quebradas

São escorregamentos ou deslizamentos de terras e/ou massas rochosas que acontecem em bloco, em camadas ou de forma separada e que aconteceram nos últimos quinhentos anos, na ilha, com maior incidência a partir do século XIX, por força da desarborização que deixou nuas as encostas e expostas a estas situações de derrocadas (escorregamentos de vertente, avalanches rochosas, desabamento ou queda de rochas). A par disso, temos que contar com um declive acentuado que chega a 30 a 40%, a montante, e 04 a 10%, a jusante, criando condições para que, em momentos de sismos ou aluviões, estas aconteçam. Na atualidade, atua-se no sentido de as controlar ou de minimizar os seus efeitos com túneis, paredões e a estabilização dos taludes.

Encontra-se a expressão destas quebradas na toponímia madeirense. Há ainda a considerar as Fajãs, que são resultado destas quebradas ou outros fenómenos semelhantes de deslizamento de pedras e terras. Poderá entender-se que esta designação de Fajã tem origem nesta situação, tornando-se num aspeto particular da orografia do arquipélago. São diversos os sítios no Achadas da Cruz, Arco da Calheta, Câmara de Lobos, Canhas, Curral das Freiras, Desertas, Estreito de Câmara de Lobos, Faial, Madalena do Mar, Santo António, Prazeres, Porto da Cruz, Porto Moniz, Ribeira Brava, Tabua, Serra de Água, S. Vicente. Assim, na ilha, temos sítios apenas com a designação de Fajã, em Arco da Calheta, C. de Lobos, Canhas, Faial, Madalena do Mar, Santo António, Prazeres, Tabua. A estas juntam-se outras com diversos epítetos: Alta, De Alma, do Amo, da Areia, Asnos, Asno, dos bichos, das Cagarras, dos Cardos, do Cedro Gordo, do Cerejo, de Cinza, de Corças, das Covas, das Éguas, Fajã e Eiras, das Galinhas Grande, do Limão, da Madeira, das Malvas, do Manuel, dos Chiqueiros, do Mar, das Michas, do Mú, das Nogueiras, Nova, Ovelha, dos Padres, da Palmeira, da Ribeira, do Penedo, Redonda, dos Rolos, da Estufa, das Vacas, Velha, dos Vinháticos, Fajanzinha do Bento. Já a reposição das quebradas na toponímia da ilha é menor, pois só temos referenciado Quebrada do Negro e Nova (Achadas da Cruz), sítios das Quebradas no Seixal, S. Martinho, Arco de S. Jorge, Boaventura, Campanário, Faial, Paul do Mar, Ponta do Sol.

De todas, assinalamos as que se seguem, pelo impacto que têm, na ilha: Fajãs do Cabo Girão (Câmara de Lobos), Fajã dos Padres (Campanário), Fajã Escura e Fajã dos Cardos (Curral das Freiras), Fajã das Galinhas (Estreito de Câmara de Lobos), Fajã do Mar (Faial), Fajã do Cedro Gordo (S. Roque do Faial), Fajã da Areia (S. Vicente), Fajã do Penedo (Boaventura), Fajã da Ovelha, Jardim do Mar, e Paul do Mar (Calheta), Quebrada Nova (Achadas da Cruz), e o Lugar de Baixo (Ponta do Sol). E o fato de termos presenciado a mais jovem fajã da Madeira de 01 e 02 de fevereiro de 1992, junto à Penha d’ Águia, no Porto da Cruz.

Note-se, ainda, que as quebradas fazem parte da tradição e cultura madeirense. De acordo com Manuel Pestana Reis (Correio da Madeira, 23.03.1922), o madeirense, como o “pequeno deus ciclópico” que atua “travando a marcha vertiginosa das vertentes, afogando à boca dos abismos o pendor das quebradas, emparedando o mar para lhe roubar para o cultivo uns escassos metros de terra,…”. Todos os escritores se lhe referem, em tom poético e triste. Alberto Artur Sarmento (198,9), na exaltação da pedra, afirma “O deus dos Mares bramiu enfurecido, arreliou-se, e provocando quebradas monstruosas, desabou o promontório Girão, numa talhada a pique; formou patamares escoantes em fajãs dispersas, limou o focinho dos cabos, aguçou pontas pelo mar roídas, mas neste trabalho insano, só modificara o contorno da periferia molhada, não podendo galgar ás serranias altaneiras.

Na verdade, as quebradas são parte da História do madeirense desde o século XV, pois a orografia abrupta da maior parte das encostas, a par com o seu processo de desflorestação deram a conhecer aos humanos este problema que marcou o seu quotidiano desde o início, com registos, na História, de alguns episódios. Sobre o Cabo Girão, por exemplo, sabemos que uma das primeiras quebradas aconteceu cerca de 1444 e provocou a morte de Henrique Alemão. Em 1689, uma grande quebrada no Arco de S. Jorge deu lugar ao sítio da Quebrada do Arco Pequeno. E em 1817, Paulo Dias de Almeida diz-nos que a costa até Ponta delgada, “está ameaçando repetidas quebradas”. Em 1894, deu-se grande derrocada na Deserta Grande. No dia 4 de março de 1930, voltamos a ter outro desmoronamento de rochas da costa no sítio do Rancho, junto ao Cabo Girão, provocando a morte a cerca de duas dezenas de pessoas. Depois, a 06 de março de 1930, tivemos a quebrada no sítio do Estreito da Vargem, que destruiu 11 casas e matou 32 pessoas. A última quebrada aconteceu a 17 e 27 de outubro de 2008, pelas 16 horas, na escarpa junto à queda de água, conhecida por “Véu da Noiva”, na Freguesia do Seixal, concelho do Porto do Moniz.

Os madeirenses têm de conviver com esta situação, de modo que o município atua, com todo o cuidado, na proteção das terras, para evitar maior perigosidade das quebradas e inundações, nomeadamente junto das ribeiras e caminhos. Competia à vereação vistoriar os caminhos e zelar pela boa circulação e desimpedimento das serventias. A orografia da ilha condiciona, de modo evidente, a vida das populações, sendo agravada esta situação com as condições climáticas. A ilha foi assolada, ao longo da história, por inúmeras aluviões.

As diversas autoridades estão atentas a estas realidade e manifestam sempre preocupação e cuidado , no sentido de evitara as quebradas e os seus prejuízos. Já em 1792, nas instruções de agricultura do corregedor António Roiz Velosos se afirma que “arvores concervão as plantas e as searas, defendendo-as dos ventos e das tempestades; seguirão as terras empinadas, e com as suas raizes as concervão e sustentão de forma que estas jamais se precipitão e fazem quebradas, o que se deve nesta ilha evitar por todas as formas para a concervação do paiz.”

Em 1817, Paulo Dias de Almeida refere a sua origem, nesta passagem: ”Enfraquecem a terra com o fogo e depois a abandonam. Eis aqui de onde procedem as quebradas, porque a ilha é toda cortada de ribeiras e ribeiros, muito próximos uns dos outros, formando altos lombos, e nas encostas deles é onde fazem as roçadas, que depois despresam tirada a primeira colheita. As lombadas quase todas são formadas de uma mistura de pedra solta e salão, e na superfície uma tona que apenas tem 1 e 1/2 palmos de terra, que estas chuvas levam à ribeira, ficando a pedra solta e alguma agarrada ao salão, que o sol resseca e por consequência cai.” Diz, ainda, que “A costa até Ponta Delgada, está ameaçando repetidas quebradas. “ e reafirma “a comunicação para o Ponta Delgada é toda perigosa e por baixo montanhas, que estão ameaçando quebradas a todo o momento. Evita-se todos estes perigos perigos passando o caminho pela lombada das Vacas.

As autoridades anunciam que a rearborização das serras era também uma forma de consolidação das escarpas e de combater as quebradas. Mas, a partir do século XIX, as frequentes aluviões são o princípio deste problema, deixando muitas vezes irreconhecíveis os poios e intransitáveis as entradas. A aluvião de 23 de outubro de 1843 provocou inúmeras quebradas por toda a ilha, tornando intransitáveis os caminhos, os terrenos agrícolas e a vida dos madeirenses.

A realidade repete-se ao longo do tempo e, quase todos os anos, é necessário, após o inverno, reparar os caminhos, refazer as pontes e levantar as quebradas. No caso particular de S. Vicente, temos informação, pelos livros de atas da câmara, desta situação. A norte, mercê das encostas íngremes, da grande quantidade de água disponível na época das chuvas, a época invernosa era sempre um quebra-cabeças para os moradores. O vale de São Vicente é um exemplo disso, sendo servido, por todo o lado, por encostas abruptas que facilitam as quebradas. Após as primeiras chuvas, caiam os protestos dos moradores em mesa da vereação. Em 1876, Joaquim Fernandes morador no Lanço reclama, perante a vereação, os prejuízos causados no seu sítio pelas chuvadas de 31 de outubro. Os danos não se ficaram apenas pelos caminhos do Lanço pois atingiram todo o concelho, deixando-os quase intransitáveis, pelo que a Vereação foi forçada a apelar ao Governador Civil no sentido de serem dados meios financeiros para a imediata reparação. Em 1888, como em 1896, pelo que o presidente do município refere que o “alluvião de desgraça que ha um anno a esta parte se teem succedido em todo o concelho… onde a ribeira na sua impetuosa corrente levou para o mar, pontes, caminhos…”. Todavia, graças à pronta colaboração de todos foi rápido o restabelecimento da circulação dos caminhos, ficando apenas a aguardar solução aquele que sobe na margem da ribeira junto à vila. Novas inundações que ocorreram a 2 e 3 de outubro de 1895 provocaram grandes estragos nas freguesias de S. Vicente, Boaventura e Ponta Delgada, que ficaram incomunicáveis. Na Ribeira Grande, em S. Vicente, ficaram 25 famílias sem casa, enquanto nos Enxurros, em Ponta Delgada, uma quebrada provocou elevados estragos. A ponta da vila entupiu e fez transbordar a água que alagou a vila. A sorte foi que a armação de pedra não resistiu à força da água, fazendo-a desabar. De tudo isto, deixou o Feiticeiro do Norte um retrato em “as inundações de 1895”:

Vejo os caminhos do norte

que estão todos arrombados

não se pode transitar

nada, de lado p’ra lado

Passa-se em rochas medonhas

quais veredinhas de gado,

até parece vergonha

do nosso excelente estado.

Já em pleno século XX, as chuvas continuaram a atormentar as gentes do norte. Logo em 1902, as fizeram elevados estragos, tornando intransitável a estrada real ao Saramago. Em 16 de novembro de 1909, os estragos causados nos caminhos e casas, nomeadamente no Laranjal e no Lanço, são elevados, o que levou a Vereação a um orçamento suplementar para cobrir a nova despesa. Na década de vinte, esta realidade aumenta de intensidade. Em fevereiro de 1921, os estragos foram tantos em todo o conselho que, passando mais de um ano, ainda se aguardava a reparação. Em 1927, o mês de dezembro voltou a ser invernoso, causando elevados danos, de modo especial na principal estrada que liga pela Encumeada ao Funchal. Dois anos depois, abateu-se uma grande calamidade sobre a freguesia. A 6 de março, pelas 10 h da manhã, uma quebrada no alto da Vargem vitimou 29 famílias e causou danos, avaliados em mais de dois mil contos. Os dados assim o provam: 40 mortos, perda de 100 palheiros e igual número de cabeças de gado. O tema correu em toda a ilha e foi manchete, por algum tempo, nos jornais locais, obrigando o Governador Civil a deslocar-se ao concelho, a 8 de março. Não parou aqui a fúria do tempo, pois que, em 28 de outubro de 1934 e janeiro de 1952, novas trombas de água se abateram sobre o concelho e provocaram, de novo, elevados prejuízos materiais e a destruição de inúmeras estradas e pontes, que só foi possível recuperar com apoio de subsídios da Junta Geral e do Governo Central. A 4 de dezembro de 1944, a Direção Geral dos Serviços Florestais, fala na “criação de um serviço de socorros contra quebradas e desmoronamentos”.

A orografia da ilha, em consonância com os fenómenos sísmicos (1748, 1755, 1762, 1768, 1804,1813, 1814, 1914, 1958, 1972, 1975, 2003 e 2008) e das aluviões (1611, 1707, 1724, 1803, 1815, 1836, 1848, 1850, 1856, 1858, 1883-84, 1886-87, 1889, 1895, 1910, 1915, 1920, 1921, 1923, 1926, 1931-32, 1939, 1945, 1956, 1958, 1962,1970, 1973, 1977, 1979, 1982, 1984-85, 1989, 1990-91, 1992-93, 1997, -98, 2001, 2006, -07, 2008, -09, 2010) criaram as condições propícias às quebradas que foram e continuam a ser um dado do quotidiano madeirense, quando estas condições se fazem sentir.

Bibliog.: CARVALHO, José Maria, Plano Complementar do Plano de Povoamento Florestal 1942, pp. 66-69, 73-76, in Eduardo de Campos Andrada, Repovoamento Florestal no Arquipélago da Madeira (1952-1975), Lisboa, 1990, pp. 125-129; NASCIMENTO, Rui Nepomuceno, A Madeira na Obra de Escritores, Funchal, 2008; RIBEIRO, Orlando, A Ilha da Madeira até meados do século XX, Lisboa, Instituto de Cultura Portuguesa, 1985; SILVA, Fernando Augusto da, Dicionário Corográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal: ed. do autor, 1934; SILVA, Fernando Augusto da, O Revestimento Florestal do Arquipélago da Madeira, Funchal, 1946, parcialmente publicado in Eduardo de Campos Andrada, Repovoamento florestal no arquipélago da Madeira (1952-1975), Lisboa, 1990, pp.133-152; Id., Menezes, Carlos Azevedo de, 1978, Elucidário Madeirense, 3 vols, Funchal, DRAC, 1978; QUINTAL, Raimundo (1999) Aluviões da Madeira: Séculos XIX e XX. Artigo publicado na “Territorium” (6.1999), Revista de Geografia Aplicada no Ordenamento do Território e Gestão de Riscos Naturais. Editora Minerva. Coimbra. pp. 31 a 48; ROSA, J Fernandes; FERNANDES J Pulquério. A Vaga da Morte. Tip. Diário da Madeira, Funchal, 1930; SARMENTO, A. Arthur (1953). Freguesias da Madeira. 2.ª Edição, Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Funchal; Silva, José Lemos, Desastres Naturais no Arquipélago da Madeira – Resenha Histórica, in Madeira Gentes e Lugares. digital: em http://madeira-gentes-lugares.blogspot.pt/2007/08/desastres-naturais-no-arquiplago-da.html. Consulta a 14-04-2015; SOUSA, Ana Madalena Rosa Barros Trigo de, O Exercício do Poder Municipal na Madeira e Porto Santo na Época Pombalina e Post Pombalina, Funchal, CEHA, 2004; A aluvião de 1815: antologia. Revista Atlântico, N.º 3 (1985), p. 234-238.

Alberto Vieira

(atualizado a 25.07.2016)