ribeira brava

A primeira questão para a qual importa encontrar resposta é a origem do nome deste lugar. Na Relação de Francisco Alcoforado e nas Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso, percebemos já que a ribeira era um importante obstáculo. Diz o primeiro que “passou abaixo até chegar a uma ribeira muito furiosa a que chamou a ribeira brava” (MELO, 1975, 94). O segundo, ao descrever o processo de reconhecimento da Costa por João Gonçalves Zarco, refere-se a “uma furiosa ribeira” e a um local onde havia “traçado uma povoação, que deu nome Ribeira Brava” (FRUTUOSO, 1979, 123). Noutro passo, explica que “a Ribeira é tão furiosa, quando enche, que algumas vezes leva muitas casas e faz muito dano, por vir de grandes montes e altas serras, e por ser desta maneira lhe vieram a chamar Brava” (Ibid., 123). Por volta de 1530, Giulio Landi afirmava que “há a povoação vulgarmente chamada Ribeira Brava que quer dizer torrente rápida porque nela corre um rio que no tempo das chuvas vai com tanto ímpeto que muitas vezes faz arrasar as casas” (ARAGÃO, 1981, 83). O temor da bravura da água que desce das escarpas é uma constante na História deste lugar. Na memória de muitos madeirenses estão presentes alguns momentos dessa fúria recente, com as aluviões de 1970 e de 2010.

Durante muito tempo, foi constante a preocupação com a defesa do lugar, tendo sido erguida em 1502 uma primeira muralha, que a invernia destruiu. A tradição registada nos paroquiais de 1735 refere que o lugar se salvou “por milagre do Santo”. Na verdade, por vezes, só um milagre era capaz de conter a fúria da ribeira. Até à atualidade. Ao longo dos tempos, foram sendo feitas obras para controlar a ribeira, sem se conseguir. Há referência à atenção das autoridades nesse sentido em 1508, 1620, 1660, 1747, 1748 e 1803. Em 1878, na sequência dos problemas sucedidos no ano anterior com a ribeira, o Governo Civil refere a atenção de apoio do Tesouro, que “tem dado para as obras, em todos os tempos, grossas quantias, porque a ribeira, correndo ora numa, ora noutra margem, leva tudo diante de si, na sua impetuosa corrente, destruindo plantações e ameaçando a povoação.

E sendo ao longo dessa ribeira, que parte dos povos transitam do norte da ilha para o porto da Ribeira Brava, onde embarcam os seus géneros para o Funchal, torna-se a estrada uma das mais frequentadas e importantes do Distrito. Tem estado esta estrada sempre à mercê da ribeira, tornando-se necessárias continuadas despesas para reparações das muralhas e da mesma estrada. Foi para a pôr, tanto quanto possível, ao abrigo da ribeira, que já em 1864, se intentou encostar a ribeira à margem esquerda; no sítio das Murteiras, e que, de então para cá, todas as obras são subordinadas ao pensamento de aproveitar as muralhas do encanamento, utilizando-as para a estrada que vai sempre na encosta esquerda. A povoação, com estes encanamentos, fica muito mais abrigada e protegida, porque as águas correm em direção mais conveniente” (CASTRO, 1878, 52). Nesta época, foram gastos 3.000$000 réis nas muralhas da ribeira. Não obstante este problema, o lugar foi, desde o início da ilha, povoado por colonos, que não se deixaram vencer pela fúria da ribeira. A capelania, criada em 1440, atesta a rápida aposta neste assentamento e na sua afirmação dentro e fora da ilha, graças às riquezas da terra. Os primeiros colonos foram, desta feita, obreiros da terra e bravos guerreiros nas façanhas africanas, tal como refere Gaspar Frutuoso: “os moradores que nela vivem que quando convinha aos capitães do Funchal, que depois foram socorrer os lugares de África com gente deste só lugar, tiravam tão nobres cavaleiros e gente lustrosa, que à sua custa iam servir a El Rei, e tinham tanto nome, como ao diante se verá no discurso desta história” (FRUTUOSO, 1979, 88). Destes, podemos referir Pedro de Brito, Diogo de Barros, Pedro de Barros ou Gaspar Vilela.

Há um outro fator importante na valorização da Ribeira Brava e da Serra de Água, que resulta do facto de as populações da encosta norte, nomeadamente de São Vicente, usarem o porto da Ribeira Brava para comunicarem com o Funchal, na medida em que as comunicações marítimas diretas, na costa norte, eram sempre um risco e a viagem por terra, pelo interior da ilha, muito demorada. Nos registos paroquiais dos primórdios da ocupação, há informação relevante sobre o serviço e cabotagem, assinalando-se oito barqueiros ou homens do mar.

Em 1765, a visita pastoral à encosta norte fez-se a partir da Ribeira Brava. O custo do frete do barco da viagem entre o Funchal e a Ribeira Brava era de 2$100 réis, enquanto o percurso entre este porto de chegada e a Serra de Água custava 1$600 réis, mais $200 réis de beberete, para os oito homens que transportavam a rede, $600 réis para os seis homens que transportavam os baús e $400 réis para os moços de bestas. O serviço de cabotagem foi muito importante para as freguesias ribeirinhas. No Campanário, na Foz da Ribeira dos Melões, existiu um pequeno cais. A partir de 1875, a Ribeira Brava teve um posto fiscal, mas o cais terá sido construído entre 1904 e 1908.

Tamanhas dificuldades e custos faziam com que as populações reivindicassem um caminho em condições que lhes encurtasse as distâncias e facilitasse o acesso à Ribeira Brava, o que só veio a acontecer depois da República, em 1916. Em 1821, Paulo Dias de Almeida refere que o “porto é muito mau, raras vezes se encontra bom mar para desembarcar; a praia é um calhau muito grosso, e com algumas pedras; só os barcos ali costumados encalham sem risco; é costume ali carregar os barcos encalhados e depois de carregados deitados ao mar, esperando a vaga, e isto muitas vezes com o risco de se alagarem. É o lugar de mais concorrência dos habitantes do norte da ilha, por ser o caminho mais curto que há para atravessar a Ilha, uma vez que não haja cheia da Ribeira, pois que os viajantes a atravessam muitas vezes; tem sucedido no inverno os viajantes ficarem detidos quatro, e seis dias na Freguesia da Serra d’Água por falta de caminhos, o qual se poderia ter feito ao lado esquerdo da Ribeira sem grande despesa; bastava aplicar as ordenarias que continuadamente se empregam em fazer os passadiços no leito da Ribeira, não sendo nunca menos de 50 homens, neste trabalho todos os meses, eram bastantes para no espaço de 3 anos terem completo um caminho de tanta necessidade, muito principalmente para os homens que vêm da vila de S. Vicente carregados, que neste porto embarcam, e desembarcam com mais comodidade. Ainda que se venha a completar a estrada que fazem pela serra, jamais os habitantes deixarão de vir à Ribeira Brava carregados, para d’ali irem à cidade em barcos, cuja viagem fazem toda em 6 horas, e pela estrada da serra jamais passarão até à cidade porque se triplica a distância; só viajantes a cavalo, ou algum homem sem carga. Os vinhos do norte não se transportam por terra, é só por mar, é o meio mais cómodo […] e a maior parte dos habitantes moram distantes, e outros empregados na pesca, e barcos da costa” (CARITA, 1983, 61). As dificuldades na superação deste caminho junto à Ribeira ficaram resolvidas em 1850 com uma muralha mandada construir pelo Governado José Silvestre Ribeiro, no valor de 605$885 réis. Mais uma vez se insiste na importância desta via para as populações do norte: “A comunicação entre a Ribeira Brava e Serra d’Água, aliás tão frequente, e de tamanha conveniência para o comércio interno, e trato dos povos, é muito perigosa na estação do inverno, em razão de ser necessário atravessar sete vezes a ribeira. Tornava-se pois necessário abrir um caminho na rocha da margem direita, e assim se fez […]” (Ibid., 61).

A valorização do lugar da Serra de Água muito tem a ver com este movimento das gentes do norte. Em 1888, as gentes de São Vicente reclamam um porto e, enquanto este não chega, insistem na ideia de uma estrada e de um túnel que ligassem à Ribeira Brava, uma vez que esta era a via privilegiada de escoamento dos produtos do concelho para o Funchal, contudo, tardou muito a ser adequada aos objetivos das populações do norte. O desejo da construção de um túnel, solicitado desde 1888, só foi atendido em 2011, com a construção de um com 3086 m de comprimento.

A primeira estrada de ligação ao Funchal pela Ribeira Brava surge em 1914, mas é no período de 1913 a 1918 que a estrada que ligará Câmara de Lobos à Ribeira Brava e a São Vicente sofre um notável avanço. Em 1928, esta foi alvo de um alargamento, de modo a ajustar-se à circulação de viaturas. Hoje, o sistema viário em progresso tende a esbater cada vez mais as distâncias.

A vila e o município

A importância de que se reveste este lugar desde o séc. VX e a posição de relevo que as suas gentes assumiram na vida local deram-lhes a possibilidade de fazerem reivindicações. Já no séc. XV é notada a presença dos seus moradores como homens-bons do concelho. O cargo de Juiz do lugar, no decurso dos sécs. XVI e XVII, estava nas mãos das famílias Betencourt e Barros.

No séc. XVI, com a criação dos municípios da Ponta do Sol (1501) e Calheta (1502), surgiu a reivindicação dos ribeira-bravenses para a criação de uma vila e município. Gaspar Frutuoso fez eco deste desejo: “pelo merecer, por ter bom porto e ser muito viçosa, já muitas vezes tentaram os moradores de a fazerem vila” (FRUTUOSO, 1979, 123), afirmando que “Não é este lugar vila pelo deixar de ser à falta de muitos vizinhos e bom assento, e ser somenos da Ilha, antes é o mais bem assentado e magnífico de todos; senão por ser termo da cidade do Funchal []” (Ibid., 88). Recorde-se que depois do séc. XVI não mais se mexeu na estrutura municipal. Apenas em 1743, mercê da insistência das populações do norte da ilha, surgiu o município de São Vicente. A Revolução Liberal veio provocar uma transformação na vida municipal e as reformas de Mouzinho da Silveira tiveram reflexo na reforma administrativa de 1832. Neste ano, foram criados os municípios de Santana, Porto Moniz e Câmara de Lobos.

Com a reforma administrativa de 1835, a Ribeira Brava passou para a alçada da Ponta do Sol e o Campanário para a de Câmara de Lobos. Esta alteração desagradou à população da Ribeira Brava, que, em carta a D. Maria II, datada de 11 de novembro de 1835, solicita a criação de um município com sede na freguesia, incluindo as freguesias do Campanário, Serra de Água e Tabua. São motivos úteis que fazem esta reivindicação: “Os moradores do Campanário, a não ficarem anexos à Ribeira Brava preferem pertencer ao Funchal como d’antes, a ficarem anexos a Câmara de Lobos, para onde têm de atravessar altos montes, subir e descer íngremes ladeiras, os da freguesia d’Atabua preferem unir-se à Ribeira Brava onde têm mais relações de vizinhança e comodidades; e os da Serra d’Água não têm outra saída de seus rochedos senão pela Ribeira Brava. Por estas circunstâncias nascidas da natureza das coisas e fundadas na verdade confiam os abaixo assinados conseguir a graça que imploram” (RIBEIRO, 1996, 68-69). Quem reclama desta pretensão é o município da Ponta do Sol, a 24 de fevereiro de 1836, dizendo não existirem meios para financiar o funcionamento do novo concelho.

Por decreto de 6 de maio de 1914, depois da implantação da República e graças a Francisco Correia Herédia, um dos obreiros do republicanismo, foi criado o concelho, contudo só em 1921 foi instalada a primeira vereação, tendo a vila surgido mais tarde, por decreto de 26 de maio de 1928. Note-se que a 20 de março de 1884 surge uma ordem de desanexação da Tabua, relativamente à Ponta do Sol, que se junta ao novo concelho da Ribeira Brava, o que significa que havia desde esta data um projeto no sentido da concretização do município.

A título de remate, trazemos à memória algumas situações anormais ao quotidiano do lugar. Primeiro, foram os tumultos de 1722 sobre o pagamento dos encargos das terras de colónia. Mais tarde, em 1817, esta agitação popular volta à vila. Em 1884, foi a agitação do momento eleitoral que ditou novos motins na mesa de voto para as eleições, tendo causado alguns mortos. Tudo por iniciativa dos republicanos que estavam na mesa de voto – entre eles, o pároco da freguesia –, que embebedaram os militares que montavam a segurança, instigando-os depois a disparar sobre a multidão. Depois, em 1936, o movimento contra o decreto dos laticínios, que se pensava levar ao monopólio, provocou diversos distúrbios no Faial, Santana, Funchal, Machico e Ribeira Brava. Neste último lugar, a 5 de agosto, as populações enfurecidas destruíram a documentação da repartição de finanças. A resposta do governo não se fez esperar, enviando uma força militar e criando um tribunal especial para julgar os ativistas. A 24 de novembro de 1937, o Decreto 28235 estabeleceu um adicional sobre as contribuições e impostos, pagas em seis prestações, para cobrir despesas do Estado com a revolta. Uma das consequências mais evidentes desta revolta foi a perda de toda a documentação municipal, alvo da fúria dos revoltosos em 1936. 

Freguesias

O concelho da Ribeira Brava é composto pelas freguesias da Ribeira Brava, Tabua, Campanário e Serra de Água. Por alguns considerada paróquia desde 1440, a Ribeira Brava parece-nos enquadrar-se antes no grupo de paróquias criadas nos anos que se seguiram à morte do infante D. Henrique, em 1460. A prová-lo, está o facto de haver notícia do seu capelão em 1461.

A primitiva paróquia de Atabua teve origem na capela da Santíssima Trindade, que depois deu lugar à de N.ª Sr.ª da Conceição. Sabemos que a 2 de julho de 1743 era curato paroquial. A freguesia era conhecida como Atabua, mas, a partir de 1838, o P.e António Francisco Drummond e Vasconcelos alterou a forma primitiva para Tabua. A 18 de outubro de 1881, a freguesia foi anexada ao concelho da Ponta do Sol e aí se manteve até 1914, altura em que foi desanexada para ser incluída no novo concelho da Ribeira Brava.

Criada em 1556, a paróquia e agora freguesia do Campanário esteve subordinada a diversos municípios ao longo do seu percurso histórico. De 1855 a 1867, pertenceu ao município de Câmara de Lobos, mas, com a sua extinção, passou para o do Funchal. Em 1914, com a criação do novo concelho da Ribeira Brava, deixou de pertencer a Câmara de Lobos.

A freguesia da Serra de Água estava anexada ao concelho de Ponta do Sol até 1914, altura em que foi criado o município da Ribeira Brava, ao qual passou a pertencer. A paróquia foi criada por alvará régio de 28 de dezembro de 1676, instalando-se apenas em 1680.

Até 1502, data da criação do município da Ponta do Sol, estas freguesias estavam integradas no concelho do Funchal, passando desde então para o concelho entretanto criado. Durante muito tempo, esta foi uma área importante para o Funchal, sendo considerada a sua quinta. Deste modo, muitas das famílias mais importantes tinham casa na cidade e participavam ativamente na vida municipal. Para além disso, o lugar foi adquirindo importância, em termos administrativos e fiscais. Por outro lado, encontram-se homens-bons da Ribeira Brava na vereação funchalense, sendo referidos como tal, a 26 de janeiro de 1508, João de Castanheiras, João de Medeiros, Diogo de Teives e João Gonçalvez, o Moço. Há ainda a representação delegada no local, através do juiz pedâneo (1491), que, em 1583, acumulava as funções de alcaide. Ainda em 1495, sabemos que o procurador do capitão do Funchal apresentou alguém para o cargo de alcaide pequeno, com funções na justiça local, havendo ainda um escrivão do judicial, que surge referido em 1586.

A 5 de julho de 1508, Vasco Gonçalvez compareceu no Funchal, em vereação, para tomar posse do cargo e fazer juramento. Em 1527, foi eleito Lopo Machado para juiz do lugar, mas este pediu escusa do cargo, justificando que se encontrava então a mudar de residência para o Funchal e que, no momento da nomeação, andava a recolher a sua seara. Nesse ano, a 31 de agosto, não se fez vereação “por os oficiais serem em baixo em a Ribeira Brava” (COSTA, 1998, 181). Na Ribeira Brava, existia já um porteiro do concelho que fazia a publicitação dos despachos e posturas da vereação à população local. A vereação tinha ainda dois quadrilheiros na Ribeira Brava, com funções de fiscalização e vigilância face às determinações camarárias. Em termos de defesa, existia, em 1527, um guarda-mor, cargo acometido ao fidalgo Diogo de Teive, que se havia comprometido a colocar um guarda pequeno às suas custas no varadouro.

O desenvolvimento da cultura açucareira contribuiu para a valorização do lugar, que foi sede de uma comarca para a arrecadação dos direitos do açúcar e também de um posto alfandegário, em 1507. Na sequência desta situação, encontramos aqui, desde 1485, vedor e escrivão, em 1501, o lealdador do açúcar, em 1517, o encaixador, em 1512, o escrivão da arrecadação dos quartos e, em 1517, o recebedor dos quintos. Ainda para a arrecadação de direitos, encontramos o rendeiro do verde, em 1527. Esta estrutura administrativa é ainda confirmada pelos dados dos registos paroquiais do séc. XVI, onde aparecem alcaide, juiz, escrivão, meirinho recebedor, dizimeiro e rendeiro do verde. Também nas vereações se encontram poderes delegados na localidade, em alcaide e escrivão (1488), porteiro e jurado (1490), juiz pedâneo (1491) com escrivão (1495), meirinho da serra (1495), jurado da renda do verde (1496) e taxadores (1496), o que demonstra que a área apresentava um incremento populacional e um progresso económico que, a partir da déc. de 80 do séc. XV, justificam esta presença do poder delegado do município do Funchal. 

População

A Ribeira Brava foi terra de gente ilustre, com participação ativa na defesa do Norte de África, com referência especial a Henrique Betencourt, sobrinho do senhorio de Lanzarote que se fixou na Banda de Além, a Diogo de Teive, fidalgo da casa real e descobridor das ilhas portuguesas de Flores e Corvo, e ao P.e Manuel Álvares, autor da mais importante e divulgada gramática latina. Mas outros fidalgos viveram na Ribeira Brava, como Miguel de Betencourt Freitas, Nicolau de Barros, Francisco Betencourt de Atouguia ou João Fernandes do Pó, a que se juntava, no Campanário, Luís de Atouguia Betencourt.

Desde o princípio que os lugares que hoje dão forma ao concelho atraíram povoadores e, por força da sua riqueza agrícola, foram assumindo importância. As informações que podemos extrair dos registos paroquiais do séc. XVI referem oito fidalgos, seis escravos e quatro criados. O facto de a Ribeira Brava se ter mantido em ligação direta com o Funchal favoreceu a situação de muitas famílias importantes que repartiam a sua morada e os seus interesses económicos entre os dois lugares. Deveremos notar ainda a presença de alguns estrangeiros, no caso genoveses, com ligações à produção açucareira, que repartiam a sua residência entre a cidade e este lugar, onde tinham as terras de canaviais, como foi o caso de Lucas Salvago, António Di Negro, António Teixeira Dória e João Martins Salvago.

A imagem de Gaspar Frutuoso é muito clara: “Não é este lugar vila, pelo deixar de ser à míngua de muitos vizinhos e bom assento, e ser o somenos da lha; antes é o mais bem assentado e magnífico de todos, senão por ser termo da cidade do Funchal e uma fresca quintã […]” (FRUTUOSO, 1979, 88). Acrescenta o autor que “é uma aldeia que terá como trezentos fogos, com uma igreja de São Bento e bom porto de calhau miúdo, que, pela chã da ribeira acima, tem as casas, […] com que é a mais fresca aldeia que há na ilha, pelo que, e pelo merecer, por ter bom porto e ser muito viçosa, já muitas vezes tentaram os moradores de a fazerem vila” (Ibid., 88). Na descrição de Gaspar Frutuoso, não há referências à Serra de Água, dando-se conta apenas da Tabua, com 30 fogos, e do Campanário, com 100 fogos “espalhados”. O recenseamento de 1598 refere já a Serra de Água e apresenta a informação sobre os efeitos catastróficos da Ribeira: “Tinha antes que a ribeira levasse parte do lugar, 281 fogos, agora tem 208 e 735 almas de sacramento” (GOMES, 1932, 32). A Tabua parecia estar em decadência, devido à falta do açúcar, tendo só 74 fogos e 264 almas de sacramento. Relativamente ao Campanário, a que chama “quinta”, refere 85 fogos e 309 pessoas de confissão. Segundo informação de António Carvalho da Costa, na sua Corografia Insulana, datada de entre 1713 e 1717, encontramos na Ribeira Brava 400 vizinhos, nesta terra onde “foram antigamente os seus nobres povoadores os que resistiram aos nomeados sítios, que padeceram as nossas praças de África, como consta daquelas Histórias […]” (NASCIMENTO, 1930, 68), referindo depois Atabua, com 60 vizinhos.

Em 1722, Henrique Henriques de Noronha refere já a freguesia da Serra de Água, com 217 casas e 445 residentes. A Ribeira Brava regista 335 fogos e 1300 almas. Em 1794, com as devassas episcopais, encontramos registados na Ribeira Brava 1778 maiores, num total de 1953 moradores; no Campanário, 1398 em 1541; na Serra de Água, 603 em 644; e na Tabua 1054 em 1169. Em 1822, Paulo Dias de Almeida apresenta estas freguesias como pertencendo àquilo a que chama “o distrito militar da Ribeira Brava”, assinalando aí 1260 fogos e 5222 pessoas (CARITA, 1983, 80). Em 1850, a Ribeira Brava, que aparentava ser já uma vila, mercê do desusado movimento da cabotagem, registava 729 fogos e 3425 habitantes; a Serra de Água 309 e 1493; e a Tabua 403 e 1813, respetivamente. Relativamente à freguesia do Campanário, não dispomos dos dados para a mesma.

Em 1856, o surto de cólera chegou a estas freguesias, estando na origem de 252 mortes na Ribeira Brava, 143 na Serra de Água, 161 na Tabua e 206 no Campanário, números que se refletem na população. Assim, em 1859, a Ribeira Brava regista 782 fogos e 3404 habitantes; a Serra de Água 301 e 1456; a Tabua 437 e 1958; e o Campanário 643 e 3271. Em 1885, a Ribeira Brava registava 1861 homens e 2027 mulheres; a Serra de Água 799 e 836; e a Tabua 991 e 992, respetivamente, faltando mais uma vez os dados para a freguesia do Campanário. Em 1930, o conjunto das freguesias que compõem atualmente o município da Ribeira Brava registava 16.343 almas. Nos censos de 1940 e 1950, este número subiu para, respetivamente, 19.382 e 20.500, afirmando-se, a partir daí, a tendência descendente, por força do fenómeno da emigração.

Recursos e riqueza

A Ribeira Brava foi terra de grandes recursos agrícolas. Os vales das margens da Ribeira e as ravinas foram transformados em poios onde medravam os canaviais e trigais. Gaspar Frutuoso testemunha-o, dizendo que a freguesia é “tão fresca e nobre das melhores da Ilha, que além de ter muitos frutos e mantimentos em abundância, é e sempre foi tão generosa com os seus moradores que nela vivem […]” (FRUTUOSO, 1979, 88). Mais adiante especifica: “[…] pelo chão da ribeira acima tem as casas, e muitas canas de açúcar, e dois engenhos, e pomares muito ricos de muitos peros e peras, nozes e muita castanha, com que é a mais fresca aldeia que há na ilha; […] Tem também muitas vinhas, ainda que o vinho não seja tão bom como o do Funchal” (Ibid., 122). Sobre o Campanário, refere as suas “terras de criações e de lavoura de trigo e centeio” e comenta que é gente da monta “dada mais a criar gado, que a cultivar vinhas, nem outras fruteiras”, assinalando que a Ribeira dos Melões “dá muitas canas e em parte algumas vinhas” e que a Ribeira da Tabua “tem muitas vinhas, canas e frutas” (Id., Ibid., 123-124).

A riqueza do lugar e o acesso à cidade através do mar levaram a que esta fosse uma área agrícola pertencente a famílias funchalenses ou aos Jesuítas e ao Convento de Santa Clara, resultando daí uma situação de dependência. Gaspar Frutuoso refere que é “uma fresca quinta, donde os moradores da cidade acham e lhes vai o melhor trigo, frutas, caças, e em mais abundância que em toda a ilha; e pode-se com razão chamar celeiro do Funchal, como a Ilha de Cecília se chama de Itália” (Id., Ibid., 88). Existia na Ribeira Brava uma variedade de produtos e culturas, contudo, o grande fator de progresso desta área foi, sem dúvida, o açúcar. Prova-o o facto de ter sido uma comarca fiscal, de 1508 a 1522, com lealdador (em 1501), para a fiscalização, um escrivão de arrecadação dos quartos do açúcar e um posto alfandegário com casa da alfândega (1483-1511) com escrivão da saída do açúcar, o que permitia a exportação direta. De acordo com as estimativas da produção de 1495, esta comarca produziria 14.778 arrobas, sendo 5618 da Ribeira Brava, 5310 da Tabua e 3850 do Campanário. Segundo os mesmos estimos, asseguravam esta produção dos canaviais os seguintes proprietários e rendeiros: No Campanário, Pedro Gonçalves, Paio Rodrigues, Vasco Lopes, Fernando Afonso, Pedro Álvares, Luís Álvares, Pedro Vaz, Gonçalo de Castro, Filipa Gil, Álvaro Rodrigues, Romão Frias, Paulo Ferreira, Luís Álvares, Pedro Eanes, Gonçalo Casca; na Tabua, João Mendes de Oliveira, Álvares Fernandes, o Galego, João Vaz. Álvaro Fernandes, Pedro Álvares, Pedro Martins, Martins Afonso, João Martins, Lançarote Gonçalves, João Betencourt e João Mendes de Brito.

Já no séc. XVI, a comarca representava 29% da produção, disputando o primeiro lugar com o Funchal, passando para 20% do total no séc. XVII. Na documentação, encontramos referência à existência de oito engenhos, dois caldeireiros de engenho e igual número de purgadores. Nos livros de pagamento do quarto e quinto, surgem 35 proprietários de canaviais, muitos deles dispondo de escravos. Entre os proprietários, encontramos três importantes famílias: Barros (Pedro Gonçalvez), Teive (Rui e Diogo), Betencourt (Francisco, Pedro e João). Para 1536, temos os dados da produção da comarca de Ribeira Brava em 9020 arrobas produzidas por: Baltazar Vilela, Belchior Gonçalves, Diogo de Teive, Fernando Afonso, Francisco de Betencourt, Gome Álvares, João de Medeiros, Lopo Rodrigues, Nicolau de Barros, Pedro Afonso, Pedro Betencourt.

Nos sécs. XVII e XVIII, manteve-se a mesma estrutura de arrecadação dos direitos da coroa, mas aqui adaptada à dimensão da cultura. Assim, para cada uma das áreas era provido um quintador, um para cada uma das antigas comarcas, isto é, Funchal, Calheta, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Santa Cruz. Nas primeiras localidades, este era apoiado por um escrivão. Por mandado de 20 de dezembro de 1683, foi ordenada a extinção, a partir de 30 de julho, dos quintadores do açúcar de Santa Cruz, Ribeira Brava, Ponta do Sol e Calheta, argumentando-se, para tal, o facto de os mesmos não terem “exercício algum por se terem extinguido os engenhos, e se não fabricarem nessa ilha os tais açúcares”. Note-se que, em 1684 e 1720, temos informação documental sobre a nomeação do quintador do açúcar da Ribeira Brava, o que poderá ser um indício de que a produção se mantinha.

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Portal da antiga capela do solar de São José, 1720 (c.), Museu Etnográfico da Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria, 1720 (c.), posteriormente reposta. Museu Etnográfico da Ribeira Brava. Fotografia de 22 de junho de 2011. Ilha da Madeira.

Na Madeira, um dos aspetos mais evidentes da revolução tecnológica iniciada no séc. XV prende-se com a capacidade do europeu em adaptar as técnicas de transformação conhecidas às circunstâncias e às exigências de culturas e produtos tão exigentes como a cana e o açúcar. O tributo foi evidente. Ao vinho, foi-se buscar a prensa; ao azeite e aos cereais, a mó de pedra. Por outro lado, estamos perante uma permuta constante entre processos tecnológicos e formas de aproveitamento das diversas fontes de energia.

A tração animal e a força motriz do vento e da água foram usadas em simultâneo com os cereais e a cana sacarina, havendo casa de estruturas em que o moinho de cereais convive com o de cana-de-açúcar. Persistem ainda hoje testemunhos materiais, como um dos engenhos da Ribeira Brava, integrado no Museu Etnográfico da Madeira. Estas estruturas de dupla funcionalidade encontram-se noutros locais, como é o caso do Brasil, onde, em Caldas da Imperatriz, no estado de Santa Catarina, existe uma estrutura movida a água que funciona ainda para a moenda da cana e fabrico da farinha de mandioca.

O vinho foi uma das culturas importantes em toda a área do concelho. É já referenciado nos sécs. XVII e XVIII, assumindo um papel de relevo na agricultura, de forma que, em 1787, toda a área do atual concelho produzia 720 pipas, com particular incidência no Campanário e na Ribeira Brava. Note-se que, no período de 1754 a 1794, havia na área do concelho 11 licenças para cortar madeira para lagares e apenas uma para reparar. Isto poderá ser um indício de que a segunda metade do séc. XVIII foi uma época de incremento da cultura da vinha, o que está em consonância com o que aconteceu em toda a ilha. Em 1841, os dados da produção de vinho indicam 130 pipas na Ribeira Brava, 60 na Serra de Água, 83 na Tabua e 168 no Campanário.

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Cordofones no Museu Etnográfico da Ribeira Brava, 2010, ilha da Madeira. Antiga Mercearia do Museu Etnográfico da Ribeira Brava. Projeto do atelier do arquiteto Francisco Caíres, 1995. Fotografia de Rui Camacho, 11 de junho de 2010. Ilha da Madeira.

A área não dedicada à agricultura adquiria importância desusada na economia das gentes, primeiro, com as plantações de nogueiras e castanheiros, depois, com o corte de madeiras, principalmente de vinhático, que se exportavam para a cidade, com o fim de alimentar a construção civil ou, no local, a de lagares e engenhos de açúcar. Pelas autorizações solicitadas junto da vereação para o corte do vinhático, parece-nos ser esta uma atividade lucrativa para alguns moradores. Ainda hoje, persiste na Serra de Água a tradição da castanha seca, assim como da cidra, que se mantém como riqueza desta localidade. Contudo, foi nos sécs. XVI a XVIII que este fruto mais cativou as suas gentes e gerou riqueza, por força da fruta seca para exportação. Outras árvores de fruta tiveram igualmente importância, como as figueiras, os pessegueiros e a bananeira.

A criação de gado de pasto ou estabulado criou também riqueza. Em montados próprios ou arrendados, criavam-se cabras. A partir do séc. XX, surgiram as fábricas de manteiga, pequenas unidades que laboravam para empresas. Apenas na Serra de Água são referidas três. Em 1925, existia mesmo uma fábrica da empresa Industrial de Lacticínios, que produzia 240 kg de manteiga por mês, o que demonstra a importância que aí tinha o gado leiteiro, estabulado ou em furnas.

A importância dos recursos marinhos é evidente na vila, no Campanário e na Tabua. Nesta última localidade, encontramos referência a uma confraria de Nossa Senhora do Rosário dos Pescadores, documentada em 1717, o que deverá ser uma evidência desta atividade. Houve, inclusivamente, um projeto de conserva e salga de peixe, em 1910, que não vingou.

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Museu Etnográfico da Ribeira Brava, projeto Atelier Caíres, 1995, ilha da Madeira. Projeto do atelier do arquiteto Francisco Caíres, 1995. Fotografia de 22 de junho de 2011. Ilha da Madeira.

A crise da cultura da vinha no último quartel do séc. XIX levou os madeirenses a apostarem, de novo, na da cana sacarina, surgindo novos engenhos. Assim, em 1853, surge o engenho de José Maria Barreto e C.ª, nas atuais instalações do Museu Etnográfico, na vila, e o da Tabua, de Valério Roiz da Cova e José da Silva. Depois disso, nos princípios do séc. XX, há notícias sobre novos engenhos na Ribeira Brava e Tabua, o que demonstra o vigor da cultura, contudo, a lei de 1927, que favorece o quase monopólio da laboração do engenho Hinton, obriga ao seu encerramento.

A área do atual município da Ribeira devia rendas e tributos ao Colégio dos Jesuítas no Funchal e ao Convento de Santa Clara. Para o triénio 1759-1761, foram cobrados de trigo, vinho, pescado, miunças e verduras 17.011$650 réis. As Clarissas recebem assim, das suas terras no Campanário e na Ribeira Brava, vinho, trigo, cevada, sumagre, centeio, castanhas, inhame, feijão, cebolas, abóboras, nozes, castanhas e cerejas. Desde 1644 que há registo de moradas do Colégio na vila da Ribeira Brava, assinalando-se aí casa, celeiro e adega. Os Jesuítas tinham mesmo sociedade numa embarcação para o transporte dos seus produtos para o Colégio, no Funchal, como informa Henrique Henriques de Noronha, em 1722: “Os seus Dízimos pertencem também aos Padres da Companhia” (NORONHA, 1996, 221).

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Casas da antiga Rua do Colégio, 1800 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria e alvenaria pintada, 1800 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Antiga Rua do Colégio, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.
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Casas da antiga Rua do Colégio, 1800 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira .Cantaria e alvenaria pintada, 1800 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Antiga Rua do Colégio, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.
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Portal seiscentista da antiga Rua do Colégio, 1620 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria e alvenaria pintada, 1620 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Antiga Rua do Colégio, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.

A partir dos dados avulsos das rendas senhoriais e dos impostos que recaíam sobre as culturas, como era o caso das miunças e do verde, é possível saber da importância das culturas agrícolas e do aproveitamento dos recursos na área. Assim, nos cereais, nota-se uma dominância do centeio, o que deverá estar relacionado com a pobreza das populações locais, mas também com a necessidade do mesmo para alimentar o gado, uma vez que os vales da Serra de Água e da Ribeira Brava eram muito frequentados.

Encontramos ainda referência a inúmeros moinhos de água, que pagavam, até 1821, os direitos banais ao capitão do Funchal, que tinha, aqui, um procurador das suas rendas, embora estas fossem arrendadas a privados. Em 1862, na freguesia da Ribeira Brava, são referidos 23 moleiros. Para 1910, encontramos o registo dos moinhos, havendo sete no Campanário, seis na Tabua, quatro na Serra de Água e oito na Ribeira Brava. Na déc. de 50 do séc. XX, nota-se uma redução destes, uma vez que apenas há o registo de dois no Campanário, persistindo seis na Tabua, três na Serra de Água e apenas um na Ribeira Brava, situação que resultará por certo do desenvolvimento da moenda elétrica, não obstante assinalar-se a criação de fábricas de pão: quatro em 1923 e duas em 1936 e 1956.

As atividades oficinais foram igualmente um fator de importante riqueza para a localidade. Com base na informação dos registos paroquiais do séc. XVI, assinalam-se ofícios ligados à agricultura: trabalhadores, pastores e cabreiros, lavradores, canavieiros, mestres de açúcar, caldeireiros, feitor de engenho, cozedor de meles, purgador de açúcar, escumeiro, caixeiro e hortelão. Merece relevo o número de ofícios ligados à produção de açúcar, 13 mestres, o que atesta a importância desta produção. Nota-se ainda uma diversidade de outras atividades, o que demonstra o desenvolvimento populacional e económico do lugar. Assim, encontramos ferreiros e tanoeiros, sendo que no sector da construção são os serradores, pedreiros e carpinteiros. Para os serviços e comércio, relevam-se os sapateiros, alfaiates, barbeiros, físicos, barqueiros, mercadores, almocreves, carniceiros e pescadores. É de salientar o número de ofícios relacionados com o comércio: sete mercadores ou almocreves. Na atividade piscatória, aparecem seis pescadores, e no transporte marítimo, oito barqueiros ou marítimos. A atestar o desenvolvimento das atividades de transformação e processamento dos palmes, registam-se cinco sapateiros, o que parece ser um número elevado de profissionais para a população do lugar.

Para os sécs. VXIII e XIX, há referências aos ofícios nos livros da câmara, quando estes prestavam juramento e apresentavam fiança. Em 1780, surgem os ofícios de barbeiro, sapateiro, serralheiro, carpinteiro, marchante, arrais, ferreiro e fanqueiro; em 1862, carpinteiro, cordoeiro, costureira, ferreiro, parteira, pedreiro, carpinteiro, padeiro, tecedeira, torneiro, curtidor e juntadeira.

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Janela quinhentista, 1580 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria, 1580 (c.), posteriormente reposta. Fotografia de 22 de junho de 2011. Rua de São Francisco, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.
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Janela quinhentista, 1580 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria, 1580 (c.), posteriormente reposta. Fotografia de 22 de junho de 2011. Rua de São Francisco, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.
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Casa com janela quinhentista, 1580 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria, 1580 (c.), posteriormente reposta. Fotografia de 22 de junho de 2011. Rua de São Francisco, Ribeira Brava.

No vale da Ribeira Brava, vamos encontrar ainda o desenvolvimento de diversas indústrias locais: três de pirotecnia (1900), duas de serração (1928 e 1936), uma de refrigerantes (1938-1955), duas fábricas de massa e uma de blocos (1936). De tradição mais antiga serão as de curtumes. A primeira que surge documentada aparece em 1699, existindo ainda em 1771, nas proximidades da igreja do Campanário. Na Tabua, são referidos três curtidores em 1836 e seis em 1863. Esta última situação poderá estar relacionada com as estruturas escavadas na rocha, que encontramos na Ribeira da Serra de Água, indevidamente apresentadas como matamorras, e nas margens da Ribeira da Tabua. Contudo, esta é apenas uma hipótese de estudo que ainda não foi comprovada. Atente-se ao número extraordinário de ofícios ligados ao aproveitamento do couro, que pode ser mais um indício da presença desta indústria no espaço do atual concelho.

Ainda nas freguesias do concelho, atesta-se a importância da indústria da tecelagem no fabrico de roupa e de agasalhos. Entre 1835 e 1837, encontramos registo da fiança das tecedeiras perante a vereação da Ponta do Sol, sendo 10 da Ribeira Brava e duas da Tabua. Por outro lado, em 1862, temos notícia dos teares em atividade, havendo nove no Campanário, 22 na Ribeira Brava, uma na Serra de Água e seis na Tabua.

Relativamente às árvores de fruta, temos a presença da cidra, com particular incidência na Serra de Água, as cerejeiras, os castanheiros e as nogueiras. Sobre a cerejeira, temos notícia de um facto que aqui teve lugar. Na primeira metade do séc. VXIII, era comum a baldeação e o trato do vinho do Norte com o suco de cereja, de modo a adquirir a coloração característica dos do Sul. O edital de 27 de fevereiro de 1788 proibiu a plantação das cerejeiras pretas e ordenou o arranqueou enxertia das existentes, de modo a evitar o hábito de dar coloração aos vinhos. Os infratores seriam punidos com multa de 6000 réis. Assim, atendeu-se a uma representação dos comerciantes de vinho que se havia manifestado contra tal prática. A 6 de março desse ano, um restrito grupo de proprietários, entre os quais Manuel Acciauoli e Pedro Nicolau Acciauolli, solicitou a suspensão do edital, aduzindo os graves inconvenientes da aplicação. O governador, por despacho de 13 de março, indeferiu. O Cónego, porém, sentindo-se lesado, teimou em transgredir a lei, não permitindo o arranque ou enxertia das cerejeiras e penalizando os colonos que o faziam. O Governador tomou medidas severas, ordenando a sua prisão. O caso arrastou-se por algum tempo, até que a morte do réu o encerrou. No entanto, em 1819, a prática corrente do uso da cereja preta ainda se mantinha, e a Câmara, em representação, alude ao facto de ser uma das causas do descrédito dos vinhos, obtendo pronta resposta do governador D. Diogo Forjaz Coutinho, quebrando, desta forma, a cultura de cerejeiras do atual município.

O testemunho da riqueza da Ribeira Brava, nomeadamente gerada pelo açúcar, está patente na igreja principal da invocação de S. Bento, expressa na decoração e riquíssimo espólio de pratas e nas inúmeras capelas com legados. A gratidão do rei D. Manuel pelos benefícios que esta terra lhe concedera, em direitos e bravura dos seus guerreiros, está expressa na oferta simbólica da pia batismal.

Património

Na Ribeira Brava, destaca-se a igreja matriz da freguesia sede do concelho, onde Manuel Álvares foi batizado e onde recebeu, com o irmão Francisco, em 1538, a primeira tonsura e os primeiros passos no estudo do latim.

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Casa solarenga, 1760 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria e alvenaria pintada, 1760 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Largo da Igreja, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.

A primitiva construção no local foi uma capela, que já existia em 1440, sendo vigariaria em 1518 e colegiada em 1540, com quatro beneficiados. Embora tenha sido bastante alterada com as remodelações, mantiveram-se alguns elementos quinhentistas: dois arcos góticos, o púlpito com um anjo na base e a pia batismal, oferta do rei D. Manuel, como foi referido. Das peças mais significativas, constam, na pintura, a Adoração dos Reis Magos e Adoração dos Pastores ou Natividade, a Virgem com o Menino, S. Bento e S. Bernardo; na escultura, a Virgem com o Menino, escultura flamenga do séc. XVI, e S. Pedro. Consideradas como dádivas de D. Manuel, mas pagas pela Fazenda Régia no Funchal, há ainda a pia batismal e a Descida da Cruz. Outro aspeto significativo é o tesouro da igreja, da qual se fez um núcleo museológico na sacristia.

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Arco da capela de Nossa Senhora de Loures, 1680 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Reforma de 1680 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.
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Altar-mor da matriz da Ribeira Brava, 1680 e 1750 (c.), ilha da Madeira. Talha dourada e policromada. Oficina de Manuel Pereira de Almeida (?), 1680 (c.), acrescentado em 1750 (c.). Fotografia de 22 de Junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.
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Lampadário da Ribeira Brava, 1630 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Prata. Oficina de Marcos Agostinho (atr.), 1630 (c.). Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.

Ainda na vila, há a assinalar várias capelas e um oratório franciscano, dedicado a Nossa Senhora da Porciúncula. A 12 de maio de 1724, os frades deram início à construção do oratório, financiado por um legado testamentário do beneficiado, o P.e Inácio Ferreira Garcês. Sabemos que, em 1730, eram seis os religiosos neste estabelecimento. Em 1732, era intenção transformá-lo num convento, contudo, o bispo D. Fr. Manuel Coutinho não deu autorização. O oratório foi desativado com a Revolução Liberal e sabemos que em 1835 servia de açougue.

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Altar do Santíssimo da Ribeira Brava, 1730 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Madeira dourada e policromada. Oficina de Manuel Pereira de Almeida e de Julião Francisco Ferreira (atr.), 1730 (c.). Óleo sobre madeira, cópia de retábulo flamengo, hoje no Museu de Arte Sacra. Fotografia de 22 de Junho de 2011.
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Sacrário do altar do Santíssimo da Ribeira Brava, 1680 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Madeira dourada e dourada. Oficina de Manuel Pereira de Almeida (atr.), 1680 (c.). Fotografia de 22 de Junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.

No Campanário, o primitivo templo foi destruído e erguido outro no seu lugar em 1963. A primeira informação que temos relativamente ao vigário data de 1518. Devido ao estado de ruína da Igreja de S. Brás, em 1532 a Coroa ordenou a sua reconstrução, tendo custado 87.000 réis. Na freguesia, surgiram outras capelas particulares com encargos: de Nossa Senhora do Carmo, de Nossa Senhora do Bom Despacho, de Nossa Senhora da Conceição, na Fajã dos Padres, de Nossa Senhora da Glória, de São João Baptista e de Nossa Senhora do Rosário.

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Crucifixo, 1680 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Madeira entalhada e policromada. Reforma de 1680 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.

Na Serra de Água, a primeira capela foi instituída por Beatriz Rodrigues Neto, em 1531, com a invocação de Nossa Senhora da Ajuda. Em 1598, foi ordenada a sua ampliação, o que significa que já funcionava, tendo a paróquia sido criada por alvará régio de 28 de dezembro de 1676. Teve capelão em 1680. De todos os templos, é o mais simples e aquele que expressa o nível de riqueza dos seus moradores.

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Varas de pálio (?), 1800 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira.Prata, 1800 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.
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Pia de água benta da matriz da Ribeira Brava, 1520 (c.), ilha da Madeira. Calcário brecha da serra da Arrábida. Oficina régia (?), 1520 (c.) Lado da Epístola da entrada principal. Fotografia de 22 de junho de 2011. Matriz de São Bento da Ribeira Brava, ilha da Madeira.

A Tabua é mais antiga e o templo revela maior opulência. Sabemos que, em 1618, havia aí um vigário. A primitiva igreja da Santíssima Trindade foi construída por João Vaz, escudeiro. Em finais do séc. XVI, foi destruída por uma aluvião, servindo de paróquia a capela da Madre de Deus, tendo a nova igreja paroquial sido construída apenas em 1696. Apresentam também manifestações dessa riqueza agrícola as capelas da Candelária ou de Nossa Senhora das Candeias, de Nossa Senhora da Conceição, de Nossa Senhora dos Anjos, da Mãe de Deus e da Senhora da Madre de Deus.

 

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Roda de moinho do engenho do antigo solar de São José, 1860 (c.), Museu Etnográfico da Ribeira Brava, ilha da Madeira. Ferro, 1860 (c.), posteriormente reposta. Museu Etnográfico da Ribeira Brava. Projeto do atelier do arquiteto Francisco Caíres, 1995. Fotografia de 22 de junho de 2011. Ilha da Madeira.

O Museu Etnográfico da Madeira é uma referência na vila desde 1994. Espaço ligado à vida rural, contribui para preservar os restos de um engenho e moinho de cereais. Aqui funcionou, desde 1853, o engenho de José Maria Barreto e C.ª. De entre as principais tradições do lugar, podemos salientar a dança das espadas e as castanholas da Tabua.

Personalidades

Em 1533, no cerco de Santa Cruz do Cabo de Gué, em Marrocos, “acharam-se nesta jornada muitos homens fidalgos nobres e cavaleiros da ilha, entre os quais foram da Ribeira Brava, Manoel de Barros, e Gaspar Vilela, o qual levou neste socorro quinze homens à sua custa, e lá esteve cinco vezes servindo a El-Rei: e nesta companhia foram também João Henriques, Simão de Miranda, João Fernandes de Abreu, e Luis Doria, todos naturais da ilha” (FRUTUOSO, 1979, 287).

Em 1722, Henrique Henriques de Noronha afirmava que a Ribeira Brava foi “[…] residência de muita nobreza antiga, pelo que se veem no seu distrito muitos morgados nobres, e rendosos” (NORONHA, 1996, 220), dividindo a sua vida entre este lugar e o Funchal. Estas famílias adquiriram importância económica, mas também social, por força do seu envolvimento nas campanhas africanas e no Oriente, recebendo títulos e comendas da coroa. Podemos, pois, afirmar que a Ribeira Brava foi lugar de gente ilustre, possuidora de títulos nobiliárquicos.

João de Betencourt foi para a Madeira em 1448 com o seu tio Maciot de Betencourt, que havia vendido a ilha de Lanzarote ao Infante D. Henrique, fazendo assentamento na Banda de Além. Aí instituiu morgado que esteve na origem de uma das mais importantes famílias da ilha, que se evidenciou nas praças marroquinas e orientais. Em 1524, com sua mulher, Isabel Fernandes, fundou a capela de Nossa Senhora da Apresentação. Sabemos ainda que um João de Betencourt foi capitão de Malabar.

Diogo de Teive, escudeiro da Casa Real, um dos primeiros povoadores da ilha, recebeu sesmarias na Ribeira Brava. O seu nome ficou célebre por ter sido um dos primeiros a aventurar-se na descoberta das terras ocidentais, de que resultou o descobrimento das ilhas de Flores e Corvo, em 1452. Nesse mesmo ano, recebeu, a 5 de dezembro, autorização do Infante D. Henrique para construir um engenho de água, o primeiro engenho particular da ilha. Esteve, ainda, na Terceira, em companhia de Jácome de Bruges, dando início à ocupação da ilha, que abandonou, em face do desaparecimento enigmático deste último. Os seus descendentes relacionaram-se com Castela, assumindo funções importantes no período da união das duas coroas. Em 1640, com a Restauração, o morgadio dos Teives passou para a Coroa, que o arrendou a particulares. Desde então, parece que nunca mais os Teives regressaram à posse dos seus bens e a pisar o solo do lugar.

A estes junta-se outro descobridor, Fernando Pó, que, entre 1471 e 1473, descobriu a ilha que lhe deu o nome no Golfo da Guiné.

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Armas do visconde da Ribeira Brava, 1910, Câmara Municipal da Ribeira Brava, 1776, ilha da Madeira. Cantaria rija esculpida, 1910. Antigo solar dos Herédias, 1776 (c.) Câmara Municipal da Ribeira Brava. Fotografia de de 22 de junho de 2011. Ribeira Brava, ilha da Madeira.

António Correia Herédia, Visconde da Ribeira Brava e figura marcante da política, entre finais do séc. XIX e os primeiros 18 anos do séc. XX, conduz até à época contemporânea o panteão de figuras ilustres. Descende de António Herédia, militar castelhano que veio para a ilha no período da união das duas coroas, sendo capitão do presídio político. Republicano convicto, com o alvorecer da República, teve uma carreira política fulgurante, batendo-se pela terra que o viu nascer. Em 1911, com a criação da Junta Agrícola, empenhou-se no plano de reconversão agrícola a que ela estava vocacionada. A promoção de viveiros agrícolas e de arborização e o desenvolvimento do plano viário são alguns dos objetivos alcançados. Foi através dele que chegaram à ilha alguns negros cabo-verdianos, ao abrigo de um programa de proteção contra a fome, tendo chegado algumas dezenas, em 1913, para trabalhar no campo experimental da Bica da Cana. As dificuldades de adaptação foram imensas, contando com a oposição dos locais, como se pode verificar pelos periódicos pontassolenses.

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Portal seiscentista da antiga Rua do Colégio, 1620 (c.), Ribeira Brava, ilha da Madeira. Cantaria e alvenaria pintada, 1620 (c.). Fotografia de 22 de junho de 2011. Antiga Rua do Colégio, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.

Foi na área das Humanidades que se destacou um dos mais notáveis ribeira-bravenses, cujo nome chegou a todo o mundo. Trata-se de Manuel Álvares, nascido em 1526. Aos 20 anos, entrou para a Companhia de Jesus, onde se afirmou como um notável professor de Humanidades. Foi Reitor do Colégio das Artes em Coimbra (1561-1566) e, depois, da Universidade de Évora (1573) e do Colégio de Santo Antão (1574-1575). A fama não resultou do exercício destas funções, mas sim da sua obra: a Arte de Grammatica, De Institutione Grammatica Libri Tres, De Mensuris Ponderibus et Numeris, Tratado Breve das Medidas, Pesos e Moedas, Epitaphium Principis Ludovici ou Oratio de Laudibus Regis Joannis I II. Contudo, merece especial destaque aquela que é considerada a sua obra-prima e a mais conhecida em todo o mundo, a Gramática Latina, publicada em 1572, que veio revolucionar o ensino do latim a nível mundial. Pelas mãos dos Jesuítas, espalhou-se por todo o mundo, tendo conhecido 530 edições até ao séc. XIX. Em Portugal, esta foi apenas destronada pelo ódio do Marquês de Pombal à Companhia de Jesus, que levou à sua proibição pelo alvará de 20 de junho de 1759. A memória deste ilustre ribeira-bravense está sinalizada no busto do escultor Amândio de Sousa, inaugurado na vila em 1972, e no nome da escola secundária do concelho.

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Padre Manuel Álvares, Amândio de Sousa, 1972, Ribeira Brava, ilha da Madeira. Insc: Padre Manuel Álavres 1526-1583, Autor da Arte da Gramática (De Institutione Grammatica). Homenagem do Município. Bronze, 62,5 cm. Amândio de Sousa, 1972. Inaugurado a 1 de Agosto de 1972. Fotografia de 22 de Junho de 2011. Largo da Igreja, Ribeira Brava. Ilha da Madeira.

Juntam-se outros, anónimos, que fizeram desta escarpa um local aprazível. Merecem relevo especial os escravos, mouriscos ou negros. Uns e outros adquirem importância na Ribeira Brava pelo facto de aqui existirem casas com ligações à vida agrícola e façanhas bélicas na costa africana. Note-se que foi na Ribeira Brava e no Funchal que mais se manifestou a presença de escravos na Madeira, tendo sido uma constante até à sua proibição pela Coroa, em 1597, resultado das presas de guerra da costa marroquina, troféu que os guerreiros ostentavam aos seus semelhantes e súbditos. No global, a freguesia da Ribeira Brava é uma das que apresenta maior percentagem de escravos, sendo esta de 17 % no séc. XVI. Desses proprietários, merece destaque Francisco Álvares de Atouguia, senhor de 10 escravos. Era uma terra de guerreiros, de proprietários de canaviais e, por isso mesmo, de escravos: os canaviais geravam a necessidade, as façanhas bélicas uma forma de os conseguir.

A corrente migratória resultante do descontentamento gerado em face da conquista e ocupação do arquipélago canário iniciara-se já por volta de meados do séc. XV, sendo seu arauto Maciot de Betencourt. O sobrinho do primeiro conquistador das Canárias, amargurado com o evoluir do processo e em litígio com os interesses da burguesia de Sevilha, cedeu o direito do senhorio de Lanzarote ao infante D. Henrique mediante avultada soma de dinheiro, fazendas e regalias na Madeira. Iniciava-se assim uma nova vida para esta família de origem normanda, que das Canárias passa à Madeira e aos Açores, relacionando-se aí com a principal nobreza da terra, o que lhe valeu um lugar de relevo nas sociedades madeirense e micaelense do séc. XV. Acompanharam o desterro de Maciot de Betencourt a sua filha Maria e os sobrinhos e netos Henrique e Gaspar. Todos eles conseguiram uma posição de prestígio e avultadas fazendas mercê do relacionamento matrimonial com as principais famílias da Madeira. Maria Betencourt, por exemplo, casou-se com Rui Gonçalves da Câmara, filho segundo do capitão do donatário do Funchal e futuro capitão do donatário da ilha de S. Miguel. Como já referido, João de Betencourt e os seus descendentes tiveram uma intervenção na vida municipal e na defesa das praças africanas, deixando o seu nome nos anais dos feitos de África, do Brasil e da Índia.

Os Teives são uma família que, segundo Henrique Henriques de Noronha, começa com Diogo de Teive, que foi para a Ribeira Brava, onde teve fazendas e criou um morgado, reconhecido por provisão régia de 1531, em nome de seu filho Gaspar de Teive. Diogo de Teive, seu neto, nasceu na Ribeira Brava em 1540, filho de Gaspar de Teive. Ao ir para o Reino, acabou por adquirir um papel de relevo junto de Filipe II, de quem foi pajem e depois gentil-homem. O rei Filipe II gratificou os seus serviços com o título de senhor na vara de Aguazil, no Panamá, e uma comenda de 4000 pesos. Teve uma ligação ao Peru, onde faleceu.

Por fim, é de referir João Augusto Pereira (1857-1915), militar e adepto da monarquia, que nasceu na Ribeira Brava, a 25 de maio de 1857. Frequentou as escolas Politécnica e do Exército. Na Madeira, foi comandante de Bateria n.º 3 de Artilharia de Montanha. Entre 1899 e 1910, assumiu as funções de deputado às Cortes, que abandonou com a implantação da República, que o levou a deixar a vida política ativa. Como deputado, defendeu os interesses mais prementes da ilha e teve, em 1900, a ousadia de apresentar um projeto de autonomia administrativa, cuja existência se desconhece nos arquivos da Assembleia.

Na História recente de finais do séc. XX, devemos referenciar João Inocêncio Camacho de Freitas (1899-1969), Governador Civil da Madeira, e Luís Mendes (1932-1987) e a sua ação em prol do concelho, merecendo este último, por isso, um busto na vila, erigido em 1984.

Bibliog.: ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, DRAC, 1981; CAMACHO, Rui, “A Dança das Espadas da Ribeira Brava. Apontamentos para o seu Estudo”, Xarabanda, n.º 8, 1993, pp. 32-35; CARITA, Rui, Paulo Dias de Almeida, Tenente Coronel do Real Corpo de Engenheiros e a sua Descrição da Ilha da Madeira de 1817/1827, Funchal, DRAC, 1982; Id. (org. e dir.), Vila da Ribeira Brava, Funchal, Cine Forum do Funchal, 1983; Id., História da Madeira: As Crises da 2.ª Metade do Século XVI: 1566-1600, vol. 2, Funchal, Secretaria Regional da Educação, Juventude e Emprego, 1991; Id., “Le Trésor de Ribeira Brava”, in MUSÉE D’ART ANCIEN, Portugal et Flandre: Visions de l’Europe (1550-1680), Bruxelles, Fondation Europalia International, 1991, pp. 182-187; Id., “A Matriz da Freguesia da Ribeira Brava”, Islenha, n.º 19, jul.-dez. 1996, pp. 53-60; CASTRO, Afonso, Relatorios e Documentos Apresentados á Junta Geral do Districto do Funchal em 1 de Março de 1878, Funchal, Typ. Liberal, 1878; CASTRO, José de, As Victimas d’El-Rei: História dos Processos Movidos contra os Perseguidos Políticos da Ilha da Madeira, desde 29 de Junho de 1884 até ao Anno de 1885, Lisboa, Typ. Popular, 1885; COSTA, António Carvalho, Corografia Insulana, in NASCIMENTO, João Cabral do (org. e notas), Documentos para a História das Capitanias da Madeira, Lisboa, s.n., 1930; COSTA, José Pereira da, Introdução, in ÁLVARES, Padre Manuel, Gramática Latina, fac-símile da ed. de 1572, Funchal, JGDAF, 1972; Id., Vereações da Câmara Municipal do Funchal: Primeira Metade do Século XVI, Funchal, CEHA, 1998; FERNANDES, Mariela Justino Pio, Riscos no Concelho da Ribeira Brava: Movimentos de Vertente, Cheias Rápidas e Inundações, Dissertação de Mestrado em Dinâmicas Naturais e Riscos Naturais apresentada à Universidade de Coimbra, Coimbra, texto policopiado, 2009; FRANÇA, João, Ribeira Brava, Porto, ed. Manuel Barreira, 1954; FRUTUOSO, Gaspar, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1979; GOMES, J. L. de Brito, “Reçençeamento dos Foguos Almas Fregesias, e Mais Igrejas que Tem a Ilha da Madeira Tirado pellos Rois das Confições, assi em Geeral como em Particular”, Arquivo Histórico da Madeira, vol. II, n.º 1, 1932, pp. 28-35; GUERRA, Jorge Valdemar e VERÍSSIMO, Nelson, “O Hospício Franciscano e a Capela de S. José da Ribeira Brava”, Islenha, n.º 19, jul.-dez. 1996, pp. 61-94; MELO, Francisco Manuel de, Epanáfora Amorosa: Descobrimento da Ilha da Madeira Ano 1420: A Lenda e a História Acerca do Par Amoroso Machim e Ana de Harfet as Viagens de João Gonçalves Zarco por D. Francisco Manuel de Melo Baseado na Famosa Relação de Francisco Alcoforado Aqui Incluída: Obra de Divulgação e Cultura (Literatura e História), texto crit. e notas inform. por José Manuel de Castro, Lisboa, Livraria Ler, 1975; MENEZES, Sérvulo Drummond de, Uma Epoca Administrativa da Madeira e Porto Santo, a Contar do Dia 7 de Outubro de 1846, Funchal, Typ. Nacional, 1849-1852; NORONHA, Henrique Henriques, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira (datado de 1722), transcr. e not. Alberto Vieira, Funchal, CEHAM 1996; PAES, Teresa, “Perfil Político do Visconde da Ribeira Brava”, Atlântico, n.º 3, outono 1985, pp. 218-223; PINTO, Maria Luís Rocha e RODRIGUES, Teresa Maria Ferreira, “Aspectos do Povoamento das Ilhas da Madeira e Porto Santo nos Séculos XV e XVI”, in Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, CEHA, 1989, p. 403-420; RIBEIRO, João Adriano, “As Serras de Água na Capitania de Machico: Séculos XV-XVII”, in Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, CEHA, 1989, pp. 115-135; Id., Ribeira Brava: Subsídios para a História do Concelho, Ribeira Brava, Câmara Municipal de Ribeira Brava, 1998; SARMENTO, Alberto Artur, Corografia Elementar do Arquipélago da Madeira, 2.ª ed., Funchal, s.n., 1936; TRINDADE, Ana Cristina Machado, A Moral e o Pecado Público na Madeira na Segunda Metade do Século XVIII, Funchal, CEHA, 1999.

Alberto Vieira

(atualizado a 09.09.2016)