picken, andrew

Filho do homónimo escritor, que prematuramente faleceu em 1833 e deixou a família de seis filhos em precárias condições económicas, Andrew Picken, nascido em Londres em 1815, cedo mostrou capacidades para o desenho e a aguarela, tendo sido colocado ainda pelo pai sob os ensinamentos de Louis Haghe, aguarelista e litógrafo de origem belga e um dos fundadores da oficina Day & Haghe. Em 1835, já Picken expunha e era premiado na Royal Academy, então com o trabalho «Tomb in Narbonne Cathedral».

Os trabalhos litográficos, que naquele tempo utilizavam uma série de produtos químicos para a passagem dos desenhos à pedra, a partir da qual eram depois impressos, prejudicaram-lhe gravemente a saúde. Após uma agrave crise pulmonar, foi aconselhado a seguir para a ilha da Madeira, que desde os finais do século anterior era o lugar eleito prioritariamente para o tratamento de doenças pulmonares, em oposição ao sul da Europa e ao norte de África, e mesmo a algumas ilhas mediterrânicas, consideradas menos calmas e repousante, e com demasiadas poeiras atmosféricas (Turismo terapêutico).

Andrew Picken tinha 22 anos quando, em 1837, foi para a Madeira para se restabelecer, aí permanecendo até 1840. Conhecem-se inúmeros desenhos e aguarelas com a sua assinatura e outros que lhe são atribuídos, alguns dos quais foram depois passados a litografia na oficina onde desde muito novo trabalhara.

De regresso a Inglaterra, trabalhou na primeira edição do seu álbum de litografias, Madeira Illustrated, com um texto informativo e dedicado a figuras locais para quem trabalhara para pagar a sua estadia, entre as quais, muito provavelmente James David Webster Gordon e Theodosia Arabella Pollock Gordon, a quem dedicou igualmente uma litografia da Quinta do Monte (Quinta do Monte) – «To J. D. Webster Gordon, Esqre. This print of Mount House, is respectfully dedicated, by his very obediente servant, The Artist» -; um dos exemplares desta litografia foi adquirido pela Junta Geral e depositado na Casa-Museu Frederico de Freitas. O original, em aguarela, grafite e guache, de maiores dimensões, ficou na posse dos descendentes da família Gordon, mas foi adquirido, em 1986, pela câmara do Funchal.

Tal como dedicou uma litografia a James Gordon, também dedicou outra ao comerciante Joseph Phelps (1791-1876) – «From The Bay of Funchal» –, igualmente datada de Londres, 1840. Pouco tempo depois, no verão de 1841, o agravamento do seu estado de saúde obrigou-o a retornar à ilha; nessa altura, terminou o álbum, embora no mesmo figure a data de 1840.O álbum de Andrew Picken apresenta oito trabalhos litográficos, com três vistas do Funchal, uma de Câmara de Lobos e outras da Penha de Águia, do Rabaçal, do Curral das Freiras e da ravina de S. Jorge. No frontispício ainda apresenta um apontamento da vila de Machico e, como apresentação, um mapa da Madeira com o título «Island of Madeira for Picken’s Madeira Ilustrated. Novr. 1840», onde vêm indicadas as excursões realizadas pelo autor, e ainda uma vista da ilha, tirada ao largo da ribeira do Porto Novo, com a indicação: «Madeira, taken from about 10 Miles S. E. of the Island. From a sketch by Henry Veitch R. N.», devendo tratar-se do cônsul britânico (1782-1857) ou, mais provavelmente, do seu filho homónimo, que teria integrado a Royal Navy.

Em 1 de agosto de 1842, como refere o príncipe Adalberto da Prússia, trabalhava como perceptor dos filhos de James Gordon, na quinta do Monte, aparentando ter recuperado. A proprietária da quinta, Theodosia Arabella Gordon, mostrara o álbum de Picken (também a ela dedicado) com orgulho ao príncipe Adalberto. Andrew Picken terá ainda dado aulas de pintura ou colaborado com personalidades dessa área, como Emily Genevieve Smith (1817-1877), casada com o reverendo Reginald Southwell Smith (1809-1895), que fora para a Madeira com o marido, aí permanecendo entre outubro de 1841 e o outono de 1843. Existe um álbum seu no espólio do Museu Quinta das Cruzes, com aguarelas de vários autores, algumas muito semelhantes, parecendo exercícios ou trabalhos coletivos.

Em 1844, Andrew Picken regressa a Londres, devendo datar de julho desse ano a 2.ª edição do seu álbum, embora apresente a data de 1842. Mas a sua saúde não registou grandes melhoras, e veio a falecer um ano depois, a 24 de junho de 1845, aos 30 anos.

Largo da Fonte-APicken 1840
Largo da Fonte-APicken 1840

A divulgação da obra pictórica de Andrew Picken foi excecional, não só pelas qualidades do pitoresco e do exótico que cativam e, principalmente, pela grandiosidade das paisagens e belezas naturais, como pelos contactos que o mesmo teria estabelecido na Ilha, assim se justificando o grande número de originais que ficaram para a posteridade e, embora em casos pontuais, inclusivamente em várias versões. As suas aguarelas e apontamentos são tecnicamente muito corretos, demonstrando uma muito boa aprendizagem de desenho e de captação da cor. Tirados em grande parte do natural, os seus trabalhos são assim elementos essenciais de análise do quotidiano madeirense dos meados do séc. XIX, embora não totalmente imediatista na captação da imagem, pois que a mesma se encontrava enfeudada ao espírito romântico da época e se destinava a um determinado público.

Rapaz com galinhas-APicken 1842
Rapaz com galinhas, APicken 1842

Embora tivesse havido edições anteriores de litografias da Madeira, como de Richard Westall (1765-1836) e de seu meio-irmão William Westall (1781-1850), em 1812 e 1813, do reverendo James Bulwer (1781-1850), em 1827, entre outros, o protagonismo do álbum Madeira Illustrated de Andrew Picken é indiscutível. Cerca de dez anos depois, em 1850, quando o pintor Frank Dillon (1822-1909) decide editar uma obra análoga, Sketches in the Island of Madeira, com litografias de Thomas Picken (1815-1870), irmão de Andrew, justifica-se com o facto de se encontrarem esgotadas as edições do álbum Madeira Illustrated. Outros álbuns se seguiram, como o de William Samuel Pitt-Springett (1817-1870), Recollections of Madeira, de 1843, dedicado a Mrs. Geo Stoddart (também com litografias de Thomas Picken, que haveria de acabar os seus dias na Austrália); o álbum de Susan Vernon Harcourt (1824-1894), Sketches in Madeira», de 1851; e o do dinamarquês Johan Fredrik Eckersberg (1822-1870), Views in Madeira, de 1854 ou 1855, sendo este subscrito por dezenas de elementos das principais cortes europeias.

Bibliog.: Benezit Dictionary of British Graphic Artists and Illustrators, vol. 1, Paris, Oxford University Press, 2010; CAMACHO, Ana Margarida Sottomayor Araújo, «Andrew Picken», fichas da exposição Obras de Referência dos Museus da Madeira – 500 anos de História de um Arquipélago na Galeria de Pintura do Rei D. Luís do Palácio Nacional da Ajuda, Funchal, DRAC, 2009, pp. 344-355; CARITA, Rui, «Andrew Picken e a Madeira», Atlântico, n.º 10, Funchal, 1987, pp. 109-110; DILLON, Frank, Scketches in the Island of Madeira, The Island of Madeira, views of Funchal and its neighbourhood, London, impr. by Day and Son Lith to The Queen and published by Mess.re Paul and Dominic Colnaghi and Co.P Publishers to Her Magesty, 1850; ECKERSBERG, Johan Fredrik, Dirms in Madeira, Views in Madeira, Dusseldorf, Lithographischen institut von Arnz und Comp., 1854-1855; GARCIA, Maria da Graça (introd.), Madeira Illustrated by Andrew Picken with a Description of the Island, Lisboa, Banif, 1998; HARCOURT, Susan Vernon, A Sketch of Madeira, London, Ed. Thomas McLean, 1850; ADALBERTO DA PRÚSSIA, Travels of His Royal Higness Prince Adalbert of Prussian in South of Europe and in Brasil with a Voyage up the Amazon and the Xingú, vol. I, London, Davis Bogue, 1849; PICKEN, Andrew e MACAULEY, James, Madeira Illustrated with a Description of the Island, London, Day and Haghe, 1840; Id., Ibid., Porto, Litografia Nacional, 1995; PITT-SPRINGETT, William Samuel, Recollections of Madeira, London, Day & Haghe Lith.rs to the Queen, 1843.

Rui Carita

(atualizado a 07.09.2016)