parreca

O território português encontrava-se há muito dividido em paróquias, circunscrições eclesiásticas governadas por um pároco, que exercia o múnus pastoral, nomeadamente, através da celebração da missa, da administração dos sacramentos e da pregação. Por conseguinte, cabia ao pároco a realização de batismos, casamentos e sepultamentos, bem como os registos dos mesmos, possuindo assim um poder notável sobre a população. Por seu lado, as dioceses, através das visitações, a cargo dos prelados ou dos seus delegados, exerciam um rígido controlo sobre as paróquias ou freguesias, inspecionando-lhes os registos, ouvindo os seus párocos e fregueses, e procedendo ou não a devassas, publicando os resultados da visitação: os provimentos (Visitações).

Freguesia é o conjunto dos fregueses, ou seja, os filhos da igreja que se reuniam num determinado templo. Alguns dicionários consideram os termos “freguesia” e “paróquia” como sinónimos, mas não é verdade (Juntas de Freguesia). Freguesia é a divisão do ponto de vista dos fregueses, relativamente à igreja e paróquia dos próprios; paróquia, a do encarregado da mesma, ou seja, do pároco sobre as suas ovelhas. Não tendo os liberais, maioritariamente educados, em termos políticos, entre a Inglaterra e a França, a perceção dos conceitos em questão, tendo-se apropriado da divisão eclesiástica existente para a divisão administrativa do território, utilizando o termo “paróquia”, vieram a criar o levantamento conhecido por parreca.

Residencia paroquial Caniço_1850
Residência paroquial do Caniço, 1850, Arqui. Rui Carita.

As juntas de paróquia foram criadas pelo decreto de 18 de julho de 1835 e introduzidas no Código Administrativo no ano seguinte, mas na prática somente funcionaram, e vagamente, nas freguesias do Funchal, quando se preparavam as eleições autárquicas. As autarquias rurais quase não tinham quadros diretivos habilitados e introduzir mais uma estrutura política intermédia era muito difícil, acrescendo ao facto que uma certa conotação com a divisão eclesiástica tradicional também não ajudava. A persistência da legislação a seu respeito nos vários códigos administrativos levou a que, após as eleições de março de 1887, o governador civil, visconde do Canavial (1829-1902) (Canavial, visconde e conde), iniciasse a convocação das eleições das juntas de paróquia, que ocorreram somente no Funchal e em Machico. O visconde do Canavial insistiu nas convocatórias por três vezes, mas sem resultados.

As questões autárquicas tinham ganho novos contornos, a partir de 1880, quando se começaram a criar os mecanismos tributários diretos, capazes de darem às autarquias uma outra autonomia financeira. Entretanto, com o Código Administrativo de 1886, de Luciano de Castro, recorreu-se à insistência na instalação das juntas de paróquia, tentando beneficiar de uma maior proximidade com o contribuinte para agilizar determinadas cobranças e criar assim fundos próprios de financiamento. Em causa estavam, indubitavelmente, as populações que já sofriam de uma pesada carga tributária e se viam assim na contingência de um agravamento.

Camacha
Camacha, Santa Cruz, Arqui. Rui Carita.

Os primeiros tumultos foram em Gaula, onde, a 23 de outubro de 1887, ocorreram “vários distúrbios promovidos pelos povos daquela localidade, principalmente pelas mulheres, que nos nossos campos são sempre agitadoras terríveis”, como refere no Funchal, o jornal O Direito, num dos seus números de outubro (O Direito, 29 out. 1887). Três dias depois, cerca de 400 populares, vindos também de Gaula e da Camacha, manifestaram-se junto da igreja matriz de Santa Cruz, onde só a promessa do então administrador do concelho, que pensamos ser Joaquim António Teles de Meneses, de que não seriam aí instaladas as juntas, os fez dispersar calmamente.

Caniço_492293023_n
Caniço, Santa Cruz, Arqui. Rui Carita.

Um mês depois, de 20 para 21 de novembro, o Caniço foi palco de distúrbios mais graves, tendo uma multidão de algumas centenas de pessoas invadido a igreja e destruído parcialmente a residência paroquial, onde se dizia que ia ser instalada a junta, tendo o pároco procurado refugiu na capela do Santíssimo. Refere, no dia seguinte, o Diário de Notícias, que uma multidão da Camacha, formada por de “mais de mil pessoas” e convocada por “por toque de búzio”, tinha chegado ao Caniço pelas sete da tarde (DN, 22-23 nov. 1887, 2). Avisado o governador civil, no Funchal, chegava ao Caniço ao anoitecer o destacamento militar de Caçadores 12, comandado pelo capitão João Maria dos Reis e tendo por ajudante o tenente Francisco Alberto Rodrigues, que pretendeu fazer evacuar a igreja. Mas o povo, amotinado no adro, apedrejou os soldados e lançou “bombas de dinamite”, chegando a matar um dos militares e a ferir outro (Id., Ibid.). Terá sido mesmo lançada sobre o administrador do concelho uma das “bombas de dinamite”, que não chegou a atingir o alvo, tendo o destacamento que responder ao ato com fogo, provocando quatro mortos na população e um número indeterminado de feridos. As forças militares terão então efetuado a detenção de nove indivíduos, imediatamente transportados para o Funchal (Id., Ibid.). A partir daí os distúrbios estenderam-se a toda a Ilha, só não tendo ocorrido, quase, na área do Funchal e de Câmara de Lobos.

Em dezembro de 1887, verificaram-se tumultos no Campanário, Ribeira Brava e no Porto do Moniz, tendo aí sido espancados alguns funcionários públicos. Nesse mês também decorreram distúrbios no concelho de Santana, tendo havido levantamentos na mesma freguesia, sendo atacada a residência do regedor, João Augusto da Câmara Leme, “quebrando-lhe as janelas e as portas”, bem como no Faial, em São Jorge e na Boaventura (Id., 3-6 jan. 1888). Em alguns desses tumultos verificou-se uma estranha ferocidade, tendo sido espancadas várias figuras públicas, entre as quais o pároco do Faial. No primeiro dia de janeiro de 1888, o povo do Arco da Calheta amotinou-se e destruiu as residências do regedor e do amanuense da Câmara da Calheta naquela localidade e, nesse mesmo dia, ocorreram também tumultos na Tabua e na Madalena do Mar, assim como no norte da Ilha, especialmente em São Vicente, no Porto do Moniz e no Porto da Cruz. Nos dias seguintes, ocorreram tumultos na Fajã da Ovelha, Prazeres, Estreito da Calheta e Curral das Freiras.

04-Padre
Padre da Igreja Católica Romana, Arqui. Rui Carita.

A partir de 5 de janeiro, o povo dos Canhas, da Madalena e da Ponta do Sol invadiu por três vezes a vila, saqueando a residência do padre José Ferreira e apedrejando, na última incursão, as forças militares que o governador civil para aí destacara, comandadas pelo tenente José Cassiano Moniz, que foi atingido numa perna e bastante mal tratado. Perante a agressão, os soldados voltaram a responder com fogo, o que resultou em mais mortos entre os populares, inclusivamente uma mulher que se encontrava grávida e mais uma série de feridos. Em meados de janeiro, chegavam ao Funchal informações do Porto Santo, noticiando o Diário de Notícias de 12 de janeiro que nessa ilha “os ânimos estão muito exaltados” (DN, 12 jan. 1888).

A comunicação social do Funchal, entretanto, ia noticiando que “com os tumultos no Porto da Cruz e em Machico muitos dos funcionários públicos já tratam de fugir para escapar à fúria do povo”, tal como “de Santa Cruz informam-nos que haviam chegado várias famílias de funcionários vindos em fuga de Machico”, como refere o Diário de Notícias de 3 de janeiro. No dia 12, o mesmo periódico informava: “Chegaram ontem ao Funchal os vigários padre António Alves Camacho, da Ribeira da Janela, padre Brasão, das Achadas da Cruz e padre Manuel Agostinho Teixeira, da Tabua. Vêm receosos dos tumultos. Veio também para o Funchal o procurador da Calheta, sr. Vicente Lopes” (Id., Ibid.).

Deve ter-se vivido então uma situação de insurreição generalizada, a avaliar pelas palavras do padre Fernando Augusto da Silva (1863-1949), que teria 14 anos de idade quando decorreram estes incidentes. Conta o mesmo que, em algumas das freguesias, os acontecimentos se revestiram de “um carácter de manifesta hostilidade para com todos os que exerciam cargos de autoridade ou desempenhavam quaisquer funções públicas”, salientando, “sem exclusão das pessoas mais gradas e mais consideráveis que aí residiam” (SILVA e MENESES, II, 1998, 205). A situação levara a um “terror, vendo-se muitos obrigados a deixarem os seus domicílios e procurarem no Funchal abrigo seguro contra os desmandos do povo revoltado” (Id., Ibid.).

Emblema Caçadores 12_1881
Emblema dos Caçadores 12, calçada, 1881, Arqui. Rui Carita.

Percebem-se os contornos de uma típica revolta popular, não especialmente contra o sistema instituído, mas contra os instrumentos do mesmo, não lhe sendo alheios ódios antigos e as vinganças motivadas por velhas humilhações, perpetradas pelos senhores locais e até pelos quadros eclesiásticos. A prepotência do governador civil ao querer efetuar a todo o custo a instalação das juntas, em vez de suspendê-la ou adiá-la e, inclusivamente, ao despachar forças militares para os diversos concelhos, terá sido um dos principais culpados pela violência desencadeada e pelo número de mortos e de feridos que resultaram.

Uma parte da imprensa monárquica colocou-se decididamente ao lado dos manifestantes, nomeadamente, o Diário de Notícias, que logo nos finais de novembro abria a sua edição sob o título “A Catástrofe”, colocando a situação geral das populações mais desfavorecidas sob o dilema “ou a bolsa ou a vida! Emigrar ou morrer!” (DN, 24 nov. 1887). Dias depois, o mesmo periódico, sob o título “A situação deste Distrito”, escreve que face “os recentes e infaustos acontecimentos do Caniço”, algumas pessoas pretendiam “ocultar essas desgraças com factos fantasiosos e capciosos, quase inspirados na lisonja do poder”, mas tal não era outra coisa senão ocultar “rancores partidários” e era manobrar “contra a verdade” (Id., 29 nov. 1887). Também O Direito, em meados de dezembro, alertava para que, “persuadir neste momento o nosso lavrador, já naturalmente excitado pelas contrariedades que o atormentam, de que vão pesar sobre eles encargos novos, é fazer-lhe vibrar a fibra mais irritável da sua tão melindrosa situação, e ateará forçosamente em toda a Ilha o incêndio da revolta” (O Direito, 21 dez. 1887).

Priests
Litografia dos Clérigos Madeirenses, Arqui. Rui Carita.

A partir dos inícios de 1888, a campanha contra o visconde do Canavial na imprensa madeirense generalizou-se, encontrando-se não só nos periódicos republicanos, como O Povo e o Jornal do Povo, que se começou a publicar a 22 de janeiro desse ano inspirado nos acontecimentos em apreço, mas também no órgão de imprensa dos dinásticos, o agressivo O Direito, que lhe passou a dedicar quase diariamente uma boa parte da primeira página, e ainda no Diário de Notícias, à época ligado à igreja madeirense e que, de certa forma, passou para o lado dos dinásticos.

Logo em dezembro, o articulista de O Direito que transcrevemos acima alvitrava poderem estar por detrás dos acontecimentos “forças interessadas na destabilização da ordem”, pedindo “uma investigação bem dirigida”, para revelar “a origem dessa agitação que surgiu inesperadamente em Santa Cruz e que se vai manifestando precisamente nos pontos onde preponderam as mesmas influências que dispõem de conhecidos meios no primeiro ponto de ensaio” (Id., Ibid.). Nessa sequência, referia-se mais especificamente aos republicanos, acrescentando que, “sendo o partido que mais tem a ganhar com esses excessos da oposição monárquica, é o que procura erguer-se sobre as ruínas das instituições” e que, se não se encontrava fomentá-las diretamente, teria por certo “cumplicidade moral nelas” (Id., Ibid.).

No mês seguinte, era o Diário de Notícias que manifestava opinião diferente, escrevendo que “embora uns espetadores políticos, que cultivam a intriga partidária com o mesmo cinismo com que exercem a exploração sistemática da ignorância e da miséria popular, ousem afirmar que esse movimento das classes trabalhadoras, da população agrícola do distrito, é obra de não sabemos que inimigos pessoais da autoridade local; Mentem – porque se um tal disparate fosse admissível, bastaria o monstruoso e inesperado espetáculo de morticínio do Caniço para que tudo estivesse terminado” (DN, 1 jan. 1888).

Os republicanos defendiam-se, entretanto, afirmando que “nunca a administração do distrito correu tão desgraçada, tão suja, tão enlameada como durante este consulado da inépcia de um visconde que já tem a farda com que ade ostentar o seu poder salpicado do sangue popular” (Jornal do Povo, 1 mar. 1888). Nesse sentido, aqueles que pretendiam insinuar que “a resistência do foi obra de algum manejo político”, não entendiam que aqueles tumultos, eram “o percurso duma revolta geral que traz no seu estandarte de guerra o horrível estigma da fome!” (Id., Ibid.), no que não deixava de ter razão.

Sold Caçadores 12_1864
Litografia do fardamento do Soldados Caçadores nº 12, Arqui. Rui Carita.

A igreja, através do Diário de Notícias, havia tentado contornar o delicado problema da instalação das juntas de paróquia, numa primeira fase, apelando aos párocos para “que nas suas práticas façam ver os inconvenientes que resultam da alteração da ordem pública e afiancem aos povos que as Juntas de Paróquia não funcionarão para o fim do lançamento de impostos” (DN, 29 dez. 1887); mas, perante o ataque direto a alguns dos seus párocos, vários dos quais espancados, rapidamente passou para a oposição mais radical à situação. O periódico A Verdade, órgão da Associação Católica do Funchal, considerou mesmo “realmente selvagesco o estado atual dos espíritos do povo madeirense”, passando ao insulto: “Os cafres nos seus instintos de ferozes não vão além nos seus planos de destruição e canibalismo. Vê-se agora claramente que o povo dos nossos campos não carece só de pão, mais do que de pão precisa de instrução. Estúpido, adulado por alguns canibais, vê-se hoje de quanto é capaz” (A Verdade, 5 jan. 1888).

A posição extremada de A Verdade não correspondia, no entanto, à da restante imprensa, que, mais ou menos politizada, não deixava de culpar, na essência, a péssima situação económica da população mais desfavorecida como principal fator dos acontecimentos. Nos finais de janeiro, o redator de A Voz do Povo escrevia: “As circunstâncias foram-se agravando gradualmente, e as coisas chegaram a tal estado, que o povo veio para a rua dar batalha à tropa. Triste é dizê-lo: Foi preciso que os homens dos nossos campos se armassem de pedras e foices; foi preciso que uns desvairados atacassem a propriedade de uns e tentassem contra a vida de outros; foi preciso que se derramasse sangue entre irmãos; foi preciso que se fuzilassem mulheres, para que os poderes olhassem para esta mísera terra” (Voz do Povo, 26 jan. 1830). Uns dias mais tarde, justificava os tumultos populares acrescentando: “É notório que aos gritos de ‘Abaixo os Impostos’ e ‘Não Queremos Junta de Paróquia!’, juntaram-se estes: ‘Morram os Casacas’ e ‘Vamos às Senhoras Fidalgas!’” (Id., 30 jan. 1888).

As administrações dos concelhos tinham-se mostrado perfeitamente incapazes de fazer face à situação, colocando-se totalmente nas mãos do governador civil. Este, por seu lado, entendeu que, destacando forças militares para a maior parte dos concelhos, conseguiria segurar a situação. O visconde de Canavial não aprendeu com o primeiro desastre do Caniço, em novembro de 1887, de onde resultaram várias mortes, insistindo em fazer face à situação com a deslocação de forças militares, levando a que voltasse a ocorrer semelhante desastre nos primeiros dias de janeiro, na Ponta do Sol. A atitude inicial do visconde foi no sentido de desvalorizar a situação, como fez no começo do mês de novembro, ao descrever os primeiros incidentes de Gaula, observando que apesar disso “a tranquilidade pública tem continuado sem alteração neste distrito” (ARM, Governo Civil, Liv. 11, fl. 82). No entanto, em dezembro, pedia para o continente mais reforços militares, temendo um levantamento geral em toda a Ilha, o que estava aliás em marcha e chegou logo à imprensa.

O governo de Lisboa ainda terá tentado silenciar as notícias vindas da Madeira, confiscando os telegramas da agência Havas para que não tivessem eco no continente, onde também ocorriam pontualmente problemas. Mas, em breve, quase toda a imprensa anunciava largamente os tumultos madeirenses. A 1 de dezembro, já o Jornal do Comércio de Lisboa noticiava os acontecimentos do Caniço, seguindo-o o Diário Ilustrado, o Diário de Notícias, o Notícias da Noite, o Jornal da Noite, O Século, O Comércio do Porto e aí por adiante, voltando a imprensa da Madeira a transcrever as mesmas notícias. Com as primeiras informações da Madeira, logo em novembro, o governo de Lisboa tentou segurar a situação atendendo a alguns pedidos feitos anteriormente pelos madeirenses, nomeadamente, a suspensão do aumento de impostos sobre o milho importado. Todavia, a médio prazo, teve de nomear uma comissão para investigar as causas dos tumultos e, inclusivamente, a atuação da administração regional.

A imprensa funchalense também noticiou a formação da comissão de inquérito, cuja direção foi entregue ao coronel de engenharia Manuel Raimundo Valadas (1827-c. 1894) e ao conselheiro Pedro Maria Gonçalves de Freitas (1839-1915). Esta comissão incluía várias entidades oficiais do distrito, além de proprietários e comerciantes, e tinha como redator Gaspar Malheiro Pereira Peixoto, então secretário-geral do governo civil; os seus resultados foram parcialmente publicados. O inquérito foi efetuado, essencialmente, pelo coronel Valadas, que chegou ao Funchal a 11 de janeiro de 1888 com o contingente de 250 praças de Caçadores e de Infantaria, dos regimentos n.º 5 e n.º 16, comandadas pelo tenente-coronel Cibrão, e que tinham por função robustecer as forças da Ilha, onde se mantiveram durante os meses seguintes.

O extenso relatório produzido pelo coronel Valadas, que terá sido incansável em reuniões no Funchal, ouvindo em São Lourenço as mais diversas entidades, incluindo, o que era inédito, os principais membros da imprensa local, teve a sua versão final efetuada em Lisboa, com o conselheiro Gonçalves de Freitas e apontava para que as principais razões se prendiam, essencialmente, com o estado de abandono a que haviam chegado as populações rurais. O relatório nunca chegou a ser totalmente divulgado, mas foi autorizada a sua consulta, na secretaria do ministério do Reino, aos deputados representantes da Madeira, tendo então corrido nos jornais que ele indiciava negativamente várias entidades superiores, referindo que não tinham estado à altura da situação. Logicamente, tal avolumou a discussão política local sobre as culpas de uns e de outros, tendo o visconde do Canavial sido um dos principais acusados do agudizar da escalada de violência.

O famigerado relatório chegaria mesmo a apontar não só os principais fatores económico-sociais que haviam levado à criação de condições para os tumultos, mas também algumas medidas urgentes para tentar colmatar a situação. Talvez por isso, nunca foi divulgado. Face às mesmas recomendações, decidiu-se “abrir a execução das obras aprovadas pela Junta Consultiva e reparação das existentes”, encomendar “canas-de-açúcar e bacelos resistentes, a fim de serem distribuídos gratuitamente pelos agricultores”, “suspender por cinco anos o imposto de tonelagem na Madeira”, “permitir o pagamento das contribuições atrasadas, em prestações, sem juro e no prazo de cinco anos” e autorizar “a anulação ou redução da contribuição predial” (VALE, 1888, 4)  .

A imprensa, especialmente o republicano A Voz do Povo, não perdoava ao visconde do Canavial a maneira como este conduzira os acontecimentos e pressionava-o continuamente para se demitir. A 29 de fevereiro, alegava, sobre a situação geral do país: “faz prodígios de equilíbrio o ministério progressista para aguentar-se de pé nesse trapézio tão ambicionado a que se chama poder, embora o país o apupe, cansado dessa embaçadela permanente de um artista que se agarra às cordas, para não ir parar estatelado na arena. Outro preferiria sair com honra e dignidade a ficar como o sr. Visconde do Canavial teima em ficar, mas alguma coisa devia Sua Ex.ª aprender com o ‘acorde’: a não corar” (A Voz do Povo, 29 fev. 1888). A 1 de março, perante a manutenção do visconde no cargo, o mesmo periódico clamava: “Exmo. Sr. José Luciano de Castro: Em nome dos filhos da Madeira, interpretando fielmente os votos dos madeirenses pedimos para tranquilidade de todos, a imediata demissão da autoridade que a todos traz receios”: o governador civil (Id., 1 mar. 1888). A 15 de março, protestava: “Não há mão administrativa no palácio desolado de São Lourenço! Balas e tropas são as palavras de reconciliação e de prudência que saem constantemente da boca da Autoridade Civil. Sr. Ministro do Reino, Justiça! Providências!” (Id., 15 mar. 1888).

Perante a contestação geral, o visconde do Canavial veio a apresentar a sua demissão, a 26 de março de 1888, logo noticiado em A Voz do Povo, que adianta: “Fez Sua Ex.ª o que devia ter feito em outubro do ano findo” (Id., 26 mar. 1888), tendo sido entregue o governo, uma vez mais, ao visconde da Calçada, Diogo de Ornelas de França Carvalhal Frazão e Figueiroa (1812-1906). A 31 desse mês, o governo de Lisboa também publicava um decreto a “conceder amnistia geral e completa para todos os crimes contra o exercício do direito eleitoral e em geral para todos os crimes de origem ou carácter político, excetuando aqueles de que resultou homicídio” (O Direito, 7 abr. 1888). O decreto teria levantado alguns problemas de aplicação, depois resolvidos pelo novo governador, D. João de Alarcão (c. 1850-1918), que tomaria posse a 8 de maio desse ano de 1888.

Os tumultos da Parreca teriam repercussão muito para além desses anos, embora não tenham resolvido qualquer dos problemas estruturais que afetavam a Madeira. O novo governador civil, D. João de Alarcão, conseguiria vir a gozar de uma muito boa aceitação no arquipélago, mas, para além de soluções pontuais para questões menores, quer o profundo problema da divisão da propriedade rural, sujeita ao velho, caduco e prejudicial sistema do contrato de colónia, quer a passagem progressiva de grande parte das poucas atividades produtivas insulares e de amplas propriedades para os comerciantes ingleses radicados na Ilha, não foi de forma alguma controlado, antes pelo contrário, a situação manter-se-ia e progrediria mesmo pela centúria seguinte.

A Parreca demonstrou, no entanto e quase pela primeira vez, a possibilidade de se assumirem ações conjuntas em toda a Ilha, bem como a consciencialização da condição insular, manifestada na vontade de defender os direitos locais. Ao mesmo tempo, revelou que tudo pode retroceder rapidamente, retomando-se a apatia e a desunião, aspectos que marcaram de uma forma quase sistemática os sécs. XIX e XX na Madeira. No séc. XX, voltaram a acontecer movimentos reivindicativos de certa amplitude, como a revolta das farinhas e a revolta do leite, embora ambas localizadas, a primeira no Funchal e a segunda na área do Faial, tumultos que também quase não produziriam verdadeiras mudanças. Na primeira versão do Elucidário Madeirense, de 1921, Fernando Augusto da Silva escreveu que as sublevações de 1887 e 1888 perduravam na memória do povo madeirense, acrescentando que se então “gente mal-intencionada agitasse a questão da ‘Parreca’ como estandarte de revolta, conseguiria de novo pôr em movimento os espíritos e produzir talvez graves perturbações de ordem pública” (SILVA e MENESES, II, 1998, 205).

Bibliog.: manuscrita: ARM, Alfândega do Funchal, liv. 686; ARM, Governo Civil, liv. 11, Registo de Correspondência com o Ministério do Reino, 1885 – 1890; impressa: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. VII, O Longo Século XIX: Do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional (1834-1910), Funchal, SREC, 2008; Diário de Notícias, Funchal, 1 nov., 18 nov., 22-24 nov., 26 nov., 29 nov., 15 dez., 22 dez., 29 dez., 31 dez. 1887, 1 jan., 3 jan., 6 jan., 11 jan., 12 jan., 19 jan. 1888; O Direito, Funchal, 29 out., 21 dez. 1887, 7 abr. 1888; FERREIRA, Pedro, “Tumultos Populares na Madeira, A Parreca (1887-1888)”, Islenha, n.º 4, 1989, pp. 64-70; O Jornal do Povo, Folha Política, Noticiosa e Literária, 22 jan., 26 jan., 1 mar. 1888; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. II, Funchal, DRAC, 1998; VALE, Henrique Félix Freitas Vale, A Revolta da Madeira e a Comissão de Inquérito. Breves Considerações e Apontamentos, Funchal, Tipografia Funchalense, 1888; A Verdade, Funchal, 5 jan. 1888; A Voz do Povo, Funchal, 26 jan., 30 jan., 29 fev., 1 mar., 15 mar., 29 mar. 1888.

Rui Carita

(atualizado a 08.09.2016)