oudinot, reinaldo

De origem francesa, ingressou no quadro do exército francês em setembro de 1766, com a idade de 19 anos, iniciando a sua carreira com o posto de ajudante de infantaria com exercício de engenheiro. Dois anos depois foi despachado com o posto de capitão de infantaria para participar nos trabalhos do rio Tejo, integrado na equipa de Guilherme Elsden (?-1779), equipa que realizava então levantamentos e projetos hidráulicos naquela bacia hidrográfica.

A partir de 1773 inicia um profícuo trabalho na área de Leiria, envolvendo a fixação da barra do rio Liz, em Vieira de Leiria, tentando estabilizar o caudal daquele rio até à cidade, com a construção de canais de rega e o aproveitamento dos inertes das cheias para a fertilização dos campos. O trabalho, da responsabilidade da Casa do Infantado, pressupunha o ordenamento da região agrícola envolvente e do pinhal de Leiria, através do estudo do regime do rio, da ondulação marítima e dos seus efeitos. Em abril de 1780 é promovido a sargento-mor e, em dezembro de 1784, a tenente-coronel, quando ainda se encontrava a trabalhar na área de Leiria, em obras que se prolongariam até 1789.

Reinaldo Oudinot tornara-se, nessa época, no engenheiro com melhor conhecimento do regime dos rios e da costa portuguesa. Nesse quadro, construiu um pensamento próprio sobre as causas do assoreamento dos portos da fachada atlântica, sendo chamado para as mais difíceis comissões hidráulicas. O seu trabalho era metódico e rigoroso, em particular na utilização do desenho como instrumento de trabalho, dominando ainda diversas áreas dentro da arquitetura e da engenharia militares. Em setembro de 1789, foi chamado pela Junta das Obras Públicas para examinar a barra do Douro e propor um largo trabalho de reformulação envolvendo a Companhia do Alto Douro e o governo da cidade do Porto, numa parceria que marcaria as obras públicas nortenhas da época.

Para a equipa dos trabalhos da barra do Douro, Oudinot contou com a colaboração do engenheiro Faustino Salustiano da Costa e Sá (c. 1750-c. 1820), que possuía também larga experiência no campo do desenho cartográfico. Formado na Aula Militar da Corte, iniciara o exercício de engenheiro em 1768 com o posto de ajudante de infantaria, sob as ordens do engenheiro de origem francesa Francisco de Alincourt (c. 1733-1816), destacado para a Madeira para as obras do porto do Funchal e, depois, para a montagem da Escola de Geometria e Trigonometria, fundada pelo governador João António de Sá Pereira (1719-1804), futuro barão de Alverca. O governador pretendia habilitar um escol de técnicos militares na área do desenho e da matemática que possibilitassem as obras do porto do Funchal e o levantamento das cartas da Madeira e do Porto Santo. Viria, no entanto, a incompatibilizar-se com o então sargento-mor Francisco de Alincourt, que acusou de falta de domínio da língua portuguesa, não se conseguindo fazer entender pelos alunos. Francisco de Alincourt foi afastado e substituído por Salustiano da Costa, que haveria, inclusivamente de traduzir, em 1774, Pratique de la geométrie sur le papier et sur le terrains, de Sebastien Leclerc (1637-1714), que fez acompanhar de desenhos seus para as aulas em causa. Em 1777, com o falecimento de D. José e o afastamento do marquês de Pombal, o futuro barão de Alverca viu-se na contingência de abandonar rapidamente o lugar, inclusivamente fretando a título pessoal um navio de transporte para seguir para o continente com a família, pelo que os trabalhos militares de levantamento topográfico e outros tiveram de esperar alguns anos.

O engenheiro Salustiano da Costa deslocou-se a Lisboa em janeiro de 1775, pedindo dali para lhe serem pagas as cavalgaduras. Voltaria à Madeira a 16 de maio de 1777, para lhe serem pagos os ordenados em atraso, mas regressava ao continente a 10 de junho seguinte, na embarcação fretada pelo governador.

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Planta da Cidade do Funchal, capital da Ilha da Madeira, em que se representam as ruínas causadas pelo Aluvião de 9 de Outubro de 1803, Arqui. Rui Carita.

O trabalho de Salustiano da Costa na equipa da barra do Douro era a realização dos trabalhos topográficos, em particular a atualização e ampliação do levantamento da cidade do Porto e seus contornos, trabalho que não realizou como devia e de que Oudinot, em janeiro de 1804, se queixava amargamente. A 9 de outubro de 1803 o Funchal sofria uma terrível aluvião, tendo a força das águas rebentado as muralhas das três ribeiras que atravessam a cidade, o que tornou urgente o envio de um engenheiro. O brigadeiro Reinaldo Oudinot viria a ser o escolhido. A primeira escolha parece ter recaído em Salustiano da Costa, a trabalhar na equipa de Oudinot na barra do Porto, dada a sua anterior experiência na Madeira e, inclusivamente, a reabilitação do trabalho de João António de Sá Pereira, reintegrado no Exército em 1785, elevado a barão em 1795, promovido a marechal de campo em 1801 e nomeado para um posto de comando no exército do Norte. Os contactos para a escolha da equipa para o Funchal foram conduzidos pelo então secretário de estado João Rodrigues de Sá e Melo (1755-1809), visconde de Anadia e sobrinho do barão de Alverca, que, em finais de 1803, chamava a Lisboa o coronel Oudinot. Face à recusa de Salustiano da Costa, Oudinot colocou uma série de exigências, sendo promovido a brigadeiro (14 e 17/12/1803) e mantendo a direção das obras das barras de Aveiro e do Douro, às quais deveria regressar assim que os oficiais que levava para a Madeira estivessem suficientemente instruídos para darem continuidade ao trabalho.

Reinaldo Oudinot desembarcou no Funchal a 19 de fevereiro de 1804, acompanhado de um ajudante, o capitão Feliciano António de Matos e Carvalho. Com a data de 16 de agosto seguinte, era ainda nomeado para a equipa de Oudinot o tenente Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), que deveria estar no Funchal em finais de setembro ou inícios de outubro. Foi então colocado, para efeitos de pagamento, com o posto de 1.º tenente na 2.ª Companhia do Corpo de Artilharia da Ilha da Madeira.

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Planta da Cidade do Funchal, Arqui. Rui Carita.

O conjunto de trabalhos desenvolvidos por esta equipa, nem sempre em completa sintonia, foi verdadeiramente notável e marcou durante muitos anos a vida da Madeira. O primeiro trabalho foi o levantamento da planta do Funchal, com os estragos efetuados pela aluvião, a melhor planta executada até ao momento na Madeira, enviada a 9 de outubro de 1804 e cuja autoria seria posteriormente disputada pelos ajudantes do brigadeiro. O mesmo se passou com a carta seguinte do Funchal, de setembro de 1805, acompanhada de «explicações», com o projeto de encanamento das ribeiras e com as obras já efetuadas, assinada pelo capitão Feliciano António de Matos e sobre a qual, seis dias depois, Paulo Dias de Almeida escreveria diretamente ao secretário de estado, em Lisboa, reivindicando a autoria. A partir de então, as principais plantas produzidas serão de Paulo Dias de Almeida, especialmente as das principais fortalezas e edifícios do Funchal, bem como a série de trabalhos de levantamento topográfico da ilha.

O brigadeiro organizou um importante estaleiro de obras na baixa do Funchal para fazer face aos trabalhos de encanamento das ribeiras e, no curto espaço de um ano, desenvolveu uma excecional atividade, que podemos seguir pelos inúmeros ofícios que constantemente mandava para a corte, descrevendo detalhadamente o seu trabalho, assim como pelo que deixou feito e, principalmente, planeado. Uma súmula dos seus trabalhos de caráter teórico sobre a ilha ficou célebre sob o nome de Instruções. Dado o enorme interesse destas diretrizes, a câmara do Funchal forneceu-as, ainda em 1837, às juntas de paróquia do concelho, embora não se conheça, na Madeira, nenhum exemplar.

Os trabalhos ampliaram-se à zona ribeirinha da cidade, com novas estruturas de defesa, como foi o planeamento da bateria das Fontes. Na foz da ribeira de São João, ou de São Lázaro, existia uma pequena fortificação, entretanto arrasada com a aluvião de 1803. A nova bateria ocupava toda a zona da praia e da margem da ribeira, vindo ainda a ser ampliada durante a ocupação inglesa e posteriormente reformulada por Paulo Dias de Almeida, em 1817.

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Carta de 24 de Dezembro de 1806, Arqui. Rui Carita.

Em dezembro de 1806, depois de mais uma aluvião importante, o brigadeiro podia escrever novamente ao visconde de Anadia, a 24 desse mês, dando conta da forma positiva como se tinham portado as suas obras. Em linhas gerais e até à aluvião de 20 de fevereiro de 2010, as muralhas das ribeiras do Funchal manteriam a estrutura que lhes fora dada nessa campanha de obras, embora com outras violentas aluviões, como foram as de 1842 e de 1847, entre outras.

Os trabalhos desta equipa alargaram-se também a Machico e a Santa Cruz, onde, nos finais de 1806, por três cartas do brigadeiro Oudinot, sabemos da atividade nesta área. Uma primeira planta da baía de Machico chegara ao Funchal sem as sondas da baía, mandando o brigadeiro ampliá-la e de novo enviar para Machico, para mais facilmente se colocarem as sondas. Estas cartas dão-nos informações interessantes da maneira de trabalhar da equipa do brigadeiro, do tipo de escalas – petipé, como então se escrevia –, da execução das reduções, etc.. Igualmente nestas cartas se referem as dificuldades encontradas junto das câmaras, dos inspetores e mesmo dos grandes proprietários locais, como sucedeu com um dos morgados da área de Machico, que recusou a passagem de uma futura levada pelos seus terrenos, levando à intervenção do governador.

Nestes trabalhos, o tenente Paulo Dias de Almeida tinha por ajudante o capitão Francisco Alexandrino, o que não deixa de ser curioso face à diferença de patentes. O brigadeiro Oudinot chegou mesmo a escrever: «Grande contentamento me daria o capitão Francisco Alexandrino se ele aprendesse com as lições de vossa mercê a trabalhar com mais desembaraço, ele poderia ter dado já a volta a toda a ilha» (AHM, 7.ª Div., Cx. 182, doc. 9, s.d.). O tenente Almeida devia tirar «os pontos principais» para o capitão Alexandrino «poder encher com os detalhes», como é referido em carta de 2 de dezembro desse ano. Em quase todas as cartas do brigadeiro aparecem queixas da lentidão do trabalho, especialmente do capitão, pedindo a Paulo Dias de Almeida para ver «se o faz desembaraçado em adiantar trabalho, como ele o viu fazer em sua companhia», acrescentando que seria bom que ele fizesse «ao menos meia légua de costa por semana» (Ibid., doc. 11, 2/12/1806).

O brigadeiro Oudinot faleceria no Funchal a 11 de fevereiro de 1807, mas o seu trabalho geral de topografia, de construção e obras públicas, tanto civis como militares, seria continuado por Paulo Dias de Almeida nos 20 anos subsequentes e, posteriormente, copiado e ampliado pelos engenheiros militares seguintes, tornando-se uma obra de referência.

Bibliog.: manuscrita: AHM, 3.ª Div., 7.ª Sec. (Processos Individuais), cx. 3604 (Reinaldo Oudinot), 182 e 659 (Paulo Dias de Almeida); AHU, Madeira, docs. 1442-1445, 1580-1582, 1605 e 1793; BNP, PBA, ms. 113, 111 fls. e 82 estampas: Prática da Geometria sobre o Papel e sobre o Terreno, de Sebastião Leclerc: que traduzida no idioma portuguez, dedicada e consagrada ao illustrissimo senhor Marquez Secretatio de Estado, Faustino Salustiano da Costa e Sá. Ajudante de Infantaria com exercício de Engenheiro, e Ajudante das Ordens do Governador e Capitam General da Ilha da Madeira, Lisboa, 13 de Maio de 1774; IAN/TT, Provedoria e Junta da Real Fazenda Funchal, Registo Geral, livs. 975 e 976; IGP, mapoteca, nº. 539 e 540; impressa: CARITA, Rui, Arquitectura Militar da Madeira dos Sécs. XVI a XIX, catálogo da exposição realizada no Teatro Municipal do Funchal por ocasião das Comemorações Nacionais do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, 10 de Junho de 1981, Funchal, ed. Zona Militar da Madeira, 1981; Id., Arquitectura Militar da Madeira. Séculos XVI a XIX, catálogo da Exposição realizada na Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1982; Id., Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, DRAC, 1982; Id., História da Madeira, IV vol., O Século XVIII: Arquitectura de Poderes, Funchal, SRE, 1996; Id., História da Madeira, VI vol., As Ocupações Inglesas e as Lutas Liberais: O Processo Político, Funchal, SRE, 2003; Id., História da Madeira, VII vol., O Longo Século XIX: do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional, Funchal, SRE, 2008; COUTINHO, Andreia Raquel Neiva, «A intervenção na Madeira, 1804-1807», in Reinaldo Oudinot e a Intervenção na Barra do Douro. Um Projecto Urbano Pombalino numa Frente Ribeirinha, prova final para a licenciatura em Arquitetura, policopiado, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2005-2006; MARTINS, Carlos Henrique de Moura Rodrigues, O Programa de Obras Públicas para o Território Continental, 1789-1809, Intenção Política e Razão Técnica – o Porto do Douro e a Cidade do Porto, dissertação de doutoramento em Arquitetura, Mário Júlio Teixeira Krüger e Alexandre Vieira Pinto Alves Costa (ors.), apresentada à Universidade de Coimbra e arguida a 30 maio 2014; SEPULVEDA, Cristóvão Aires de Magalhães, História Orgânica e Política do Exército Português, Lisboa/Coimbra, INCM – Imprensa da Universidade, 17 vols., 1902-1932; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., vol. III, Funchal, SREC, 1998; VITERBO, Sousa, Diccionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, 1899-1922, 3 vols., Lisboa, INCM, 1988.

Rui Carita

(atualizado a 08.09.2016)