pastel

Pastel é o nome comum da planta Isatis tinctoria L., oriunda do leste da Europa. A sua importância económica deriva do facto de o pó das folhas fermentadas ser usado como corante azul para a tinturaria, para a pintura e para fins medicinais. Perdeu importância com o aparecimento de substitutos como o índigo e o anil. A memória da cultura do pastel ainda está presente na toponímia madeirense.

Palavras-chave: Pastel; Tinturaria.

É o nome comum da planta Isatis tinctoria L., da família das crucíferas (Brassicaceae), oriunda do Leste da Europa. A sua importância económica deriva do facto de o pó das folhas fermentadas ser usado como corante azul para a tinturaria e a pintura. Era também usado com fins medicinais. Perdeu importância com o aparecimento de substitutos como o índigo e o anil.

A memória da cultura do pastel está presente na toponímia madeirense, nos sítios do Pastel, em Santo António, na Ribeira Seca, em Machico, na Ribeira dos Socorridos e em Boaventura. Também temos notícia, relativamente ao séc. XVIII, do Forte do Pastel, no sítio com o mesmo nome, junto à foz da Ribeira dos Socorridos. Ainda em S. Vicente, está referenciada a levada do pastel. Esta fixação do termo na toponímia local pode ser entendida como o resultado da presença da cultura nestas áreas. Existe ainda a referência de Eduardo Pereira à cultura do mesmo nas ilhas Selvagens, situação que não está referenciada em qualquer documento.

Nos começos do séc. XXI, ainda era possível encontrar algumas plantas de pastel na Fajã dos Padres, em Cabo Girão, na Ribeira Brava e na Levada dos Piornais.

O seu aparecimento na Madeira resulta do processo de valorização económica deste arquipélago, a partir do séc. XV, em que se testaram todas as culturas com grande procura no mercado europeu, entrando o pastel no primeiro lote de produtos, uma vez que atuava, em simultâneo com a cultura de cereais, no sistema de rotação dos espaços cultivados. Tendo em conta a sua importância na época, é possível que Toulouse seja a origem desta planta.

Até ao séc. XVII, altura da introdução do anil na Europa, o pastel foi a principal planta da tinturaria europeia, donde se extraíam as cores preta e azul. Foi primeiro cultivado na Madeira e, depois, levado para aos Açores e para as Canárias. No arquipélago açoriano, atingiu uma grande dimensão económica nos sécs. XVI e XVII. Na Madeira, refere-se a sua cultura e o seu comércio no séc. XV, tendo sido os genoveses os principais interessados no seu negócio, pelo que atribuíram à Ilha o epíteto de “ilha do pastel”. A única referência documental disponível à sua exportação surge apenas no séc. XVI, com destino à Flandres.

Tal como o açúcar, o pastel surge no mercado da Europa nórdica e mediterrânica como um produto importante; era um dos principais corantes utilizados na indústria têxtil europeia. A abundância de urzela e sangue de drago no mercado insular condicionou o aparecimento dos mercadores italianos e flamengos que, na procura desses materiais corantes, trouxeram consigo o pastel.

Não obstante estar referida a sua existência na Madeira, no séc. XV, e nas ilhas de Hierro, La Palma e Tenerife, o pastel só ganhou importância nas ilhas açorianas; encontramos esta cultura em todas as ilhas dos Açores, com especial incidência em S. Miguel, na Terceira e em Faial. Esta planta cultivou-se inicialmente na Madeira, tendo sido o seu produto enviado para ao reino e para Itália; em 1460, ainda em vida do Infante D. Henrique, recomendava-se o seu envio ao reino. Antes disso, em 1445, esta cultura era considerada como monopólio do infante.

O pastel foi certamente introduzido nas Canárias pelos Portugueses oriundos dos Açores, uma vez que estes surgem em Tenerife associados à sua cultura e transformação. No arquipélago açoriano, esta cultura alcançou um lugar similar ao ocupado pela cana-de-açúcar na Madeira e nas Canárias, sendo o principal produto de troca com o exterior e um chamariz para os mercadores italianos, flamengos e ingleses. A historiografia refere-nos que o pastel foi introduzido pelos flamengos que estiveram ligados ao povoamento das ilhas da Terceira e do Faial; no entanto, parece-nos ser de outra precedência a sua origem em solo açoriano. Em primeiro lugar, convém esclarecer que o facto de os flamengos estarem ligados aos primórdios do seu cultivo e comércio não poderá ser prova cabal da sua transplantação da Flandres e de que a sua produção se destinava em exclusivo a este mercado.

O interesse da Flandres pelo pastel deriva da necessidade do seu uso na indústria têxtil, procurando evitar os contratempos e as dificuldades do mercado abastecedor francês, pois a Flandres não era um mercado produtor, mas um potencial comprador do pastel de Toulouse. Deste modo, se tivermos em consideração a sua existência na Madeira, no séc. XV, poderemos referenciar a possibilidade da sua introdução por colonos madeirenses, que invadiram as ilhas da Terceira, Faial e S. Miguel a partir de meados do séc. XVI. Saliente-se que Guilherme da Silveira, apontado como um dos introdutores do pastel no Faial, na sua expedição para esta ilha, aportou na Madeira, onde se deteve por algum tempo. De igual modo, Jácome de Bruges, outro flamengo relacionado com o povoamento da Terceira, esteve na Madeira na década de 50, tendo trazido consigo Diogo de Teive. Em síntese, é legítimo concluir que o pastel foi introduzido pelos flamengos que, na Madeira, estiveram ligados ao seu comércio ou então pelos colonos madeirenses que emigraram para os Açores, a partir da década de 50.

Não existem dados seguros sobre a forma de laboração do pastel na Madeira. Apenas A. Sarmento descreve o processo, referindo o uso de mós de pedra, que são testemunhadas por Gaspar Frutuoso para a ilha de S. Miguel, em finais do séc. XVI, apontando um sistema de trituração semelhante ao do sumagre. O processo é assim descrito:

“Na apanha do pastel empregavam-se os escravos mocinhos, portadores de açafates com pouca aba, em que traziam as folhas para um armazém, onde descansavam uns dias, a enxombrar, isto é, a secar à sombra, vagarosamente. Nesta pequena indústria utilizavam-se moinhos-de-milho caseiros; na mais desenvolvida, funcionavam moinhos-de-água, com a disposição de um lagar com biqueira, por onde saía o suco espremido. Reduzidas as folhas a pasta, formava-se o bolo, posto a secar debaixo de tábuas carregadas com pedras, para o tornar bem compacto. Se o bolo arregoava, deitava-se-lhe nas fendas o suco da planta e de novo era premido durante alguns dias. A pasta, ainda lenta, era metida a enformar em aros redondos de castanheiro, tomando, na pressão, a forma duma pequena mó” (SARMENTO, 1941, 46).

Com base na informação apresentada, podemos afirmar que o pastel também se plantou na Madeira no séc. XV, e que a Madeira terá sido o caminho para a expansão desta cultura no espaço atlântico.

Bibliog.: BALFOUR-PAUL, J., Indigo, London, British Museum, 1998; BENDER, M., “Colors for Textiles Ancient and Modern”, Journal of Chemical Education, 24, 1, 1947, pp. 1-10; CARDON, D., Guide des Teintures Naturelles: Plantes – Lichens Champignons Mollusques et Insectes., Lausanne/Paris, Delachaux et Niestlé, 1990; COSTA, Francisco Carreiro da, A Cultura do Pastel nos Açores. Subsídios Para a Sua história, Ponta Delgada, s.n., 1966; COSTA, Manuela Pinto da, “Glossário de Termos Têxteis e Afins”, Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, sér. i, vol. iii, 2004, pp. 137-161; FARIA, M., “As Plantas Tintureiras”, Oceanos, n.º 6, 1991, pp. 66-78; HEERS, Jacques, Gênes au XV Siêcle, Paris, s.n., 1971; NÓBREGA, Manuel de, “O Pastel”, Girão, n.º 2, 1989, p. 43; NUNES, Naidea, Palavras Doces, Funchal, CEHA, 2003; PEREIRA, Eduardo, Ilhas de Zargo, 4.ª ed., vols. iii, Funchal, Câmara Municipal de Funchal, 1989; SARMENTO, A. A., Pequenas Industrias da Madeira, Funchal, s.n., 1941; SERRANO, Maria do Carmo et al., “Plantas Tintureiras”, Revista de Ciências Agrárias, n.º 2, dez. 2008, pp. 3-20; SOUSA, João de, “A Fazenda do Pastel”, Girão, n.º 2, 1989, pp. 44-47.

Alberto Vieira

(atualizado a 19.12.2017)