revistas de tradições populares

Os contributos escritos para o conhecimento da tradição popular madeirense têm-se repartido entre publicações exclusivamente dedicadas a este tema e outros tipos de periódicos, nos quais se tem vindo a acentuar a frequência de colaborações resultantes de trabalhos académicos. Temas como os ofícios tradicionais, o artesanato, a gastronomia, o linguajar madeirense, o folclore ou as festividades têm, assim, sido abordados com regularidade na imprensa islenha.

Palavras-chave: imprensa; periódicos; tradições populares; etnografia.

Não são numerosas as publicações madeirenses especificamente dedicadas a tradições populares. O mais habitual é encontrarem-se trabalhos dispersos em diversos tipos de periódico. No entanto, há dois títulos que, embora com caraterísticas diferentes, se dedicam em exclusivo à tradição popular.

Xarabanda Revista
Xarabanda Revista

Em primeiro lugar, deve referir-se a Xarabanda Revista. Editada, desde maio de 1992, pela Associação homóloga, tem tido uma vida bastante irregular. Nos primeiros seis anos, foi semestral, saindo ainda um número especial comemorativo do centenário de Carlos Santos. Posteriormente, passou a anual, embora, de facto, os números editados correspondam cada um a dois anos. Desde o número 18, de 2010, encontra-se suspensa, estando em curso a sua reformulação, tendo-se concluído a disponibilização dos seus conteúdos em formato digital, através de uma página na Internet, prevendo-se o reinício da edição em papel no ano de 2015. O seu formato manteve-se sempre no A4, embora com um número de páginas muito variável, que vai das 44 da primeira até às 132 páginas do número 13. A dimensão mais frequente é entre as 48 e 64 páginas. Com muito raras exceções, as capas são a cores e o miolo a preto e branco. O grafismo tem sido muito irregular, havendo, nos números mais recentes, uma tendência para maior continuidade.

O objetivo definido logo à partida foi abranger um leque muito eclético de temas. Em linhas gerais, o propósito era dar a conhecer todos os trabalhos que abordassem temas da tradição regional. Estes seriam resultado de pesquisa dos elementos da Associação e de todos os que quisessem colaborar com a revista, desde que os seus artigos fossem originais e contribuíssem para a concretização do objetivo genérico de divulgar o conhecimento da tradição madeirense, em todos os seus aspetos.

Nos primeiros números, correspondentes a uma fase de afirmação do projeto, predominam os artigos de autores membros da Associação ou seus colaboradores habituais. Houve, ao mesmo tempo, a tentativa de criar um grupo de elementos de áreas como a Antropologia ou afins, de modo a assegurar uma produção regular de colaborações. Um último aspeto desta iniciativa diz respeito a contactos com professores e estudantes, convidando-os a realizar pesquisas de que pudessem resultar artigos ou a reformular trabalhos académicos que tivessem feito, ou partes deles, dando-lhes a faceta de artigos. As dificuldades de respostas favoráveis e atempadas levaram a que um reduzido leque de três ou quatro autores ocupassem a maioria das páginas da revista. Esta primeira fase, que termina no segundo semestre de 1997, compreende 13 números (12 regulares e um especial dedicado aos cem anos do nascimento de Carlos Santos) e pode dizer-se que ilustra a evolução da revista, que passou, aos poucos, daquela caraterização inicial para uma realidade em que vão sendo cada vez mais os autores que propõem à Associação a edição de trabalhos seus, incluindo autores não madeirenses que aproveitam a oportunidade que lhes é proporcionada para divulgarem os seus artigos.

Desde o início, os seus responsáveis procuraram organizar números temáticos, ou, pelo menos, incluindo proporção significativa de trabalhos abordando um tema comum. A primeira experiência teve lugar com o número 4 (2.º semestre de 1993), dedicado à água. Neste número, encontram-se trabalhos sobre pesca, seca de peixe, os bomboteiros, a festa da Nossa Senhora da Piedade, fabrico de miniaturas de barcos, etc. O número 6 (2.º semestre de 1994) foi o primeiro com um tema exclusivo: a ilha do Porto Santo. Com a ajuda de apoios diversos, foi viabilizada a deslocação de diversos colaboradores àquela Ilha para realizarem as suas pesquisas. Ao mesmo tempo, foi feito um esforço de angariação de trabalhos efetuados por estudantes, docentes e investigadores locais. De todo este esforço resultou uma edição de 80 páginas, com um vasto leque de temas abrangidos.

Os três anos seguintes representam a continuidade deste projeto, com a publicação regular da revista, acompanhada de uma procura de apoios que assegurassem a sua regularidade, o que não foi viável. Neste período, os temas abordados nas páginas da Xarabanda Revista são muito diversificados. Em primeiro lugar, cabe referir que, embora não sendo o objetivo prioritário, nunca esqueceram os seus responsáveis o peso fundamental que a tradição musical madeirense tem tido, desde sempre, nas preocupações da Associação. Assim, será lógico que se encontrem numerosos artigos abordando o fabrico de instrumentos musicais, grupos folclóricos, bandas, recolhas de cancioneiro e mesmo artigos de opinião. Por outro lado, algumas atividades tradicionais em vias de extinção foram alvo do interesse de autores diversos: o cultivo do linho, os moinhos de água, o artesanato, etc. As recolhas de literatura oral tradicional deram origem a vários trabalhos, principalmente de estudantes e elementos de grupos folclóricos.

Por último, é importante aqui referir que foi logo nas primeiras edições da revista que se começaram a concretizar projetos de levantamento sistemático, alguns com continuidade até hoje: as festividades cíclicas, os moinhos de água, os fontenários aparecem apenas nos primeiros números. Com uma atualização regular até aos mais recentes, encontram-se dois temas: a bibliografia (uma tentativa de divulgar tudo o que de relevante se vai editando) e as edições de fonogramas (alvo de sucessivas versões, publicou-se no número 18 uma listagem completa, com imagens das capas e indicação dos títulos das suas faixas. Trata-se, neste caso, de pesquisa a ser alvo de divulgação em novas edições, a par de alguma antiga que for detetada).

Após a publicação do número 12, com as dificuldades acrescidas de assegurar a sua regularidade, houve um interregno de quatro anos até à saída do seguinte, com data de 2000-2001. Entretanto, fora decidido alterar a periodicidade para anual. A longa demora do processo de angariação de apoios para a continuidade da revista permitiu, por outro lado, uma seleção mais apurada de colaborações a editar, pelo que este foi, mais uma vez, um número quase totalmente preenchido com um único tema: os antigos ofícios. Prosseguindo a sua saída com alguma irregularidade até 2010, seguiu-se um novo número dedicado exclusivamente ao Porto Santo, outro tendo como tema principal a literatura oral tradicional e mais três sem um tema específico.

Embora se mantenha, em boa parte, o leque de colaboradores habituais, nota-se, cada vez mais, a existência de autores com apenas um trabalho. Aos poucos, e correspondendo a uma vertente a que os responsáveis pela revista sempre deram importância primordial, têm vindo a aumentar de frequência as colaborações resultantes de trabalhos académicos. A par do seu maior número, também a profundidade de abordagem tem vindo a evoluir: de uma maioria de pequenos estudos realizados por alunos ou docentes do ensino secundário tem-se passado, progressivamente, para o peso predominante dos trabalhos de autoria de estudantes universitários ou docentes, resultado inevitável da afirmação da revista, em primeiro lugar, mas também do aprofundar dos laços de colaboração entre a Associação Xarabanda e a Universidade da Madeira ou os docentes ligados às tradições regionais.

A revista Folclore tem periodicidade anual, desde 1991. As edições até 2005 foram de responsabilidade da Direção de Serviços de Extensão Rural, passando a propriedade do título para a Casa do Povo de Santana a partir do ano de

Revista Folclore
Revista Folclore

2006. A sua regularidade tem sido constante, até por estar associada à realização em Santana do Festival de Folclore, sob os seus diversos nomes ao longo do tempo. Nos anos de 2012 e 2013 teve distribuição integrada na edição do Jornal da Madeira coincidente com o evento, tendo depois regressado ao formato anterior de revista em A4.

Os primeiros números continham, no essencial, informação sobre cada grupo participante e os temas que iriam apresentar. Posteriormente, passou a haver a responsabilidade de cada grupo apresentar um trabalho de recolha sobre o tema da revista, variável de ano para ano. Assim, foram abordados assuntos como o artesanato, gastronomia, instrumentos musicais, traje, ofícios tradicionais, produtos agrícolas locais, meios de transporte, etc. Para além dos textos enviados pelos grupos participantes, alguns dos números da revista contêm trabalhos de enquadramento da atividade do folclore ou, principalmente nos últimos anos, um artigo geral sobre o tema da edição, de autoria de um reconhecido técnico ou investigador, fornecendo enquadramento em que os restantes trabalhos se inserirão.
Sendo a responsabilidade de apresentação dos contributos dos elementos de cada grupo folclórico, resulta daí um grande desequilíbrio na qualidade daqueles.

No entanto, tem sido uma forma de dar a conhecer aspetos da tradição regional de dimensão apenas local que, de outro modo, poderiam facilmente perder-se com a o abandono do seu uso e a sua persistência apenas na memória dos detentores desse conhecimento. Muitos dos contributos importantes para o conhecimento da etnografia regional foram dados à estampa, pelo menos na sua versão inicial, em jornais generalistas, como o Diário de Notícias, O Jornal, Jornal da Madeira, A Voz da Madeira, etc. Ao longo dos tempos a sua postura em relação a estes temas tem sido muito variável, pelo que apenas se justifica aqui esta breve referência. No entanto, houve outros periódicos que, não tendo os temas etnográficos a exclusividade das suas páginas, a eles dedicaram espaço relevante.

Revista das Artes e da História da Madeira
Revista Das Artes e da História da Madeira

A revista Das Artes e da História da Madeira teve duas fases: na primeira, entre 1948 e 1949, publicou-se como suplemento semanal de O Jornal; posteriormente, passou a ter edição autónoma como revista, editando-se 41 números, de 1950 a 1971. Sendo, como o subtítulo claramente o indica, uma “Revista de cultura”, é muito diversificada nos temas abordados. Especificamente no que diz respeito à cultura tradicional, temos atividades agrícolas (malhada e debulha), o traje (diversos artigos, alguns deles ilustrados com fotografias), os bordados, ou a construção das casas típicas de Santana. Como não podia deixar de ser, o Natal aparece repetidamente, através das recordações da Festa de outros tempos. Foi também aqui que se publicaram recolhas de contos, orações, medicina tradicional, etc. A diversidade dos temas estendeu-se às danças folclóricas, ao falar regional e mesmo ao cancioneiro tradicional. Em síntese, embora dentro de um contexto mais vasto, algumas das mais relevantes figuras madeirenses da época abordaram nas páginas desta revista, de forma interessante, elementos da tradição regional.

Outra publicação que, apesar da sua curta existência (1985 a 1989) merece referência é a revista trimestral Atlântico.

Revista Atlântico
Revista Atlântico

Também aqui a temática é muito abrangente: “Revista de temas culturais”. Nela tiveram lugar as festividades tradicionais, o artesanato (aqui merece destaque o processo de fabrico das bonecas de massa, abordado num artigo com ampla documentação fotográfica), o traje, ou a casa tradicional. Globalmente, pode referir-se não serem numerosos os trabalhos, mas a sua qualidade média é bastante elevada.

Revista Arquivo Histórico
Revista Arquivo Histórico da Madeira

O Arquivo Histórico da Madeira teve o seu início em 1931. A sua periodicidade começou por ser trimestral, embora com alguma irregularidade, passando posteriormente a anual. Os seus primeiros catorze volumes, saídos até 1966, tinham um caráter mais abrangente. A partir do volume XV, começa a “série documental”, alterando profundamente o seu conteúdo, a partir daí destinado à divulgação de documentos históricos. Sob a responsabilidade do seu primeiro diretor, João Cabral do Nascimento, até ao início dos anos cinquenta, surgiram alguns artigos sobre etnografia madeirense, da autoria do referido diretor, ou de outros conhecidos vultos, como o Visconde do Porto da Cruz ou

Revista Islenha
Revista Islenha

Fernando de Aguiar.

Por último, é indispensável referir a revista Islenha, publicada, desde 1987, pela Direção Regional dos Assuntos Culturais. O seu subtítulo Temas culturais das sociedades insulares atlânticas explicita de modo bastante claro o vasto âmbito geográfico e de áreas científicas que nela têm lugar. Com a sua periodicidade semestral e mais de cinquenta números publicados, é natural que a cultura tradicional da Madeira tenha, em algumas ocasiões, surgido retratada nas suas páginas. Alguns dos temas abordados foram a arquitetura popular, os ofícios tradicionais (cerieiro, ferreiro ou moleiro), o falar popular, a tradição dos Maios (neste caso com o interesse adicional de, no mesmo número da Islenha, se publicarem trabalhos sobre esta tradição nos Açores e em Machico, permitindo, deste modo, confrontar as suas características) ou do Espírito Santo, os carros do Monte e a tradicional dança das espadas da festa de S. Pedro na Ribeira Brava. Embora relativamente pouco numerosos, estes contributos para o conhecimento da tradição regional caraterizam-se, em regra, pelo seu elevado rigor.

Jorge Torres

(atualizado a 05.08.2016)