pestana, josé ferreira

Doutor em matemática, foi professor, político, militar e administrador colonial. Tendo tido um papel ativo na revolução liberal, que lhe valeu a condenação a degredo perpétuo em Luanda, tornou-se, em 1834, após o triunfo do liberalismo, lente na Universidade de Coimbra. Foi eleito deputado às cortes de 1834, sendo também eleito pela Madeira para várias sessões legislativas entre 1836 e 1852. Exerceu ainda os cargos de governador civil dos distritos de Vila Real e Coimbra, ministro da Marinha, governador do Estado da Índia e ministro dos Negócios Estrangeiros, entre outros.

Palavras-chave: ensino; política; governo; administração; revolução liberal.

Filho de Manuel Ferreira Pestana Homem de Abreu e de Ana Teresa Sousa Pestana, José Ferreira Pestana nasceu no Funchal a 26 de março de 1795. Casou com Matilde Eufémia Lecor, na sé do Funchal, em 1824. Estudou na mesma cidade e aí assentou praça, no batalhão de Artilharia, em 1815. Posteriormente, em 1816, dirigiu-se à Univ. de Coimbra, onde obteve os graus de bacharel (1819), licenciado (1820) e doutor (1820) em matemática. Em 1821, foi considerado apto para lecionar na Universidade mas regressou ao Funchal, onde permaneceu até 1823, desempenhando as funções de professor de aritmética, geometria e trigonometria, a convite do governador e capitão geral da Madeira, Sebastião Xavier Botelho.

Simpatizante do liberalismo, por instâncias do tenente-coronel Joaquim Pedro Cardoso Casado Giraldes, irmão de um dos envolvidos diretamente na Revolução do Porto, aderiu ao movimento, assinando formalmente o auto da aclamação, a 28 de janeiro de 1821. Em 1823, foi nomeado ajudante do Observatório de Coimbra, aí permanecendo até 1828. Durante a revolução liberal, alistou-se no Batalhão Académico, com o posto de segundo tenente de artilharia, e participou no levantamento que conduziu à Belfestada, o que lhe valeu a prisão na cadeia da Relação do Porto, sendo posteriormente transferido para São Julião da Barra. Sentenciado à morte, em 1829, conseguiu que a pena não fosse aplicada em resultado da ação de sua mulher junto da infanta D. Maria da Assunção, irmã do rei D. Miguel. Acabou condenado a degredo perpétuo, em Luanda (Angola), por sentença desse mesmo ano. Conseguiu fugir para o Brasil, onde chegou no início de 1831, com outros liberais, na galera Maria Isabel, a troco de três contos de réis. No Rio de Janeiro, estabeleceu e dirigiu um colégio de algum prestígio.

Só em 1834, após o triunfo definitivo do liberalismo, se dedicou ao magistério universitário, sendo lente substituto da cadeira de cálculo, da Faculdade de Matemática da Univ. de Coimbra, apesar de, já em 1827, ter sido nomeado lente substituto de foronomia, função que não chegou a desempenhar. Posteriormente, lecionou ainda, enquanto lente substituto, geometria analítica (1838-1840), e, enquanto lente efetivo, cálculo diferencial (1840-1842 e 1849-1852), álgebra superior (1849-1952) e geometria analítica (1849-1852). Foi eleito, enquanto ainda estava no Rio de Janeiro, deputado às cortes de 1834, pelo círculo eleitoral da Estremadura. Pela Madeira foi eleito para as sessões legislativas de 1836, 1837-1838, 1838-1840, 1840-1842 e 1851-1852. Exerceu ainda outros cargos e funções: governador civil dos distritos de Vila Real (1835-1836) e Coimbra (1836), ministro da Marinha (jun. 1841-fev. 1842), governador do Estado da Índia (1844-1851), tendo sido o primeiro civil a desempenhar tal cargo e tendo desenvolvido uma política de igualdade de tratamento das diversas comunidades, ao mesmo tempo que foi um dos primeiros a denunciar a hierarquia das castas em Goa, vogal do Conselho Ultramarino (1851), ministro dos Negócios Estrangeiros (1851), nomeado pelo duque de Saldanha, e novo governador da Índia (1864-1870). A ação desenvolvida valeu-lhe o título de visconde de Goa, que recusou. Foi ainda general de brigada (1875), conselheiro de Estado e par do Reino (1862).

Pertenceu à maçonaria, estando documentada a sua presença na loja do Funchal, no ano de 1823. Faleceu em Lisboa a 12 de junho de 1885.

Bibliog.: CARITA, Rui, História da Madeira, vol. VII: O Longo Século XIX: Do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional (1834-1910), Funchal, SREC, 2008; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses. Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, [1983]; FERNANDES, António Egídio, Crónica de uma Revolução. A Madeira na Revolução Liberal, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008; SARDICA, José Miguel, «Pestana, José Ferreira (1795-1885)», in MÓNICA, Maria Filomena (coord.), Dicionário Biográfico Parlamentar. 1834-1910, vol. 3, Lisboa, Assembleia da República/Imprensa de Ciências Sociais, 2006, pp. 262-264.

 Isabel Drumond Braga

(atualizado a 07.09.2016)