade da Ordem do Carmo no arquipélago madeirense. A primeira tentativa, que não vingou, data de 1606, com aprovação régia e papal garantida, a partir do Convento de Palmela da Ordem do Carmo. Já na segunda metade de Seiscentos, temos a notícia de uma iniciativa bem sucedida para fixar religiosos da Ordem dos Carmelitas Observantes na Madeira, com a cura de uma igreja e de um hospício no Funchal. Inicialmente, a primeira residência teria sido estabelecida para garantir a presença de um Comissário  da Ordem Terceira do Carmo. A igreja começada a edificar em 1556, em terrenos doados pelo capitão Roque Acciaioli de Vasconcelos, foi concluída, e inaugurado o culto, em 1660, situada na rua que assumiu o nome da mesma ordem. Só em 1681 começou a ser construída uma residência com capacidade para seis religiosos de vida conventual, onde chegaram a residir de facto dois carmelitas consagrados nesta comunidade contígua à Igreja do Carmo.

A comunidade carmelita haveria de aderir em 1799 à reforma teresiana, mas só muito mais tarde, ultrapassados os processos históricos de expulsão das Ordens que afetaram Portugal no século XIX e princípios do século XX, no ano de 1922, esta comunidade foi canonicamente integrada nos Carmelitas Descalços (O.C.D.), por empenho do bispo D. António Manuel Pereira Ribeiro, também ele terceiro carmelita descalço. No entanto, por vicissitudes várias, só teve início o processo de negociação com o fim de criar  nova comunidade religiosa em 1934 na Igreja do Carmo, que era gerida pela Confraria do Escapulário de Nossa Senhora do Carmo. O Superior Geral desta Ordem aprovou nova residência de religiosos na década seguinte, no ano de 1947, com a vinda de três carmelitas para ali se instalarem. Mantêm os carmelitas até hoje a Igreja que constitui um importante centro de espiritualidade muito conhecido na Madeira, nomeadamente na orientação espiritual, atendimento em confissões, etc. Os Carmelitas, nascidos dos cavaleiros que decidiram ser eremitas no Monte Carmelo, seguem uma legislação, com base nos cónegos regulares, aprovada por Honório III em 1226. Ao serem obrigados a emigrar para Ocidente, integram-se na nova corrente de vida consagrada mendicante. Feitas as adaptações na Regra, entram na mendicância (1247) com a inspiração contemplativa no profeta Elias e o exemplo das virtudes marianas. Colocam no centro da sua vida consagrada o recolhimento orante na cela, à maneira monástica, e valorizam a contemplação “dia e noite”. É esta dimensão contemplativa que a comunidade carmelita vai incrementar na Madeira.

A reformadora Congregação da Missão

Fundados por São Vicente de Paulo em 1625, os Padres da Congregação da Missão, que ficaram mais conhecidos por Lazaristas e hoje como Vicentinos, começaram por registar uma primeira presença na Madeira na segunda metade do século XVIII. Vieram para a ilha, a pedido do bispo D. Gaspar Afonso Brandão, com o objetivo de prestarem apoio na formação dos alunos do Seminário Diocesano que se preparavam para o sacerdócio. A integração dos Lazaristas como professores residentes no Seminário não se veio a verificar nesta fase por falta de condições para acolher os dois padres da Missão, João Alásia e José dos Reis. As instalações do Seminário estavam profundamente debilitadas desde o terramoto de 1748, sem que tenham sido investidos meios suficientes para as recuperar. Estes padres acabaram por ficar a residir no Paço episcopal a partir do ano de 1757, permanecendo na Madeira por um período de 10 anos apenas. No entanto, tiveram uma ação importante na renovação da vida cristã, percorrendo a ilha em pregações, ministrando retiros e outros exercícios espirituais, promovendo conferências de formação intensiva do clero e garantindo assim alguma substituição do papel pastoral dos Jesuítas na sequência da sua expulsão. Recorde-se que tanto os Padres da Companhia como os da Congregação da Missão foram fundados no espírito da reforma católica com o ideário de revitalizar a vida cristã nas velhas cristandades pela conversão interior e pelas práticas sacramentais regulares e reguladas com expressão em temos de visibilidade social, apostando na formação qualificada das elites católicas, a começar pelo membros do clero. Da passagem dos padres lazaristas pela Madeira ficou registado um episódio insólito: a revolta das freiras do Convento da Encarnação contra a pregação que lhes foi ministrada por estes padres, que reclamavam conversão do estilo de vida destas religiosas, considerado pouco condizente com a sua consagração monástica.

Os Lazaristas regressaram à capital Madeirense na segunda metade de Oitocentos, amainado que estava o rigor liberal da lei de proibição das Ordens. Dedicaram-se ao cuidado dos pobres e doentes, bem como colaboraram na educação do clero, através do Seminário da Diocese, a convite do bispo D. Agostinho Barreto, onde se destacou o padre Smith. Este cientista de origem alemã promoveu na Madeira o estudo das Ciências Naturais e constituiu um gabinete científico no Seminário, que esteve na base do Museu de História Natural da Madeira. Os Lazaristas entraram na Madeira com um pedido para dar assistência espiritual ao Hospício da Princesa D.ª Amélia. De forma mais permanente, encontrava-se em 1878 o padre Ernst Johann Schmitz a exercer funções de capelão do Hospício, que já tinham sido iniciadas, embora com interrupções, em 1874. Foi este o ponto de partida dos Lazaristas para incentivarem a dinamização, a partir do Funchal e estendendo-se a quase toda a ilha, da rede de assistência europeia criada em França que tem a invocação do seu fundador, as chamadas Conferências de São Vicente de Paulo. A pedido insistente do bispo D. Agostinho, os Lazaristas assumem a direção pedagógica do Seminário em 1881, ficando o padre Schmitz a desempenhar as funções de vice-reitor, ao lado de quem se destacou outro professor lazarista, o padre francês Léon Xavier Prévot.

A Congregação da Missão manteve as responsabilidades da formação do clero até à proclamação da República. De entre as gerações formadas neste período de melhoramento e modernização do ensino seminarístico, notabilizaram-se futuros padres e bispos tanto nos planos da administração eclesiástica e da ação missionária, como no plano da cultura e da ciência na Madeira. Expulsos novamente pelos republicanos, como todos os outros institutos religiosos, regressam de novo ao Funchal na segunda metade do século XX para instalar novas comunidades. Mas, antes disso, registou-se um interlúdio no período conturbado da Primeira República, em que o bispo D. Manuel Pereira Ribeiro conseguiu garantir, entre 1916 e 1919, a presença do padre lazarista Báulio de Sousa Guimarães, que desempenhou as funções de formador e vice-reitor do Seminário, a quem viriam a suceder outros confrades, como é o caso do padre de nacionalidade holandesa Henrique Janssen, que vieram a dinamizar a fundação da União Sacerdotal Madeirense. Hoje mantêm no mesmo Hospício uma comunidade de Padres Vicentinos que continuam a colaborar na pastoral da diocese.

As reabilitadoras Vitorianas

No mesmo período do governo da diocese pelo dinâmico bispo reformista Agostinho Barreto, foi criada uma congregação religiosa feminina na Madeira por iniciativa de Mary Jane Wilson, enfermeira anglicana nascida de pais ingleses na Índia em 1840. Vem para a Madeira acompanhar uma doente, tendo feito, entretanto,  caminho espiritual que a levou à conversão ao catolicismo, envolve-se na promoção de iniciativas assistenciais e educativas para atender às grandes carências das franjas pobres da população madeirense, das quais se apieda. A partir de 1884, o grupo de companheiras que se associam a Mary Wilson na sua ação lança as bases para criar o instituto religioso que vai ficar mais conhecido pelo nome das Irmãs Vitorianas. Mary Wilson começa por criar um hospital-dispensário para crianças, assim como monta centros de formação catequética e de formação das primeiras letras, que se estenderão paulatinamente por toda a ilha da Madeira. Mary Wilson destacou-se no combate a epidemias que grassaram no arquipélago, nomeadamente uma epidemia de varíola, que lhe valeu uma condecoração estatal com as insígnias da Ordem de Torre e Espada. Importa destacar a preocupação desta fundadora em regenerar a sociedade cristã madeirense atuando fundamentalmente junto das faixas populacionais mais carenciadas no plano da educação básica e da assistência no campo dos cuidados de saúde primários.

Em 1893, temos o registo da primeira tentativa de reconhecimento canónico na Diocese do Funchal da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias, integrando-se na grande família religiosa de inspiração franciscana. Mary Wilson também se empenha no envolvimento dos leigos no seu projeto guiado pelo carisma de São Francisco de Assis. É responsável por reavivar a Ordem Terceira Franciscana, de que era membro, na diocese funchalense, restaurando algumas fraternidades daquela Ordem, com destaque para as de Santa Cruz e do Santo da Serra. Entretanto, as Vitorianas conseguem ver aprovada pelo governo português a sua novel congregação sob a designação de Associação de Nossa Senhora das Vitórias, em 1901, como forma de contornar a legislação que matinha em vigor a proibição de estabelecimento em Portugal de Institutos de Vida Consagrada.

As Constituições desta nova congregação conhecem a sua aprovação formal no ano de 1916 pelo bispo do Funchal, D. António Pereira Ribeiro, tornando-a um instituto de direito diocesano.  As Vitorianas vão ter uma significativa expansão multiplicando obras assistenciais, de ensino primário e secundário, bem como atividade missionária ad intra e ad gentes, quer em Portugal continental, quer nos territórios ultramarinos de língua portuguesa, a começar por Moçambique e Brasil.

Atualmente, esta congregação de origem madeirense tem várias províncias e missões espalhadas pelo mundo. A sua ação educativa, assistencial e missionária, apesar das vicissitudes experimentadas com a perseguição republicana, ganhará asas e internacionalizar-se-á e ganhará relevância na Igreja. A Santa Sé oficializou, em 1967, este instituto religioso com o nome oficial Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias como sendo de direito pontifício e de carisma franciscano, reconhecendo o caráter universal da sua ação apostólica. Atualmente, a sua fundadora tem em fase avançada o seu processo de beatificação em curso na Santa Sé, sendo uma das figuras femininas mais relevantes da história da Diocese do Funchal. Hoje, o seu Colégio de Santa Teresinha, que funciona no Funchal, é uma das instituições educativas de prestígio, onde se tem formado parte importante dos filhos das elites madeirenses.

Assistência, educação e missionação levam outras Congregações à Madeira em tempo de legislação anticongreganista

A partir da segunda metade do século XIX, outras Ordens e Congregações escolheram a Madeira para palco da sua ação no quadro complexo da história dramática das expulsões, extinções, proibições e regressos de velhos e novos institutos religiosos masculinos e femininos.

As Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, de origem francesa, fundadas em 1877 por madre Maria da Paixão, instalam comunidade no antigo Convento de Santa Clara do Funchal em 1896, um ano depois de terem chegado a Portugal continental. Sob a designação de Associação Auxiliar das Missões Ultramarinas, esta recente congregação pretendia criar comunidades para preparar pessoal missionário e escolas de formação em vista de uma futura atividade nas missões dos territórios lusófonos. A implantação do regime republicano interrompe este projeto e estas religiosas tiveram o mesmo destino de todas as outras comunidades de vida consagrada presentes em Portugal. Regressam novamente ao Convento de Santa Clara, em 1927, donde se expandem, criando outras comunidades na Madeira com o mesmo ideário missionário e de formação e assistência a crianças e jovens. Hoje, permanecem no Convento de Santa Clara do Funchal, mantendo uma creche e um jardim-de-infância a funcionar e trabalhando em atividades pastorais de catequese e animação juvenil.

No ano de 1900, as Irmãzinhas dos Pobres, fundadas em França por Joana Jugan, criaram residência na Madeira com o fim de desenvolver o seu serviço radical aos mais pobres dos pobres, com especial atenção às situações de miséria e desproteção na velhice. A proibição das Ordens e Congregações pela lei republicana de 8 de outubro de 1910 pôs fim à fixação destas freiras no arquipélago.

O adormecimento do anticongreganismo estatal e a implantação de novas Ordens e Congregações

Um importante instituto religioso que começou na primeira década do século XX a lançar as bases para implantar-se na Madeira, por convite do bispo D. Agostinho Barreto, foi a Ordem dos Irmãos de São João de Deus.

Ultrapassadas dificuldades e vicissitudes próprias das derivas históricas daquele período de relação difícil entre as elites governativas que se tornaram dominantes e o projeto das Ordens e Congregações Religiosas, a Ordem Hospitaleira acabou por implantar-se na Madeira em 1922 e desenvolver, a partir da Casa de Saúde de São João de Deus, estabelecida oficialmente na Quinta do Trapiche em 1924, doada para o efeito, o melhoramento da assistência à saúde mental no arquipélago da Madeira. O projeto Casa de Saúde de São de Deus, que hoje é uma referência no Funchal, obteve solidez e acabou por ganhar valências diversas e contar pouco depois com a participação da Irmãs Hospitaleiras, que vieram também a implantar-se na Madeira, no ano de 1925, e assumem assistência ao Manicómio Câmara Pestana. No ano de 1950, estas irmãs criaram o Centro Psicopedagógico da Sagrada Família no Funchal, tornando-se um polo importante de formação e assistência à incidência das doenças mentais no arquipélago.

As Irmãs da Apresentação de Maria, fundadas em França na segunda metade do século XIX, implantam-se em Portugal com uma primeira casa fundada na Madeira em 1925 pela irmã Leontina d’Ornelas e Vasconcelos, natural da Ribeira Seca, concelho de Machico. A comunidade inicial criada no Funchal irradia no plano missionário, educativo e assistencial, estando na origem a Província Portuguesa desta Congregação, que será criada mais tarde. Hoje, mantêm na capital da Madeira um colégio externato de referência que tem o nome da congregação e ainda outras comunidades religiosas noutros pontos da ilha que prestam serviço pastoral, cooperando com as paróquias onde se inserem.

 A criação de uma Escola de Enfermagem de referência no Funchal é da responsabilidade de uma congregação religiosa feminina vocacionada para a preparação de quadros qualificados para dar respostas competentes e eficazes temos de cuidados de saúde. Esta obra é erguida por uma comunidade das Irmãs de São José de Cluny, fundadas por Ana Maria Javouhey em França no século XIX, que, já estando em Portugal desde o fim de Oitocentos, decidem instalar-se também na Madeira desde 1940. À Congregação das Irmãs de São José de Cluny foi atribuída a responsabilidade, desde 1985, de orientar a Fundação Dona Jacinta e Ornelas criada em 1955 dotada com meios para dar assistência no campo da maternidade e da infância, permitindo, com meios adicionais, potenciar o serviço educativo e assistencial que já desenvolviam a partir da comunidade da Escola de Enfermagem. Com sede na freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, as Irmãs instalaram ali comunidade desde 1985. Atualmente têm mais uma comunidade de 4 irmãs neste freguesia e paróquia, onde coordenam um jardim-de-infância e cresce, assim como dão apoio famílias carenciadas no quadro da referida Fundação que superentendem. Dão ainda apoio pastoral à paróquia onde se integram: na catequese, nas celebrações litúrgica, ena visita aos doentes.

Em virtude da assinatura da Concordata e do Acordo Missionário entre o Estado Português e a Santa Sé em 1940, assistiu-se a partir daquela década à implantação crescente de um número de congregações religiosas com vocação missionária de fundação estrangeira em Portugal. Os missionários estrangeiros destas Congregações que pretendiam fundar missões nos territórios ultramarinos sob administração portuguesa eram obrigados, nos termos do referido Acordo Missionário, a receber formação em Portugal para aprender a língua, a legislação e a cultura do nosso país. Dados os vastos campos de missão que se abriam a estes institutos religiosos nos territórios lusófonos, optaram por implantar comunidade de formação e de recrutamento de membros em Portugal, acabando por expandir-se e colaborar na pastoral das dioceses portuguesas.

Uma dessas Congregações que vai ter boa aceitação e crescer significativamente em terras portuguesas é a atualmente muito conhecida Congregação dos Sacerdotes do Coração de Jesus, que espalhou seminários e casas de norte a sul do país. Foram fundados em França no século anterior pelo padre João Leão Dehon, donde provém o seu cognome institucional por que são vulgarmente chamados, os Dehonianos, com o repto de sair das sacristias e ir ao encontro do povo para implantar a civilização do amor de Deus no coração dos homens e das sociedades. A sua primeira obra foi estabelecida na Madeira em 1947, o Colégio Missionário, por sugestão do Cardeal D. Teodósio de Gouveia, prelado de origem madeirense que exercia as funções de arcebispo de Lourenço Marques em Moçambique. Este seminário menor e médio foi criado pelos padres italianos Canova e Colombo e ainda hoje pontifica no anfiteatro funchalense como instituição onde se têm formado muitos padres missionários enviados para as missões que esta congregação veio a fundar em Moçambique, em Madagáscar, Angola e na Índia.

Além desta instituição, que também formou muitos rapazes de origem social camponesa (da Madeira, do Porto Santo e de alguns provenientes das ilhas dos Açores) e com poucas possibilidades de acesso à escolarização, os Dehonianos assumiram a direção de mais duas instituições de ensino privado, que são hoje referência incontornável no panorama educativo do arquipélago da Madeira: a APEL e o Colégio Infante. Têm ainda colaborado com a Diocese do Funchal na pastoral juvenil, na animação missionária e, nas últimas décadas, têm ajudado a suprir a falta de clero secular suficiente, assumindo a direção de paróquias na Ribeira Brava, onde criaram uma instituição de solidariedade social de assistência aos idosos e a pessoas carenciadas que já mereceu destaque e prémios de boas práticas. Alguns dehonianos têm-se destacado nacional e internacionalmente como professores, missionários e bispos, sendo hoje o seu atual superior geral de origem madeirense e formado no Colégio Missionário do Funchal, o padre José Ornelas Carvalho. São também madeirenses formados neste Colégio um dos bispos de Madagáscar, D. José Alfredo Caires, que tem à sua conta a Diocese de Mananjary, e o padre, professor e juiz Saturino Gomes, recentemente nomeado prelado auditor do Supremo Tribunal da Rota da Santa Sé. (Franco, 2000)

A partir de 1952, a Madeira contará com a presença de uma comunidade da Ordem de São João Bosco. Os Salesianos edificaram um colégio muito conceituado e uma Escola de Artes e Ofícios à semelhança das Oficinas de São José, em Lisboa. O seu colégio sediado no Funchal é ainda hoje uma das escolas católicas relevantes no panorama educativo madeirense, a partir do qual desenvolvem atividades pastorais, em particular pastoral juvenil à luz do ideal educativo de D. João Bosco, que procurava usar estratégias lúdicas e recreativas para melhor formar, preparar e integrar os jovens na vida eclesial e na sociedade.

Entretanto, foram-se instalando outras congregações femininas para atender a necessidades da Igreja madeirense no plano da solidariedade social, da educação e da pastoral paroquial. Assim, em 1953, as Dominicanas de Santa Catarina de Sena abrem uma comunidade vocacionada para serviço social na capital madeirense e, uma década depois, a conhecida Casa Zino, com valências para acolhimento de crianças e jovens em situação de desproteção.

Com o carisma bem contemporâneo de evangelizar, utilizando os meios de comunicação mais modernos, conforme defendeu o seu fundador, Tiago Alberione, as Irmãs Paulinas instalam-se no Funchal em 1972, criando no ano seguinte a Livraria Paulinas na Rua Fernão de Ornelas, a mais central da cidade. Ainda hoje este espaço livreiro e de produtos multimédio é um polo de difusão da edição religiosa na Madeira. As Paulinas marcaram presença na rádio, criando programas semanais de natureza religiosa, pastoral e espiritual, assim como têm participado na pastoral da Diocese, promovendo as já muito conhecidas e concorridas semanas bíblicas. Os programas das Paulinas tornaram-se emblemática de um novo estilo de evangelização que começou a marcar a diocese madeirense com a chegada destas religiosas, a saber, o programa A verdade vos libertará começado a emitir em 1974 na Rádio Madeira, o Ama e Viverás inaugurado no Posto Emissor do Funchal em 1978 e o Amanhã é Festa iniciado em 1981, mantendo-se até hoje na RDP Madeira.

Em 1991, as religiosas da Fraternidade Missionária Verbum Dei, de fundação espanhola, são acolhidas na Paróquia do Imaculado Coração de Maria no Funchal pela mão do seu pároco, o Cónego Conceição. Com o seu ideário de oração e criação de espírito missionário entre os jovens e casais, passaram a dinamizar a vida da comunidade paroquial onde se inserem, animando grupos diversos.

O último instituto religioso que se instalou na Madeira é feminino e tem vocação de atender ao ser humano nas situações de fragilidade e pobreza. Com este carisma, a Congregação de Nossa Senhora da Caridade e do Bom Pastor entra no arquipélago em 2003, atuando na área da pastoral paroquial e da assistência aos mais necessitados a partir de uma casa deste instituto sediada em Ponta Delgada, na vertente norte da ilha da Madeira, cuja paróquia dispõe de um bem equipado centro social de acolhimento da terceira idade e atende a outras carências sociais desta zona.

Algumas conclusões

A história da Igreja Católica na Madeira não pode ser desligada da história das Ordens e Congregações Religiosas que tiveram nesta região uma ação modeladora no plano da formação espiritual das populações e da criação de certas tradições peculiares de fundo religioso, como ainda no plano da educação das elites e da catequização do povo simples, funcionando como complemento e reforço da missão dos padres diocesanos. O carácter especializado, à luz dos seus diversos carismas, que diferenciava a atividade dos diferentes institutos religiosos permitiu supletivamente, e às vezes estruturalmente, à diocese funchalense atender a necessidades em termos de assistência espiritual, social, psicológica e do ponto de vista da formação especializada de quadros.

De notar a relevância da dimensão internacional e de atualização cultural e científica que as ordens e congregações conferiram ao catolicismo madeirense, através da circulação de informações e das novidades científicas, culturais, pedagógicas, como também de membros internacionais que atuaram na Madeira, como padres, professores e cientistas, nomeadamente vindos de Espanha, França, Itália, Holanda, Reino Unido e Alemanha. Por seu lado, a organização multinacional própria das Ordens e Congregações que atuaram cooperando com as igrejas locais, mas não se circunscrevendo a estas, permitiu colocar a Igreja da Madeira ligada às dinâmicas mundiais do catolicismo, trazendo quadros qualificados de outros países com a sua experiência e saber, mas também projetando quadros madeirenses, nomeadamente missionários e professores que desenvolveram ação relevante em várias regiões do planeta.

Restam poucas dúvidas quanto ao papel e contribuição das Ordens e Congregações e das suas redes internacionais para desinsularizar a Madeira e atenuar o isolamento que a condição insular de um arquipélago como este, situado no meio do Atlântico, conferia, por constrangimentos geográficos, ao catolicismo madeirense.

Cronologia breve das Ordens e Congregações Religiosas na Madeira

1419 – Frades da Ordem de São Francisco, que acompanhavam as caravelas comandadas por João Gonçalves Zarco, celebram missa em Machico, primeiro ato litúrgico simbólico de sagração do arquipélago da Madeira como novo território cristão.

1433 – Carta régia de D. Duarte, que oficializa a tutela das ilhas madeirenses à Ordem de Cristo.

1440 – Franciscanos de origem castelhana estabelecem a primeira comunidade religiosa organizada com a criação do Convento de São João da Ribeira.

1459 – Cria-se uma “casa de pobre vida” franciscana em Câmara de Lobos, sob a inovação e proteção de São Bernardino de Sena, que daria origem ao Convento de São Bernardino. Aqui se adscreveu o famoso Pedro da Guarda (1435-1505), que ganhou fama de santidade, tornando-se o seu eremitério lugar de peregrinação.

1461 – Ergue-se um oratório em Machico com celas para quatro frades e uma pequena igreja que tomou como padroeiro Santo António.

1464 – Restauração da desmantelada comunidade conventual de São João da Ribeira, agora com frades portugueses sob a chefia de frei Francisco de Arruda.

1467 – Os quatro franciscanos que formaram comunidade em Machico foram vitimados por uma grande aluvião, que não poupou as suas vidas nem os seus bens.

1473 – Ergue-se o Convento de São Francisco do Funchal com o apoio de Luís Álvares da Costa, constituindo-se comunidade com frades vindos de São João da Ribeira.

1474– Regista-se a presença de frades franciscanos na Ponta do Sol, que criam um eremitério dedicado a Nossa Senhora dos Anjos.

1476 – Neste ano em que o número de franciscanos cresce na Madeira com reforço de grupos de frades vindos do continente, frei Francisco de Arruda, cognominado “o Missionário das Ilhas”, torna-se vigário de uma província religiosa que se autonomiza e que passa a reunir sob a sua jurisdição os conventos da Madeira e as fundações realizadas, entretanto, nos Açores.

1491 – Criação canónica do Convento de Santa Clara do Funchal com bula de Inocêncio III. Esta comunidade religiosa feminina foi iniciada por Clarissas vindas de Beja. No ano seguinte, inicia-se a construção do edifício conventual.

1514 – Fundação da Diocese do Funchal e passagem do arquipélago da Madeira para a tutela da Coroa, deixando de estar definitivamente sob a alçada particular da Ordem de Cristo.

1527 – O mercador genovês Urbano Lomelino patrocina a construção de um convento franciscano em Santa Cruz.

1566 – Chegam os primeiros jesuítas à Madeira.

1570 – Iniciam-se as aulas da Companhia de Jesus no Funchal, que marcam a origem do colégio dedicado a São João Evangelista.

1576 – Inicia-se a construção do edifício do Colégio dos Jesuítas.

1581 – Criação do oratório de Nossa Senhora da Porciúncula pelos Franciscanos.

1629 – Enceta-se a construção da Igreja de São João Evangelista, anexa ao Colégio dos Jesuítas.

1652 – Chegada à Madeira dos primeiros membros Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte Carmelo, que se instalam nos primeiros anos no Recolhimento de Donzelas, que dará origem ao futuro Convento de Nossa Senhora da Encarnação.

1660 – Criação do Mosteiro de Nossa Senhora da Encarnação no Funchal.

1667 – Criação do Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês no Funchal para albergar uma comunidade de freiras clarissas.

1670 – Construção de um convento franciscano dedicado a São Sebastião.

1683 – É canonicamente ereta a Custódia de São Tiago Menor, que organiza e governa os Franciscanos da Madeira.

1730 – Edificação de novo convento franciscano na Madeira, sediado na Ribeira Brava sob a invocação de Nossa Senhora da Porciúncula. Este tinha sido iniciado em 1581 com um pequeno oratório e depois um projeto de hospício.

1757 – Os Padres da Congregação da Missão, mais conhecidos por Lazaristas, instalam-se no Funchal.

1758  – Criação de um pequeno convento franciscano em Belém.

1759 – Decreto de Expulsão dos Jesuítas assinado por Dom José I a 3 de setembro. Os Padres da Companhia são obrigados a abandonar a Madeira, tendo sido encerrado o seu prestigiado Colégio.

1834 – O Decreto de Extinção das Ordens põe fim imediato às comunidades de vida consagrada masculina em todos os territórios sob soberania portuguesa. A prazo, acabam-se oficialmente também as comunidades de vida monástica feminina, pois a lei mandava encerrar todos os noviciados femininos, impedindo a sua renovação com a admissão de novos membros, que era feita pela profissão dos votos, depois de concluído a etapa do noviciado.

1866 – Executa-se a demolição do Convento de São Francisco do Funchal, onde hoje é o Jardim Municipal.

1874 – Regresso dos Lazaristas à Madeira, iniciando atividade como capelães do Hospício Princesa D.ª Amélia. A partir daí, ampliaram a sua colaboração com a Diocese, nomeadamente como responsáveis pela formação do Seminário da Diocese, a convite do bispo D. Agostinho Barreto, donde se destacará o cientista alemão P.e Schimtz como professor e vice-reitor, a partir do ano de 1881.

1884 – Mary Jane Wilson, anglicana inglesa nascida na Índia e convertida ao catolicismo em 1873, planeia criar um instituto de vida consagrada feminina que estará na origem das Irmãs Vitorianas.

1893 – Primeira tentativa de reconhecimento canónico da Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora das Vitórias na Madeira, que ficaram conhecidas pelo nome de Vitorianas.

1896 – As Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria, fundadas em 1877 por madre Maria da Paixão, inauguram uma comunidade no velho Convento de Santa Clara do Funchal.

1900 – Irmãzinhas dos Pobres estabelecem-se no Funchal.

1901 – O Governo Português aprova oficialmente o canónico instituto religioso da irmã Mary Wilson como Associação de Nossa Senhora das Vitórias, dado que se mantinha em vigor a legislação que proibia o estabelecimento formal de Ordens e Congregações Religiosas.

1910 – Expulsão das Ordens e Congregações pela recém-fundada República.

1916 – Regresso dos Lazaristas à direção pedagógica do Seminário Diocesano.

1922 – Os Irmãos Hospitaleiros de São João de Deus fundam uma Casa de Saúde mental no Trapiche nos arredores do Funchal.

1925 – Congregação da Apresentação de Maria chega a Portugal pela mão da irmã Maria da Santíssima Trindade e da irmã Leontina d’Ornelas e Vasconcelos, que cria no mesmo ano um lactário no Funchal para dar assistência a crianças pobres.

– A Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Coração de Jesus funda também no Funchal a Casa de Saúde de São João de Deus.

1926 – Criação do Colégio da Apresentação de Maria na capital madeirense. A partir desta fundação escolar, vão criar novas comunidades e escolas em vários pontos da Ilha.

1931 – Sobreviventes do Convento das Mercês, extinto em 1910, restabelecem nova comunidade de vida religiosa contemplativa na Caldeira, em Câmara de Lobos, criando o Mosteiro de Nossa Senhora da Piedade.

1940 – As Irmãs de São de José de Cluny fundam a Escola de Enfermagem no Funchal.

1947 – Chegada dos primeiros Padres Dehonianos à Madeira vindos de Itália. Vão montar no Funchal, logo naquele ano, um seminário para acolher e formar vocações missionárias, a que chamaram Colégio Missionário.

1950 – Criação do Centro Psicopedagógico da Sagrada Família na Madeira por iniciativa das Irmãs Hospitaleiras.

1952 – A Madeira começa a contar com a presença de uma comunidade da Ordem de São João Bosco. Os Salesianos edificam um colégio de referência e uma Escola de Artes e Ofícios à semelhança das Oficinas de São José, em Lisboa.

1953 – As Dominicanas de Santa Catarina de Sena abrem uma comunidade vocacionada para serviço social na capital madeirense.

1957 – Presença dos Padre Capuchinhos na Madeira para dinamizar missões populares e formação bíblica.

1972 – As Irmãs Paulinas criam uma  comunidade no Funchal.

1973 – Abertura da Livraria das Irmãs Paulinas na Madeira.

1975 – Erige-se o Convento de Santo António no Funchal.

1985 – Congregação das Irmãs de São José de Cluny assumem a orientação da Fundação Dona Jacitna e Ornelas no Estreito de Câmara de Lobos, onde constituem nova comunidade.

1991 – Criação de uma comunidade da Congregação Verbum Dei no Funchal.

2003 – Estabelecimento da Irmãs do Bom Pastor no Funchal, passando depois para a Ponta Delgada, onde hoje têm residência na casa paroquial e dão assistência pastoral à comunidade paroquial.

Nota: Este texto foi preparado com dois fins: para servir de base a uma conferência a proferir no Congresso Internacional Diocese do Funchal 500 Anos – A Primeira Diocese Global (que por razão de excesso de conferências programadas acabou por não ser apresentada oralmente, mas apenas nas atas), e para ser adaptada com algumas melhorias para o DEM.

Bibliog. manuscrita: “Da nossa Ida e Vinda da Ilha da Madeira”, manuscrito inédito que relata a experiência dos Lazaristas nestes dez anos que viveram na sociedade insular. Este documento está depositado no arquivo da comunidade dos Padres Vicentinos no Hospício da Princesa D. Amélia do Funchal. Foi-nos emprestada cópia por gentileza do Professor Luís Machado de Abreu, a quem agradecemos; impressa: ABREU, Luís Machado de e FRANCO, José Eduardo (Coord.), Ordens e Congregações Religiosas no Contexto da I República, Lisboa, Gradiva, 2010; BAYÓN, Balbino Velasco, História da Ordem do Carmo em Portugal, Lisboa, Paulinas, 2001; CARITA, Rui, História da Madeira, 6 vol., Funchal, Secretaria Regional da Educação, 1989-2008; CARITA, Rui, Colégio dos Jesuítas do Funchal. Memória Histórica, Funchal, AAUM, 2013; CORAÇÃO DE JESUS, Pe. David do, A Reforma Teresiana em Portugal, Lisboa, Escolas Profissionais Salesianas – Oficinas de São José, 1962; CORTESÃO, Jaime, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, Círculo de Leitores, s.d; FONTOURA, Otília Rodrigues, As Clarissas na Madeira: Uma presença de 500 Anos, Funchal, CEHA/Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 2000; FRANCO, José Eduardo, História dos Dehonianos em Portugal, Porto, Edições Dehonianas, 2000; FRANCO, José Eduardo e MOURÃO, José Augusto, Influência de Joaquim de Flora em Portugal e na Europa. Escritos de Natália Correia sobre a Utopia da Idade Feminina do Espírito Santo, Lisboa, Roma Editora, 2004; FRANCO, José Eduardo (Dir.), Dicionário Histórico das Ordens: Instituto Religiosos e outras formas de vida consagrada em Portugal, Lisboa, Gradiva, 2011; FRANCO, José Eduardo (Dir.), O Esplendor da Austeridade: 1000 anos de empreendedorismo das Ordens e Congregações em Portugal – Arte, Cultura e Solidariedade, Prefácio do Presidente da República, Lisboa, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2011; FRANCO, José Eduardo e ABREU, Luís Machado de, Para a História das Ordens e Congregações Religiosas em Portugal, na Europa e no Mundo, 2 Vols., Lisboa, Paulinas, 2014; FRANCO, José Eduardo e COSTA, João Paulo Oliveira e (Coord.), Diocese do Funchal – A Primeira Diocese Global: História, cultura e espiritualidades, 2 vols, Lisboa, Diocese do Funchal, 2015; GAMA, Manuel da Encarnação da,  Dicionário das Festas, Romarias e Devoções da Madeira. Para compreender a piedade popular, Funchal, DRAC, 2014;  GAMEIRO, Aires e GONÇALVES, Manuel Maria, História da Casa de Saúde de São João de Deus, Lisboa, Esfera do Caos, 2014; PEREIRA, Frei José António, S. Francisco de Assis na Madeira, Braga, Editorial Franciscana, 1993; SILVA, Padre Fernando Augusto da Silva e MENEZS, Carlos Azevedo de Menezes, Elucidário Madeirense, Vol. II,  Funchal, DRAC- Secretaria Regional de Turismo e Cultura, 1998; WERMERS, Manuel Maria, A Ordem Carmelita e o Carmo em Portugal, Lisboa – Fátima, União Gráfica/Casa Beata Nuno,  1962.

José Eduardo Franco

(atualizado a 25.08.2016)