pedrada

Os meados da déc. de 60 do séc. XIX marcaram o final do período da primeira Regeneração, obrigando à fusão do velho Partido Histórico do duque de Loulé com o também antigo Partido Progressista do marquês de Sá da Bandeira, dando origem ao Partido Fusionista (Partidos políticos). Mas a mudança ocorreu num conturbado clima político, que levou à eclosão, em Lisboa e no Porto, de motins populares conhecidos como Janeirinha, dado terem ocorrido em janeiro de 1868. Foi neste complexo quadro político que Jacinto de Santana e Vasconcelos (1824-1888), futuro 2.º visconde de Nogueiras, tentou entrar na baía do Funchal, a 8 de março de 1868, a bordo do vapor Bengo.

A notícia da chegada à Madeira da nova figura de referência dos fusionistas era então do conhecimento público. Alguns elementos do Partido Popular tiveram facilidade em arregimentar populares, que então se dirigiram ao calhau da praia, em frente à Alfândega, para impossibilitarem o desembarque de Jacinto Santana e Vasconcelos; em breve, tornou-se impossível transitar na área. Com o material aí disponível, os calhaus da praia, o grupo impediu facilmente qualquer desembarque, ficando o acontecimento conhecido como Pedrada. O candidato a deputado, habituado a muitas arruaças, pelas quais acabaria por se tornar célebre, e possuidor de uma conhecida força física, ainda tentou desembarcar. Porém, uma verdadeira chuva de pedras impossibilitou qualquer aproximação. Salvou-lhe a vida, provavelmente, o comerciante João de Freitas Martins, conhecido como “o Papinho”, que o mandou recolher no veleiro Galgo e o recolocou no Bengo. A situação na praia do calhau tornou-se incontrolável, levando à intervenção das forças de Caçadores 12 e à utilização de armas, tendo havido vários feridos e mortos entre os populares. A situação veio a ser interrompida por um simulacro de incêndio na rua da Queimada de Baixo, tocando a rebate os sinos da sé e levando os populares a acorrerem àquela rua, dispersando-se assim a multidão.

Jacinto de Santana e Vasconcelos veio a ser eleito por um dos círculos continentais e a Pedrada tornou-se de tal forma célebre, que veio a merecer duas páginas no Elucidário Madeirense e foi depois romanceada por Ricardo Jardim (1906-1990) nas Saias de Balão (na ilha da Madeira) (1946). Ao longo dos primeiros meses desse ano de 1868 já se haviam registado alterações da ordem pública no Funchal, assim como nos concelhos rurais, onde foram bem mais graves, pelo que a situação não veio a melhorar nos anos seguintes (Tumultos populares).

Regressado a Lisboa, em carta de 18 de março, Jacinto Santana de Vasconcelos insurgiu-se na imprensa, no periódico A Revolução de Setembro, contra a maneira como o governo de Lisboa encarara a situação das alterações da ordem pública na Madeira: enviara a corveta Bartolomeu Dias, mas só a corveta. O ex-deputado clamava que haviam ocorrido na Madeira “as mais sérias desordens de que ali há memória” (A Revolução de Setembro, 19 mar. 1868), o que só demonstra alguma falta de lembrança, pois não foram as “mais sérias”, bastando recordar as ocorrências com reverendo Robert Kalley (1809-1888), em 1846. Explicava que tinha havido um “conflito entre o povo e parte da tropa” do qual “resultaram mortos e feridos graves” (Id., Ibid.). Não se percebendo, portanto, o que se pretendia com o envio da corveta Bartolomeu Dias à Ilha sem uma força militar armada, pelo que perguntava: “Saber notícias?” (Id., Ibid.).

Dias depois, com os restantes deputados oposicionistas, publicava um manifesto, datado de 2 de abril, em que “atendendo às circunstâncias atuais em que se acha a ilha da Madeira”, entendiam apelar “aos seus amigos políticos que não apresentassem as suas candidaturas que tiveram a honra de representar” (Id., 5 abr. 1868). Face aos acontecimentos de 8 de Março, “os abaixo assinados”, entendiam haver “um estado de coação e de terror” em todo o distrito do Funchal, pelo que “protestavam solenemente contra a validade de uma eleição em que a imprensa oposicionista é forçada ao silêncio, em que a inviolabilidade do domicílio não é respeitada, em que os candidatos antigovernamentais são afugentados das urnas por meios violentos e em que tudo se pratica com inteira e com absoluta impunidade” (Id., Ibid.). Pediam assim “aos seus amigos políticos que se abstivessem de entrar na luta eleitoral, reservando a manifestação das suas opiniões para época” em que fosse “mantido o domínio da lei, garantidos e defendidos os mais sagrados direitos dos cidadãos” (Id., Ibid.). Assinam então, para além de Jacinto Augusto Santana e Vasconcelos, António Gonçalves de Freitas (1827-1875), Francisco de Sá Camelo Lampreia (1829-1876) e Luís de Freitas Branco (1819-1881).

O capitão e governador civil D. João Frederico da Câmara Leme (1821-1878), depois do sucedido no Funchal e, especialmente, na câmara de São Vicente, onde entretanto se deslocou, perante novos tumultos, deve ter sentido uma profunda insegurança no palácio do governo. Assim, em abril desse ano, requisitou uma força militar para ficar em permanência nas imediações do palácio de São Lourenço, “não só para defesa do cofre central, como dos arquivos que existem no mesmo edifício” (ARM, Alfândega…, liv. 680, 18 abr. 1868). A força ficou aquartelada nos armazéns de bagagens da Alfândega de forma algo provisória, mas com os acontecimentos seguintes, depois de 1870, quando D. João da Câmara Leme voltou a ocupar o lugar de governador civil, tomou assento definitivo. Por sua proposta e após aprovação da Junta Geral, foram adquiridas em Lisboa 30 camas “e seus pertences”, que vieram no vapor Maria Pia (Id., Ibid., 20 fev. 1871).

Bibliog.: manuscrita: ARM, Alfândega do Funchal, liv. 680; impressa: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. vii, O Longo Século xix: Do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional (1834-1910), Funchal, SREC, 2008; CLODE, Luiz Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses, Sécs. xix e xx, Funchal, Caixa Económica do Funchal, [1983]; A Revolução de Setembro, Lisboa, 19 mar. e 5 abr. 1868; RIBEIRO, João Adriano, “Os Tumultos no Concelho de S. Vicente em 1868”, Islenha, n.º 17, 1995, pp. 113-122; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. ii, Funchal, DRAC, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 19.01.2016)