reis gomes, joão dos

Major João dos Reis Gomes, 1941 Photographia-Museu Vicentes Fonte: http://www.arquipelagos.pt/
Major João dos Reis Gomes, 1941
Photographia-Museu Vicentes
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Mais conhecido pelo duplo apelido Reis Gomes, João dos Reis Gomes foi  Oficial do Exército (comandante de artilharia), professor, jornalista, dramaturgo, engenheiro industrial, crítico, escritor e filósofo da arte, nascido a 5 de janeiro de 1869, na freguesia de S. Pedro, filho de João Gomes Bento, sapateiro, natural da freguesia do Estreito de Câmara de Lobos, e de Maria Gertrudes de Castro Gomes Bento, costureira, natural de S. Pedro, foi um dos intelectuais madeirenses mais marcantes do século XX.

Em 1886, com apenas 17 anos e ainda estudante no liceu do Funchal, alistou-se voluntariamente no exército, no Regimento de Caçadores 12. No ano seguinte, viajou para Lisboa, com o objetivo de prosseguir os estudos na Escola Superior Politécnica do Exército, frequentando o curso preparatório para ser oficial de artilharia. Após a conclusão do curso militar, do qual saiu alferes em 1892, ingressou na Escola do Exército, onde concluiu os cursos de artilharia e engenharia industrial.

Em 1895, contraiu matrimónio, na paróquia da Sé, com Maria Dulce da Câmara de Meneses Alves; do casamento nasceu Álvaro de Meneses Alves Reis Gomes, que foi advogado, professor e jornalista. Fez parte do quadro de arma entre 1892 e 1917, transitando para a reserva no posto de major, no dia 31 de março de 1917. Ainda em plena Primeira Guerra Mundial, foi inspetor de material de guerra e comandante de artilharia na Madeira até 1919.

Em simultâneo com a carreia militar, Reis Gomes exerceu o cargo de docente do ensino secundário no liceu Jaime Moniz, no Funchal, para onde entrou em 1900 e no qual lecionou a disciplina de ciências durante 28 anos. No entanto, devido a disposições legais, teve de renunciar ao ofício no liceu para se dedicar, como professor efetivo, ao ensino técnico na Escola Industrial e Comercial do Funchal, onde continuou a sua carreira docente, acumulando-a com o cargo de diretor do mesmo estabelecimento, entre 1929 e 1939.

Destacou-se na carreira docente, tendo merecido, por parte dos seus antigos alunos do liceu Jaime Moniz, uma homenagem pública realizada a 15 de julho de 1928, no salão nobre do teatro Dr. Manuel de Arriaga (depois teatro municipal Baltazar Dias), que contou com a presença de diversas personalidades do panorama cultural madeirense e das autoridades competentes. Na sessão solene, foi lida uma mensagem dos antigos alunos da sua cátedra, descerrada uma lápide comemorativa, em mármore, com o seu nome e a data da homenagem, e publicada uma coletânea de críticas de teatro da sua autoria, intitulada Figuras de Teatro. Foi considerado o primeiro crítico de teatro de Portugal.

Em 1919, no Diário da Madeira, órgão do qual era jornalista e diretor, lançou as bases do programa comemorativo do V Centenário da Descoberta da Madeira, orientando e promovendo as festividades que se viriam a realizar entre dezembro de 1922 e janeiro de 1923, revestidas de esplendor e magnificência. Organizou e fundou, em 1928, a convite, a delegação no Funchal da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Foi sócio fundador da delegação da Sociedade Portuguesa da Cruz Vermelha.

Foi sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Sociedade de História de Portugal, sócio de honra da Federação das Academias de Letras do Brasil e vogal do Instituto de Portugal, anteriormente Academia de Portugal. Foi igualmente sócio do Instituto António Cabreira, da Casa da Madeira, em Lisboa, e sócio honorário do Instituto Cultural de Ponta Delgada, em S. Miguel, e do Instituto Histórico da Terceira, também nos Açores.

João dos Reis Gomes, 1910 Photographia-Museu Vicentes Fonte: http://www.arquipelagos.pt/ Major João dos Reis Gomes, 1941 Photographia-Museu Vicentes Fonte: http://
João dos Reis Gomes, 1910
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Foi diretor do Heraldo da Madeira entre 1905 e 1915, e jornalista e diretor do Diário da Madeira entre 1916 e 1940. Colaborou igualmente com diversos jornais e revistas regionais e nacionais, como, por exemplo, O Século, Serões, O Dia, Revista Madeirense e Gente Nova. No exercício desta função, escreveu diversos artigos e reportagens jornalísticas ilustradas sobre a Madeira, abordando, por exemplo: a produção de açúcar (a história do açúcar na Madeira, o primeiro engenho madeirense, o cultivo da cana e a fábrica do Torreão); o arraial madeirense de S. João da Ribeira (estudo sobre a origem da igreja de S. João Batista, a história do santo, as girândolas, os festeiros, os mordomos); a N.ª Sr.ª do Monte (descrição minuciosa do ambiente natural envolvente, a história da aparição de N.ª Sr.ª do Monte, o arraial, as lavadeiras, os carreiros, os carros de vime e as romarias); o vinho Madeira (a história do vinho, a cultura, as vindimas, os lagares, as trovas dos lagareiros durante a repisa, as cantigas dos borracheiros, as festas e as romarias); entre outros assuntos de inestimável valor científico e cultural.

A sua produção literária abrange igualmente a novela e o romance histórico, para além dos estudos filosóficos, da crítica teatral, do estudo científico e dos diários de viagem. Segundo Horácio Bento Gouveia, a obra de João dos Reis Gomes representa “quadros vivíssimos das próprias coisas da nossa terra, os quais falam à sensibilidade e ao espírito que reside dentro de cada um de nós cheio de tradições e pejado de imagens de tudo que os olhos se habituaram a ver, dia, a dia” (BENTO, 1952, 30). Os contos de Histórias Simples, O Vinho da Madeira – Como se Prepara um Néctar ou ainda Casas Madeirenses são exemplos disso.

“Jornalismo e Litteratura”, Serões, nº47, Maio de 1909, p. 421 João
“Jornalismo e Litteratura”, Serões, nº47, Maio de 1909, p. 421
João

A Filha de Tristão das Damas (novela histórica) e Guiomar Teixeira (romance histórico e peça teatral, levada à cena entre 1913 e 1922, no Teatro Funchalense, depois teatro Municipal Baltazar Dias) constituem subsídios para a história da Madeira, na medida em que eternizam e engrandecem especificidades históricas ligadas à cultura madeirense. A novela, feita em moldes românticos, reenvia o leitor para o tempo do povoamento da Madeira, para as capitanias do Funchal e de Machico, e apresenta personagens que a história da Madeira menciona. O heroísmo, a cavalaria, a fidalguia e o despotismo senhorial recriam o ambiente e a sociedade política e religiosa dos fins do século XV. Esta novela histórica é considerada a obra-prima de toda a sua produção, tendo um exemplar estado presente na biblioteca pessoal do rei D. Manuel II, e tendo sido traduzida para italiano por Virgílio Biondi, sob o título de La Figlia Del Vise-Ré.

Guiomar Teixeira, obra inspirada na novela anterior e composta por quatro atos e cinco quadros, junta à encenação da peça teatral a projeção de um filme de curta-metragem, método inovador para a época, no momento da ação de uma batalha entre cristãos e muçulmanos, no Norte de África. O romance desenrola-se no início do séc. XVI, com personagens que fazem parte da história da Madeira, nomeadamente Cristóvão Colombo, Tristão Vaz Teixeira, João Gonçalves da Câmara e João Esmeraldo. No primeiro plano, os atores comentam, dentro da fortaleza de Safi, a batalha que é projetada em segundo plano. João dos Reis Gomes utilizou parte do filme O Cerco de Safi, rodado na Madeira, em 1913, sob direção de André Valldaura. O processo de montagem laboratorial do filme foi executado pela companhia cinematográfica francesa Pathé Frères. A peça foi representada com enorme sucesso, em 1913, no teatro municipal, pela companhia italiana Vitaliani-Duse, e levada à cena novamente por altura do V Centenário Comemorativo da Descoberta da Madeira, em 1922. João dos Reis Gomes participou, inclusive, nas récitas, no papel de Colombo, e o seu filho, Álvaro Reis Gomes, participou como Arauto.

Publicou uma trilogia de ensaios, que o destaca no panorama nacional como cientista da arte e filósofo. Assim, em O Theatro e o Actor (Esboço Philosophico da Arte de Representar), disserta sobre a memória, a expressão das ideias, a imaginação e as funções do ator, comparando-o com os poetas, romancistas e pintores. A Música e o Teatro (Esbôço Filosófico) constitui uma continuação da obra anterior, aliando a filosofia musical a um estudo profundo da obra teatral de Wagner. Em 1922, publicou Acústica Fisiológica (A Voz e o Ouvido Musical), que encerra a trilogia científica sobre a filosofia da arte. Neste livro, reflete sobre as condições artísticas do canto, a composição do timbre, a voz humana, a descrição do aparelho fonador, o canto, a anatomia e a fisiologia auditivas, o ouvido musical, as causas fisiológicas da harmonia, a emoção musical, a psicofisiologia, a vibração nervosa e a acústica vocal, baseando-se nas teorias de Hugo Riemann e Helm Holtz sobre a harmonia musical e aprofundando-as. As suas obras filosóficas revestiram-se de grande importância para o desenvolvimento do estudo da arte, pelo que o livro A Música e o Teatro (Esbôço Filosófico), por exemplo, foi adotado pelos conservatórios nacionais e pelo de S. Paulo, no Brasil.

A sua faceta de escritor aventureiro e pedagogo, de estilo claro e didático, transparece nos seus diários de viagem, nomeadamente em Através da França, Suíça e Itália (Diário de Viagem, Três Capitais de Espanha. Burgos, Toledo e Sevilha e Através da Alemanha (Notas de Viagem). As curiosidades, as impressões de viagem, as descrições minuciosas dos locais que visita, os detalhes topográficos e orográficos, as comparações do desconhecido com o conhecido do seu mundo e os estereótipos que concebe fazem dele um escritor exímio no detalhe.

Fundador do grupo de tertúlia literária Cenáculo (grupo que surge da mesa organizadora do V Centenário Comemorativo da Descoberta da Madeira), foi elogiado por muitos e criticado por alguns intelectuais, como César Pestana e Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Vasconcelos de Bettencourt de Freitas Branco, visconde do Porto da Cruz: “Foi […] organizador e presidente daquele famoso centro intelectual, conhecido por ‘Cenáculo’ e que pelo protocolo e pelo acacianismo de que se rodeou caiu no ridículo” (PORTO DA CRUZ, 1953, III, 64). O próprio visconde sugere, na sua obra, que Reis Gomes foi o autor de uma publicação anónima que visava agredir vultos da sociedade, como o juiz Joaquim Simões Cantante, o procurador régio, Joaquim Augusto Machado, e o médico César Mourão Pita. Todavia, Reis Gomes sempre contestou a autoria da publicação.

No entanto, a sua figura de escritor erudito e amante das letras prevalece nas palavras do visconde do Porto da Cruz: “Como figura de escritor e de erudito, como artista e crítico, estilista de rara elegância e com uma vastíssima cultura, o major João dos Reis Gomes, foi sem dúvida dos mais ilustres e dos mais notáveis da Madeira” (Id., Ibid.). No Elucidário Madeirense, as suas obras surgem como produções cuja “ironia e sátira [são] manejadas um pouco à Ramalho e à Fialho, em que o cómico e o grotesco das pessoas e das coisas, surpreendidas em flagrante, eram apresentadas ao leitor com uma graça original e espontânea e também com rigor e justeza de crítica” (MENESES e SILVA, 1987, III, 190). Foi elogiado por Cândido Figueiredo, Teófilo Braga e Malheiro Dias, como autor influenciado pelos escritos de Taine e de Sterne.

João dos Reis Gomes como Colombo, em 1922, no Teatro Municipal, na peça Guiomar Teixeira, no âmbito do V Centenário Comemorativo da Descoberta da Madeira Photographia-Museu Vicentes Fonte: http://www.arquipelagos.pt/
João dos Reis Gomes como Colombo, em 1922, no Teatro Municipal, na peça Guiomar Teixeira, no âmbito do V Centenário Comemorativo da Descoberta da Madeira
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Foi descrito como um homem de temperamento forte, delicado e com uma visão clara e objetiva do mundo: “Como professor exerceu a sua missão com nobreza de alma, destacando-se nos seus atos uma bondade que levava os seus alunos a reconhecerem no Mestre, a par da superioridade do seu talento, manifestações bem características do seu coração magnânimo” (“Actualidades”, 1956, 51). Publicou trabalhos que abarcam diversas áreas do saber, como a filosofia, a literatura de ficção, a arte, a ciência, a arquitetura e a história.

Foi condecorado pelo seu mérito profissional e pelo contributo da sua obra e dos seus estudos para o engrandecimento e a glorificação da Madeira. Recebeu uma medalha de prata por comportamento exemplar na vida militar; a medalha de ouro das Campanhas do Exército Português entre 1916 e 1918, pela defesa marítima da Madeira e interaliada da vitória; a Cruz Vermelha de Dedicação e Mérito; as condecorações honoríficas de Comendador de Instrução Pública; a de Oficial da Academia de França e a de oficial e comendador da Ordem Militar de S. Tiago de Mérito Científico, Literário e Artístico.

Faleceu em S. Martinho, na Quinta do Esmeraldo, seu domicílio, no dia 21 de janeiro de 1950, aos 81 anos, vítima de colapso cardíaco. Em 1956, foi erigido, no jardim municipal do Funchal (anteriormente jardim D. Amélia), um busto em bronze em sua homenagem, da autoria do escultor e professor Salvador Barata Feyo. Existe ainda uma rua com o seu nome, anteriormente rua 5 de Junho, construída ao longo da muralha antiga da cidade, que se entrecruza com as ruas da Alegria, Brigadeiro Couceiro, do Conde do Canavial e dos Aranhas, terminando no largo Visconde Ribeiro Real, João Bettencourt Esmeraldo.

Obras de João dos Reis Gomes: O Theatro e o Actor (Esboço Philosophico da Arte de Representar) (1905); Histórias Simples (1907); A Filha de Tristão das Damas (Novella Madeirense) (1909); “Monografias de Indústrias Peculiares à Madeira”, (1914); A Música e o Teatro (Esbôço Filosófico) (1919); Acústica Fisiológica (A Voz e Ouvido Musical) (1922); “Portugal-Brasil” (1922); Forças Psíquicas: Ensaio Filosófico (1925); Figuras de Teatro (1928); O Belo Natural e Artístico. Definição de Obra de Arte (Breve Ensaio Filosófico) (1928); Através da França, Suíça e Itália (Diário de Viagem) (1929); Três Capitais de Espanha. Burgos, Toledo e Sevilha (1931); Guiomar Teixeira (1932); O Anel do Imperador (1936); Natais (Contos e Narrativas) (1935); Casas Madeirenses (1937); O Vinho da Madeira. Como se Prepara um Néctar (1937); O Cavaleiro de S.ta Catarina (De Varna à Ilha da Madeira) (1941); Casos de Tecnologia (Divulgação Científica) (1943); De Bom Humor (Colectânea de Trabalhos Jornalísticos (1942); A Filha de Tristão das Damas. Romance Histórico Madeirense (1946); “A Lenda de Loreley Contada por um Latino” (1948); Através da Alemanha (Notas de Viagem) (1949).

Bibliog.: “Actualidades, Major João dos Reis Gomes”, Das Artes e da História da Madeira, vol. IV, n.º 22, 1956, p. 51; BENTO, Horácio, “Reis Gomes – Homem de Letras”, Das Artes e da História da Madeira, vol. III, n.º 13, 1952, pp. 29-31; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses – Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; “Faleceu ontem o eminente escritor madeirense Major J. Reis Gomes”, Diário de Notícias, n.os 231-32, 22 jan. 1950, pp. 1 e 6; “Figuras Que Já Não Voltam: Major João dos Reis Gomes – Pe. Fernando A. da Silva”, Das Artes e da História da Madeira, vol. I, n.º 1, 1950, p. 12; “Jornalismo e Litteratura”, Serões, n.º 47, mai. 1909, p. 421; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários Para a História Literária da Madeira, vol. III, Câmara Municipal do Funchal, 1953; MENESES, Carlos Azevedo de e SILVA, Fernando Augusto da, Elucidário Madeirense, vol. III, Funchal, Secretaria Regional de Turismo e Cultura, 1998.

Fernanda de Castro

(atualizado a 21.07.2016)