procissões

As procissões são uma expressão de fé através duma religiosidade que tem a marca duma determinada cultura, neste caso, a cultura insular da Madeira. Por isso, desde os primeiros tempos da colonização e da evangelização da Ilha, elas acompanharam as principais festas religiosas em igrejas paroquiais e capelas, por ocasião das festas do Senhor, de Maria e dos santos, em períodos litúrgicos importantes, como são, sobretudo, a Quaresma e a Páscoa; ou então como forma de invocar a proteção divina quando estava em causa a segurança da população ou as necessidades de alimento nos tempos de maior falta de água.

Uma das procissões mais antigas na Madeira é a do Corpo de Deus, que ocorre durante a festa litúrgica do Santíssimo corpo e sangue de Jesus. Em 1483, há registo de que essa procissão se realizava pelas ruas do Funchal e que, para além das autoridades camarárias que nela participavam em lugar de destaque, iam também os representantes e os elementos das principais corporações de ofícios da cidade. Os que por qualquer razão não pudessem participar eram passíveis de multa. Era costume integrar nesta procissão determinadas encenações militares, danças ou ainda jogos pouco decorosos. A origem destas encenações tem a ver com a referência bíblica ao rei David que, depois da vitória contra os Filisteus, acompanhava triunfalmente a arca da Aliança com cantos e danças. Estas práticas, julgadas já no tempo como repreensíveis, foram progressivamente banidas, sobretudo pela ação do clero e à custa de alguns desacatos. Nos inícios do séc. XVII, o bispo do Funchal chegou mesmo a escrever ao rei para tomar providências de modo a evitar tais problemas. Numa carta régia de 1724, foi determinado que se retirassem da procissão tudo quanto eram jogos, danças e figuras, mesmo de santos, exceto a imagem de S. Jorge e alguns andores que as irmandades religiosas quisessem levar. Só a partir de 1857 é que a imagem de S. Jorge deixou de figurar na procissão do Corpo de Deus.

Outro problema que levava a constantes disputas estava relacionado com as precedências das diferentes autoridades. Em 1763, por exemplo, a Câmara do Funchal queixou-se ao Desembargo do Paço por conflitos com o Governador quanto aos lugares que lhe estavam destinados na procissão do Corpo de Deus.

No início do séc. XXI, esta procissão continua a congregar a Igreja diocesana no dia de Corpo de Deus, embora se realize em todas as paróquias. A festa do Santíssimo Sacramento é patrocinada pela respetiva confraria. No Funchal, participam os irmãos da confraria do Santíssimo Sacramento das diferentes Paróquias e alguns trazem as insígnias do Espírito Santo utilizadas durante as visitas pascais. Como é tradição nas paróquias, a procissão requer um tapete de flores, em gratidão pela passagem do Santíssimo Sacramento.

A Quaresma foi sempre o tempo próprio para a realização das procissões da penitência: a procissão da cinza e dos Passos. Ignora-se o início da procissão da cinza, mas esta realizou-se durante séculos na quarta-feira de cinzas, partindo do Convento de S. Francisco e passando pelas Igrejas de S.ta Clara e do convento das Mercês. A procissão, de origem e inspiração franciscanas, tinha a participação da ordem terceira de S. Francisco, com o andor que trazia a imagem de S. Francisco abraçado à cruz de Cristo. Depois ia a irmandade da penitência, uma urna de vidro contendo cinzas, o andor do Senhor dos Passos e vários andores de santos ligados à Ordem de S. Francisco. Por fim, era levada uma relíquia da Santa Cruz. Em 2015, ainda se realizava uma procissão da cinza no Convento de S. Francisco, em Câmara de Lobos.

A procissão dos passos fazia-se no Funchal durante a Quaresma. A imagem do Senhor dos Passos era inicialmente levada em procissão do Convento de Santa Clara para a igreja do Colégio, e a imagem da Senhora das Dores era levada do Convento das Mercês para a . Num dos Domingos da Quaresma, a procissão dos Passos seguia até à Sé, onde estava a Senhora das Dores e onde era proferido o sermão do Encontro.

Há ainda outras procissões de penitência, como a do enterro do Senhor, na Sexta-feira Santa; bem como, fora do tempo quaresmal, procissões para implorar chuvas ou a proteção diante dalguma calamidade.

Duas procissões são igualmente significativas da tradição madeirense. A primeira, é a chamada procissão do voto feito a S. Tiago, realizada no primeiro dia de Maio. Esta procissão é a homenagem ao padroeiro da Diocese e da cidade, S. Tiago, e o cumprimento do voto feito no séc. XVI de proteção contra a peste. Nos primeiros tempos, saía da Sé e dirigia-se para a Igreja de S. Tiago. Depois, passou a sair da capela do Corpo Santo em direção à igreja de S. ta Maria Maior. Nela tomavam parte as autoridades da Câmara, que depunham as suas varas junto ao andor de S. Tiago, em sinal de gratidão, bem como representantes das várias corporações profissionais do Funchal.

Uma outra procissão evoca o voto feito a Nossa Senhora do Monte por ocasião da aluvião de 9 de outubro de 1803. Em novembro deste ano, o clero e as autoridades do Funchal decidiram passar a celebrar Missa e realizar uma procissão todos os anos a 9 de outubro, agradecendo o patrocínio de Nossa Senhora do Monte à cidade do Funchal; procissão que, nos primeiros tempos, saía da Sé e se dirigia à Igreja de Sta. Maria Maior. De referir que, na mesma data, se realiza em Machico a procissão noturna do Senhor dos Milagres, acompanhada pelos pescadores com centenas de archotes acesos e vivida no mais estrito silêncio.

As procissões possuem um significado humano e de fé; significam que a Igreja tem a visibilidade dum corpo organizado e que se exprime através de sinais de unidade que permitem viver a fé. A procissão é, segundo o Directório sobre Piedade Popular e Liturgia (2002), “um sinal da natureza profunda da Igreja: esta é o povo de Deus que caminha com Cristo, e atrás dele, com a consciência de não ter morada definitiva neste mundo, ou ainda um povo que marcha nas estradas da cidade terrestre para a Jerusalém celeste. A procissão é também o sinal do testemunho de fé que a comunidade cristã deve dar ao seu Senhor no interior das estruturas da sociedade civil. Ela é, finalmente, o sinal do envio missionário da Igreja, que, desde os seus princípios e segundo o mandamento do Senhor, lançou-se em todas as estradas e caminhos do mundo inteiro para anunciar o Evangelho da Salvação” (n.º 247). Em todos os tempos, sentiu-se a necessidade de evangelizar as procissões, de maneira a que tivessem um verdadeiro espírito de fé e de participação na vida da Igreja.

Bibliog.:CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS, Directório sobre a Piedade Popular e Liturgia. Princípios e Orientações, 9 abr 2002; PEREIRA Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, 4.ª ed., vol. II, Funchal, Câmara municipal do Funchal, 1989; SILVA Fernando Augusto, MENEZES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, III vol., Funchal, DRAC, 1984.

Vítor Reis Gomes

(atualizado a 29.02.2016)