perestrelo, bartolomeu

Bartolomeu Perestrelo foi um cavaleiro da Casa dos Infantes D. João e D. Henrique, e primeiro capitão donatário do Porto Santo, em representação do infante D. Henrique. Terá nascido por 1395, possivelmente em Lisboa, podendo ter tomado parte na conquista de Ceuta em 1415. Segundo Álvaro Rodrigues de Azevedo, anotador de Saudades da Terra, procede de Filipone Perestrelo, nobre oriundo da Lombardia que veio para Portugal no tempo de D. João I, sendo-lhe por justificação atribuídas as armas que ficaram a ser as dos Perestrelos de Portugal: “Escudo partido em pala; no primeiro, de ouro, um leão púrpura armado de vermelho; no segundo, de prata, uma banda azul com três estrelas de ouro entre seis rosas vermelhas em duas palas; com timbre do mesmo leão com uma das estrelas nas espáduas” (FRUTUOSO, 1873,446).

A 8 de junho de 1431, documenta-se que Bartolomeu Perestrelo, cavaleiro, se torna, com sua mulher Margarida Martins, foreiro de umas casas em Lisboa, na rua Nova, a par da Porta da Erva, pertencentes a D. João I, por 80 libras da moeda antiga. Em 1438, aparece como vereador do senado da Câmara de Lisboa, em companhia de seu irmão Richiarte, e um ano mais tarde, em dezembro de 1439, Bartolomeu Perestrelo, cavaleiro, é procurador da vila de Bragança nas cortes, com a missão de a entregar ao infante D. Pedro, regente de Portugal na menoridade de D. Afonso V. Com toda a probabilidade, será este o mesmo Bartolomeu Perestrelo, cavaleiro da casa do infante D. Henrique, que o infante evoca em 1458 por lhe ter manifestado o desejo de povoar a ilha do Porto Santo, “sendo que até aí o infante não a tinha dado a ninguém, e que a tivesse pelo infante segundo tinham os outros capitães que estavam nas outras suas ilhas” (Monumenta Henricina, XIII, 132), confirmando-lhe a doação desta capitania a 1 de setembro de 1446, com o encargo de que “a mantenha por mim com justiça e direito”, estipulando-se, depois, a passagem do território para seu “filho primeiro”. A sucessão desta capitania deu-se, efetivamente, no filho mais velho de sucessivas gerações (Ibid,, IX, 208).

Azurara, na sua Crónica da Guiné, situa este pedido de Perestrelo por ocasião da preparação da segunda viagem de reconhecimento ao arquipélago da Madeira, a qual poderá ter ocorrido por 1420. Segundo Azurara, Perestrelo, um fidalgo da casa do infante D. João, juntou-se à companha de João Gonçalves Zarco e Tristão, levando consigo numa gaiola uma coelha prenha que lhe dera um amigo, a qual pariu no mar. Depois de chegados ao Porto Santo, a coelha foi solta, e da sua criação resultou uma praga que comia tudo quanto se plantava. No ano seguinte, quando os navegadores voltaram à ilha, os coelhos eram tantos, que os muitos que mataram não faziam diferença alguma, e essa teria sido a razão para que Perestrelo decidisse voltar ao reino e não se fixar na capitania. Azurara refere que, mais tarde, o infante ordenou a Bartolomeu Perestrelo que regressasse ao Porto Santo, a fim de povoar o território. Esta tarefa teria sido, porém, grandemente prejudicada pelos coelhos, e por isso, nos primeiros tempos, do Porto Santo apenas se retirou sangue-de-drago, e se lançou gado a pastar.

Isto mesmo é confirmado por Cadamosto, na sua passagem pelo Porto Santo em 1455, 27 anos após as primeiras viagens de reconhecimento, de que ficou descrição das principais produções e recursos da ilha: cultura cerealífera de subsistência, abundância de gado bovino, porcos selvagens e coelhos infindos, referindo ainda o processo de extração e confeção do sangue-de-drago, os abundantes recursos pesqueiros, e aquilo que crê ser o melhor mel do mundo, embora se encontre em pequena quantidade. Cadamosto situa a “descoberta” da ilha precisamente em 1418, referindo o seu povoamento tardio, e dando Bartolomeu Perestrelo, homem do infante D. Henrique, por seu governador (Ibid., XIV, 70).

Bartolomeu Perestrelo ter-se-á casado três vezes; pelo menos dois desses casamentos estão documentados: com Margarida Martins, atrás referida, antes de 1431; e com Isabel Moniz, filha de Gil Aires, escrivão da puridade de D. Nuno Álvares Pereira, com quem estava casado quando morreu, antes de 1458. Segundo Jerónimo Dias Leite, fonte que deverá ser lida com reservas, uma vez que não apresenta comprovativos factuais, terá havido um terceiro matrimónio, com Beatriz Mendonça Furtado.

Do seu casamento com Margarida Martins, terá possivelmente tido uma filha a quem se dá comumente o nome de Isoa ou Iseu, a qual, por vontade do infante D. Henrique, se casou com Pedro Correia da Cunha, fidalgo da casa da casa do dito senhor, levando por dote uma tença de 10.000 reais cada ano. Da hipotética união com Beatriz Mendonça Furtado, terá tido, entre outras, Catarina Furtada, que se casou com Mem Rodrigues de Vasconcelos, fidalgo da Casa Real.

Do casamento com Isabel Moniz, nasceu Bartolomeu Perestrelo II, que teria 7 ou 8 anos em 1458, quando sua mãe, juntamente com seu tio Diogo Gil Moniz, vendeu a capitania do Porto Santo a Pedro Correia da Cunha. Mais tarde, porém, ainda de acordo com Dias Leite, influenciado por seu cunhado Mem Rodrigues de Vasconcelos, o filho do capitão donatário terá vindo de Larache reclamar a posse da capitania do Porto Santo. Com efeito, em 1473, D. Afonso V confirma ter comparecido perante si Bartolomeu Perestrelo II, com uma queixa contra Pedro Correia, cavaleiro da Casa Real, contestando a posse da capitania. Apresentou em defesa da sua pretensão cópia de uma carta de doação do infante D. Henrique, que comprovava a entrega da capitania a seu pai, pedindo ao Rei que a validasse em carta testemunhável, no que conveio o monarca por achar que a ilha devia “a ele [Bartolomeu Perestrelo] direitamente pertencer” (ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, livro 33, fl. 85). Pedro Correia da Cunha veio mais tarde a ser capitão donatário da Graciosa.

Bartolomeu Perestrelo terá morrido entre 1455, data em que Cadamosto o refere como governador do Porto Santo em representação do infante, e 1458, data em que a sua viúva e o irmão estavam em Lisboa como tutores do pequeno Bartolomeu. A morte poderá ter ocorrido na ilha do Porto Santo, sendo o corpo sepultado na primitiva matriz de N.ª S.ª da Piedade.

Bibliog.: manuscrita: ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, liv. 33; ANTT, Chancelaria de D. João I, liv. iv; impressa: ALESSANDRINI, Nunziatella, Di Buon Afeto e Commerzio: Relações Luso-italianas na Idade Moderna, Lisboa, CHAM, 2012; COSTA, José Pereira da, Livro das Ilhas, Angra do Heroísmo/Funchal, Secretaria Regional de Educação e Cultura/Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 1987; FRUTUOSO, Gaspar, As Saudades da Terra, anotado por Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, Typ. Funchalense, 1873; Monumenta Henricina, vols. vii, ix e xiii, Lisboa, Comissão Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1965-1972; ZURARA, Gomes Eanes de, Chronica do Descobrimento e Conquista de Guiné Escrita por Mandado de El Rei D. Affonso V, sob a Direcção Scientifica, e segundo as Instrucções do Illustre Infante D. Henrique, Paris, J. P. Aillaud/Officina Typographica de Fain e Thunot, 1841; digital: SOVERAL, Manuel Abranches de, “Ensaio sobre a Origem dos Corrêa, Senhores de Fralães, Séculos XIV e XV”, Letras & Artes, História/Genealogia, 2005: http://www.soveral.info/mas/Correia.htm (acedido a 30 out. 2015).

Ana Cristina Trindade

Paulo Perneta

(atualizado a 18.04.2016)