recursos naturais (ilha do porto santo)

  1. Introdução

Na última década o mercado do Turismo de Saúde na ilha do Porto Santo, território do arquipélago da Madeira, deixou de ser apenas doméstico e avançou para a internacionalização. Antes e com base em informação recolhida (a primeira remonta há cerca de duzentos anos), a ilha era procurada por indivíduos nacionais e estrangeiros que utilizavam de modo empírico, mas com reconhecido sucesso conforme relatos escritos e depoimentos clínicos, o tradicional banho de areia na zona de transição praia/duna frontal da excelente praia que existe na costa sul da ilha, para tratarem patologias do foro músculo-esquelético, em particular.

Em 1924 o médico Dr. Nuno Silvestre Teixeira publicou doze crónicas no Diário de Notícias da Madeira intituladas “Não há estação de saúde como o Porto Santo. Uvas, Águas minerais, Praia de banhos, Regatas, Caça e Pesca”. E, numa dessas crónicas o médico diz,

(…) como estação de saúde é única, porque reúne condições sanitárias, que em parte nenhuma que saibamos, se encontram atribuídas e em excelente grau como naquela ilha, pois que permitem usar simultaneamente a talassoterapia ou banhos de mar, numa praia que não tem rival lá fora, em nenhum país, uvas que não se conhecem melhores e águas minerais que não receiam confrontos com as melhores de Portugal e do estrangeiro”.

Pereira, E. (1986) e Silva & Menezes (1997) nos livros “Ilhas de Zargo” e “Elucidário Madeirense”, respetivamente, relatam muitas histórias clínicas e depoimentos médicos de testemunho de doentes, os quais evidenciam as propriedades excelentes e extraordinárias das areias de praia do Porto Santo, incluindo as areias da duna frontal.

Ainda, segundo relato de Curt Gagel, cientista alemão, constante no livro “Ilhas de Zargo”,

(…) as areias de praia do Porto Santo têm composição calcária, todavia bem diferente da natureza das demais praias portuguesas e estrangeiras por serem excepcionalmente ricas em conchas” e diz ainda que “os portugueses não sabem do tesouro precioso e inestimável que têm por explorar na praia do Porto Santo (…).”.

São muito interessantes estas afirmações mas, desde já importa esclarecer que areias similares às da praia do Porto Santo existem noutras praias portuguesas e estrangeiras, por exemplo em certas ilhas atlânticas dos arquipélagos dos Açores, Canárias e Cabo Verde, as quais como a ilha do Porto Santo pertencem ao grande arquipélago biogeográfico da Macaronésia.

Os autores deste artigo a partir de 1995 foram desenvolvendo investigação no sentido de determinar as propriedades relevantes da areia e as metodologias utilizadas nos banhos que pudessem ser justificativas dos benefícios terapêuticos da areia. Os resultados das investigações levadas a efeito têm proporcionado a publicação de alguns artigos científicos em revistas nacionais e internacionais (Gomes & Silva, 2003, 2006b, 2007, 2008a,b,c; GOMES et alii, 2008c, 2009c) e de alguns livros técnicos e científicos (Gomes & Silva, 2002, 2003, 2006a, 2012; Silva, 2002, 2003). Desde então a informação científica obtida acabou por dar origem a um programa multifatorial de saúde que tem sido usado por empresários dos ramos da hotelaria e do turismo para o desenvolvimento de infra-estruturas (por exemplo, Centros de Geomedicina, Centros de Talassoterapia, Centros ou Resorts de Saúde Natural e Spas) e para projetos de Turismo de Saúde tirando benefícios de alguns dos recursos naturais da ilha que têm tido a participação de utentes e pacientes oriundos, essencialmente, por ora, de países nórdicos (Noruega, Dinamarca, Finlândia, Suíça e Suécia).

Ao longo do tempo a ilha do Porto Santo, como destino turístico, tem sido promovida na base de certos conceitos, tais como: “Ilha de Sol e Praia”, “Ilha de Sossego e Tranquilidade”, “Ilha Dourada” (devido à coloração dourada da areia das suas praias) e “Estância de Saúde”. Em nossa opinião o conceito mais apropriado seria: “Ilha do Porto Santo: Estância Singular de Saúde Natural”, conceito proposto por Gomes & Silva (2012).

As razões da proposta deste conceito estão relacionadas com as características especiais dos seus recursos naturais: clima, água do mar, água de nascente, areia de praias e dunas (de natureza carbonatada biogénica, com longa tradição de aplicações no campo da psamoterapia), argila (de composição esmectítica com longa tradição em aplicações nos campos da peloterapia e da cosmética) e vegetais e frutos comestíveis (cultivados nos calcisolos desenvolvidos na formação de areia carbonatada biogénica e que são portadores de elementos químicos bioessenciais, tais como cálcio, magnésio, estrôncio, e enxofre em concentrações relativamente elevadas), Gomes & Silva (2012).

  1. Recursos Naturais

2.1 Areia Carbonatada Biogénica

Estudos realizados por Gomes & Silva (2002); Silva (2003); Gomes & Silva (2006); Gomes & Silva (2007, 2012) proporcionam muita informação sobre as propriedades físicas, químicas e térmicas, relevantes para aplicações terapêuticas, da areia carbonatada biogénica que ocorre na ilha do Porto Santo. Este tipo de areia especial ocorre de modo mais evidente na praia que ao longo de cerca de 9 quilómetros bordeja a costa sul da ilha e, tem sido usada desde há muitos anos no tratamento de doenças do foro músculo-esquelético (doenças reumáticas e ortopédicas), tais como: artrite reumatóide, artrose, gota, osteoporose e fibromialgia (Figuras 1 e 2).

Figura 1 – Paciente a fazer tratamento com areia carbonatada na praia do Ribeiro Cochino, na ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2010.
Figura 1 – Paciente a fazer tratamento com areia carbonatada na praia do Ribeiro Cochino, na ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2010.
Figura 2 - Paciente a fazer tratamento com areia carbonatada na praia do Ribeiro Salgado, na ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2011.
Figura 2 – Paciente a fazer tratamento com areia carbonatada na praia do Ribeiro Salgado, na ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2011.

A experiência tem mostrado que o banho na areia carbonatada biogénica do Porto Santo melhora o estado de saúde dos pacientes que sofrem das doenças do foro músculo-esquelético antes referidas. O calor da areia tem função anti-inflamatória e a absorção de elementos químicos bioessenciais (Ca, Mg, Sr, S,…) libertados da areia dissolvida pela ação do suor corporal contribui para a preservação e benefício da estrutura óssea e, também, das cartilagens articulares.

A areia carbonatada biogénica é composta, essencialmente, por bioclastos de algas vermelhas (Rodófitas). Estas algas fazem precipitar o carbonato de cálcio existente na água do mar dentro e entre as paredes celulares de tal modo que os detalhes dos tecidos e órgãos reprodutores são preservados.

Quatro famílias de algas Rodófitas são reconhecidas no registo fóssil: Família Corallinaceae, Família Squamariaceae, Família Solenoporaceae e Família Gymnocodiaceae.

Por sua vez a Família Corallinaceae é subdividida em duas subfamílias: Melobesioideae (compreendendo as coralinas crustosas que vivem firmemente fixas ao substrato rochoso) e Corallinoideae (compreendendo algas coralináceas articuladas, que vivem em lugares abrigados e que, rapidamente, se desintegram em partículas tabulares ou cilíndricas do tamanho de grãos de areia), SILVA, 2003.

Restos de algas pertencentes à família Corallinaceae e á subfamília Corallinoideae, com formas particularmente arborescentes do género Lithothamnium, estão bem representados na areia carbonatada biogénica do Porto Santo (Figuras 3 a 6).

Figura 3 – Areia da praia do ribeiro Cochino (amostra tal e qual) com vários fragmentos de algas pertencentes à família Corallinaceae. © João Baptista, 2011
Figura 3 – Areia da praia do ribeiro Cochino (amostra tal e qual) com vários fragmentos de algas pertencentes à família Corallinaceae. © João Baptista, 2011
Figura 4 – Pormenor dos fragmentos de algas pertencentes à família Corallinaceae. © João Baptista, 2011
Figura 4 – Pormenor dos fragmentos de algas pertencentes à família Corallinaceae. © João Baptista, 2011
Figura 5 – Imagem obtida no microscópio eletrónico de varrimento dos grãos de areia carbonatada biogénica do Porto Santo evidenciando a porosidade que muitas deles apresentam. © Celso Gomes, 2011
Figura 5 – Imagem obtida no microscópio eletrónico de varrimento dos grãos de areia carbonatada biogénica do Porto Santo evidenciando a porosidade que muitas deles apresentam. © Celso Gomes, 2011
Figura 6 – Campo amplificado observado no microscópio electrónico de varrimento dum grão calcário poroso da areia carbonatada biogénica do Porto Santo mostrando quão profundos são os poros. © Celso Gomes, 2011
Figura 6 – Campo amplificado observado no microscópio electrónico de varrimento dum grão calcário poroso da areia carbonatada biogénica do Porto Santo mostrando quão profundos são os poros. © Celso Gomes, 2011

Restos de outros organismos possuidores de esqueletos calcários e, ainda, grãos de vulcanoclastos (tufo-lapilli, basalto, riolito, andesito e magnetite), cujo teor é em regra inferior a 10% em peso, quando especificamente o teor de magnetite varia entre 1%-5%, são os outros constituintes das areias de praias e dunas do Porto Santo. Quanto maior for a percentagem da componente vulcanoclástica mais escura se torna a areia carbonatada biogénica (Figuras 7 e 8). Em termos granulométricos a areia carbonatada biogénica da praia do Porto Santo é caracterizada por granularidade fina tendo a grande maioria dos grãos dimensões situadas entre 0,250mm-0,125mm.

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Figura 7 – Bioclastos (amarelos) e vulcanoclastos (pretos) que constituem a areia carbonatada biogénica do Porto Santo. © João Baptista, 2011
Figura 8 - Grãos de feldspato e de magnetite que formam a fração silicatada e magnética da areia carbonatada biogénica do Porto Santo. © João Baptista, 2011
Figura 8 – Grãos de feldspato e de magnetite que formam a fração silicatada e magnética da areia carbonatada biogénica do Porto Santo. © João Baptista, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

2.2. Areia Carbonatada Biogénica: Propriedades justificadoras de aplicações em Geomedicina

Os resultados das análises químicas realizadas (Quadro 1) mostram que cálcio (Ca) e magnésio (Mg) são os elementos químicos principais ou maiores que formam a areia carbonatada biogénica, elementos sabidamente bioessenciais para a saúde humana (Silva, 2003; Gomes & Silva, 2006).

Quadro 1 – Teores (% em peso) dos elementos maiores identificados na areia carbonatada biogénica do Porto Santo (análise de amostra colhida na duna em frente do Hotel Porto Santo).

 SiO 2Al 2 O 3TiO 2Fe 2 O 3MnOCaOMgOK 2 ONa 2 OP.R.
1.401.050.200.800.1053.102.500.310.5041.40

Nota: P.R. (Perda ao Rubro) é a perda de peso obtida após queima a 1.100ºC durante 1 hora e corresponde essencialmente à evolução gasosa de CO2 resultante da calcinação dos carbonatos presentes na areia.

O Quadro 2 mostra as concentrações dos elementos químicos menores e traço existentes na mesma amostra de areia carbonatada biogénica.

Quadro 2 – Teores (em ppm) dos elementos traço determinadas na areia carbonatada biogénica do Porto Santo (análise de amostra colhida na duna em frente do Hotel Porto Santo).

           
SrPVSZnCuNiCoCrSe
59040152010645925

Nota: Salienta-se o valor elevado de estrôncio (Sr).

Foram feitas análises químicas de areia colhida noutros locais da zona de transição praia/duna frontal mas, os valores referidos são considerados valores médios representativos da areia carbonatada biogénica que ocorre na dita zona da costa sul do Porto Santo.

Em termos de composição mineralógica a componente carbonatada da areia carbonatada biogénica do Porto Santo é constituída por três minerais distintos em termos de cristaloquímica: calcite (CaCO3), calcite magnesiana ou Mg-calcite (Ca,Mg)CO3 e aragonite (Ca,Sr)CO3. Entre Ca e Mg e entre Ca e Sr ocorre substituição atómica limitada, expressa pelo seu posicionamento dentro de parênteses separados por uma vírgula.

O cálcio participa nos três minerais: calcite (estável), Mg-calcite (meta estável) e da aragonite (o mais meta estável).

O teor de Mg na areia aumenta com o aumento do teor de Mg-calcite, sendo o teor de Mg-calcite diretamente dependente do teor de bioclastos de algas calcárias do grupo Rhodophyceae. Também, o teor de Mg é variável na areia carbonatada biogénica do Porto Santo, sendo mais alto nuns depósitos do que noutros. Tal é reconhecido, por exemplo, nas dunas fósseis da Fonte da Areia, localizadas na costa norte da ilha.

Análises mineralógicas e químicas levadas a efeito em areias das camadas do topo e em areias das camadas da base do depósito mostram que as primeiras são notoriamente mais ricas em magnésio (Mg) do que as segundas. Com base em datações baseadas no radiocarbono 14C foi estimada em cerca de 15.000 anos a diferença de idade dos referidos depósitos (base e topo).

Sendo o magnésio (Mg) um elemento bioessencial, quando da seleção da areia para os tratamentos (por exemplo, banho de areia), deve ser utilizada a areia que possuir os teores mais elevados de magnésio.

À semelhança do que sucede com o magnésio, também o teor de estrôncio (Sr) e os teores de outros elementos igualmente bioessenciais existentes na areia, tais como zinco (Zn), fósforo (P) e enxofre (S) são significativamente maiores na areia de idade mais baixa. Acresce que o estrôncio (Sr) entra na composição da aragonite e o seu teor diminui à medida que aumenta a idade da areia.

Fósforo (P), enxofre (S), silício (Si), alumínio (Al), iodo (I), brómio (Br), flúor (F), boro (B), vanádio (V), zinco (Zn), cobre (Cu), ferro (Fe) e selénio (Se), são os elementos químicos menores e traço (Quadro 2) que foram identificados e quantificados na areia carbonatada biogénica do Porto Santo.

Foram determinadas propriedades da areia carbonatada biogénica do Porto Santo, tais como: 1) dimensão e forma do grão; 2) natureza e razão entre bioclastos e vulcanoclastos; 3) calor específico e difusão do calor; 4) composição mineralógica e química (elementos maiores, menores e traço); 5) razões Mg/Ca e Sr/Ca; e 6) taxa de dissolução química.

Está reconhecido que o corpo humano tem melhor afinidade para os elementos químicos de origem orgânica devido à sua mais alta biocompatibilidade e biodisponibilidade.

Gomes & Silva (2001) referem os resultados dos estudos que levaram a efeito de modo a explicarem os atributos para fins terapêuticos da areia carbonatada biogénica do Porto Santo. Esta areia é caracterizada por propriedades térmicas específicas (alto calor específico e baixa taxa de difusão) e por propriedades químicas igualmente específicas uma vez que a areia é particularmente rica nos elementos cálcio (Ca), magnésio (Mg), estrôncio (Sr), fósforo (P) e enxofre (S). Estes elementos podem tornar-se livres facilmente por dissolução química quando a areia entra em contacto com o suor ácido eliminado pelo corpo durante o banho de areia, ou em instalações apropriadas (Centros de Talassoterapia e Centros de Geomedicina – Figuras 9 e 10), ou ao ar livre na areia seca da zona de transição praia/duna frontal ou primária (Figuras 1 e 2). No Verão e em dias de sol, à superfície, a areia pode atingir a temperatura de 65ºC e, a 5-10cm de profundidade, a temperatura da areia pode atingir 40-42ºC, portanto ainda superior à temperatura do corpo humano.

Figura 9 – Tratamento de pacientes com areia carbonatada biogénica no Centro de Geomedicina e Spa do Hotel do Porto Santo. © João Baptista, 2009
Figura 9 – Tratamento de pacientes com areia carbonatada biogénica no Centro de Geomedicina e Spa do Hotel do Porto Santo. © João Baptista, 2009
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Figura 10 – Pormenor dos pacientes no interior das banheiras a fazer tratamento com areia carbonatada biogénica. © João Baptista, 2009

Efetivamente para ser eficaz, a temperatura da areia usada no banho de areia deve ser um pouco superior à temperatura do corpo (37ºC) para que tal provoque a sudação do corpo, condição essencial para haver benefício nas afecções de saúde para as quais o tratamento é recomendado.

No banho de areia no interior das Clínicas é recomendado que a temperatura da areia se situe entre 40-42ºC no início do tratamento e, passados 25-30 minutos (tempo recomendado para a duração do tratamento) a temperatura da areia deverá rondar 37-38ºC. O banho de areia tomado no interior das Clínicas tem vantagens relativamente ao banho de areia tomado no exterior (Figuras 4 e 5). A temperatura da areia pode ser mantida uniforme durante todo o banho quando este é tomado no interior, enquanto no exterior (ao ar livre na praia) esta condição é difícil de manter.

Por outro lado no banho exterior poderão ocorrer queimaduras produzidas, quer pela alta temperatura que a areia pode atingir, quer pela exposição à radiação ultravioleta componente da luz solar.

Relativamente aos elementos químicos maiores e menores existentes na areia, cálcio (Ca), magnésio (Mg) e estrôncio (Sr), eles merecem os seguintes comentários:

O cálcio (Ca) é um importante elemento químico existente na água do mar e noutros sistemas naturais ao qual é atribuída extraordinária importância para a saúde humana. De facto, o cálcio sob a forma iónica Ca+2 é essencial para a integridade funcional dos sistemas muscular e nervoso e, também, para a normalidade da função cardiovascular. Está bem estabelecido ainda que a terapia do Ca em simultaneidade com a terapia da vitamina D aumenta a capacidade de absorção do cálcio. Em termos quantitativos o cálcio (Ca) é o elemento químico maior constituinte da areia carbonatada biogénica do Porto Santo e, como já foi referido ele participa em três carbonatos: calcite, CaCO3, (em regra, o mais abundante), Mg-calcite e Sr-aragonite. Estes três carbonatos são facilmente solúveis em soluções ácidas (pH <7) dissociando-se nos iões Ca+2, Sr+2, Mg+2 e CO3-2. Mas, outros iões incorporados como elementos traço nas estruturas dos carbonatos referidos podem passar para as soluções.

O estrôncio (Sr) é, também, um elemento químico importante para a saúde humana que existe na água do mar e noutros sistemas naturais. Na areia carbonatada biogénica do Porto Santo os teores de estrôncio (Sr) situam-se entre 1.800-2.500mg/kg para as areias de idade mais alta que ocorrem nas dunas consolidadas mais antigas, e entre 2.500-3.500mg/kg para as areias de idade mais baixa que ocorrem na praia e nas dunas inconsolidadas mais recentes.

Os ossos e os dentes humanos são feitos de bioapatite, um biomineral (ao contrário dos minerais verdadeiros que são formados no meio natural, os biominerais são formados por ação e no interior dos organismos vivos) composto por fosfato de cálcio cuja estrutura é próxima da estrutura do mineral hidroxiapatite cuja estrutura pode acomodar OH, CO3, F, Si, Mg e Sr.

Da mesma forma o estrôncio (Sr) pode tornar mais durável a estrutura instável da aragonite. Semelhantemente admite-se que o Sr possa tornar mais estável a estrutura da bioapatite que forma os ossos, impedindo assim a perda de massa óssea causadora da osteoporose. Recentemente foi desenvolvido e comercializado um medicamento para o tratamento da osteoporose, cujo princípio ativo é um composto orgânico de estrôncio (Sr), o ranelato de estrôncio, que diminui a reabsorção do osso. Este medicamento ganhou o Prémio Galien’2005, um prémio que recompensa a investigação e a inovação na indústria farmacêutica. Porventura será a associação do cálcio (Ca) com outros elementos, tais como Mg, Sr, P e F, que ocorrem em teores relativamente altos na água de consumo doméstico e nos vegetais e frutos que são consumidos em Porto Santo, combinada com a maior absorção do Ca por ação da vitamina D, responsável pelos ossos mais fortes nos habitantes do Porto Santo (GOMES & SILVA, 2012).

O magnésio (Mg) é outro importante elemento químico, igualmente importante para a saúde humana, que também existe em concentrações significativas na água do mar e noutros sistemas naturais, tais como certos solos e águas de nascente. Sob a forma de Mg+2 ele produz efeitos bem conhecidos baseados em experimentação animal ou testes “in vivo”: reduz as patologias cardiovasculares porque reduz a placa artroma causadora de aterosclerose e, ainda, porque intervém no metabolismo de gorduras ou lípidos. A soja, os cereais, as nozes, as avelãs, e outros frutos (como a melancia e melão) são alimentos ricos em Mg. Ao magnésio são atribuídos outros efeitos benéficos: antistress, antioxidante, cardioprotector, anti-infeccioso, anti-inflamatório e remineralizador. Admite-se que o Mg nas dietas aumenta a densidade dos ossos e que ele activa uma enzima que favorece a incorporação de Ca nos ossos. As pessoas que sofrem de osteoporose estão identificadas como sendo deficientes em magnésio (Mg).

Os teores de óxido de magnésio (MgO) determinados na areia carbonatada biogénica do Porto Santo situam-se entre 2,5-4%. Os valores mais elevados de MgO correspondem a areias com teores mais baixos de aragonite e teores mais altos de calcite portadora de magnésio, isto é, de calcite magnesiana ou Mg-calcite.

Entre os elementos químicos ditos menores, o fósforo (P) e o enxofre (S) estão representados significativamente na areia carbonatada biogénica do Porto Santo, particularmente nos bioclastos de algas calcárias.

O fósforo (P), por exemplo, é considerado constituinte essencial para a integridade das estruturas celulares e para muitos processos catabólicos, porque controla a atividade enzimática e é importante ainda para a libertação de oxigénio para os tecidos do corpo humano. Também, quando associado ao cálcio o fósforo contribui para a resistência e integridade de ossos e dentes.

Por sua vez o enxofre (S) é um constituinte essencial de todas as formas de vida na Terra.

Os múltiplos estados de valência do enxofre (de S2- até S 6+) permitem a sua participação numa grande variedade de processos biogeoquímicos. O enxofre é essencial para evitar a degenerescência de cartilagens, nervos e tendões. Tal justifica a sua inclusão em fármacos utilizados, por exemplo, no tratamento da osteoartrose, como é o caso do sulfato de glucosamina e o sulfato de condroitina. A condroitina beneficia a elasticidade e flexibilidade das articulações uma vez que, favorecendo a retenção de água, mantém a lubrificação das articulações. O enxofre é elemento comum aos dois sais, sendo-lhe atribuído os efeitos positivos na doença, por proporcionar atraso no processo degenerativo que conduz à artrose. Existem três sais de glucosamina: sulfato de glucosamina, hidrocloreto de glucosamina e N-acetilglucosamina. Contudo, as provas factuais evidenciam a eficácia clínica do sulfato de glucosamina cristalino na síntese da cartilagem contrariando os fenómenos oxidativos que decorrem da inflamação e que são altamente lesivos das células (denominadas condrócitos no caso da cartilagem) e dos tecidos. O sulfato de glucosamina cristalino é extraído e depois purificado da quitina derivada dos exoesqueletos de pequenos crustáceos. O sulfato de condritina é extraído de cartilagem de tubarão. O tratamento convencional da degenerescência das articulações, designadamente da cartilagem, passa, normalmente, pelo recurso a anti-inflamatórios que produzem efeitos secundários negativos. Estudos muito recentes realizados na Dinamarca, publicados nos “Archives of Internal Medicine”, revelaram efeitos adversos de analgésicos conhecidos como anti-inflamatórios não esteroides que são muito utilizados no tratamento de artrite, artrose e outras doenças reumáticas, podendo potenciar doenças cardiovasculares, daí devendo ser particularmente evitados em doentes cardíacos.

Do exposto resulta um acrescido interesse pelos tratamentos das doenças do foro músculo-esquelético que envolvam substâncias e processos naturais como é o caso dos banhos de areia biogénica carbonatada do Porto Santo. Durante o banho de areia o corpo humano recebe e armazena calor e, o suor ácido (pH = 4,1-6,5) que é produzido reage com os carbonatos da areia libertando na forma iónica Ca2+, Mg2+, Sr2+, P+5 e os outros catiões existentes que ficam livres à superfície da pele para poderem ser absorvidos através dela (Figura 11). O pH do suor humano vai ter uma ação muito equivalente ao que acontece quando adicionamos sumo de limão (que contém ácido cítrico) a grãos da areia carbonatada biogénica do Porto Santo. A efervescência observada corresponde à dissolução dos carbonatos da areia daí advindo a libertação dos elementos químicos que a constituem (Figura 12).

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Figura 11 – Curvas de dissolução do cálcio (Ca) e do magnésio (Mg) existentes na areia carbonatada biogénica do Porto Santo.
Figura 12 - Dissolução de uma amostra de areia carbonatada biogénica do Porto Santo, tal e qual, com ácido cítrico existente no sumo de limão. © João Baptista, 2010
Figura 12 – Dissolução de uma amostra de areia carbonatada biogénica do Porto Santo, tal e qual, com ácido cítrico existente no sumo de limão.
© João Baptista, 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

É sabido que a superfície do corpo dum adulto está estimada em 2m2. Sabe-se igualmente que em 1cm2 de pele existe, em média, 1 metro de vasos capilares sanguíneos, 4 metros de fibras nervosas, 3 milhões de células, 100 glândulas produtoras de suor, 15 glândulas sebáceas e 100-500 recetores sensoriais. Portanto, em termos práticos, a pele corresponde a uma estrutura de comunicação entre o meio ambiente envolvente e o cérebro mantido em contínuo funcionamento por efeito das células nervosas.

O efeito osmótico da pele humana assegura que os sais minerais e elementos traço possam passar através dela. Especificamente, a pressão osmótica exerce pressão do ambiente mais concentrado para o menos concentrado. A transferência é promovida e facilitada à medida que a temperatura da areia ou da fase líquida desenvolvida na interface areia/pele sobe (Figura 13).

Figura 13 – Interacção entre a areia carbonatada biogénica do Porto Santo e o corpo humano, através de fase intermédia constituída pelo suor de carácter ácido desenvolvido na interface areia/corpo durante o banho de areia cuja temperatura é ligeiramente superior (40-42ºC) à do corpo humano (37ºC); o suor vai proporcionar a dissolução química parcial dos grãos carbonatados da areia; os iões Na+, K+ e Cl- constituintes essenciais do suor, são libertados e transferidos do corpo para o suor, enquanto da areia passam para o suor os iões Ca2+, Mg2+, Sr2+ constituintes essenciais da areia; findo o banho, à medida que o suor vai secando os iões Ca2+, Mg2+, Sr2+ vão sendo absorvidos pelo corpo e incorporados nos fluidos celulares e intercelulares (GOMES & SILVA, 2012).
Figura 13 – Interação entre a areia carbonatada biogénica do Porto Santo e o corpo humano, através de fase intermédia constituída pelo suor de caráter ácido desenvolvido na interface areia/corpo durante o banho de areia cuja temperatura é ligeiramente superior (40-42ºC) à do corpo humano (37ºC); o suor vai proporcionar a dissolução química parcial dos grãos carbonatados da areia; os iões Na+, K+ e Cl- constituintes essenciais do suor, são libertados e transferidos do corpo para o suor, enquanto da areia passam para o suor os iões Ca2+, Mg2+, Sr2+ constituintes essenciais da areia; findo o banho, à medida que o suor vai secando os iões Ca2+, Mg2+, Sr2+ vão sendo absorvidos pelo corpo e incorporados nos fluidos celulares e intercelulares (GOMES & SILVA, 2012).

Antes do banho de areia ter lugar é aconselhável que o paciente efetue um bom e energético duche de água morna com sabonete e/ou gel esfoliante de forma que a pele possa ficar livre de impurezas, sujidade e células mortas (Figuras 14 e 15). Os poros da pele ficarão livres e abertos para absorver os princípios ativos proporcionados pela areia carbonatada biogénica. A experiência adquirida pelos autores do presente texto no acompanhamento da preparação da pele do corpo de dezenas de pacientes tratados na Clínica Piloto do Hotel do Porto Santo, conjuntamente com diversos profissionais da área clínica, investigadores do Centro de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto e a empresa Castelbel (Santos, D., et alli., 2009) levaram à produção de géis e de sabonetes esfoliantes e à criação da marca Terramiga – Produtos Dermocosméticos e Dermoterapêuticos (https://www.facebook.com/Terramiga) em 2013.

Devido à forma tabular da maioria dos grãos de areia eles permanecem retidos e fixados à pele após o banho de areia devendo, durante alguns minutos, manterem-se assim até que a pele e a areia fiquem secas para que a interação areia/corpo humano possa atingir o equilíbrio (Figuras 16 e 17).

Figura 14 - Boião com gel esfoliante contendo dispersos pequenos grãos de areia carbonatada biogénica da ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2009
Figura 14 – Boião com gel esfoliante contendo dispersos pequenos grãos de areia carbonatada biogénica da ilha do Porto Santo. © João Baptista, 2009
Figura 15 - Pormenor textural do gel esfoliante aplicado sobre a pele. © João Baptista, 2009
Figura 15 – Pormenor textural do gel esfoliante aplicado sobre a pele. © João Baptista, 2009
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Figura 16 – Areia carbonatada biogénica que se mantém aderida à pele após banho de areia. © Duarte Gomes, 1999
Figura 17 - Pormenor dos grãos de areia aderidos à pele. © JBPS, 2012
Figura 17 – Pormenor dos grãos de areia aderidos à pele. © JBPS, 2012

Os carbonatos que formam os grãos de areia, particularmente os fragmentos de algas que são relativamente mais instáveis sob condições ácidas são parcialmente dissolvidos pelo líquido (suor) que, por sua vez, se torna enriquecido em cálcio (Ca), magnésio (Mg), estrôncio (Sr) e outros elementos químicos constituintes dos carbonatos. Todos estes elementos tornam-se livres e disponíveis para passar através da epiderme e poderem ser absorvidos pelas células da derme (Figura 13).

A epiderme atua como uma membrana semi-permeável e, a interação entre a areia carbonatada e o corpo humano parece ser semelhante à interação que tem lugar entre a argila/lama e partes do corpo humano durante a aplicação de cataplasmas ou emplastros destes materiais e, corresponde a reações de troca catiónica entre os catiões monovalentes sódio (Na+1) e potássio (K+1) que em alta concentração ocorrem concentrados no suor expelido do corpo e os catiões bivalentes cálcio (Ca+2), magnésio (Mg+2) e estrôncio (Sr+2) extraídos dos grãos de areia carbonatada por efeito de dissolução provocada pelo suor ácido (Figura 13). Cálcio (Ca+2) e magnésio (Mg+2) existem também no suor eliminado pelo corpo mas em concentrações muito inferiores. Portanto, entre a face interna e a face externa da pele será estabelecido um gradiente de concentração em termos de Ca+2 e Mg+2.

De modo a amplificar a troca catiónica referida será aconselhável deixar a areia aderida à pele, à semelhança dum panado, durante cerca de 30 a 40 minutos após sair do banho de areia, tempo considerado suficiente para a pele secar e, só depois disso, deve a areia ser removida com um banho de mar ou um duche.

Os tratamentos envolvendo banhos-de-areia são recomendados para os pacientes que sofrem de artrite reumatóide, fibromialgia e osteoporose, a última doença sendo considerada durante longo tempo como uma doença pouco conhecida (uma doença silenciosa, sem sintomas) porque as suas consequências não estavam convenientemente estabelecidas.

Relativamente à osteoporose um estudo epidemiológico (Rodrigues et alii., 1988) realizado por médicos especialistas em ortopedia e em reumatologia do Hospital Dr. Nélio Mendonça, Funchal, que tratavam doentes das ilhas da Madeira e do Porto Santo, indicou que a densidade óssea era maior nos doentes do Porto Santo do que nos doentes da Madeira. Durante cinco anos aqueles especialistas fizeram um levantamento das fracturas do colo do fémur. O levantamento teve em conta factores, tais como: idade, género e dieta (particularmente a composição química da água de beber).

Os ossos mais fortes dos habitantes do Porto Santo podem resultar da associação de Ca com Mg, Sr, P, e F, elementos que também ocorrem em teores altos ou significativos na água de consumo e nos vegetais e frutos comestíveis do Porto Santo, combinada com a maior absorção de Ca promovida pela vitamina D. Uma vez que a vitamina D resulta da incidência na pele da radiação solar, a absorção do Ca é mais facilitada na ilha do Porto Santo do que na ilha da Madeira, pelo facto do Porto Santo ter, em média, mais 77 horas de insolação (isto é, por ano, o sol aparece descoberto durante mais 77 horas) entre os meses de Maio e Setembro (Gomes & Silva, 2006). Efetivamente, os ossos saudáveis requerem a associação cálcio(Ca)/fósforo(P)/magnésio(Mg) e, esta associação, é potenciada e beneficiada pela presença no caso da areia carbonatada biogénica do Porto Santo de estrôncio (Sr) e flúor (F).

No Porto Santo as areias carbonatadas biogénicas não são todas iguais. Por exemplo, em termos da concentração dos elementos bioessenciais magnésio, fósforo, enxofre e estrôncio, sabe-se que são as areias dos depósitos de formação e deposição mais recente as que contêm os teores mais elevados dos ditos elementos que existem também na água de consumo das nascentes e nos legumes e frutos criados nos solos desenvolvidos sobre as areias carbonatadas biogénicas do Porto Santo.

Localmente, os benefícios do banho-de-areia para pessoas sofrendo de doenças do foro músculo-esquelético são conhecidos desde há muito anos. O sistema músculo-esquelético é um dos mais completos do corpo humano – constituído por ossos, músculos, tendões, ligamentos e outros componentes das articulações – sendo capaz de executar as variadas ordens emitidas pelo cérebro. Estudo recente da Direcção-Geral da Saúde (DGS) alerta para o facto de cerca de 6% da população portuguesa ativa sofrer de lesões músculo-esqueléticas relacionadas com o trabalho, posturas inadequadas, sedentarismo e falta de exercício físico, alimentação deficiente e exposição a clima húmido e frio.

Em resumo, as propriedades relevantes da areia carbonatada biogénica do Porto Santo, as condições mais adequadas dos banhos de areia, e as razões fundamentais dos efeitos benéficos dos banhos de areia, podem ser expressas segundo Gomes & Silva (2012) como segue:

  1. A areia das praias da ilha do Porto Santo é composta, principalmente, por três carbonatos de cálcio: calcite (carbonato de cálcio), calcite magnesiana (carbonato de cálcio onde o magnésio substitui parte do cálcio) e aragonite (carbonato de cálcio em cuja estrutura cristalina o estrôncio substitui parte do cálcio). Este último, muito provavelmente, representa um estádio precursor da formação da calcite. Para além do cálcio, são extraordinariamente altos os teores de magnésio e estrôncio na areia das praias do Porto Santo.
  2. Associados aos grãos amarelados de carbonato de cálcio ocorre uma pequena quantidade de grãos líticos de cor escura (a maioria magnética) que são derivados da erosão de rochas vulcânicas (basalto, traquito e tefra) existentes no Porto Santo (Figuras 3 e 4).
  3. Os carbonatos que constituem a areia das praias da ilha do Porto Santo participam na composição dos bioclastos (fragmentos muito finos de algas calcárias e carapaças calcárias de diversos organismos que formavam a grande barreira recifal que envolveria a ilha de modo mais desenvolvido na margem norte, há cerca de 30.000-35.000 anos AP (antes do presente, Figuras 4, 5 e 7). O forte abaixamento do nível da água do mar ocorrido durante a Última Grande Glaciação, cujo máximo teria ocorrido há cerca de 20.000 AP e, a consequente exposição do recife à forte abrasão marinha, teria levado ao desmantelamento e desintegração do recife. Ventos fortes teriam proporcionado o transporte e a acumulação da areia em praias que então se teriam formado na costa norte da ilha, praias de onde foram deslocadas para o interior da ilha formando os espetaculares depósitos eolioníticos que podem ser vistos nalguns locais da parte norte da ilha, tais como: Fonte da Areia, Mornos ou Covinhas, Varadouro e Cabeço de Bárbara Gomes.
  4. A areia das praias da ilha do Porto Santo apresenta cor amarelada ou dourada, razão porque o Porto Santo é conhecido por ilha da “praia dourada” e, é também caracterizada por apresentar grande finura (mais de 95% do grão tem dimensão situada entre 0,250mm e 0,125mm, e muito poucos grãos têm dimensão superior a 0,500mm e inferior a 0,063mm, Figuras 3 e 4);
  5. Comparada com a areia siliciosa ou melhor, areia quartzosa, comum na grande maioria das praias europeias, a areia das praias do Porto Santo, por razão da sua constituição essencialmente carbonatada, caracteriza-se por possuir maior macieza e menor abrasividade.
  6. Outra característica muito relevante para efeito das tradicionais aplicações terapêuticas, é a forma predominantemente tabular das suas pequenas partículas (essencialmente pequenos fragmentos de algas calcárias, figuras 4 e 5); esta forma peculiar dos grãos de areia proporciona a sua firme adesão à pele durante o banho de areia, permitindo uma melhor e mais duradoura interação entre as partículas dos carbonatos da areia e o suor humano exsudado.
  7. A areia seca da zona de transição entre a praia e a duna frontal, onde os banhos de areia tradicionais têm lugar, possui propriedades térmicas, calor específico e difusividade do calor, muito particulares; de facto, a areia comporta-se como um bom reservatório de calor (podendo atingir à superfície 65ºC, isto é temperatura escaldante); em termos comparados, o calor solar absorvido pela areia carbonatada das praias do Porto Santo é maior e perdura mais tempo do que no caso da areia siliciosa ou quartzosa; este é um dos factores que justifica o uso local e tradicional dos banhos de areia para o tratamento de doenças ortopédicas, reumáticas e fisiátricas (Figuras 1, 2 e 16).
  8. A areia a utilizar nos banhos de areia para fins medicinais, quer ao ar livre, quer em Clínicas especializadas (Figuras 9 e 10), deve estar seca e quente, ou pela radiação solar ou por uma fonte artificial de calor, a temperatura um pouco superior (40-45ºC) à temperatura do corpo humano (37ºC). No meio exterior natural esta temperatura é normalmente atingida na interface corpo/areia se for usada uma camada de areia com cerca de 5cm de espessura.
  9. Os carbonatos de cálcio são solúveis em soluções ácidas (pH inferior a 7) e, quando dissolvidos, os elementos químicos, Ca, Mg, Sr, e outros que entrem na constituição dos carbonatos passam para a solução no estado livre sob a forma iónica (Figuras 11, 12 e 13); por sua vez, o suor humano é uma solução ácida (pH variável entre 4,1 e 6,5, consoante a pessoa); no caso dos banhos de areia do Porto Santo, quando o corpo humano entre em contacto com a areia, se esta estiver a temperatura superior à do corpo o suor formado vai dissolvendo os carbonatos da areia e os elementos químicos libertados vão subindo de concentração no líquido entretanto formado na interface areia/corpo; findo o banho de areia e, antes de ser removida (“o corpo fica parecendo um panado”), com recurso a banho de mar ou de chuveiro, importa que o corpo se deixe secar (pelo menos durante 30 minutos) para poder ter lugar a absorção dos elementos químicos através da pele.

Nos depósitos de areia carbonatada biogénica do Porto Santo podem ser encontradas variações, por exemplo, em termos da dimensão do grão, da composição mineralógica, composição química e natureza dos bioclastos (por exemplo, maior ou menor teor de bioclastos de algas calcárias).

A teoria e a prática têm mostrado que as características mais interessantes da areia carbonatada biogénica (Figuras 3 a 8 e Quadros 1 e 2), tendo em vista a sua aplicação para fins terapêuticos, são as seguintes:

  1. a) Elevada percentagem de grãos de calibres situados entre 0,125-0,250mm;
  2. b) Elevada percentagem de grãos de hábito tabular;
  3. c) Baixa percentagem de grãos de vulcanoclastos e de ferromagnéticos;
  4. d) O teor muito elevado de carbonatos;
  5. e) O teor muito elevado de bioclastos de algas calcárias;
  6. f) O teor muito elevado de Mg-calcite;
  7. g) Os teores muito elevados de estrôncio (Sr), fósforo (P), enxofre (S), iodo (I) e flúor (F).

Também está reconhecido (SILVA, 2003) que os parâmetros e), f) e g) são potenciados na areia cuja idade é mais baixa (determinada pelo método do radiocarbono). Presentemente essa areia ocorre nas praias e nas dunas do cordão dunar frontal.

Finalmente importa referir que são recomendados aos pacientes pelo menos catorze banhos de areia em dias consecutivos com a duração de 20 a 30 minutos cada.

A psamoterapia ou arenoterapia é uma aplicação termoterápica muito enérgica, razão pela qual ela requer uma monitorização atenta e cuidada, exigindo por vezes vigilância médica. Os banhos-de-areia não são recomendados a pessoas que sofram, quer de problemas cardiovasculares, quer de baixa tensão sanguínea.

2.3 Calcisolos e Agricultura Biológica e Medicinal

Os vegetais e os frutos comestíveis que na ilha do Porto Santo são cultivados em calcisolos (solos desenvolvidos em areias carbonatadas biogénicas) são conhecidos e afamados há várias décadas pela diferença que apresentam a nível de sabor e de aroma, quando comparados com outros locais produtores do mesmo tipos de legumes e de frutas da ilha da Madeira e de outras regiões de Portugal. Tais factos motivaram os investigadores Gomes & Silva (2002) a realizarem um conjunto de determinações analíticas efetuadas, ou em pós resultantes da secagem e moagem de vegetais e frutos, ou em sumos de vegetais e frutos.

Os Quadros 3, 4 e 5 mostram os dados analíticos correspondentes a alguns vegetais e frutos comestíveis cultivados nos calcisolos da ilha do Porto Santo, referentes a amostragens feitas nos sítios do Farrobo, Campo de Cima, Lapeira e na plataforma litoral sul.

Quadro 3 – Concentrações de Ca, Mg, Sr, e Fe determinadas em vegetais e frutos comestíveis cultivados em solos (calcisolos) desenvolvidos nas areias carbonatadas biogénicas do Porto Santo.

           
Vegetais e frutos comestíveisCa (mg.L -1 )Mg (mg.L -1 )Sr (mg.L -1 )Fe (mg.L -1 )
Tomate11920.360
Cenoura70780.750.35
Limão1001090.510.77
Batata-doce741900.295.40
Melão611070.480.76
Melancia11920.200.49
Pepino84730.360
Cebola1581110.600
Batata592360.301.71
Abóbora85970.421.70
Maracujá32890.201.48
Uva vermelha97600.310.25
Uva branca1001601.000.20

Quadro 4 – Concentrações de Ca, Mg, Sr, e Fe (em mg.L-1) determinadas em vegetais e frutos comestíveis cultivados em solos de argila/areia siliciosa da região de Aveiro; a uva branca foi cultivada no solo calcário (calcisolo) de Casal Comba, Mealhada, Portugal.

           
Vegetais e frutos comestíveisCa (mg.L -1 )Mg (mg.L -1 )Sr (mg.L -1 )Fe (mg.L-1)
Tomate435601.50
Cenoura1714000.68
Limão12010100.32
Cebola1148200
Batata3516802.78
Uva branca80400.250.25
Quadro 5 - Concentrações de Ca, Mg, Sr, e Fe (em mg.kg-1) determinadas em couve e alface das mesmas variedades cultivados em solos (calcisolos) desenvolvidos sobre areia carbonatada biogénica do Porto Santo e sobre solos de argila/areia siliciosa de Aveiro.
Vegetais comestíveisCa
(mg.kg-1)
Mg
(mg.kg1)
Sr
(mg.kg-1)
Fe
(mg.kg-1)
Couve lombarda (Porto Santo)
Couve galega (Porto Santo)
Couve lombarda (Aveiro)
Alface (Porto Santo)
Alface (Aveiro)
1282
1886
860
1350
830
324
268
215
388
179
12
22
2.1
10
2,9
22
23
21
75
8

Os resultados constantes nos Quadros 3, 4 e 5, quando comparados com os obtidos para o mesmo tipo de produtos cultivados em solos arenosos e calcários em Portugal continental, põem em evidência os teores anormalmente elevados de cálcio, magnésio e estrôncio existentes nos vegetais e frutos do Porto Santo, com particular destaque para o magnésio. Dos dados analíticos obtidos merece saliência o facto de em ambientes naturais, como o que prevalece nos calcisolos do Porto Santo onde o cálcio (Ca) é muito mais abundante do que o magnésio (Mg), ser este o elemento preferencialmente incorporado nos vegetais e frutos analisados. Tal seletividade poderá dever-se ao facto do ião Mg+2 possuir um raio iónico (66 picómetros) muito menor do que o raio iónico do ião Ca+2 (99 picómetros), e ainda muito menor do que o raio iónico do Sr+2 (132 picómetros) mas, pode dever-se também à maior mobilidade relativa do Mg+2 (Gomes & Silva, 2002).

Na oligoterapia cujos efeitos positivos sejam induzidos por cálcio (Ca), magnésio (Mg) e estrôncio (Sr), importará que aos pacientes sejam facultadas dietas onde controladamente sejam incorporados vegetais e frutos produzidos nos solos desenvolvidos sobre as areias carbonatadas biogénicas da ilha do Porto Santo, por ser este tipo de solos o mais favorável para a implantação de atividades agrícolas de género “agricultura medicinal”.

Alguns agricultores, hotéis e estâncias turísticas localizados na plataforma arenosa do litoral sul da ilha, possuem reservas de terrenos para o cultivo de plantas para infusões e vegetais comestíveis (tais como, alface, tomate, brócolos, couves, espinafre, semilha e batata doce) e frutos (tais como, uva da casta localmente denominada “caracol”, melancia, melão e figo), que podem ser incorporados em dietas saudáveis nos indivíduos e pacientes envolvidos em programas de naturoterapia (Figuras 18 a 21).

 

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Figura 18 – Abóbora “manteiga” e cebola criadas em calcisolo. © João Baptista, 2001
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Figura 19 – Rama e batata-doce criadas em calcisolo. © João Baptista, 2007
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Figura 20 – Pormenor de dois cachos de uvas numa cepa plantada em calcisolo da zona inter-dunar no sítio da Lagoa. © João Baptista, 2004
Figura 21 - Pormenor da rama e de um melão cultivado e desenvolvido num calcisolo, no Campo de Cima. © João Baptista, 2013
Figura 21 – Pormenor da rama e de um melão cultivado e desenvolvido num calcisolo, no Campo de Cima. © João Baptista, 2013
  1. Argila Esmectítica (localmente designada de salão ou massapez)

O “salão” ou “massapez” é o nome utilizado pela população do Porto Santo para descrever todo o material argiloso de tonalidade amarelo cinza esverdeado que foi muito utilizado na arquitetura de terra local na cobertura das antigas habitações, conhecidas por Casas de Salão. Na realidade o “salão” corresponde a uma argila esmectítica que é o produto de alteração submarina ou subaérea de certos tipos de rocha vulcânica (hialotufos, representados por vidro e cinzas) de natureza ácida e de composição traquítico-riolítica que tiveram a sua formação no Miocénico inferior (há cerca de 14 milhões de anos atrás). O tipo de argila referida, pela sua génese e composição é denominado bentonite e, em Portugal, apenas ocorre no Porto Santo.

Existem vários afloramentos de bentonite na ilha do Porto Santo todos de pequena dimensão mas, os depósitos mais importantes, se tivermos em conta a dimensão e o volume de material, são os situados na Serra de Dentro (Figuras 22 e 23).

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Figura 22 – Zona de extração de bentonite na Serra de Dentro que é utilizada na cobertura das “Casas de Salão” e em dermocosmética. © João Baptista, 2011
Figura 23 - Pormenor da bentonite no depósito da Serra de Dentro. © João Baptista, 2011
Figura 23 – Pormenor da bentonite no depósito da Serra de Dentro. © João Baptista, 2011

 

 

 

 

 

 

 

 

Os residentes da ilha têm utilizado de modo empírico o salão em geofagia (ingestão de pó de argila misturado com água mineral natural local (Figura 24) e em aplicações dermocosméticas, particularmente para redução de edemas e para máscaras faciais (Silva, 2002; SANTOS et alii., 2007).

Todavia, aplicações de bentonite que exigem pequenos volumes, tais como, produtos farmacêuticos e cosméticos podem ser considerados no caso da bentonite do Porto Santo.

Recentes investigações (Gomes & Silva, 2001; Silva, 2003; Gomes & Silva, 2006a, 2006b, 2009c) foram realizadas neste tipo de argila especial, nomeadamente no que respeita à distribuição dimensional do grão, composição mineralógica, composição química (elementos, maiores, menores e traço), composição mineralógica e algumas propriedades físicas relevantes (superfície específica, abrasividade, plasticidade, calor específico aparente, e difusão e atenuação do calor).

Também, Cordeiro et alii., (2010), estudaram as propriedades das superfícies das partículas (energia dispersiva, propriedades ácido-base, heterogeneidade superficial, isotérmica de adsorção-absorção, superfície específica BET e calor adsorção-absorção) em duas amostras de argila esmectítica do Porto Santo, uma da Fonte de Areia e outra da Serra de Dentro (bentonite). Segundo os autores as duas argilas são similares quanto às propriedades de superfície, sendo caracterizadas por possuírem alta energia dispersiva, e caráter predominantemente básico. Estas propriedades são muito favoráveis se as argilas forem usadas em dermofarmácia e dermocosmética.

A distribuição dimensional do grão determinada num granulómetro com fonte de Raios-X, a composição mineralógica determinada por Difractometria de Raios-X, a composição química determinada por Espectrometria de Fluorescência de Raios-X, e algumas propriedades físicas consideradas relevantes (superfície específica, abrasividade, plasticidade, calor específico aparente, difusão e atenuação do calor) foram determinadas por métodos clássicos sobre a fracção granulométrica inferior a 0,063mm de uma amostra representativa da bentonite do Porto Santo.

Alguns dos dados analíticos correspondentes aos estudos efetuados numa amostra representativa colhida num depósito localizado na Serra de Dentro são expostos a seguir:

Composição mineralógica: esmectite dioctaédrica 65%, fluorapatite 5%, titanomagnetite 10%, feldspato 15%, outros 5% (SILVA, 2003).

Composição química: SiO2-45.01%; Al2O3-18.57%; Fe2O3 -10.85%; CaO-5.97%; MgO-3.86%; MnO-0.86%; TiO2-2.77%; Na2O-2.37%; K2O-0.45%;P2O5 -1.75%; SO3-011%; P.R. (Perda ao Rubro) – 7.54%; Zn-42ppm; Cr-8ppm; Ni-7ppm; Co-6ppm; As-12ppm; Se-40ppm.

Dimensão do grão: <0.010mm ~ 90%;< 0.002mm ~70%; Limite líquido: 203%; Limite plástico -42%; Abrasividade – 0.11g.m-2; Calor Específico Aparente – 3.55 J. gºC; Cinética de Arrefecimento – 38 minutos de 58ºC até 30ºC; Capacidade de Troca Catiónica (CTC) – 80cmol/kg; Superfície Específica (SSA) – 105m2.g-1.

As características da montmorilonite que justificam o alto valor comercial da bentonite são: o tamanho submicrométrico dos cristais, a estrutura filitosa, a alta superfície específica (até 800 m2/g), carga eléctrica significativa (z=0,2-0,6), alta capacidade de troca catiónica (~120meq/100g), e altas capacidades de adsorção e de absorção.

Todos estes parâmetros foram considerados muito relevantes para aplicações em balneoterapia, em dermofarmácia e dermocosmética (GOMES et alii., 2014, PENA FERREIRA et alii., 2014 e SANTOS et alii., 2014). Nos últimos anos os investigadores referidos têm vindo a utilizar a argila esmectítica ou bentonite do Porto Santo no desenho de diferentes tipos de peloides (medicamentos naturais), com o objetivo de serem aplicados no campo da Geomedicina e da Geofarmácia.

A fase líquida utilizada no peloide tem sido a água do mar e a água de nascente do Porto Santo que fica misturada com a argila durante um a seis meses, formando um pasta com boa consistência e manuseamento. A composição dos peloides pode ser desenhada de modo a potenciar as propriedades relevantes requeridas para determinadas funções, lotando-os, por exemplo, com certos aditivos, entre os quais se incluem tipos especiais de argila, lodo/limo e fango, sal, algas, água termal, parafina ou mesmo outros produtos com propriedades hidratantes, anti-inflamatórias ou anti-oxidantes. Muitos dos peloides desenhados e aplicados em vários pacientes que sofrem de diversos tipos de patologias estão a ser objeto de estudos randomizados e de validação clínica terapêutica (Figuras 25, 26 e 27).

 

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Figura 24 – Mistura de água mineral natural do Porto Santo com pó de argila esmectítica também da ilha. © João Baptista, 2014
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Figura 25 – Aplicação de peloide na região lombar. © João Baptista, 2014
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Figura 26 – Aplicação de peloide para tratamento de artrose dos joelhos. © Helena Amaral, 2010
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Figura 27 – Aplicação de peloide anti-celulítico. © Maria Rosa Pena Ferreira, 2009
  1. Água de Nascente e Água do Mar

4.1. Água de Nascente

Estima-se que desde o início da descoberta e do povoamento da ilha em 1418 até à década de 80 do século passado (construção da central de dessalinização) existiram mais de meia centena de locais de abastecimento de água à população, entre nascentes, noras, fontanários, poços e galerias de captação. A pesquisa e a procura da água para a agricultura e consumo doméstico foi sempre uma grande preocupação da população portossantense que viveu durante vários séculos muito isolada do meio exterior.

Presentemente é reduzido o número de nascentes com condições de proporcionar água potável para consumo doméstico devido à poluição da água dos aquíferos, relacionada com a ocupação desordenada do território e com o deficiente saneamento em alguns sectores da ilha. Tais factos colocaram quase em risco as nascentes de água mineral denominadas Lombas, Fontinhas 1 e Fontinhas 2 que abasteceram, de 1924 até 1990, a Unidade de Engarrafamento propriedade da Sociedade de Água Engarrafada do Porto Santo.

A água mineral natural do Fontanário da Fonte da Areia localizado na costa norte da ilha, particularmente rica em cálcio (Ca), magnésio (Mg) e estrôncio (Sr), foi utilizada durante longos anos para o tratamento de afecções dos foros gástrico e epidérmico.

O consumo desta água tinha uma função complementar do banho na areia biogénica carbonatada para os que sofriam de doenças do foro músculo-esquelético. A exsurgência de água ocorre no contacto da formação de eolianito-calcarenito com a subjacente formação argilosa e/ou complexo vulcânico de base. Atualmente o Fontanário fornece água do Sistema de Abastecimento Público proveniente da central dessanalizadora, portanto, a água fornecida não é água mineral natural.

Também a água da nascente da Fontinha que durante anos foi engarrafada na antiga Casa das Águas, na Fábrica, localizada a cerca de 150 metros da praia, deixou de ser consumida no final da década de 80 do último século por falta de viabilidade económica. Era uma água salobra rica em cálcio, magnésio e estrôncio, gaseificada artificialmente para atenuar o sabor e, à qual foi atribuído interesse terapêutico contemplado com a medalha de ouro na Exposição Internacional que teve lugar no Rio de Janeiro, em 1908.

Silva (2003) refere os dados químicos relevantes das águas de alguns fontanários existentes na ilha e que continuam a produzir água potável, ligeiramente alcalina, cloretada, sulfatada, silicatada, iodada e sódica, contendo concentrações significativas de cálcio (Ca), magnésio (Mg), estrôncio (Sr), zinco (Zn), cobre (Cu), molibdénio (Mo), fósforo (P), selénio (Se), lítio (Li), alumínio (Al), brómio (Br), flúor (F) e boro (B).

Muito recentemente Silva et alii., (2009) realizaram estudos hidrogeológicos em vários fontanários e águas de nascente da ilha do Porto Santo (Figura 28).

Figura 28 - Locais de amostragem das águas e números atribuídos a cada uma das amostras no campo (SILVA et alii., (2009).
Figura 28 – Locais de amostragem das águas e números atribuídos a cada uma das amostras no campo (SILVA et alii., (2009).

 

Os resultados analíticos obtidos para a totalidade das 33 amostras de água subterrânea recolhidas na ilha de Porto Santo foram projetados no Diagrama de Piper (Figura 29) e revelam águas bastante mineralizadas (CE>2,3 mS/cm, em média superiores mesmo a 4,1 mS/cm), com uma fácies hidrogeoquímica predominantemente cloretada-bicarbonatada-sódica, sendo que todas as amostras são ligeiramente fluoretadas (F>1,5 mg/l) excedendo o valor máximo admissível para consumo humano.

 

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Figura 29 – Projeção da composição química das águas subterrâneas amostradas na ilha do Porto Santo num diagrama de Piper (SILVA et alii., (2009).

O quimismo destas águas resulta da infiltração e percolação das águas meteóricas e da sua interação com as rochas vulcânicas formadas na sua maioria em ambiente submarino (iões sódio e cloreto dominantes) com forte componente carbonatada (ião bicarbonato também dominante).

Um factor penalizante da água é a concentração (> 1,5 mg.L-1) de fluoreto (F-1), superior ao valor de referência recomendado (<1mg.L-1), razão porque a fluorose dental (exibida por manchas esbranquiçadas e amareladas nos dentes devido à perda do esmalte) é um problema de saúde frequente nos seus habitantes do Porto Santo (Gomes & Silva, 2006).

As concentrações de boro (B), cloro (Cl), e molibdénio (Mo) em alguns fontanários e nascentes são também superiores aos valores de referência recomendados para a água potável.

4.2. Água do Mar

O ambiente marinho e a água do mar em particular, são excelentes fontes de saúde. A água do mar do Porto Santo para além de ser tépida ao longo de quase todo o ano, entre 19-20ºC no Inverno e 22-24ºC no Verão, exibe na costa-sul da ilha as muito apreciadas cores azul-turquesa e verde-esmeralda observadas na zona adjacente e paralela à linha de costa que forma um arco ou baía de grande raio e que é bordejada por uma excelente praia que se estende continuamente por cerca de 9km, aproximadamente (Figura 30).

Figura 30 – Vista sobre a praia do Porto Santo a partir do miradouro da Portela. © João Baptista, 2013
Figura 30 – Vista sobre a praia do Porto Santo a partir do miradouro da Portela. © João Baptista, 2013

Presentemente a praia é o principal factor atrativo da ilha, razão porque há quem a considere “a galinha dos ovos de ouro” do Porto Santo, e que, por isso, defenda que o desenvolvimento sustentável da ilha deve acautelar a preservação da praia e do sistema dunar que a bordeja o qual inclui a duna primária e a duna secundária.

Como outras águas do mar que diferem na salinidade, alcalinidade e composição química, a água do mar de Porto Santo é alcalina e, possui como constituintes principais na forma iónica e, por ordem decrescente de concentração, os iões seguintes: cloreto (Cl-1), sódio (Na+), sulfato (SO42-), magnésio (Mg2+), cálcio (Ca2+), potássio (K+), brometo (Br), borato (H3BO3), estrôncio (Sr2+), fluoreto (F) e iodeto (I).

A mineralização total da água do mar do Porto Santo é maior do que a que corresponde à água do mar de referência (SILVA, 2003)

Em termos de composição química a água do mar do Porto Santo possui concentrações mais elevadas de certos elementos bioessenciais, tais como: cálcio (Ca), magnésio (Mg), estrôncio (Sr) e iodo (I), relativamente à água do mar de referência (Silva, 2003) que vem sendo aproveitado pelos banhistas e aquistas no Centro de Talassoterapia do Hotel Vila Baleira. No caso do iodo (I) a sua concentração na água do mar do Porto Santo é efetivamente muito mais alta (1.050µg/L) do que na água do mar padrão (60µg/L).

O “bronzeado” característico que os banhistas adquirem rapidamente após banhos e exposição solar na praia do Porto Santo é uma particularidade singular desta praia relativamente a outras praias portuguesas, facto que é atribuído às relativamente altas concentrações de iodo existente na água do mar, nas algas que revestem o “beack rock” (lajedo) e nos aerossóis marinhos.

  1. Parâmetros Climáticos

Os dados meteorológicos disponíveis correspondem ao período 1961-1990 e foram determinados na estação Meteorológica do Aeroporto do Porto Santo posicionada a 78m de altitude.

  • A temperatura do ar: 16ºC é o valor mínimo médio anual medido em fevereiro; 24ºC é o valor máximo médio anual medido em agosto.
  •  A amplitude térmica anual: estimada em 7ºC, facto que classifica como oceânico o clima do Porto Santo.
  • A temperatura da água do mar: 18ºC é o valor mínimo médio anual medido em fevereiro; 24ºC é o valor máximo médio anual medido em outubro; durante longos períodos do ano a temperatura do mar é mais alta do que a temperatura do ar.
  • A temperatura média anual da água do mar: cerca de 19,7 ºC.
  • A precipitação: 386,4mm é o valor médio anual.
  • A humidade relativa: 76% é o valor médio anual, 82% no período janeiro -março e 69% em agosto.
  • O vento: são dominantes os ventos que sopram de N, NE, e NW, e a velocidade média anual está estimada em 11,8km/h. Os ventos que sopram de NE são denominados ventos alísios (Silva, 2003).

Também, na ilha do Porto Santo é particularmente alto o número de dias com sol, tanto no Verão como nas outras estações. Por exemplo, em agosto a média de horas com sol é de 245 horas, enquanto em maio é de 233 horas (SILVA, 2003).

Clima ameno e ambiente não poluído e não stressante são reconhecidos como sendo fatores importantes para a boa saúde e longevidade dos humanos. A ilha do Porto Santo possui estas especificidades importantes para a prática da climatoterapia marítima e heliomarinoterapia, muito utilizadas em determinados países no tratamento da psoríase (SILVA, 2003).

  1. Geodiversidade

A ilha do Porto Santo possui no exotismo das suas paisagens geológicas, geosítios de características singulares (Silva & Gomes, 2003) e outro património interessante que têm sido estudados tendo em vista a sua integração em roteiros de turismo da natureza (ecoturismo e geoturismo, Figuras 31 e 32) e de património construído que possibilitam a ocupação de boa parte dos tempos livres dos indivíduos participantes nos programas de Turismo de Saúde e Bem-Estar.

Está reconhecido que o bom estado de saúde depende de três factores essenciais: dieta equilibrada, exercício físico apropriado, descanso e sono. No Porto Santo existem excelentes condições que podem ser potenciadas para que os factores referidos possam ser bem conseguidos.

A psamoterapia ou arenoterapia se associada a outras naturoterapias, tais como, climaterapia, helioterapia, hidroterapia, crenoterapia, oligoterpia, peloideterapia ou peloterapia pode promover e potenciar o Porto Santo como Estância Singular de Saúde Natural.

Importará, por isso, que os programas de desenvolvimento projetados para a ilha contemplem o melhor equilíbrio entre a salvaguarda, a sustentabilidade e o desfruto dos seus frágeis ecossistemas e singulares recursos naturais.

Figura 31 - Geomonumento do Pico de Ana Ferreira. © João Baptista, 2013
Figura 31 – Geomonumento do Pico de Ana Ferreira.
© João Baptista, 2013
Figura 32 - Geomonumento da Fonte da Areia. © João Baptista, 2014
Figura 32 – Geomonumento da Fonte da Areia.
© João Baptista, 2014

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João Baptista Pereira Silva

 Celso de Sousa Figueiredo Gomes

(atualizado a 29.07.2016)