paleozoologia

A paleozoologia é um dos ramos da Paleontologia, a disciplina científica que estuda e interpreta os fósseis no seu contexto geológico. A paleozoologia ocupa-se dos restos fossilizados de estruturas somáticas, os somatofósseis, pertencentes a grupos de animais vertebrados e invertebrados. Ambos os grupos, com clara predominância para os invertebrados, ocorrem em vários sectores das principais ilhas do arquipélago da Madeira: Madeira, Porto Santo e Selvagens.

Palavras-chave: Paleontologia; vertebrados fósseis; invertebrados fósseis; miocénico; quaternário; rochas sedimentares.

Fósseis de vertebrados

Ocorrem ossos mineralizados de aves em certos níveis das formações eolianíticas da Ponta de S. Lourenço (Madeira) e do Porto Santo. No Porto Santo, esta formação é constituída por um arenito carbonatado, rocha mãe da areia de tom amarelado que ocorre ao longo das principais praias desta ilha. Estes arenitos, antes de cimentarem, acumularam-se na forma de grandes edifícios dunares, intercalados com paleossolos ou depósitos de vertente. Nalguns destes níveis, a deflação eólica levou à acumulação de restos de conchas de gastrópodes terrestres e alguns ossos desconexos de aves. Dentro destas, a maior parte pertence a restos osteológicos mineralizados de pardelas (Procellariidae) e paínhos (Hydrobatidae). Foram também encontrados um esterno dum grande pinguim (Pinguinis impennis), vários ossos de pombos (Colomba sp.), rapaces (Falco tinnunculus, Buteo buteo, Tyto alba e Otus scops), passeriformes (Turdus sp., Turdus merula, Fringilla coelebs madeirensis) e um rostro de Coccothraustes coccothraustes.

Foram igualmente encontrados ossos de roedores atribuídos a Mus musculus s.l. em depósitos eolíticos da Madeira (Ponta de S. Lourenço) mas ainda sem ser possível confirmar a sua datação.

Os dentes de peixe fossilizados são bastante raros nas unidades fossilíferas do Arquipélago da Madeira. Foram encontrados dentes isolados molariformes de Sparídeos em níveis do Miocénico do Porto Santo, em hialoclastitos da Serra de Dentro e em arenitos carbonatados do Ilhéu de Cima. O género de tubarão miocénico Carcharodon megalodon ? (= Carcharocles megalodon) foi reportado para o Miocénico de Porto Santo.

Fósseis de invertebrados

Os fósseis de invertebrados são bastante frequentes em certos níveis sedimentares de rochas calcárias ou arenitos carbonatados fossilíferos do Neogénico, intercalados em unidades vulcânicas marinhas ou na transição para o domínio subaéreo. São particularmente abundantes nas rochas carbonatadas que afloram em São Vicente, nos eolianitos da Ponta de S. Lourenço, na ilha da Madeira, e em vários locais do Porto Santo, particularmente nos níveis miocénicos da Serra de Fora e de Dentro, no Ilhéu de Baixo ou da Cal, no Ilhéu de Cima e também nos terraços marinhos quaternários sob as areias de praia atuais, no sector litoral meridional para oeste de Campo de Baixo.

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CoraisMiocénico da Ilha do Porto Santo (BERKELEY-COTTER, 1888-92; Silva, 1959; CHEVALIER, 1972; BOEKSCHOTEN & BEST, 1981; BEST & BOEKSCHOTEN, 1982; CARVALHO & BRANDÃO, 1991; SANTOS et al., 2011)Acanthastrea (Isophyllastrea) madeirensis; Acantocyathus cf. verrucosus transsylvanicus
(Filo Cnidaria)Astrocaenia fromenteli; Balanophyllia (= Eupsammia) cf. varians; Caryophyllia (= Ceratocyathus, = Acanthocyathus) granulosa;
Ceratotrochus cf. duodecimcostatus
Dania calcinata (= Pocillopora madreporacea; Boekschoten & Best, 1981); Dendrophyllia cf. amica; D. cf. cladocoracea; D. cornigera; D. ramosa; Desmastraea (= Isatrea) mayeri; D. orbignyana; Edwardsotrochus sp.; Eupsammia cf. praelonga; Heliastraea reussana ?;
H. prevostana ?; Isastraea sp.; Isophyllastrea sp.; I. orbignyana; Lithophyllia cf. ampla; Madracis sp.; Montastrea sp.; Phyllocaenia thyrsiformis ?; Pocillopora madreporacea; Porites cf. collegniana; Solenastrea (= Palaeoplesiastrea) porto-sancti; Solenastrea (= Palaeoplesiastrea) turonensis; Tarbellastrea reussiana (= Stylopora reussiana)

Fig. 1 – Fotografia de blocos de corais recifais dos níveis miocénicos (Miocénico Médio) do extremo meridional do Ilhéu de Baixo, Porto Santo. Fotografia dos autores.
Fig. 1 – Fotografia de blocos de corais recifais dos níveis miocénicos (Miocénico Médio) do extremo meridional do Ilhéu de Baixo, Porto Santo. Fotografia dos autores.

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AnelídeosMiocénico da Ilha do Porto Santo (SILVA, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Serpula aulophora; Serpula crenulosa; Serpula elongata ?; Serpulorbis arenarius

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Moluscos gastrópodes (Filo Mollusca, Classe Gastropoda)Miocénico da Ilha da Madeira (MAYER, 1864; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Cassis testiculus; Conus puschi; Conus tarbellianus; Fasciolaria tulipiformis; Strombus coronatus var. madeirensis; Strombus italicus; Strombus af. nodosus; Turbinella paucicauda; Vermiculus carinatus; Zonaria dertoflavicula.
Miocénico da Ilha do Porto Santo (JOKSIMOWITSCH, 1910; Silva, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991; LORENZ & GROH, 1998)Calyptraea portisancti; Cerithium sp.; Cerithium nodulosum ?; Cerithium vulgatum var. miospinosa; Chelyconus montisclavatus var. mamillospira; Conus sp.; Conus (Lithoconus) antiguus; Conus borsoni; Conus (Lithoconus) calcanatus; Conus mercatii; Conus reussi; Conus textile; Conus (Conospirus) dujardini; Crepidula fornicata ?; Cypraea argus (provavelmente moldes do bivalve Lithdomus; LORENZ & GROH, 1998); Cypraea brocchi; Cypraea pyrum (atualizada para Proadusta pygodentata; LORENZ & GROH, 1998); Cypraea sanguinolenta (atualizada para Luria palmula; LORENZ & GROH, 1998); Cypraea (Trona) stercoraria; Cypraea stenostoma (atualizada para ?Triona; LORENZ & GROH, 1998); Fasciolaria crassicauda; Fasciolaria nodifera; Hipponyx sulcatus; Luria santoensis; Murex borni ?; Natica redempta; Neritopsis radula; Neritopsis radula var. moledonensis; Olivella (Lamprodoma) clavula var. suvittata; Purpura rarisulcata; Strombus italicus; Tritonium sp.; Tritonium costellatum; Turritella bellardii; Turritella tricincta; Vermetus intortus; Vermiculus carinatus; Xantho sp.; Zonaria hemmenorum; Zonaria sorrira.
Miocénico da Ilha Selvagem Grande (BERKELEY-COTTER, 1892; BOEHM, 1898; JOKSIMOWITSCH, 1911; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Gibbula schimitzi; Janthina hartungi; Nerita martiniana; Nerita selvagensis; Littorina neritoides; Tectarius nodulosos ?; Cerithium rugosus; Purpura sismondae; Fasciolaria sp.; Lucina bellardiana; Nerita connectens; Nerita af. gallo-provincialis.
Quaternário dos eolianitos da Ponta de São Lourenço, Ilha da Madeira (WOLLASTON, 1878; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Geomitra (Helicomela) bowdichiana; Geomitra (Geomitra) delphinula; Helix abjecta; Helix actinophora var. normalis; Helix arcinella; Helix calva; Helix compacta var. major; Helix compacta var. normalis; Helix delphinula var. normalis; Helix delphinula var. planispira; Helix fausta; Helix membracea; Helix obserata var. bipartita; Helix paupercula; Helix polymorpha var. salebrosa; Helix sphaerula var. normalis; Helix squalida; Helix thiarella; Helix undata; Helix vulgata var. normalis; Leptaxis (Leptaxis) undata; Theba pisana.
Quaternário dos terraços marinhos do Porto Santo (SILVA, 1956b, 1957, 1972; Silva, 2003; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Alvania sp.; Astraea (Bolma) rugosa; Bittium sp.; Bursa (Bufonariella) scorbiculator; Calliostoma (Calliostoma) conulum; Cerithiopsis sp.; Cypraecassis testiculus subsp. senegalica; Fissurella sp.; Gibbula cf. richardi; Glycimeris glycimeris; Littorina (Algaroda) striata; Lurida lurida; Mitra cornicula; Nucella lapillus; ? Olivella sp.; Patella caerulea var. crenata; Patella caerulea var. lowei; Patella caerulea var. teneriffae; Patella candei; Patella citrullus; Patella lusitanica; Patella nigra; Patella rustica; Patella safiana; Phalium graulatum subsp. undulatum; Phasianella pullus; Ringicula sp.; Rissoa parva; Semicassis (Semicassis) saburon; Thais (Stramonita) haemastoma; Vermetus sp.
Quaternário dos eolianitos do Porto Santo (BERKELEY-COTTER, 1888-92; ORCHYMONT, 1936; SILVA, 1956a, 1957; CALAPEZ, 1989; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Clasusilia deltostoma var. raricostata; Ferussaria melampoides; Ferussaria ovuliformis; Geomitra bowdichiana; Geomitra (Plebecula) caniçalensis; Geomitra cheiranthicota; Geomitra cockerelli; Geomitra compacta; Geomitra compacta var. major; Geomitra coronata; Geomitra dealbata; Geomitra nitidiuscula; Geomitra obtecta; Geomitra obtecta var. minor; Geomitra polymorpha var. discina; Geomitra polymorpha var. attrita; Geomitra polymorpha var. pulvinata; Geomitra tectiformis; Geomitra tectiformis var. ludovici; Helix subplicata; Iberus wollastoni; Iberus wollastoni var. forensi; Leptaxis chrysomela; Leptaxis chrysomela var. fluctuosa; Leptaxis lowei; Leptaxis neivai; Leptaxis phlebophora; Leptaxis phlebophora var. planata; Leptaxis phlebophora var. nivosa; Leptaxis (Pseudocampylaea) porto-sanctana; Leptaxis wollastoni.
Quaternário da Selvagem Pequena (TALAVERA, 1978)Amphissa costulata; Astraea rugosa; Barleia rubra; Bittium incile; Bursa scrobiculator; Chauvetia crassior; Columbella rustica var. striata; Diodora gibberula; Fossarus ambiguus; Gibbula candei; Jujubinus ruscurianus; Littorina striata; Luria lurida; Mitra fusca; Mitrella hidalgoi; Nucella lapillus; Ocinebrina fusiformis; Osilinus atratus; Patella candei; Patella moreleti; Phyllonotus trunculus; Rissoa sp.; Setia sp.; Spiroglyphus glomeratus; Striagatella zebrina; Thais haemastoma; Triphora obesula; Turbonilla sp.; Turbona leacocki; Zebina vitrea.

 

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Moluscos bivalvesMiocénico da Ilha da Madeira (MAYER, 1864; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Cardium comatulum; Cardium hartungi; Cardium (Laevicardium) multicostatum; Cardium pectinatum; Chama gryphoides; Cytherea madeirensis; Gigantopecten latissimus; Janthina hartungi; Lithophaga lyelliana; Lucina atlantica; Lucina bellardiana; Lucina lactea; Lucina pagenstecheri; Lucina sinuosa; Lucina tigrina; Modiola (Brachydontes) taurinensis; Monodonta aaronis; Pecten cf. nodosus; Pecten pesfelis; Pectunculus conjugens; Pectunculus multiformes; Pectunculus pilosus; Spondylus inermis; Venus (Onphaloclathrum) aglaurae; Venus (Ventricola) circularis
(Filo Mollusca, Classe Bivalvia)
Miocénico da Ilha do Porto Santo (JOKSIMOWITSCH, 1910; Silva, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Aequipecten dentronensis; A. spinosovatus; A. tripartitus; Alectryonia sp., Alectryonia plicatula var. germanitalia; A. plicatula var. taurinensis; Amussiopecten burdigalensis; Arca lactea; A. navicularis; A. nivea; A. (Barbatia) barbata; A. tetragona; A. tetragona var. perbrevis; A. clathrata; Avicula crossei; Axinea pilosa; A. multiformis; A. insubrinca; Cardium comatulum; Cardium cf. hartungi; C. pectinatum; Cardita calyculata; C. duboisi; Chama gryphoides; C. lazarus; C. macerophylla; Chlamys angelonii; Chlamys costai ?; Chlamys gloriamaris var. longolaevis ?; Chlamys noronhai; Chlamys reissi; Clavagella aperta; Codokia leonina; Cypricardia nucleus; Cytherea madeirensis; Diplodonta rotundata; Gastrochaena cuvieri; Gastrochaena gigantea; Gigantopecten latissimus; Glycymeris multiformes; Jagonia reticulata ?; Lima lima; Lima atlantica; Lithodomus lyellanus; Lithodomus moreleti; Lithophagus cf. lithophagus; Lithophagus lyellanus; Lithophagus papilliferus; Lucina tigerina; Monodonta aaronis; ? Myrtea (Lucina) cf. strigillata; Mytilus domengensis; Omphaloclathrum miocenicum; Omphaloclathrum aglaurae; Ostrea hyotis; Parvochlamys cf. oolaevis; Pecten burdigalensis; Pecten reussi; Pectunculus pilosus; Pectunculus multiformis; Perna soldanii; Perna maxillata; Perna maxillata var. soldani; Pinna brochii ?; Plicatula brownina; Psamophila oblonga; Pycnodonta cf. brongniarti; Radula lima var. dispar; Radula lima var. pliodispar; Radula lima var. subtilis; Spondylus baixonensis; Spondylus brancai; Spondylus concentricus; Spondylus concentricus var. imbricata; Spondylus delesserti; Spondylus gaederopus var. inermis; Spondylus gaederopus var. deshayesi; Spondylus selesserti; Spondylus noronhai; Venus cf. aglaurae; Venus burdigalensis; Venus bronni; Venus multilamella; Venus multilamella var. taurominor; Venus multilamella var. taurorolunda; Venus (Ventricula) circularis.
Miocénico da Ilha Selvagem Grande (BERKELEY-COTTER, 1892; BOEHM, 1898; JOKSIMOWITSCH, 1910, 1911; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Cabralia schimitzi; Gastrana mayeri; Oxyustele bohmi
Quaternário dos terraços quaternários do Porto Santo (SILVA, 1956b, 1957, 1972; SILVA, 2003; CARVALHO & BRANDÃO, 1991).Acanthocardia tuberculata; Arca sp.; Callista chione; Cardita calyculata; Cardium sp.; Cardium tuberculatus; Chlamys pesfelis; Ervilia castânea; Glycymeris glycymeris; Laevicardium norvegicum; Lima lima; Meterix chione; Nanella scrobiculator; Pecten corallinoides; Pecten maximus; Spondylud gaederopus; Venus verrucosa.
Quaternário da Selvagem Pequena (TALAVERA, 1978).Beguina calyculata; Codokia reticulata.

 

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Briozoários (Filo Briozoa)Miocénico da Ilha do Porto Santo (SILVA, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Escharina biaperta; Escharina incisa.

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Cirrípedes (Filo Arthropoda, Crustacea, Cirripedia)Miocénico da Ilha do Porto Santo (SILVA, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991; SANTOS et al., 2011b).Balanus sp.; Ceratoconcha costata.

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Equinóides (Filo Echinodermata, Classe Equinoidea)Equinóides do Miocénico da Madeira (MAYER, 1864; JOKSIMOWITSCH, 1910; CARVALHO & BRANDÃO, 1991)Echinolampas sp.; Clypeaster altus; Clypeaster crassicostatus; Clypeaster portentosus.
Miocénico da Ilha do Porto Santo (JOKSIMOWITSCH, 1910; SILVA, 1959; CARVALHO & BRANDÃO, 1991; BAARLI et al., 2013)Clypeaster sp.; Clypeaster altus; Clypeaster portentosus var. intermedia; Clypeaster scillae; Clypeaster scillae var. crassicostata; Pericosmus latus; Rhabdocidaris sismondai; Spatangus sp.

Fig. 2 – Fotografia de um exemplar de Clypeaster altus dos níveis carbonatados do Miocénico Superior de S. Vicente. Fotografia de Joel Freitas – Rota da Cal.
Fig. 2 – Fotografia de um exemplar de Clypeaster altus dos níveis carbonatados do Miocénico Superior de S. Vicente. Fotografia de Joel Freitas – Rota da Cal.

Icnologia

São incluídos aqui também icnofósseis, fósseis de marcas de atividade de animais invertebrados. São exemplos destas ocorrências as marcas de organismos litófagos de habitação (icnofósseis Domichnia), de moluscos bivalves (Gastrochaenolites torpedo, Gastrochaenolites lapidicus, Gastrochaenolithes ornatus), de anelídeos poliquetas (Caulostrepsis isp. e Trypanites isp.), de crustáceos cirrípedes (Imbutichnus costatus) e de esponjas (Entobia isp.) em blocos de corais recifais, produzidas em vida do coral ou após a sua morte. O icnogénero Gastrochaenolites é particularmente abundante em certos fósseis de corais que ocorrem nas antigas frentes de exploração de rocha calcária para cal na face sul do Ilhéu da Cal ou de Baixo, em Porto Santo. Ocorrem também marcas de bioturbação como, por exemplo, Bichordites isp. e Dactyloidites isp. no Ilhéu de Baixo (Porto Santo).

Fósseis de algas calcárias

Dada a sua importância no contexto do registo fóssil do Porto Santo, são também aqui referidas as ocorrências de rodólitos. Localmente conhecidas como “laranjas” estas estruturas fossilizadas arredondadas, com dimensões centimétricas a decimétricas, tipicamente com pequenas protuberâncias arredondadas ou já com a superfície rolada e desgastada, foram produzidas, não por organismos animais, mas sim por algas calcárias vermelhas, rodófitas (Divisão Rhodophyta), por vezes em grandes quantidades, como no caso dos níveis de biocalcarenitos do Cabeço das Laranjas, na extremidade nordeste do Ilhéu de Cima. Estes rodólitos formam-se quando estas algas se desenvolvem soltas, sem estarem agarradas a um substrato rochoso, desenvolvendo-se quando expostas à luz do sol e rodando sobre si próprias pela ação da ondulação e das correntes. O núcleo de crescimento pode ser uma pequena concha ou seixo, como se pode ver nalguns exemplares fraturados. Foram identificadas as seguintes algas:

 

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Rodólitos (Reino Plantae, Divisão Rhodophyta)Miocénico da Ilha do Porto Santo (CACHÃO et al., 2000; JOHNSON et al., 2011; SANTOS et al., 2012b).Hydrolithon sp.; Lithothamnion sp.; Lithophyllum sp.; Lithoporella melobesioides (formas “crustose”); Neogoniolithon sp.; Peyssonneliacean; Sporolithon sp.

Fig. 3 – Fotografia do nível do Miocénico Médio rico em rodólitos (“laranjas”) entre escoadas basálticas do Cabeço das Laranjas (Ilhéu de Cima, Porto Santo). Fotografia dos autores.
Fig. 3 – Fotografia do nível do Miocénico Médio rico em rodólitos (“laranjas”) entre escoadas basálticas do Cabeço das Laranjas (Ilhéu de Cima, Porto Santo). Fotografia dos autores.

 

 

 

 

 

Bibliog.: BAARLI, B.G. et al., “A Middle Miocene carbonate embankment on an active volcanic slope: Ilhéu de Baixo, Madeira Archipelago, Eastern Atlantic”, Geological Journal, 150 (1), 2013, p. 183-189; BERKELEY-COTTER, J.C., “Notícia de alguns moluscos terrestres fósseis do archipélago”, Comunic. Serv. Geol. Portugal, 2 (2), Lisboa, 1888-92, pp. 232-254; BEST, M. W. e BOEKSCHOTEN, G. J., “On the coral fauna in the Miocene reef at Baixo, Porto Santo (Eastern Atlantic)”, Netherlands Journal of Zoology, vol. XXXII, n.º 3, 1982, pp. 412-418; BOEHM, J., “Ueber Miocane Conchylien von den Selvajens-inseln”, Zeitschr. Deut. Geol. Ges., 50, 1898, pp. 33-39; BOEKSCHOTEN, G. J. & BEST, M. W., “Pocillopora in the Miocene reef at Baixo, Porto Santo (Eastern Atlantic)”, Palaeontology, Proceedings B 84 (1), 1981, pp. 13-20; CACHÃO, Mário et al., “Paleoenvironmental and taphonomical interpretation of Miocene rhodoliths from Porto Santo (Madeira Archipelago, Portugal)”, in I Congresso Ibérico de Paleontologia, Évora, s.n., 2000, pp. 42-43; CALAPEZ, P., “Moluscos terrestres do Quaternário de Porto Santo: Estudo geométrico de algumas espécies”, Memórias e Notícias, n.º 107, Coimbra, Univ. Coimbra, 1989, pp. 11-26; CARVALHO, A. M. Galopim de e BRANDÃO, J. M., Geologia do Arquipélago da Madeira, Lisboa, Museu Nacional de História Natural, 1991, p. 170; CHEVALIER, J. P., “Les Scléractinaires du Miocène de Porto Santo (Archipel de Madère): étude paléontologique”, Ann. Paléont. Invert., 58, 1972, pp. 141-160; JOHNSON, M. E. et al., “Rhodolith transport and immobilization on a volcanically active rocky shore: Middle Miocene at Cabeço das Laranjas on Ilhéu de Cima (Madeira Archipelago, Portugal)”, Palaeogeogr. Palaeoclimatol. Palaeoecol, vol. 300, 2011, pp. 113-127; JOKSIMOWITSCH, Z. J., “Die zweite Mediterranstufe von Porto Santo und Selvagem”, Zeitschr. Deut. Geol. Ges., 62, 1910, pp. 43-96; JÉRÉMINE, E., “Contribution à la connaissance lithologique de la Grande Selvage”, Revista da Faculdade de Ciências, 2.ª Série, C I (1), Lisboa, 1911, pp. 5-20; LORENZ, F. e GROH, K., “Five new species of Cypraeidae from the Middle Miocene (‘Vindobonian’) of Porto Santo, Madeira Archipelago”, Arch. Molluskenkunde, vol. 127, n.º 1-2, 1998, pp. 107-114; MAYER, K., “Paleontologische Verhaltnisse – systematische Verzeichniss der fossilen reste von Madeira, Porto Santo und Santa Maria”, in HARTUNG, Engelmann Verlag, Leipzig, s.n., 1864, p. 299; ORCHYMOND, A., Porto Santo, “Ses sables calcaires. L’Atlantide”, Bull. Mus. royal d’Hist. nat. Belgique, XII (43), Bruxelles, 1936, pp. 1-24; PIEPER, H., “Ein subfossiles Vorkommen der Hausmaus (Mus musculus s.l.) auf Madeira”, Bocagiana, 59, 1981, pp. 1-3; Id., “The fossil land birds of Madeira and Porto Santo”, Bocagiana, 88, 1985, pp. 1-6; RANDO, J. C. et al., “Radiocarbon evidence for the presence of mice on Madeira Island (North Atlantic) one millennium ago”, Proceedings of the Royal Society B., 281, 2014, p. 5; SANTOS, A. et al., “Miocene intertidal zonation on a volcanically active shoreline: Porto Santo in the Madeira Archipelago, Portugal”, Lethaia, 44, 2011, pp. 26-32; Id., “Extreme habitat adaptation by boring bivalves on volcanically active paleoshores from North Atlantic Macaronesia”, Facies, 58, 2012, pp. 325-338; Id., “Basalt mounds and adjacent depressions attract contrasting biofacies on a volcanically active Middle Miocene coastline (Porto Santo, Madeira Archipelago, Portugal)”, Facies, 58, 2012, pp. 573-585; SILVA, G. H., “Gastrópodes terrestres fósseis do Quaternário da ilha de Porto Santo e descrição de uma nova espécie de Helicídeo”, Memórias e Notícias, 41, 1956, pp. 40-43; Id., “Contribution à la connaissance de la faune fossile de l’île de Porto Santo”, Memórias e Notícias, 42, 1956, pp. 26-28; Id., “Descrição de Gastrópodes terrestres fósseis do Quaternário da Ilha de Porto Santo”, Memórias e Notícias, 44, 1957, pp. 10-32; Id., “Fauna quaternária da ilha do Porto Santo”, Memórias e Notícias, 73, 1972, pp. 61-65; Id., “Fósseis do Miocénico marinho da ilha do Porto Santo”, Memórias e Notícias, 48, 1959, pp. 361-363; SILVA, J. B. P., Areia da Praia da Ilha do Porto Santo, Geologia, Génese, Dinâmica e propriedades justificativas do seu interesse medicinal, Funchal, Madeira Rochas, 2003; TALAVERA, F.G., “Sobre el Quaternario marino de la isla Selagem Pequena”, in Contribucion al estúdio de la Historia Natural de las islas Selvages, s.l., Museo Ciencias Naturales de Santa Cruz de Tenerife, 1978, pp. 37-44; WOLLASTON, T. V., Testacea Atlantica or the land and freshwater shells of the Azores, Cape Verde and Saint Helena, Londres, s.n., 1878.

Mário Cachão

Ricardo Ramalho

(atualizado a 01.01.2017)