pintura de tetos

Os ricos tetos de alfarge, integrados na arte mudéjar, com destaque para os da Sé funchalense, tanto pela sua beleza formal e técnica, como pela raridade, foram objeto de estudos particulares por Luiza Clode, Rui Carita e Lina Marrafa Oliveira. Os tetos dos sécs. XVIII e XIX, assim como alguns tetos do séc. XX, são armoriados e executados em estuque e dignificam os espaços arquitectónicos madeirenses. Mereceram menor atenção dos historiadores os tetos de estética seiscentista e setecentista, normalmente pintados sobre madeira ou sobre tela e com programas de brutesco e grotesco. Os tetos em apreço são, na sua maioria, tanto os das salas, quartos, halls e varandas das quintas e casas senhoriais madeirenses, como também os das capelas, igrejas e conventos. Este conjunto forma um significativo e rico núcleo patrimonial e artístico.

Palavras-chave: património; alfarge; brutesco; grotesco; mudéjar.

Possui a Ilha da Madeira um significativo espólio de tetos de alfarge. No Funchal: Sé, Alfândega do Funchal (depois Assembleia Regional da Madeira), Capª. de S. Paulo (capela-mor) e Convento de Santa Clara (coro de cima); em Santa Cruz: Misericórdia (lado direito da capª. de S.ta Isabel); na Ponta do Sol: Matriz (capela-mor); na Calheta: Matriz (capela-mor), Igª. do Loreto (corpo) e Capª. dos Reis Magos. Desaparecidos estão assinalados no Funchal o teto do Solar D. Mécia, perdido num incêndio em 1957, e em Santa Cruz o da Matriz. Possivelmente revivalista, já do séc. XIX, será o teto da Câmara Municipal da Ribeira Brava, antigo solar dos Herédias. Ainda amudejarados são os travejamentos do teto da Capª. do Corpo Santo com intervenções da Direção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais, entre 1954 e 1960, não sendo possível estabelecer uma relação com o teto primevo.

Os tetos de alfarge, integrados na arte mudéjar, são executados em madeiras lavradas e entrelaçadas com decoração geométrica de laçaria, e num elaborado jogo de regretas cruzadas, criando diversas formas, ora simples, ora mais complexas, regulares e irregulares, nitidamente inspirado nos azulejos mudéjares ou hispano-árabes (alicatados, corda seca e aresta) e no escalonamento de prismas côncavos (os senos) ou salientes (os pingentes). Decoração bem patente nos tetos madeirenses.

Na Madeira, os tetos de alfarge têm sido objeto de estudo particularizado pela sua riqueza e raridade, centrado, essencialmente, no teto da catedral funchalense (três naves e transepto), executado em madeira de cedro branca, originária da ilha, e totalmente pintado de rica policromia (vermelhos, verdes, amarelos intensos), que erradamente esteve identificada como incrustações de marfim e estuque, e interessante iconografia, notabilizando-se pela sua extraordinária beleza assente na riqueza decorativa e exímia técnica de carpintaria, sendo, no território português, e da época manuelina, o maior em comprimento e área intervencionada com decorações em candelabra (vaso ornamentado com folhagens e figura masculina – atlante – com taça / florão assente sobre a cabeça), grotesco, vegetalista e heráldica. A nave central, encaixada num octógono alongado, é estruturada numa armadura de par y nudillo (duas águas), culminando numa extensa superfície plana (painel de cobertura – almizate) ricamente decorada com formas geométricas e estrelas de quatro e seis pontas. Seguem esquema idêntico os tetos das naves laterais e do transepto, embora mais simplificado, destacando-se as trompas de ângulos em forma de leque. Uma corda, elemento decorativo idêntico ao do teto da antiga Alfândega do Funchal, e um friso renascentista, inspirado em estampas de Nicoleto Rosex da Modena, Giovanni Antonio de Brescia e Zoan Andrea, circundam o teto em género de moldura.

Teto Sé, (Bf)
Pormenor do teto da Sé do Funchal, BF.

O autor do teto da catedral foi possivelmente Pedro Annes, natural de Lisboa (?), identificado nas obras da Alfândega do Funchal (1515-1516), ativo entre 1515 e 1532 como mestre, mestre carpinteiro, mestre-de-obras e representante dos mestres na Câmara do Funchal, assinando com régua e esquadro.

A feitura do teto da antiga Alfândega do Funchal (1515-1516) esteve a cargo de Pedro Annes, conforme documentação coeva, aqui registado como mestre carpinteiro, que contou com a colaboração de Gomes Annes e Antão Gonçalves. Há três salas que apresentam uma composição simples, e uma quarta sala, a antiga Sala dos Contos, com um trabalho mais elaborado, centrado numa composição geométrica de laçaria, com formas poligonais entrecruzadas e alvéolos, com cor aplicada nas formas relevadas.

De cronologia próxima da dos tetos da Sé e da Alfândega do Funchal é o teto da Capª. de S. Paulo (c. 1520). Do teto, o mais modesto de todos, sobrevive o travejamento de carpintaria mudéjar, sem vestígios visíveis de policromia, cuja estrutura é similar ao da Capª. dos Reis Magos na Calheta.

O teto do coro de cima do Convento de Santa Clara é de esquema e composição idênticos ao do Solar D. Mécia, conhecido por fotografia anterior a 1957 e talvez o mais tardio deste núcleo quinhentista, e ao da Matriz da Calheta. Por sua vez, o teto da capela-mor da Matriz da Calheta, possivelmente com remodelações do princípio do século XVII, seguiu esquema compositivo idêntico ao da catedral do Funchal, especialmente na decoração interior da esteira central (almocaravez), profusamente geométrica, com superfícies alveolares e pequenas rosetas douradas organizadas em composição irradiante, e restante composição com estrelas de oito pontas e losangos, sendo os espaços criados pela disposição das regretas decorados com ornatos vegetalistas, muito estilizados, a branco sobre fundo azul e ocre, e as traves com um filete dourado.

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Teto da Matriz da Calheta, BF.

Na Calheta, a Igª. do Loreto, fundada por Pedro Gonçalves da Câmara e sua mulher, Joana de Eça, entre 1510 e 1520, apresenta um teto de alfarge, pintado de azul, branco e dourado, policromia já de estética rococó, mas sendo possível observar a obra original mudéjar com superfícies alveolares, estrelas, octógonos alongados e leques. Ainda na Calheta, a Capª. dos Reis Magos, fundada por Francisco Homem de Gouveia e sua mulher, Isabel Afonso, c. 1520, possui o teto primevo, executado em madeira, decorado com laçaria e estrelas de oito pontas.

É também de madeira de cedro o teto da capela-mor da Igª. da Ponta do Sol, de composição geométrica, com grande similaridade com a Matriz da Calheta, com motivos vegetalistas, estilizados, e pintados a ocre entre as regretas.

O teto da capela-mor da Sé do Funchal é de abóboda ogival, polinervada, cujas nervuras rematam em fechos com decoração dourada e policromada representando parras de uvas e outros elementos vegetalistas, em relevo; no centro encontram-se esculpidas as armas reais e a cruz da Ordem de Cristo. Nos panos da abóboda foi executado um programa de brutesco, evidenciando bem a estética barroca de horror vacui em cuja composição predominam os putti, ora nus, ora envoltos em tecidos esvoaçantes, interligados com ramagens e em harmonia com representações de enrolamentos vegetalistas (folhas de acantos, folhagens enroladas, rinceaux e flores), denunciando traçados de duas mãos diferentes, embora no seu todo apresente fragilidades plásticas e gráficas, especialmente nas figuras, de desenho naïf, sendo umas delineadas com maior cuidado, quer nas representações corporais, quer faciais. Cromaticamente é evidenciada uma gama de amarelos, azuis, verdes e vermelhos, além do dourado e das linhas de contorno das figuras, folhagens e flores em tons mais escuros.

Este teto foi restaurado pelo Atelier Zona Velha (1997-1998) e, devido às condições de degradação em que se encontrava, restou muito pouco da pintura original. No centro da capela-mor, por exemplo, a pintura foi reconstruída partindo de decalque dos elementos decorativos ainda sobreviventes, repetidos de forma modulada, porque a superfície da pedra estava nua e sem qualquer vestígio de desenho ou cromatismo, tendo ficado assinalada uma “janela”, pequena área de c. 40x40cm (canto NE), que se julga corresponder à camada mais antiga da pintura, ainda do século XVII; a restante corresponderá à pintura e douramento renovados em 1758 por uma equipa comandada pelo pintor João António Villavicêncio, natural de La Laguna, recrutado entre os pintores mais idóneos, como fora exigência do Cabido, cuja obra decorreu sobre a pintura executada em 1711. Em 1758, um pedreiro picou a parede da pintura velha, embora não seja claro se a sua intervenção ficou apenas pelas duas paredes laterais, que se achavam nuas e só em cal, ou se foi extensiva à abóboda do teto da capela-mor. Na campanha de 1758 foram gastas várias verbas com materiais específicos de pintura (livros de ouro, alvaiade, vermelhão, flor de anil, nozes para óleo, aguarrás, água da Hungria, resina, gesso, grude).

Sabe-se que em 1572 o padre António Marinho informou a Coroa de que chovia na abóboda da capela-mor e mais tetos da Sé, sendo necessárias obras urgentes, situação que se repete em 1591 quando uma tormenta, pelo Natal, voltou a danificar este teto. Quase um século depois, em 1682 e 1698, novas campanhas de obras ocorreram na capela-mor, que foi rebocada e caiada, e terá havido alguma intervenção no teto. Entre 1710 e 1711, a catedral funchalense é descrita como um dos melhores e mais célebres templos do reino e o mais sumptuoso dos ultramarinos, tendo sido pintado e dourado o teto da capela-mor à custa do Cabido. E foi sobre esta pintura que deve ter atuando a equipa de João António Villavicêncio, possivelmente, em consequência das danificações sofridas no templo durante o terramoto de 1748, tendo também participado uma equipa de caiadores, pedreiros, serventes e boieiros que transportaram os materiais e os andaimes.

Seiscentista é o teto de caixotão oitavado da Capª. do Corpo Santo executado entre 1615-1616 pelo monogramista A.L.V.S. ou L.V.S. ou L.S.A. ou L.A.S. ou V.L.S.A. ou V.L.S.A. ou L.V.S.A (Pintura). Compõe-se por 12 telas pintadas sobre tela grosseira e coladas sobre madeira, em quadros individuais com molduras, forrando integralmente o teto, cuja temática se centra na vida e nos milagres de S. Pedro Gonçalves Telmo, conhecido também por “Corpo Santo” e patrono dos mareantes (Palência, c. 1180/1190-Santiago de Compostela, 1246): Anjos músicos e livro de Aleluia; S. Pedro Gonçalves Telmo moribundo; S. Pedro Gonçalves Telmo em câmara ardente; S. Pedro Gonçalves Telmo salva uma criança doente; S. Pedro Gonçalves Telmo e o milagre dos pães; S. Pedro Gonçalves Telmo salva mãe e filho caídos num rio; O óleo milagroso do túmulo de S. Pedro Gonçalves Telmo; S. Pedro Gonçalves Telmo abençoa um homem; S. Pedro Gonçalves Telmo salvando um marinheiro; Anjo músico tocando harpa; Anjo músico tocando alaúde; Anjo músico tocando viola de arame.

Na generalidade, observa-se um gosto pela representação de figuras populares, rudes, de mãos e pés volumosos, com algumas falhas basilares no desenho anatómico, um pouco atarracadas, dificuldades acentuadas nas figuras em escorço, mas evidenciando alguma preocupação de modelação lumínica. Na representação de grupos ou multidões são pronunciados os gestos teatrais, com marcadas gesticulações, e com algum cuidado na individualização dos rostos e expressões, que se caracterizam por um rosto geometrizado, olhos amendoados e rasgados, e nariz aquilino. Nas personagens nobres ficaram destacadas as vestes ricas e ornamentadas, como gibões, jaquetas, coletes, casacos justos e com muitos botões, golas largas e golas rufo com rendas brancas pregueadas e engomadas, calções tufados e brifantes, as becas ou capas, as meias, sapatos e botas de cano alto, e vários modelos de chapéus de abas largas ou curtas. Primou o pintor em representar cenografias, quer em interiores, quer com referência a paisagens, essencialmente marítimas, de forma a enquadrar as personagens de acordo com a cena da vida do santo ou o milagre atribuível à sua pessoa.

São pinturas de paleta pobre, reduzida e de limitada gradação cromática. Podemos depreender um trabalho de parceria, pois algumas telas revelam uma mão mais insegura, com desenho naïf, especialmente no traço da figura humana.

Apesar de alguma ingenuidade pictórica, este significativo núcleo de pinturas da Capª. do Corpo Santo (doze telas no teto mais dezoito nas paredes) aporta na Madeira os elementos essenciais da linguagem protobarroca visível no binómio naturalismo-tenebrismo, coadunando-se com as intenções persuasivas e propagandísticas da Contrarreforma. Pintura claro-escurista, com evidentes jogos de variação lumínica, mas sem grande manejo na conceção da tridimensionalidade.

Estas telas foram restauradas pelo Atelier Arterestauro, em 1988, sob a direção de Luísa Santos.

Igr Colégio
Teto da Igreja do Colégio, BF.

De idêntico programa ao teto da capela-mor da Sé serão alguns tetos da Igª. do Colégio (sacristia, restaurado pelo atelier ISOPO em 2014, e capelas de S. Quitéria, Nª. Srª. da Conceição, S. Miguel, S. António e S. Francisco Xavier) e do Convento de Santa Clara (igreja e capela da Ressurreição, no claustro), e, por isso, atribuíveis à oficina comandada por João António Villavicêncio.

Nos referidos tetos do Colégio observam-se elementos brutescos assimilados de gravados com putti, enrolamentos de folhagens, rinceaux, flores de vários tipos predominando as campânulas, intensamente coloridos, com tons de azuis, amarelos, verdes, laranjas e contornos dourados, de desenho regular, e no centro cartelas em rollwerk, algumas com legendas em latim, siglas, símbolos, como é o caso do emblema central do teto da sacristia (IHS pintado sobre uma portada com o Cordeiro dos Sete Selos, encimado pelo Olho de Deus; os quatro evangelistas representados pelo anjo – S. Mateus, a águia – S. João, o leão alado – S. Marcos, e o touro alado – S. Lucas; envolvidos por uma legenda do Apocalipse: “BENEDICTIO GRATIAR ACTIO, HONOR & VIRTUS & FORTITUDO DEO NOSTRO IN SAECULLA SAECULOR. AMEN. Apocal. L. 7”), mas também casarios, paisagens e episódios narrando milagres e prodígios dos santos, aqui denotando um desenho mais ingénuo e inseguro.

Nas capelas laterais, os tetos são forrados com painéis pintados sobre madeira, envolvidos por molduras douradas da época, enquanto na sacristia a tinta foi aplicada sobre uma camada de gesso intercalado com ripas de madeira. Praticamente decalcado do teto da capela-mor da Sé, e especialmente dos tetos do Colégio, é o programa iconográfico do teto da igreja do Convento de Santa Clara, possivelmente obra de parceria e oficinal, pois se os modelos e os cromatismos são demasiado próximos, a nível do desenho das figuras é notória uma maior insipiência. Situação que se repete na capela claustral da Ressurreição, cujo teto oitavado mostra um desenho e uma pintura muito delicados e cuidados nos tratamentos de modelação, volume e cromatismo das folhagens e flores, mas de grande fragilidade gráfica nas figuras. Ainda de campanha setecentista é o teto do coro baixo deste convento, pintado sobre madeira, com símbolos eucarísticos e da Paixão, de grandes fragilidades plásticas e com significativa perda de desenho e policromia, o que dificulta uma atribuição autoral ou oficinal

De oficinas próximas a João António Villavicêncio são ainda os tetos das igrejas de S. Sebastião e de Nª. Srª. da Graça, todas no concelho de Câmara de Lobos, da Igª. de S. Jorge, em Santana, da Capª. dos Esmeraldos, na Ponta do Sol, e do Socorro, no Funchal, algumas com esboços de perspetiva de que falaremos adiante.

Outros tetos dos séculos XVIII e XIX estão ornamentados segundo estética rocaille, com elementos vegetalistas (flores, ramagens, folhas de acanto), concheados, volutas e anjinhos, que envolvem as figuras centrais alusivas aos respetivos oragos.

Do núcleo de tetos em perspetiva destaca-se o teto da Igª. do Colégio, possivelmente concluído em 1724, conforme registo numa parede, e que em 1722 mereceu testemunho de Henrique Henriques de Noronha, quando escreveu que ali se trabalhava uma excelente pintura, de campanha simultânea à execução dos frescos. Este tipo de obra é executado in situ, pelo que o seu autor ou autores, nacionais ou estrangeiros, se deslocaram ao Funchal para a sua execução, pois das oficinas regionais contemporâneas não se conhece trabalho semelhante.

É bem evidente no teto da Igª. do Colégio a influência e o conhecimento, direto ou indireto, dos tetos barrocos de Andrea Pozzo (1642-1709), quiçá também do seu tratado publicado entre 1693 e 1700, um manual prático com o título Perspectiva Pictorum et Architectorum, onde desenvolvia ensinamentos sobre cenografias ilusionistas e perspetivas arquitetónicas criando uma visão ilusória da tridimensionalidade, técnica seguida por pintores estrangeiros radicados em Portugal, como também por artistas nacionais. Refira-se o teto da portaria de S. Vicente de Fora (1710) da autoria de Vicenzo Bacharelli e tetos pintados pelos seus seguidores, como Vitorino Manuel de Serra (1692-1747), João Nunes de Abreu (- 1738) e Jerónimo da Silva (1687-1753). Segue, assim, o teto do Colégio funchalense os formulários estéticos e programáticos pozzonianos e bacharellianos na utilização da quadratura.

Em termos gerais, o teto do corpo da Igª. do Colégio evidencia a preocupação barroca com o preenchimento total dos espaços, coabitando com as diferentes linguagens plásticas e acentuando a perceção de arte total e bel composto. A pintura ilusionista do teto tenta prolongar o espaço físico do templo, privilegiando a ideia de infinito através de arquiteturas fingidas (Fig.1). Junto ao arco do cruzeiro da capela-mor, uma falsa cúpula em trompe-l´oeil, na qual se observa S. João Evangelista, orago da igreja, com uma pena na mão direita, acompanhado da sua águia, e apontando com a esquerda para o céu, donde desce um anjo exibindo um livro aberto, sublinha a ideia de infinito. Ao redor do santo foram pintadas decorações grotescas com máscaras, figuras híbridas e rinceaux. No centro do teto, foi pintada uma grande cartela com varandas balaustradas e ricamente decorada com putti, florões, anjos esvoaçantes, que seguram numa cartela com legenda em latim, e mais dois anjos em movimento com uma filactera onde se lê “AD MAJOREM DEI GLORIAM” (para maior glória de Deus), lema dos jesuítas. Acompanha todo o teto uma série de varandas / balcões em perspetiva, povoados de figuras, homens trajando ao gosto da renascença e exibindo armas e instrumentos musicais, e grupos de jesuítas conversando, com as sotainas e barretes pretos. Foram, ainda, representados pormenores de arquitetura, como tetos polinervados, colunas jónicas, ábacos, mísulas, arcos e pilastras, sendo integradas nos espaços intercalares várias figuras alegóricas, como a Justiça, que exibe uma balança, vasos e grinaldas de flores com anjinhos. São as figuras escorçadas (os anjos e S. João Evangelista) que denotam maior fragilidade gráfico-pictórica.

Evidencia este teto um intenso e luminoso colorido, predominando o azul, conjugado com amarelos, laranjas, ocres, vermelhos, verdes, brancos e castanhos, que, possivelmente, devido a uma intervenção de repintura de José Joaquim Rodrigues, em 1868, a quem está atribuído o teto do compartimento do lava-mãos, perdeu alguma qualidade. Deve-se a restauro posterior (2006-2008), da responsabilidade do atelier Junqueira 220, a recuperação do cromatismo original, pois encontrava-se muito enegrecido, dificultando a leitura do desenho e da cor.

Na Capª. dos Esmeraldos (Ponta do Sol), ou do Espírito Santo ou de Nª. Srª. da Conceição, como também é designada, observa-se um interessante teto em perspetiva na nave, de pintura sobre madeira, que deverá datar de uma campanha de obras ocorrida na ermida em 1768, como ficou registado no coro. A reedificação data de 1722, conforme está gravado no pórtico, aquando da administração do morgado Cristóvão Esmeraldo de Atouguia e Câmara, moço fidalgo e figura proeminente da sociedade madeirense. Seguiu o seu autor as regras da quadratura e trompe-l´oeil, embora de sabor ingénuo, na representação de arquiteturas fingidas, com balaustradas, colunas e arcadas (Fig.2). ao redor do teto, tendo no centro a representação da Igreja, figura feminina coroada com a tiara papal encimada por uma cruz, com cálice e hóstia na mão direita, assente sobre um grande globo azul, iconografia idêntica à representada no teto da Igª. de S. Pedro (Funchal). Na parte superior, entre nuvens estão santos e anjos, e na parte inferior, S. Tomás de Aquino com hábito de dominicano e um sol no peito, S. Vicente Ferrer, dito o “anjo do Apocalipse”, também dominicano, alado e com trombeta, S. Boaventura com hábito franciscano e barrete cardinalício (?) e S. Bento, de hábito negro com cruzes (?), intercedem pelas almas do Purgatório, ameaçadas por um animal demoníaco. No teto da capela-mor, fruto de uma campanha mais tardia, foi representada uma Imaculada, assente sobre um globo e rodeada por uma plêiade de anjinhos, iluminada pela uma luz amarelada emanada pela Pomba do Espírito Santo. A capela foi restaurada em 1894 por Giacomo M. Giorgi e novamente em 1966-1970, conforme legendas em cartelas. O teto da capela-mor foi restaurado pelo atelier ISOPO em 2010.

O teto da capela-mor da Igª. de Nª. Srª. da Graça (Estreito de Câmara de Lobos) apresenta algumas aberturas ilusionistas, vendo-se um céu aberto com nuvens, tendo num centro uma Imaculada murilesca, assinada por L. Bernes (1909); sobre um fundo ocre claro, foram pintados motivos baseados em volutas, Cs, flores e folhas, e a inscrição “IHS Viva Jesus” e “AM Viva Maria”. No entanto, os primitivos teto, retábulo, camarim e trono foram riscados por João António Villavicêncio, cujas obras decorreram entre 1764 e 1776, e que exigiram a presença do pintor, tendo sido gastos diversos materiais como papel para moldes, nitidamente para a pintura do teto, e barbante para segurar o risco no teto, como ficara anotado. Também em 1897 sofreu o teto reparação por conta da Câmara Municipal. Por isso, a intervenção de Bernes poderá remeter para um restauro ou repintura sobre a pintura setecentista ou oitocentista.

No teto da nave central ficaram representadas arquiteturas fingidas, com varandas balaustradas, colunas, cariátides, pórticos, arcos em tons de azuis, vermelhos e ocres. O olhar do espetador é dirigido para três medalhões: central – representando S. Miguel Arcanjo, armado com lança, figura esvoaçante, lutando e ferindo o dragão; na direção do altar-mor – Cristo ressuscitado, coroado de espinhos e agarrado a uma cruz; e na direção da porta – Imaculada Conceição, e ainda o Olho da Providência. Revela o seu autor insipiências técnicas na representação perspética, pois o teto foi executado às partes, faltando-lhe a homogeneidade da ilusão espacial.

Depois do teto da Igª. do Colégio, o teto em perspetiva e com efeitos de trompe-l´oeil mais elaborado é o da Igª. do Socorro, pintura sobre madeira e ainda setecentista, tendo uma grande superfície central aberta com nuvens e povoada de figuras (anjos, alegorias), rematado com figuras que representam os continentes e cercado com varandas balaustradas, onde figuram personagens em evidente teatralidade, e na parte inferior, sob a cornija de cantaria, panejamentos com borlas pendentes (Fig.3). O desenho é delicado, a composição elaborada e rica a iconografia, remetendo a sua fatura para um pintor hábil e conhecedor. Deverá ser da oficina de João António Villavicêncio, que aqui trabalhou em 1766.

Igreja de São Jorge, Teto, Madeira(BF)
Teto da Igreja de S. Jorge, Madeira, BF.

De José António da Costa, possivelmente em parceria com João António Villavicêncio, é o teto da capela-mor da Igª. de S. Jorge, ornado com cartelas envolvidas com motivos florais e dizeres bíblicos, em latim, e arquiteturas com varandas balaustradas, colunas coríntias, pórticos, arcos, rematando um céu de nuvens, predominando uma paleta de azuis intensos, ocres, laranjas, avermelhados e brancos, sendo as figuras alegóricas de fraco desenho. Segue figuração, composição e cromatismo idêntico os tetos da capela-mor de S. Pedro.

Também Nicolau Ferreira (n. 1731; ativo c. 1754-c. 1800) foi autor dos tetos das capelas do SS.mo e de Nª. Srª. da Guadalupe da Igª. de Santo António.

De estuque, dos finais do século XVIII e do século XIX, destacam-se alguns tetos de quintas e casas privadas madeirenses, algumas posteriormente transformadas em escritórios e lojas comerciais, quase todas centradas na área do Funchal, e mais raramente nas zonas periféricas e rurais. Como no Continente português, também na Madeira se verifica que a decoração dos tetos em estuque relevado foi substituindo, paulatinamente, a rica pintura de brutesco e os tradicionais tetos de caixotões entalhados ou pintados sobre madeira ou tela. Em algumas igrejas e capelas observam-se, ainda, retábulos e remates em estuque.

O estuque seguia a estética da moda nacional, com grande acervo antes do terramoto de 1755, e cujo gosto se acentuara com as obras de Giovanni Grossi, a partir de 1748, e especialmente com a abertura da Aula de Estuque e Desenho (Lisboa, 1764-1777), criada pelo Marquês de Pombal.

O estuque é uma argamassa feita com pós de mármores, areia, cal fina, gesso, greda/cré branca, cola, etc., que depois de seca adquire grande dureza, resistência e plasticidade, podendo ser modelada diretamente ou executada por moldes, em cartão, madeira ou metal, com diversas formas. A técnica é conhecida desde o neolítico, mas a moda do estuque relevado desenvolveu-se na Antiguidade Clássica e, depois de apagada na Idade Média, foi recuperada no Renascimento, mantendo-se até à Arte Nova.

Na Madeira, observam-se modelos inspirados em gravuras renascentistas e outros de estética barroca, rococó, neoclássica e romântica, aqui com carga eclética e revivalista. Nas casas privadas é o centro das salas o mais decorado, normalmente com emblemas e heráldica (armas reais; brasões familiares), alegorias, seres mitológicos e florões, mas o estuque também é aplicado nos sofitos, frisos e molduras em forma de cartelas, como a enquadrar a estrutura arquitetónica (lambris, arcos, nichos, portas, janelas). Nas capelas e igrejas encontramos na figura central a Imaculada Conceição, a Santíssima Trindade, o Agnus Dei e santos. De resto a decoração assenta em anjinhos, putti, cupidos, instrumentos musicais, grotescos, brutescos, volutas, motivos vegetalistas (folhagens, essencialmente folhas de acanto, rinceaux, ramagens, muitas vezes compostas em Cs e Ss, palmetas, grinaldas de flores e frutos, como também cornucópias e açafates), aves (pombas, cisnes, plumas), conchas, concheados, aljavas, laços, arabescos e motivos geométricos. Algumas referências a frutos regionais, como bananas, anonas, ananases, mas também figos, peros e romãs, observam-se numa interessante composição na Quinta dos Ilhéus.

Na generalidade, predomina a cor branca, branco sobre branco, por vezes com leves apontamentos de dourado, sendo rara a pintura total do estuque como se observa na Quinta Josefina (c. 1868) e no Museu Quinta das Cruzes (entrada / varanda), sendo na primeira a policromia aplicada a uma cena de caça e na segunda às armas dos Freitas da Madalena do Mar (Nuno Lomelino de Freitas da Silva), em cada caso realçando a cor os diferentes elementos composicionais. Dentro desta técnica, uma singular decoração em gesso policromado, narrando passos da vida da Virgem, adorna as paredes da Capª. de Nª. Srª. da Boa Nova, anexa a um solar construído no século XVII por Manuel Dias de Araújo e reconstruído, em 1701, por Eusébio da Silva Barreto. De estética neoclássica, sob influência inglesa, e revelando a tendência do estilo Adam, é o teto da antiga sala da música e baile do palácio dos barões de S. Pedro, depois ocupado pela DRAC; inspirado nas porcelanas Wedgwood são os estuques do edifício onde se instalou o Sindicato dos Trabalhadores de Construção, Madeiras, Olarias e Afins da RAM (R. dos Ferreiros, 151).

Perdeu-se muita decoração em estuque relevado devido às remodelações nos edifícios, muitas vezes adaptando-os a novas funções, sendo o rebaixamento dos tetos e a instalação elétrica as causas mais diretas da sua danificação, acrescidas, evidentemente, da falta de conhecimento histórico e técnico, e de sensibilidade estética, bem como da falta de meios económicos para intervenções de restauro.

Nos finais do século XVIII e no século XIX, estão identificados estucadores ou estuqueiros na Madeira, que trabalhavam com os entalhadores, como, por exemplo, na Igª. de S.to António, Manuel Luís e Francisco Luís (c. 1780/1790) e António de Agrela de Azevedo (1790); João Mamede Zeferino na Igª. de Nª. Srª. do Monte (c. 1820); e Henrique Ciríaco Fernandes (at. no século XIX).

Citam-se alguns exemplos de estuques sobreviventes. Em espaços religiosos – Sé (capela-mor; capª. e sacristia do SS.mo, c. 1760/1770); teto da Capª. da Penha de França; decorações parietais na Capª. dos Esmeraldos (Ponta do Sol); Capª. do SS.mo (Matriz da Ribeira Brava). Em quintas – Palheiro Ferreiro, da Ribeira (Cabouqueira), dos Ilhéus, Josefina, Rocha Machado, Monte Palace, Bela Vista, S. Jorge (Calheta) e Chalet Zino (Ponta do Sol). Em instituições – o edifício onde esteve instalada a Escola dos Ilhéus; o edifício onde esteve instalado o Seminário e onde depois se instalou a Escola Bartolomeu Perestrelo; o Palácio de S. Lourenço; a Câmara Municipal do Funchal. Em casas privadas, escritórios e lojas comerciais – R. de S.ta Maria, 255, 261; R. da Alfândega 11; R. das Murças, 12; Avenida Arriaga, 11; R. das Pretas, 42, 43, 70; R. dos Ferreiros, 113, 236; R. da Carreira, 56, 57 e 63; R. Nova da Alegria, 6; R. dos Netos, 11, 19, 27, 44 (onde esteve instalado o Ateneu Comercial do Funchal), 57; R. das Mercês, 32 (onde funcionou Escola Secundária das Mercês), 41; R. Conde Carvalhal, 111.

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Teto do Palácio de S. Lourenço, BF.

Um interessante e raro teto de metal cobre o altar-mor da Igª. de S. Lourenço (Camacha), por cima do camarim, padronizado com elementos vegetalistas e possivelmente executado por um latoeiro regional, difícil de datar à vista desarmada, pois poderá ser obra dos finais do século XVIII ou do século XIX, ou mesmo do princípio do século XX.

Durante os séculos XVIII e XIX, foi moda a pintura de brasões nos tetos de habitações privadas, especialmente nas salas de visitas e entradas e ainda em capelas, isolados e/ou integrando composições decorativas, evidenciando a valorização da história heráldica (real, familiar, religiosa e papal).

Ostenta o Palácio dos Torre Bela (R. dos Ferreiros), típica casa senhorial, dois tetos armoriados, pintados em estuque, um na escadaria nobre e outro no vestíbulo, sendo um com as armas reais e outro com as armas da família (Correias, Henriques e Esmeraldos).

As armas reais portuguesas foram ainda pintadas sobre madeira, na Igª. do Socorro, cuja construção ficou concluída em 1768, juntamente com as armas antigas da cidade do Funchal; no teto do Palácio de S. Lourenço; e num raríssimo teto na R. do Surdo, 30, envolvidas por elementos vegetalistas, executado em gesso e posterior a 1861.

De gosto rocaille é o teto do sobrecoro da Capª. de Nª. Srª. da Conceição (R. da Carreira) com as armas dos Freitas, Bettencourt, Albuquerque e Vasconcelos, tendo no centro uma Nossa Senhora.

Tomemos outros exemplos de tetos armoriados: na antiga biblioteca da Quinta Josefina, pintado sobre estuque o brasão Castelo-Branco juntamente com as armas dos Teixeiras (final do século XVIII); as armas dos Bettencourt e Vogado na Capª. de Nª. Srª. de Santana, instituída pelo Juiz dos Órfãos António Dionísio Conde, na Quinta da Cruz de Carvalho (1790); os tetos armoriados e estucados, com as armas dos Castelo-Branco, numa casa privada, R. dos Netos, 30; Capª. de Nª. Srª. da Piedade, no Sítio do Jangão (Ponta do Sol), dos morgados do Jangão e Vale da Bica, com as armas dos Esmeraldos e Ornelas (XVIII-XIX); na capela da Quinta do Monte (XIX), com armas mandadas pintar por Leland Crosthwait Cossart, herdeiro de Peter Cossart, comerciantes de vinhos, que em 1922 passou para a família Rocha Machado; o teto da casinha de prazer (construção erigida na extremidade dos jardins e sobranceira à rua, que permitia aos proprietários usufruírem da paisagem) edificada junto à Capª. de Nª. Sra. Penha de França (1622), fundada por António Dantas e reedificada em 1712, ostenta um medalhão oval, em estuque, com as armas do bispo D. Patrício de Moura e Brito (1859-1872).

Infelizmente desaparecido num incêndio era o teto pintado a fresco (?) do Palácio dos Esmeraldos (séc. XIX), mandado executar por James Adam Duff, comerciante de vinhos, cujas descrições indicam um gosto neoclássico com alegorias à música, cenas de mitologia (Leda e o Cisne) e elementos clássicos, como cariátides, grinaldas e festões.

Outros tetos dignos também de registo são o da Capª. da Quinta Mãe dos Homens, onde estão pintadas as armas dos Viscondes Cacongos, e o do Palácio de S. Pedro, antiga residência dos Condes de Carvalhal e depois ocupada pelo Museu de História Natural do Funchal, com as armas daquela família na escadaria nobre, envolvidas em folhas de acanto, de estética setecentista, restaurado, em 1947 por Max Römer. Ainda o teto artesonado e pintado sobre madeira do Palácio da R. do Esmeraldo, n.os 20-28, solar seiscentista que serviu de sede da Marconi e depois do Tribunal de Contas – Seção Regional da Madeira, com brasões de armas (Bettencourt, Freitas e Vasconcelos) no painel central, de forma octogonal alongada, tendo um escudo francês assente sobre uma panóplia, couraças romanas, lanças, canhões bombardas, alabardas, bandeiras, tarjas, trombetas, etc., cercado com oito formas trapezoidais onde foram representadas figuras alegóricas, mitológicas e históricas, como Augusto e Júlio Cesar, conforme legenda, e as estações do ano. Sublinhe-se que se trata de uma pintura naïf e muito rudimentar, executada, com certeza, por um curioso. Este teto foi retirado e deslocado do edifício e colocado numa propriedade privada de Samuel Cardo Jardim, nos finais dos anos 60 do século XX.

Encontramos heráldica religiosa nos tetos da Capª. de Nª. Srª. da Piedade, em Câmara de Lobos, junto ao Convento de S. Bernardino, datável do século XVIII e pintada sobre madeira, com a representação do brasão dos franciscanos, instrumentos da paixão, rosário com as Cinco Estações e cruz papal; na Igª. de S. Pedro duas pinturas sobre madeira, obra do século XVIII, uma no teto da capela-mor, com uma figura feminina num céu de nuvens, aludindo à Igreja Triunfante, com a tripla tiara papal, a Pomba do Espírito Santo e um cálice, sentada sobre um globo azul, e outra apenas com a coroa papal assente sobre as chaves de S. Pedro, passadas entre aspas, com estela bordada a ouro, cruzes, as figuras dos Santos Padres e a Pomba do Espírito Santo, e ainda dois anjos segurando um listel com a inscrição “TU ES PETRUS”, rematado com motivos florais enquadrados em cartelas marcadamente de estética rocaille.

Mais recuados são os brasões da Sé, como se referiu, e da Matriz de Santa Cruz, em cuja construção quinhentista ainda se mantêm na capela-mor as armas reais, esculpidas em cantaria policromada, no fecho da abóboda de aranhiço, e nos bocetes ficaram esculpidas a cruz de Cristo e a esfera armilar; vê-se ainda nesta igreja o brasão de armas dos Morais, esculpido e pintado num dos bocetes do fecho do teto da antiga capela do apóstolo S. Tiago, que desde o século XVII é designada do SS.mo, cujos instituidores foram João de Morais e Catarina Fernandes, sua mulher, em 18 de junho de 1522.

Do século XIX citam-se as armas da cidade do Funchal pintadas no teto do Salão Nobre da Câmara Municipal do Funchal, de certo sabor romântico, servindo dois putti de tenentes, um segurando um listel com “Cidade do Funchal” e o outro ostentando o brasão de armas, enquanto um terceiro segura a bandeira da cruz de Cristo, envolvidos por um céu de nuvens, obra de Alfredo Miguéis (1883-1943), discípulo de Columbano Bordalo Pinheiro. Também as armas do Funchal podem ser vistas no teto do Salão Nobre do Teatro Municipal Baltazar Dias, à data de 1887-1888 designado por Teatro D. Maria Pia, obra coordenada por Luigi Manini, arquiteto, pintor e cenógrafo italiano (Lombardia), radicado em Portugal (1879-1913), que esteve na Madeira entre 1884 e 1887, em parceria com o pintor Eugénio Cotrim do Nascimento. Dos mesmos autores é o teto da sala de espetáculos, com efeito de trompe-l´oeil, céu aberto de nuvens com figuras esvoaçantes, em grande dinamismo.

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Teto do salão nobre do Teatro Municipal Baltazar Dias, BF.
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Teto das salas adjacentes do Teatro Municipal Baltazar Dias, BF.

Do século XX evidenciam-se as campanhas de pintura de tetos comandadas por Luís António Bernes (1865-1936), normalmente baseada em cópias de gravuras e de pinturas conhecidas, sendo de destacar a sua preferência pelas Imaculadas de Murillo. Exemplo de tetos de sua autoria são os das igrejas de S. Pedro (nave principal, 1900; repintura?), S. Sebastião (Câmara de Lobos), Nª. Srª. da Graça (Estreito de Câmara de Lobos, 1920; repintura?), Matriz da Ponta do Sol (1918), S. Lourenço (Camacha, 1920-1922), S. António (1921-1924), Santo António da Serra (1922) e da Capª. de Nª. Srª. da Conceição (Câmara de Lobos, 1908). Foram normalmente seus parceiros os pintores José Zeferino Nunes & Velosa, José Joaquim Mendonça e João Firmino Fernandes, sendo estes dois últimos autores conjuntos do teto do Seminário / Escola Bartolomeu Perestrelo, edificado junto à Capª. da Encarnação (século XVI), observando-se no teto do salão maior, executado entre 1920-1921, os brasões da cidade do Funchal e das antigas vilas madeirenses, incluindo o Porto Santo, conjugados com as figuras de Tristão Vaz e João Gonçalves Zarco, o busto da República, atlantes e elementos vegetalistas.

 

Matriz De Machico(BF)
Teto da Igreja Matriz de Machico, BF.

Assinados por João Firmino Fernandes, pintor formado na Escola Industrial e Comercial António Augusto de Aguiar (Funchal), onde concluiu a disciplina de Desenho Ornamental, são os tetos da Matriz de Machico (capela-mor, corpo da igreja – 06/08/1932 –, subcoro – 25/08/1933 – e capela dos Reis Magos – 05/04/1933). No centro do teto do corpo da igreja encontra-se uma Imaculada murillesca rodeada de cartelas com a oração Tota Pulchra. Na Capª. dos Reis Magos, cujo teto é de abóboda de cruzaria, foram pintados nos panos da abóboda motivos vegetalistas com enrolamentos de folhas de acanto, em tons de azuis e rosas amagentados, padrões e cromatismos que se repetem na capela-mor e no subcoro, lendo-se neste último passagens do Livro do Génesis e do evangelho de S. Mateus. Pelas analogias formais, cromáticas e composicionais, deve ser atribuído a este pintor, ou seguidores, o teto da capela-mor, embora de desenho mais inseguro, representando dois ingénuos anjos que transportam uma coroa de flores. Assinado e datado (1934) está também o teto da Matriz de Santa Cruz, com programa idêntico ao dos tetos de Machico, tendo sido acrescentados elementos grotescos e ferronnerie. De sua autoria são ainda os tetos das igrejas de S. Lourenço (Camacha; em parceria com Luís Bernes), Água de Pena (Machico) e Madalena do Mar, e o desaparecido teto da Matriz de Gaula (incêndio de 1964). Desta leva ainda se pode citar António Gouveia, da firma A. F. Velosa & Cª. Ld.ª., autor da pintura da capª. do Sº. Sº. na Matriz do Porto Santo (1931), com a representação do Bom Pastor.

Matriz de Santa cruz, Madeira (BF)
Igreja Matriz de Santa Cruz, Madeira, BF.

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Rita Rodrigues

(atualizado a 08.08.2016)