pereira, joão óscar ribeiro

Professor, escritor e político que se destacou no campo da História. Após a licenciatura em Ciências Histórico-Filosóficas em Coimbra, lecionou História na Escola Industrial e Comercial do Funchal. Foi vogal do Conselho Municipal do Funchal e vice-presidente da autarquia. Em 1949, publicou o ensaio crítico “A História como ciência formativa” e, em 1952, “Recordando uma viagem…”, fruto de uma palestra que efetuou na Câmara Municipal do Funchal, relatando uma viagem realizada a Angola. Publicou ainda o artigo “A arte e a criação artística”, como resultado da sua paixão por História da Arte, que também lecionou.

Palavras-chave: ensino; história; escrita; CMF; criação artística.

Nascido no Funchal a 10 de dezembro de 1908, destacou-se como professor, escritor e político. Após a conclusão da sua escolaridade no Liceu do Funchal, seguiu para Coimbra, onde se licenciou em Ciências Históricas-Filosóficas na Faculdade de Letras. De regresso ao Funchal, foi professor de História no ensino técnico, na Escola Industrial e Comercial, entre 1936-1941 e 1942-1948. Em janeiro deste último ano, após prestar provas em exame de Estado, foi nomeado professor agregado do referido ramo de ensino, continuando a lecionar na supramencionada instituição escolar, cargo que acumulou com o de bibliotecário. Ascendeu ainda, em maio de 1949, à categoria de professor auxiliar do ensino técnico. Foi também docente, ao longo da carreira, nas Escolas Industrial e Comercial de Tomar e Comercial de Veiga Beirão (Lisboa), assim como na Academia de Música e Belas-Artes da Madeira, onde lecionou História da Arte. Além da docência, foi vogal do Conselho Municipal do Funchal e, posteriormente, exerceu o cargo de vice-presidente da autarquia. Foi ainda sócio correspondente, na Madeira, da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Em 1949, publicou a obra A História como ciência formativa: o sentimento do patriotismo – ensaio crítico, com prefácio de J. Reis Gomes, seu colega de Liceu. Neste livro, Ribeiro Pereira define a sua conceção de História enquanto ciência formativa que ensina, orienta na vida, indica um caminho a seguir e forma o caráter do homem, funções mais relevantes, no seu entender, do que descrever e transmitir saberes teóricos exatos e fenomenológicos. Fazendo eco das suas preocupações didático-pedagógicas, o autor tece um modelo de educação e de ensino da História enquanto disciplina que é «a mais apta para dar, a quem estuda, um conjunto de noções e valores úteis, um acervo de normas a seguir» (PEREIRA, 1949, 8), de modo a o aluno tomar consciência crítica perante o mundo. Dissertando sobre a noção de passado, presente e futuro em História, encara esta ciência como mestra da vida por ensinar as gerações vindouras através dos exemplos antigos, mas considera inútil, no ensino desta matéria, a crítica severa do passado, o realçar dos aspetos negativos dos homens e dos povos, as hecatombes e as matanças, pois isso fere a sensibilidade dos alunos e destrói os modelos exemplares por eles idealizados, além de ser um desrespeito pelo passado. Do mesmo modo, será perniciosa uma reconstrução histórica demasiado lendária e baseada em desmedidos heroísmos. Defende que o ensino da História deve exaltar a feição heroica, as glórias do passado, para servir de guia à juventude, modelando a sua mentalidade e construindo o seu caráter assente também em valores como o patriotismo. Advoga um ensino analítico, que aprofunde os temas (em detrimento da exaustão excessiva e da extensão de conteúdos) e faça reviver, nas aulas, as épocas históricas, tornando a lição de História uma reconstituição viva e animada do passado, com recurso a diversificados materiais auxiliares. Considera, em suma, que a História pode impulsionar as potências afetivas dos jovens, determinantes no agir em sociedade.

Em 1952, Ribeiro Pereira proferiu, no salão nobre da Câmara do Funchal, uma conferência sobre uma viagem a Angola feita por elementos de escolas madeirenses e promovida pela Delegação Provincial do Funchal, com o patrocínio do Ministro do Ultramar. Esta preleção, integrada na Semana do Ultramar e promovida pela autarquia e pela Sociedade de Geografia de Lisboa, atingiu tal entusiasmo na assistência que a edilidade resolveu publicá-la num pequeno livro intitulado Recordando uma viagem…. Nesta obra, o autor descreve com minúcia o que viu e o que sentiu, com alguma emoção e subjetividade, mas sem esquecer o rigor e a objetividade. Elogiando a ação portuguesa no desenvolvimento das colónias e na construção de cidades e novas civilizações num continente distante (incluindo a presença madeirense em Angola), descreve paisagens, etnias, aglomerados populacionais, urbanização, flora, fauna, economia local, clima, edifícios, meios e vias de transporte, vestuário, entre outras particularidades. Refere-se, primeiro, à beleza de São Tomé, ponto de passagem ilhéu antes de chegar ao continente africano e a Angola, para depois se centrar neste país, particularmente em certos espaços: a savana dos vales, o planalto angolano, o deserto e as cidades junto ao litoral. O livro é um relato de uma variedade de emoções, desde a curiosidade, a admiração pelo desenvolvimento africano, o medo do desconhecido e a nostálgica saudade de África na hora do regresso a Portugal, acompanhada por uma certa mágoa e tristeza.

Além destas duas obras principais, Ribeiro Pereira escreveu ainda o artigo «A arte e a Criação Artística», publicado na revista Das Artes e da História da Madeira, em 1953. Neste texto, debruça-se sobre a arte enquanto forma de expressão do belo e como modo de evasão do real objetivo e material em direção à conquista de um paraíso ideal. Analisa o ofício do artista enquanto vocação sem uma finalidade prática, ao contrário do artífice, e a sua permanente incompreensão. Caracteriza o ato criador como um impulso nunca realizado e reflete sobre as penas, os trabalhos e as preocupações que se escondem por detrás do processo de criação artística, embora considere que este é também, e simultaneamente, uma fonte de encantamento, júbilo e prazer, um momento supremo de fuga do taedium vitae. Debruça-se ainda sobre o papel da inspiração, dos processos anímicos do subconsciente e da intelecção e esforço racional no processo de criar arte, a par das influências do meio ou ambiente circundante no momento da produção.

Justamente no ano seguinte a ter publicado este artigo, faleceu na sua residência do Funchal, no dia 12 de agosto, com apenas 45 anos.

Obras de João Óscar Ribeiro Pereira: A História como Ciência Formativa: O Sentimento do Patriotismo – Ensaio Crítico (1949); Recordando uma Viagem… (1952); «A Arte e a Criação Artística» (1953).

Bibliog.: CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; PEREIRA, João Óscar Ribeiro, A História como Ciência Formativa: O Sentimento do Patriotismo – Ensaio Crítico, Funchal, Tipografia Minerva, 1949; Id., Recordando uma Viagem…, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1952; Id., «A Arte e a Criação Artística», Das Artes e da História da Madeira, n.º 15, 1953, pp. 9-13; VIEIRA, Gilda França e FREITAS, António Aragão de, Madeira: Investigação Bibliográfica, vol. I (catálogo onomástico), Funchal, Direção Regional dos Assuntos Culturais, Centro de Apoio de Ciências Históricas, 1981;

João Carlos Costa

(atualizado a 13.06.2016)