palatalização do /l/ no falar madeirense

O fenómeno fonético da palatalização da consoante <l> quando precedida da vogal tónica <i> no falar madeirense, isto é, quando o fonema /l/ se articula como se fosse um /ʎ/ ou <lh> (Fonética), observa uma tendência transversal a todos os extratos socioculturais da população madeirense. Este fenómeno é assinalado em vasta bibliografia: “Outro traço considerado em geral como típico do madeirense na sua totalidade é a palatalização da consoante lateral l quando precedida de i tónico ou de i final da palavra anterior” (CINTRA, 2008, 100); “O Português do Funchal, assim como o Português da Madeira, […] apresenta um conjunto de características que o identificam inequivocamente. Provavelmente, o fenómeno mais característico é a palatalização do /l/ em casos que não se encontram no Continente” (ANDRADE, 1994, 17). Assim, o falante madeirense pronuncia “vilha”, “Camilho”, “Dalilha” e “Abrilhe”, em vez de “vila”, “Camilo”, “Dalila” e “Abril”. Para além dos exemplos referidos, a palatalização do <l> em <lh> parece ocorrer também, apesar de mais raramente, em contextos em que a consoante é precedida ou seguida de vogal [i] não acentuada ou da semivogal [j], oral ou nasal (SEGURA, 2013, 106), como ilustrado pelos exemplos “fileira/filheira” [fi’ʎɐjrɐ], “Hilário/Hilhário” [i’ʎarju], “qualidades”/”qualhidades” [kwɐʎi’δaδɨʃ], “peguei lume”/peguei lhume” [pɨ’ɤɐj ʎum] e “tem latas”/“tem lhatas” [tɐ͂j ‘ʎatɐʃ]. Verifica-se, por outro lado, que este fenómeno só pode ser obviado mediante o esforço de autocorreção do íncola, o que, por vezes, origina fenómenos de desvio ou de indevida hipercorreção, ou seja, de despalatalização em palavras que têm som palatal na norma padrão. Não é incomum, assim, ouvir dizer-se, p. ex., “ila da Madeira” a indivíduos de extratos sociais mais elevados para se distinguirem, no caso, indevidamente, ao menos do ponto de vista linguístico, das camadas populares.

Analisamos o fenómeno da palatalização no falar madeirense, que se verifica quando uma consoante é articulada na região palatal, ou seja, no palato duro, vulgarmente designado “céu-da-boca”, a partir da análise diacrónica da sua ocorrência na língua portuguesa, no âmbito mais alargado da evolução das línguas românicas. Trata-se, assim, de um fenómeno fonético anatómica e fisiologicamente explicável. Em qualquer caso, convém, desde logo, explicar que este é um fenómeno inerente à evolução das línguas românicas, nomeadamente da língua portuguesa, visto que os fonemas palatais hoje existentes na nossa língua – [ʎ], [ʃ], [ʒ] e [ɲ], graficamente representados, respetivamente, por <lh>, <ch>, <j> e <nh> e outras variantes gráficas – não existiam no latim. Por essa razão, esses fenómenos fonéticos foram realizados, graficamente, de formas diversas em várias línguas românicas, como se pode observar pelo som [ɲ]: em português, <nh>; em castelhano, <ñ>; e em francês e italiano <gn>, como em “Espanha”, “España”, “Espagne” e “Spagna”, respetivamente. No caso do português, a palatalização decorrente dos sons representados pelos dígrafos latinos <cl>, <fl> e <pl> é frequente e encontra-se registada em vários estudos linguísticos internacionais: “PLŌRĀRE>chorar, CLĀVE>chave, FLAMMA>chama […], CLĀVU>cravo, FLACCU>fraco” (BOYD-BOWMAN, 1980, 12).

A palatalização do [l] depois do [i] no dialeto madeirense tem um ponto comum com todos os fenómenos idênticos de palatalização na evolução da língua portuguesa resultantes da assimilação provocada por esta mesma vogal palatal junto de determinadas consoantes, quer regressivas (de [n], como em vinea>vinho, ou de [l], em filiu>filho), quer progressivas, como aquela que afeta as consoantes [d] (hodie>hoje), [n] (teneo>ténio>tenho) e ainda [s] (passione>paixão). Observando mais de perto o caso particular da palatalização do <l> no falar madeirense – obviando aqui a questão da nomenclatura da designação, falar ou dialeto –, ou seja, da transformação do [l] na lateral palatal [ʎ], é importante determinar o que há de comum entre estes dois fonemas e o que os diferencia. Assim, anotamos que ambos os sons são, quanto ao seu modo de articulação, constritivos laterais, sonoros e orais. A diferença fulcral para o caso em estudo é a do ponto de articulação dos dois fonemas: a articulação do [l] dá-se pelo contacto da ponta da língua com os alvéolos dos incisivos superiores; por seu lado, o que provoca o som palatal representado pelo <lh> é a pressão do dorso da língua no palato ou céu-da-boca. Esta diferença da zona de articulação dos dois fonemas é de importância capital para explicar a palatalização do [l] no dialeto madeirense quando antecedido da vogal acentuada [i]. Os sons da série [ε], [e] e [i] são palatais ou anteriores, de acordo com a classificação de base articulatória de Malmberg, porque a sua realização se dá com a articulação da língua em direção ao céu-da-boca ou palato duro.

Como se explica, então, que os sons [ε] e [e] não induzam a palatalização do [l] quando estão na mesma posição de anterioridade do [i] em relação àquela consoante? O que acontece é que nos sons [ε], semiaberto, e [e], semifechado, se dá a deslabialização, pela posição neutra dos lábios, no momento da sua articulação. É o grau de abertura das duas vogais que leva a que os sons [ε] e [e] não provoquem a palatalização do [l], por terem um grau de abertura relativo, ao contrário do [i], que é um som fechado. Dito de outra maneira, o som [i] é uma vogal fechada por se realizar com posição elevada do dorso da língua, em relação à posição neutra da vogal [e], distinta também de [ε], vogal baixa. Em conclusão, o fenómeno da palatalização da consoante lateral [l] diante da vogal tónica [i] dá-se pelo facto de esta ser, do ponto de vista articulatório, uma vogal palatal e fechada ou alta, características fonéticas que não se verificam, cumulativamente, nas restantes vogais do sistema.

Bibliog.: impressa: BRÜDT, Käte, “Madeira: Estudo Linguístico-Etnográfico”, Boletim de Filologia, t. V, fascs. 3-4, 1937, pp. 59-91; CINTRA, Luís Filipe Lindley, “Os Dialectos da Ilha da Madeira no Quadro Geral dos Dialectos Galego-Portugueses”, in FRANCO, José Eduardo (coord.), Cultura Madeirense: Temas e Problemas, Porto, Campo das Letras, 2008, pp. 95-106; CUNHA, Celso e CINTRA, Luís Filipe Lindley, Nova Gramática do Português Contemporâneo, Lisboa, Editora João Sá da Costa, 1986; FONSECA, Miguel et al., “Para um Estudo da Palatalização do “L” e da Ditongação do “I” no Dialecto Madeirense”, in Ramón Lorenzo Vázquez (coord.), Actas do XIX Congresso Internacional de Linguística e Filoloxía Románicas, A Coruña, Fundación Pedro Barrié de La Maza, Conde de Fenosa, 1994; JÚNIOR, Joaquim Mattoso Câmara, Estrutura da Língua Portuguesa, 15.ª ed., Petrópolis, Vozes, 1985; MALMBERG, Bertil, A Fonética: No Mundo dos Sons da Linguagem, Lisboa, Livros do Brasil, 1954; MATEUS, Maria Helena, “O Acento da Palavra em Português: Uma Nova Proposta”, Boletim de Filologia, t. XXVIII, 1983, pp. 211-230; PESTANA, Eduardo Antonino, Ilha da Madeira II – Estudos Madeirenses, Funchal, Edição da Câmara Municipal do Funchal, 1970; PETERFALVI, Jean-Michel, Introdução à Psicolinguística, São Paulo, Editora Cultrix e EDUSP, 1973; ROGERS, Francis Millet, “Insular Portuguese Pronuntiation: Madeira”, sep. Hispanic Review, vol. xiv, n.º 3, 1946; SEGURA, Luísa, “Variedades Dialetais do Português Europeu”, in RAPOSO, Eduardo Paiva et al. (orgs.), Gramática do Português, vol. i,  Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, 85-142; SILVA, Fernando Augusto da, Vocabulário Madeirense, Funchal, Edição da Junta Geral do Funchal, 1950; digital: ANDRADE, Ernesto, “Algumas Particularidades do Português Falado no Funchal”, in Actas do IX Encontro Nacional da APL, Lisboa, Colibri, 1994, pp. 17-30: http://www.apl.org.pt/docs/actas-09-encontro-apl-1993.pdf (acedido a 17 de abril de 2014); BOYD-BOWMAN, Peter, From Latin to Romance in Sound Charts, Georgetown University Press, 1980: http://books.google.pt/books?id=z0RbXWRbLHIC&printsec=frontcover&hl=pt-PT&source=gbs_ge_summary_r&cad=0#v=onepage&q&f=false (acedido a 17 de abril de 2014);

Miguel Luís da Fonseca

(atualizado a 15.01.2016)