rodrigues, adolfo de sousa

Nascido a 13 de janeiro de 1867 no Funchal, filho de Pedro Rodrigues e de Leonilda Amélia de Sousa Rodrigues, Adolfo de Sousa Rodrigues (1867-1908) casou com Maria Rosa Alves Rodrigues. Matriculou-se em 1883 no curso Geral de Desenho da Escola de Belas-Artes de Lisboa e, em 1888, acabado este curso, prosseguiu os estudos em Pintura Histórica, sob a orientação de Ferreira Chaves. Enquanto aluno desta escola obteve vários prémios (medalha de bronze no segundo ano do curso de desenho, no primeiro ano de pintura o Prémio Anunciação e, em 1892, uma medalha de prata e 30$000 réis. Terá passado algumas dificuldades económicas, pois há notícia da intercessão do Conselheiro Agostinho Ornelas de Vasconcelos para que recebesse subsídio da Junta Geral da Madeira, a fim de prosseguir os estudos (MACEDO, 1951, 210). Efetivamente, a profissão do pai, natural de San Jorge de Villar, Pontevedra, «marcieiro», conforme consta da certidão de batismo, não permitia suportar estudos em Lisboa.

Expôs no Grémio Artístico, em 1891, três paisagens da Madeira (Catedral do Funchal, Baía de Câmara de Lobos e Passo da Corda) e ainda Ponta dos Corvos, Nascer do Sol e o estudo Cabeça de Preto (n.º catálogo exposição: 124-129), e no ano seguinte três óleos – À Porta da Taberna (adquirido por D. Carlos), Cabeça de Ovarina e Descanso – e uma aguarela, A Leiteira (n.º catálogo exposição: 170-172). Em 1893 enviou cinco quadros a óleo, entre os quais Hero e Leandro – que lhe valera a medalha de prata escolar – e Esperando o Peixe (Fig. 1), O Malagueiro, Margens do Tejo e Aposento do corte da vila (n.º catálogo exposição: 175-179. Participou também na Exposição d’Arte, no Porto, em 1894 (PAMPLONA, 2000, 74).

Fig. 1 – Esperando o Peixe, 1893, óleo sobre madeira, 46 x 56 cm.

Seguiu para Paris em 1896 como pensionista do Estado em Pintura Histórica, onde estudou com o prestigiado pintor de retratos, temas orientalistas e pintura decorativa, bem como gravador Benjamin Constant (1845-1902) e também com o pintor de História Jean-Paul Laurens (1838-1921). Ainda com residência em Paris voltou a expor na Exposição Extraordinária do Grémio Artístico, em 1898, as telas Idade de Ouro, Êxtase e Pastor Italiano. (n.º catálogo exposição: 148-150). Recebeu uma medalha de 3.ª classe na Exposição Universal de Paris, em 1900, o que é significativo em relação ao reconhecimento do seu trabalho.

De regresso a Portugal, paralelamente à sua atividade de pintor, lecionou no ensino industrial e fez ilustrações para periódicos, nomeadamente para a Revista Ilustrada (FARIA, 2008, 312). Em 1905 tentou a candidatura à vaga de Desenho Antigo, mas foi Ernesto Condeixa o escolhido para o lugar. Participou nas Exposições da Sociedade de Belas Artes em 1903 (com quatro retratos e as paisagens No Trabalho do Campo, pintado na Gafanha, La Fin d’un Jour d’Automne, Sabotier Breton, Ferme d’un Petit Cultivateur, Paumiers, Crèche Bretonne, Paisagem Gafanhoa, Cena Campestre, O Heróico Arrais de Ílhavo, Quinteiro de um Lavrador) e em 1906 (com dois retratos e uma tela com Mulher do Douro).

Entre as personagens por ele retratadas figuram o rei D. Carlos, o Conselheiro Agostinho Ornelas de Vasconcelos, João da Maia Romão, Alfredo César de Brito, D. João de Alarcão, o escritor Renato Franco (MACEDO, 1951, 211), o médico Jayme Ferreira, Raul Bensaude, o músico Agostinho Martins e o Conselheiro Luciano de Castro e esposa. Retratou o príncipe D. Luís Filipe e D. Amélia, primeiras miniaturas de uma série dedicada à família real, destinada à Exposição Nacional do Rio de Janeiro, que não chegou a completar (DN, 12 mar. 1908).

Cerca de 1905, pintou no teto do vestíbulo do Museu Militar uma alegoria, A História, personificada por uma figura feminina sentada sobre nuvens com um livro aberto na mão, tendo a seus pés um menino com uma palma e uma cartela retangular onde se pode ler «Descobertas e Conquistas», enquanto na parte superior outras duas crianças seguram coroas de louro. Desenhos preparatórios para esta pintura constam de catálogos de leilões em 2008 e 2011.

Obteve reconhecimento de figuras destacadas da crítica de arte do seu tempo, que lhe dedicaram breves mas favoráveis linhas. Xylographo, pseudónimo do crítico da revista ilustrada O Occidente, considerou o trabalho de Adolfo Rodrigues promissor e destacou Hero e Leandro e Esperando o Peixe, o primeiro pela sua harmonia e desenho irrepreensível, apesar de uma «entoação um pouco convencional», o segundo pela limpidez da pintura (XYLOGRAPHO, O Occidente, 1 jun. 1893, 124); Ribeiro Artur elogiou a justeza do desenho na 2.ª e 3.ª exposições do Grémio; Zacharias d’Aça apreciou Catedral do Funchal e achou que o autor devia estar entre os de boa nomeada (AÇA, 1906); em 1903, António de Lemos louvara sobretudo o retrato e a qualidade da luz, não o tendo impressionado tanto o colorido (LEMOS, 1906, 51); e José de Figueiredo tinha também louvado «a rara beleza de sentimento» do seu quadro Paysage Breton (FIGUEIREDO, 1901, 63-64).

Para além dos prémios já mencionados, o pintor recebeu Palmas da Academia de França, a comenda de Isabel-a-Católica de Espanha e a 2.ª medalha em pintura da Sociedade de Belas-Artes, em 1906. Voltou para a Madeira a conselho médico, por motivos de saúde, e lecionou na Escola Industrial do Funchal, onde foi considerado excelente professor. Regressou a Lisboa, onde morreu, aos 41 anos, a 9 de março de 1908.

Algumas obras de Adolfo Rodrigues foram adquiridas por D. Carlos, nomeadamente Tentação de Cristo, O Bom Samaritano e O Castanheiro (MACEDO, 1951, 211). A maioria das obras encontra-se hoje em coleções particulares, e as seguintes pertencem a museus e coleções institucionais: no Museu de Arte Contemporânea do Chiado, um retrato de senhora em miniatura (n.º invent. 308 MNAC-MC); no Museu Soares dos Reis, um óleo sobre cartão, Coração de Inês de Castro, de 1898 (n.º invent. 974 Pin MNSR); na Casa Museu Fernando de Castro um óleo sobre tela, Bretanha (n.º invent. 354 CMFC/MNSR); no Museu Quinta das Cruzes, Esperando o Peixe, de 1893, e Lavadeiras; na Igreja de S. Pedro, Tentação de Cristo, de 1898, de pendor mais simbolista (Fig. 2); na Coleção de Desenho Antigo da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa existe um desenho de 1885, com a representação do Discóbolo, que lhe valeu a medalha de bronze no 2.º ano do curso (n.º invent. 477 FBAUL) e dois desenhos de figuras femininas assinados e datados de 1898, elaborados enquanto pensionista em Paris (n.º invent. 351 e 352 FBAUL); um retrato de José Luciano de Castro, na Câmara Municipal de Anadia (datado de 1905). Note-se que o retrato de D. Luís do Museu de Aveiro, em depósito no Paço dos Duques, que lhe esteve atribuído, é do pintor José Rodrigues de Carvalho. A Câmara Municipal do Funchal possui um retrato de D. Carlos, assinado e datado de 1885 (MACEDO, 1951, 211, 208i; CARITA, 1992, 9).

Fig. 2 – Tentação de Cristo, 1898, óleo sobre tela, capela do Sagrado Coração de Jesus, Igreja de São Pedro, Funchal.

Obras de Adolfo de Sousa Rodrigues: Retrato de D. Carlos (1885); Catedral do Funchal (1891); Baía de Câmara de Lobos (1891); Passo da Corda (1891); Ponta dos Corvos (1891); Nascer do Sol (1891); Cabeça de Preto (1891); À Porta da Taberna (1892); Cabeça de Ovarina (1892); Descanso (1892); A Leiteira (1892); Hero e Leandro (1893); Esperando o Peixe (1893); O Malagueiro (1893); Margens do Tejo (1893); Aposento do corte da vila (1893); Retrato de D. Luís (1893); Idade de Ouro (1898); Êxtase (1898); Pastor Italiano (1898); Tentação de Cristo (1898); Coração de Inês de Castro (1898); No Trabalho do Campo, (1903); La Fin d’un Jour d’Automne (1903); Sabotier Breton (1903); Ferme d’un Petit Cultivateur (1903); Paumiers (1903); Crèche Bretonne (1903); Paisagem Gafanhoa (1903); Cena Campestre (1903); O Heróico Arrais de Ílhavo (1903); Quinteiro de um Lavrador (1903); A História (1905); Retrato de José Luciano de Castro (1905); Mulher do Douro (1906).

Bibliog.: «Adolpho de Sousa Rodrigues», DN, Funchal, 12/03/1908, p. 2; «O Pintor Adolfo Rodrigues», Arquivo Histórico da Madeira, vol. 9, 1951, pp. 251-252; AÇA, Zacharias d’, Lisboa Moderna, Livraria Editora Viuva Tavares Cardoso, 1906; ARTUR, Ribeiro, Arte e Artistas Contemporâneos, Lisboa, Livraria Ferin, 1896; DN, 12/03/1908, obituário; CARITA, Rui, «Um Pintor Madeirense dos Finais do Século XIX no Museu Henrique e Francisco Franco: Adolfo de Sousa Rodrigues», DN, Funchal, 07/07/1992, p. 9; Catálogo da Exposição de Bellas-Artes promovida pelo Grémio Artístico, Lisboa, Typ. da Companhia Nacional Editora, 1891; Catálogo da 3.ª Exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Lisboa, Typ. da Companhia Nacional Editora, 1903; Catálogo da 6.ª Exposição da Sociedade Nacional de Bellas-Artes, Lisboa, J.F. Pinheiro, 1906; 2.ª Exposição de Bellas-Artes do Grémio Artístico (catálogo), Lisboa, Typ. da Companhia Nacional Editora,1892; 3.ª Exposição de Bellas-Artes do Grémio Artístico (catálogo), Lisboa, Typ. da Companhia Nacional Editora, 1893; Exposição Extraordinária do Grémio Artístico (catálogo), Lisboa, Typ. da Companhia Nacional Editora, 1898; FARIA, Alberto Cláudio Rodrigues, A Colecção de Desenho Antigo da Faculdade de Belas-Artes de Lisboa (1830-1935): Tradição, Formação e Gosto, vol. III, Elementos Biográficos dos Artistas da Colecção, FBAUL, Lisboa, 2008, pp. 117-118, 311-312 (Dissertação de Mestrado em Museologia e Museografia); FIGUEIREDO, José de, Portugal na Exposição de Paris, Lisboa, Empreza da História de Portugal, 1901; LEMOS, António de, Notas de Arte, Porto, Typ. Universal, 1906; MACEDO, Diogo, «O Pintor Adolfo Rodrigues», Arquivo Histórico da Madeira, vol. 9, 1951, pp. 208i, 209-212, 224i; PAMPLONA, Fernando de, Dicionário de Pintores e Escultores Portugueses ou que Trabalharam em Portugal, 3.º vol., Lisboa, Ricardo Espírito Santo Silva, 1954/1959; VALENTE, António Carlos Jardim, As Artes Plásticas na Madeira (1910-1990). Conjunturas, Factos e Protagonistas do Panorama Artístico Regional no Século XX, Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 1999, p. 15; THIEME, Ulrich e BECKER, Felix, Allgemeines Lexikon der Bildenden Künstler vor den Antike zur Gegenwart, Leipzig, E. A. Seemann, 1908; BÉNEZIT, E., Dictionnaire Critique et Documentaire des Peintres, Sculpteurs, Dessinateurs et Graveurs, Paris, Grund, 1999 [1911-1923]; TANNOCK, Michel, Portuguese 20th Century Artists, a Biographical Dictionary, Phillimore & Co., 1978; XYLOGRAPHO, «Exposição do Grémio Artístico», O Occidente, n.º 520, 01/06/1893, pp. 1, 121, 124 e n.º 524, 11/07/1893, p. 156.

Isabel Santa Clara

(atualizado a 16.08.2016)