pilar de banger

Pilar de Banger. 1935.
Pilar de Banger. 1935.
Pilar de Banger. Max Römer. 1947
Pilar de Banger. Max Römer. 1947

O Pilar de Banger foi construído pelo comerciante inglês John Light Banger em 1798. Com a sua altura de quase de 30 m, foi levantado para servir como guindaste e cabrestante no transporte de mercadorias dos navios fundeados ao largo da praia do Funchal. O aumento geral da envergadura dos navios inviabilizou essa ideia, se alguma vez chegou a ser posta em prática. Este pilar foi utilizado como registo dos navios que entravam no porto. Acabou por ser demolido em 1939, quando a avenida do Mar foi construída, mas a sua memória continua viva na sociedade madeirense. Foi uma das curiosidades mais registadas da cidade pelos inúmeros viajantes do séc. XIX e XX.

Palavras-chave: Pilar de Banger, guindaste, cabrestante, transporte de mercadorias, registo de navios, avenida do Mar; memória patrimonial, urbanismo.

O chamado Pilar de Banger foi construído pelo comerciante inglês John Light Banger (1726-c. 1798), em 1798, ano apontado como o mais provável do falecimento deste comerciante. O Pilar tinha como finalidade servir, com a sua altura de quase de 30 m, como guindaste e cabrestante para o transporte de mercadorias dos navios fundeados ao largo da baía do Funchal para a praia. O aumento geral da envergadura das unidades de transporte marítimo e o assoreamento da baía inviabilizou rapidamente essa utilização, pois os navios passaram a ancorar a uma considerável distância da praia. Mas o Pilar tornou-se, pela sua volumetria e localização junto da entrada da cidade, numa das mais importantes referências do porto do Funchal, e fazia as delícias dos viajantes que demandavam a Ilha da Madeira, sendo objeto de inúmeros desenhos, aguarelas e, depois, de fotografias. Com a sua demolição em 1939, tornou-se numa das memórias históricas da cidade e continuou nos anos seguintes a ser pintado, por Max Römer (1878-1960) e outros; conhece-se mais de uma dezena de exemplares das décs. de 40 e 50 desse século.

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Pilar de Banger. 1901
Pilar de Banger. 1901

A construção do Pilar de Banger, que foi levantado em cantaria no Cabo Girão, custou 1350 libras esterlinas, e tinha como intenção recolher as mercadorias a partir de navios situados ao largo da baía do Funchal, de forma a deixar o comerciante isento de uma série de taxas alfandegárias, pelo menos as ligadas ao embarque e desembarque de mercadorias. O falecimento prematuro de John Banger, que em 1801 ainda usufruía de autorização da Câmara do Funchal para utilizar uma estufa para purificação do grão, invalidou o projeto. Em meados do séc. XIX, o Pilar passou a ter a função de registar os navios que entravam no porto. Este serviço estava, nos finais do mesmo século, entregue à Casa Blandy através da Associação de Comerciantes do Funchal. Os exportadores das encostas da cidade eram avisados da chegada dos navios ao porto e a que companhias pertenciam. A comunicação era feita para as encostas da cidade, especialmente para o lugar Avista Navios, na Nazaré, através de uma bandeira hasteada no Pilar. Cada companhia tinha uma bandeira própria e, desta forma, os comerciantes sabiam que navio estava para entrar no porto, se tinham mercadoria a receber ou a despachar, se chegava a correspondência ou os jornais que lhes interessavam, etc.

Pilar de Banger, vista de poente. 1905. Pilar de BangerO Pilar foi erguido sobre um afloramento rochoso na praia do Funchal, mas não deve ser verdadeira a tradição que diz que na época da sua construção se passava “em canoa, entre ele e a muralha de defesa da cidade” (CALDEIRA, 1964, 131), pois ficava muito acima da linha da praia-mar marcada na planta da cidade elaborada em 1805, poucos anos após a sua construção, por Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832. Nos meados ou finais do séc. XIX, o topo do Pilar foi dotado de uma pequena esplanada com varanda de ferro – que aparece nas fotografias – tendo ao centro um grande mastro com mastaréu de sinais. Como era utilizado para registo dos navios e, em alturas especiais e dias festivos, chegava a embandeirar em arco, como também registam fotografias e como aconteceu na visita régia de 1901 (Visita régia), tinham de subir ao Pilar homens amarrados pela cintura num cabo de pita ou de aço, que girava com o auxílio de uma polé. Algumas vezes, a ascensão era feita numa cadeira de vimes presa ao mesmo cabo (CALDEIRA, 1964, pp. 31-132).

Pilar de Banger Pilar de Banger

Pilar de Banger. 1925.
Pilar de Banger. 1925.
Pilar de Banger, vista sul.
Pilar de Banger, vista Norte.
Pilar de Banger.1900
Pilar de Banger.1900
Pilar de Banger. 1890.
Pilar de Banger. 1890.

Nos meados da déc. de 30 do séc. XX, Fernão de Ornelas (1908-1978), à frente da comissão administrativa da Câmara do Funchal, iniciou uma enorme campanha de obras em toda a cidade do Funchal, seguindo de muito perto o arrojado plano de melhoramentos feito pelo arquiteto Miguel Ventura Terra (1866-1919), em 1914 e 1915, que propunha a construção de uma marginal, tal como havia nas grandes cidades portuárias e turísticas da Europa. Nesse quadro, projetaram-se inúmeras demolições, entre as quais a do velho Pilar de Banger, o que desencadeou uma acesa polémica na comunicação social.

Re-nhau-nhau. 20. Jul.1939
Re-nhau-nhau. 20. Jul.1939

Foi até publicada no Re-Nhau-Nhau uma caricatura (Caricaturistas) de Paulo Sá Brás (c. 1920-c. 2000), onde João Abel de Freitas (1893-1948), personificando a Junta Autónoma dos Portos, encarregada pela Junta Geral do arranjo da marginal, brande uma picareta para demolir o Pilar, enquanto o defendem o P.e Fernando Augusto da Silva (1863-1949), empunhando uma espingarda de baioneta calada, o investigador Carlos Santos (1893-1955), que se agarra ao Pilar, e a condessa de Torre Bela, D. Isabel Constance Gordon Bolger (1863-c. 1945), que atiça o seu cão (Torre Bela, condes de). A legenda especifica: “Por mais que Carlos Santos se agarre ao Pilar de Banger com unhas e dentes, o Sr. P.e Fernando se atire de alma, coração e carabina, à Junta Autónoma, e a Sr.a Condessa de Torre Bela lance os seus cães à perna da dita Junta, a triste verdade é que o Pilar de Banger, que naquele sítio nunca fez mal a ninguém, está-se indo à vida” (Re-nhau-nhau, 20 jul. 1939, 10).

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Pilar de Banger
Pilar de Banger

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A Câmara Municipal do Funchal e a Junta Geral do distrito mantiveram o projeto, que já vinha da época de Ventura Terra, e o Pilar foi desmanchado nesse mês de julho 1939, para a construção da marginal do Funchal, a futura Avenida do Mar. O material do Pilar dispersou-se por vários proprietários: uma parte foi utilizada numa construção privada no Caminhos dos Pretos (Cabo Verde), outra parte terá sido adquirida pela Casa Blandy, para obras na Quinta do Palheiro, etc. Nas obras de manutenção e repavimentação da Avenida do Mar de 1990 foram encontradas as fundações do Pilar de Banger por baixo da faixa de rodagem norte. Não sendo possível fazer a reposição no local, as pedras da base do pilar foram remontadas no jardim anexo e fronteiro, ligeiramente mais para nascente, acompanhadas de uma placa informativa. A memória do enorme Pilar sempre foi mantida em certa sociedade madeirense, renascendo constantemente a ideia de o reerguer. Em 22 de junho de 2015, apareceu uma petição no Diário de Notícias para esse efeito (“Erguer o Pilar de Banger”, DN, 22 jun. 2015).

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Demolição do Pilar de Banger. 1939.
Demolição do Pilar de Banger. 1939.

 

Demolição do Pilar de Banger. 1939.
Demolição do Pilar de Banger. 1939.

 

Pilar de Banger, após a recolocação de 1990.
Pilar de Banger, após a recolocação de 1990.

Cartografia: Planta da cidade do Funchal, capitão Matos de Carvalho e tenente Paulo Dias de Almeida, meados de 1805, Mapoteca do Instituto Geográfico de Portugal, cota 540;

Imagens Arquivo Rui Carita.

Bibliog.: BRÁS, Paulo Sá, caricatura, Re-nhau-nhau, 20 jul. 1939, p. 10; CALDEIRA, Abel Marques, O Funchal no Primeiro Quartel do Século XX, 1900-1925, Funchal, ed. do Autor, 1964; CARITA, Rui, História da Arquitectura e do Urbanismo nas Ilhas Atlânticas, CD projeto CHORNOS, Funchal, Universidade da Madeira, 2010; Id., “Redescobrir a Madeira. O pilar de Banger”, Revista da Associação Académica da Universidade da Madeira, n.º 66, jun. 2012, pp. 32-33; LOPES, Agostinho do Amaral, A Obra de Fernão Ornelas na Presidência da Câmara Municipal do Funchal, 1935-1946, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1998; VASCONCELOS, Teresa, O Plano Ventura Terra e a Modernização do Funchal (Primeira Metade do Século XX), Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008; digital: “Erguer o Pilar de Banger”, Diário de Notícias, Funchal, 22 jun. 2015: http://www.dnoticias.pt/impressa/diario/cartasdoleitor/edicao-2015-06-22/523772-erguer-o-pilar-de-banger (acedido a 7 mar. 2016)

Rui Carita

(atualizado a 24.02.2018)