ribeiro, antónio manuel pereira (bispo do funchal)

A 16 de fevereiro de 1879, nasceu em Friande, Póvoa do Lanhoso, António Manuel Pereira Ribeiro, filho de Duarte Pereira Dias Ribeiro, farmacêutico, e de Deolinda Rosa da Silva Pereira Ribeiro. Dez anos depois, em outubro de 1889, entrou para o colégio jesuíta de São Fiel, no Louriçal e nele concluiu os seus estudos preparatórios. Foi, de seguida, para Coimbra, prosseguir a formação, que completou em 1900, com a licenciatura em Teologia. Ainda aluno de faculdade, recebeu ordens menores pela mão do arcebispo de Braga, mas como, quando se licenciou, era demasiado novo para receber a ordenação presbiteral, ocupou-se na lecionação e em obras sociais. Regressado ao Minho, instalou-se em Viana, tornando-se redator do periódico A Cruz, pertencente ao Círculo Católico de Operários de Viana do Castelo. Paralelamente, em 1901, D. António foi professor do liceu da cidade e, a 13 de outubro do mesmo ano, recebeu ordens maiores. Em 1904, o bispo de Bragança, D. José Alves de Mariz, convidou-o para codirigir, na posição de vice-reitor, o seminário da sua diocese, funções a que se acrescentavam as de professor de ciências eclesiásticas naquela escola e, ainda, as de examinador pós-sinodal. Aí se encontrava quando foi nomeado para a sé do Funchal, na qualidade de cónego, por decreto de 24 de abril de 1905 e carta régia de 27 de maio.

Tomou posse do cargo a 3 de julho e instalado na sua nova diocese, retomou o antigo estatuto de jornalista, com o qual fundou o diário católico O Jornal, que foi publicado entre 1906 e 1910, tendo igualmente sido o responsável, a partir de 1908, pela Quinzena Religiosa, órgão oficial do bispado. Esta deslocação de António Ribeiro, de Bragança para o Funchal, sobretudo com o estatuto de cónego, para ocupar um lugar muito apetecido pelo clero funchalense, não deixa de ser estranha. Com efeito, uma das longas e quase permanentes lutas sustentadas pelos eclesiásticos madeirenses, ainda que de vez em quando protagonizadas por outros órgãos do poder local, como a Câmara Municipal do Funchal ou a Provedoria da Fazenda, era precisamente a da salvaguarda dos provimentos dos benefícios em naturais da terra, pelo que esta situação se faz invulgar. A explicação para ela poderá estar na forma como o clérigo desempenhou o lugar de vice-reitor do seminário de Bragança “em cujo cargo correu iminente perigo de vida numa sublevação do curso teológico”, que assim reagia contra o que considerava ser um excesso de disciplina, no dizer de Eduardo Pereira (PEREIRA, 1968, II, 455). A sublevação despertou a atenção da imprensa nacional, que não deixou de a referenciar, tendo, até, tido honras de debate parlamentar. Seria, portanto, este o motivo da inopinada partida de D. António, removido, por razões de segurança, para uma diocese bem afastada de Trás-os-Montes.

A 29 de junho de 1911, três dias depois da morte de D. Manuel Agostinho Barreto, bispo em cujo episcopado o cónego chegara à Madeira, viu-se António Ribeiro promovido à categoria de vigário capitular da diocese, por decisão do cabido, reunido para decidir do destino do bispado. Enquanto vigário capitular, D. António começou por se preocupar com as práticas de doutrinação dirigidas, sobretudo, às crianças. Com o objetivo de fomentar o ensino da catequese, determinou criar, em todas as paróquias do arquipélago, a confraria da doutrina cristã e, a provar o empenho que fazia na divulgação destas práticas, dava ele próprio o exemplo, encarregando-se de catequizar um grupo de crianças todos os dias da semana na capela da Penha França. Ainda na mesma linha de cuidados, D. António fundou a obra de S. Francisco de Sales que se materializou na abertura de várias escolas. Quando estes estabelecimentos se debatiam com falta de financiamento e o problema lhe era apresentado, D. António Ribeiro respondia invariavelmente que o importante era não deixar encerrar as escolas, custasse o que custasse.

Atendendo a que, em 1911, se decretou a lei da separação entre igreja e o Estado, e que essa legislação trouxe sérios problemas de sustentação ao clero, o vigário capitular instituiu um fundo destinado a garantir aos eclesiásticos os meios necessários à subsistência, alcançando, assim, “o que mais nenhum prelado do continente logrou ali efetuar” (SILVA, 2012, 15). A esta iniciativa, e dentro do mesmo espírito, António Ribeiro viria, mais tarde, já como bispo, a juntar uma outra – a da Obra de S. José, uma espécie de organização de socorros mútuos destinada a acudir a sacerdotes velhos e doentes.

Ainda enquanto vigário capitular, o cónego implantou na região as conferências de S. Vicente de Paulo com o objetivo de socorrer os mais pobres, e criou a Obra da Entronização do Sagrado Coração de Jesus, que se destinava a promover uma das particulares devoções de António Ribeiro, o qual apelava à população para que, em casa e em lugar de destaque, tivesse uma imagem do Sagrado Coração de Jesus. Além destas iniciativas, António Ribeiro introduziu na Madeira o lausperene, com pregação diária durante a quaresma, e fundou a Juventude Católica do Funchal.

Em 1910, e tendo por motivo a saída dos padres da Missão, até então incumbidos da docência no seminário do Funchal, o vigário capitular ficou encarregado da direção do estabelecimento, ofício que exerceu até ao encerramento da instituição decretado pela república, em 20 de junho de 1911. O seminário continuaria, contudo, na lista das suas preocupações, voltando o edifício a ser nominalmente devolvido à diocese em 1927, com o advento da ditadura. A posse efetiva, contudo, só chegaria em 1933, fruto da mudança dos serviços da Junta Geral, que se tinha servido daquelas instalações para sede, para o centro da cidade, ocupando o antigo prédio da Misericórdia do Funchal, agora transferida para o Hospital dos Marmeleiros.

A 2 de outubro de 1914 e perante alguma surpresa para “o meio social da época”, o vigário capitular foi indigitado bispo do Funchal, escolha que não desagradou à grande maioria dos fiéis (PEREIRA, 1968, II, 455). Esta decisão, que corresponde, também, à primeira nomeação episcopal que se fez depois da implantação da república, materializou-se na sagração do prelado, ocorrida a 7 de fevereiro de 1915 na igreja de S. Domingos, em Viana do Castelo. A cerimónia foi realizada junto ao túmulo de frei Bartolomeu dos Mártires e nela se utilizou o cálice com que o venerando arcebispo de Braga celebrava. Depois da sagração, D. António Ribeiro tomou posse da diocese por procuração, a 18 de fevereiro de 1915 e fez entrada solene no bispado a 7 de março seguinte.

Ao tempo em que iniciou as suas funções episcopais, na saudação pastoral que endereçou à população da Madeira, o bispo, depois de apelar à doutrinação, à prática dos sacramentos e à disciplina eclesiástica, exortou, ainda, à atenção que se devia conceder às obras católicas já fundadas, de que eram exemplos a União Apostólica, a obra de S. Francisco de Sales, as conferências de S. Vicente de Paulo, a Associação das Senhoras Católicas, a Associação Católica e a Juventude Católica.

Ao longo do exercício das suas funções pastorais, D. António Ribeiro centrou as suas preocupações na doutrinação, no alcoolismo, fenómeno que assolava a sociedade, no caráter excessivamente profano das festas religiosas, na falta de contas dadas na sequência dos peditórios, na falta de vocação para a carreira eclesiástica, o que verdadeiramente o afligia e motivava apelos aos pais de família para que se mostrassem sensíveis ao possível despertar da vocação sacerdotal dos filhos, abstendo-se, porém, de os forçar.

Outra das caraterísticas que marcaram este episcopado foi a das devoções a que o prelado mais se encontrava ligado, e que acabaram por deixar marcas na diocese. Uma delas, já referida, era ao Sagrado Coração de Jesus, ao qual foi o bispado solenemente consagrado, a 27 de junho de 1924 e em cuja honra se fez a estátua do Cristo-Rei no Garajau, inaugurada a 30 de outubro de 1927, a qual, ainda que financiada pelo conselheiro Aires de Ornelas Vasconcelos, filho do último morgado do Caniço, não deixa de refletir um particular sentimento do prelado. No âmbito desta devoção, cabe salientar que, a 17 de janeiro de 1947, desembarcaram no Funchal os primeiros sacerdotes do Sagrado Coração de Jesus, ou Dehonianos, a quem o bispo, em primeira instância, determinou que se alojassem no colégio dos salesianos enquanto aprendiam a língua. A 17 de outubro desse mesmo ano, com um desígnio já mais amadurecido, os Dehonianos saíram dali para fundar o Colégio Missionário do Sagrado Coração, que, na altura, contava com 10 alunos.

Outra das devoções de D. António foi ao Imaculado Coração de Maria, e dela também a Madeira ostenta, hoje, permanências. Assim, em peregrinação realizada ao Terreiro da Luta, em 1933, a diocese foi-lhe consagrada, tendo, na mesma altura, o prelado exprimido a intenção de construir um templo daquela invocação. As obras dessa igreja tiveram início 15 anos depois, vindo a primeira pedra do novo templo de Fátima, por diligências do bispo de Leiria. O edifício estaria mais ou menos concluído em 1954, ano em que, a 26 de novembro, se constituía, igualmente, a paróquia do Imaculado Coração de Maria.

Outra das ações duradouras de D. António Ribeiro foi a da divisão da diocese em cinco arciprestados: Funchal, Santa Cruz, Calheta, Câmara de Lobos e São Jorge, com o fim de melhor se poder olhar pelos bens da igreja. Podemos também referir a reforma da música sacra em todo o arquipélago, como resposta à publicação, pelo papa Pio X, do motu proprio Tra le Sollecitudine, que modificava as práticas musicais dentro das igrejas, depurando-as de profanidades e restaurando o canto gregoriano.

O episcopado de D. António Manuel Ribeiro decorreu num contexto político pouco estável, na medida em que, quando ascendeu à mitra do Funchal, estava em vigor a Primeira República, a qual caiu com o golpe de estado de 28 de maio de 1926, para dar lugar, primeiro, a uma ditadura militar e, depois, a partir de 1933, ao Estado Novo. Ainda em tempo da República fundou-se um partido político, o Centro Católico, que, em 1919, pretendia apresentar-se a eleições para “cristianizar as leis” (PITA, 2015, 423). Na Madeira, nas eleições de 1921, o Centro falhou a eleição de um deputado, o que logo mereceu críticas na imprensa, oriundas até de indivíduos ligados à igreja como é o caso do Dr. Antonino Pestana, que no Diário de Notícias não se eximia de tornar públicas as observações que lhe pareciam pertinentes. Afirmava o periodista que havia “mais preocupação em cultivar os coros femininos na Semana Santa e psicopatias piedosas em toda a roda do ano, do que em restaurar o reino de Deus em toda a sociedade; com catequeses para todas as idades, com sindicatos agrários e industriais, com centros de leitura e escolas, com ‘juventudes’ a valer, cooperativas, etc., etc.”, afirmações que continham uma alusão implícita à forma como se estava a proceder à governação da diocese (DN, 16 jul. 1921, 1).

Uns dias depois, e na sequência de apreciações menos abonatórias ao artigo anterior, o Dr. Antonino voltava a insistir que o caminho a percorrer pela igreja tinha de ser outro e deixava um repto “Porque não se lança o clero rural no caminho do cooperativismo? Porque não se ministram aos candidatos à vida eclesiástica ensinamentos práticos de economia política e economia social?”, isto porque, e de acordo com o seu entendimento, nas “jornadas indecisas da política”, o povo preferia o “pão da boca à agua benta, o crédito à indulgência” (PITA, 2015, 423). Este não era, porém, o modo de ver as coisas do prelado, que preferia insistir em caminhos que lhe eram mais familiares e que passavam por chamar para a Ilha instituições e congregações religiosas da sua preferência, entre as quais se contam a Escola de Artes e Ofícios, fundada pelo padre Laurindo Pestana, em 1921, e que, em 1925 foi entregue aos salesianos e à Liga da Ação Social Cristã (1922). A estas organizações juntaram-se os Irmãos de S. João de Deus (1922), as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração, e a Apresentação de Maria (1922). Em paralelo, a Juventude Católica mostrava-se um organismo dinâmico, promovendo a realização de conferências que traziam à Madeira figuras de primeiro plano da cena política e religiosa nacional: o padre Cerejeira, futuro cardeal patriarca (1924), Salazar (1925), Mário de Figueiredo (1925) e António Lino Neto, presidente do Centro Católico (1926).

As relações mantidas entre o prelado e o governo de Salazar foram sempre boas, e atestam-se, p. ex., na autorização episcopal para que no órgão de comunicação afeto à diocese, O Jornal, se publicassem artigos em que enaltecia a figura de Salazar, escrevendo o redator, o padre João Vieira Caetano, que o líder português possuía as virtudes de Hitler e Mussolini, sem, no entanto, lhes partilhar os defeitos. Outro dos sinais da grande sintonia entre o bispo e o regime foi dado na entusiástica receção que o Funchal preparou a D. Manuel Cerejeira, quando, em 1944, o cardeal passou pela cidade a caminho de Lourenço Marques, hoje Maputo. No dia 17 de julho, data em que o navio que transportava o prelado aportou ao Funchal, O Jornal publicava, com destaque, uma notícia que dava conta da felicidade do povo madeirense por, seis anos depois da visita do general Carmona, ser bafejado pela presença do cardeal, considerando que “Aos dois chefes, do temporal e do espiritual, anima um propósito comum: – a grandeza da pátria; porque Portugal foi criado, consolidado e alargado pelo heroísmo dos homens e pela força da sua Fé!” (PITA, 2015, 423). O Diário de Notícias, outro periódico do Funchal, partilhava idêntica postura, saudando também, de forma não menos exuberante, a visita de sua eminência à Madeira.

A aceitação manifestada pelo prelado em relação à governação nacional acabaria por ser recompensada pela atribuição, pelo governo português, da Grã-Cruz da Ordem de Cristo, em abril de 1940, distinção complementada posteriormente com o título de prelado assistente do sólio pontifício, que ocorreu em 1946.

Por se sentir idoso e doente, já na segunda metade do episcopado, solicitou D. António Ribeiro os serviços de um bispo auxiliar, tendo a escolha recaído na pessoa de D. Manuel de Jesus Pereira. Este chegou à Madeira, como bispo titular de Preneto e auxiliar do Funchal, a 10 de outubro de 1948, dando assim início a uma permanência de cinco anos na diocese. Já mais refeito da saúde, D. António Ribeiro acabaria por o dispensar em 1953, permitindo a D. Manuel de Jesus a assunção de um lugar na diocese de Coimbra, de onde passou à de Bragança, como bispo, em 1965.

No Funchal, continuou D. António Pereira Ribeiro a desempenhar as suas funções episcopais até que a morte o levou, a 12 de março de 1957, ficando sepultado na igreja do Imaculado Coração de Maria.

Bibliog. impressa: ALMEIDA, José Fortunato de, História da Igreja em Portugal, vol. III, Barcelos, Livraria Civilização, 1970; Diário de Notícias, Funchal, 16 jul. 1921; PITA, Gabriel, “A Diocese do Funchal e o Estado Novo. Abordagem ao relacionamento entre Poder Religioso e o Poder Político”, in 500 Anos da Diocese do Funchal, História, Cultura e Espiritualidades, vol. I, Funchal, Esfera do Caos, 2015, pp. 419-436; PEREIRA, Eduardo C. N., Ilhas de Zargo, vol. II, 3.ª ed., Funchal, CMF, 1968; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, Funchal, DRAC, SRTC, 1984; SILVA, Paulo Sérgio Cunha da, D. António Manuel Pereira Ribeiro, Bispo do Funchal, 1915-1957, Dissertação de Mestrado em Teologia apresentada à Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, texto policopiado, 2012; SILVA, Porfírio Pereira, “D. António Manuel Pereira Ribeiro e a sua Sagração em Viana do Castelo”, A Falar de Viana, vol. XII, jun. 2006; digital: “Aires de Ornelas (1866-1930)”, Autores/Escritores da Madeira: http://escritoresdamadeira.no.sapo.pt/Aires_de_Ornelas/ (acedido a 17 ago. 2015); MOTA, Nuno, Entre o Culto Religioso e o Serviço do Povo: o Seminário da Encarnação no Primeiro Terço do Séc. XX: http://www.arquivo-madeira.org/item2_detail.php?lang=0&id_channel=23&id_page=200&id=37 (acedido a 14 ago. 2015); “Colégio Missionário”, Dehonianos: http://www.dehonianos.org/portal/pastoral_ver.asp?artigoid=55 (acedido a 17 ago. 2015).

Ana Cristina Machado Trindade

Rui Carita

(atualizado a 27.02.2016)