rosa, manuel ferreira

Poeta e professor madeirense que desempenhou o cargo de Inspetor do Ensino do Ultramar. Desde jovem dedicou-se à lírica, publicando textos em periódicos madeirenses e dinamizando, em Lisboa, reuniões de convívio literário estudantil. A nível profissional, começou por ser professor primário, mas, a partir da década de 1930, fez carreira nas colónias, primeiro como docente e reitor, em Cabo Verde, depois como chefe dos serviços de instrução, em Luanda, e, por fim, como Inspetor do Ensino do Ultramar, tendo supervisionado e organizado todos os graus de ensino na África Portuguesa. Proferiu diversas palestras e redigiu vários artigos sobre as colónias, bem como publicou um pequeno ensaio sobre a obra de Horácio Bento de Gouveia, a par de outros textos de temática diversa.

Palavras-chave: poesia; educação; Ultramar; inspeção do ensino; palestras; ensaística.

Nasceu no Funchal, a 4 de setembro de 1901, e nessa cidade completou com distinção, em 1921, como aluno externo, o curso do Liceu de Jaime Moniz (7.º ano de Letras), tendo frequentado em simultâneo a Escola do Magistério Primário para obter o grau de professor; foi professor primário na escola masculina da vila da Ribeira Brava entre outubro de 1920 e abril de 1921. Nesse mesmo ano, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tendo completado a licenciatura em 1926; dois anos mais tarde, obteve outra licenciatura, em Ciências Históricas e Geográficas. Habilitou-se ainda para o Magistério Liceal na extinta Escola Normal Superior, entre 1928 e 1930.

Durante a juventude, dedicou-se à lírica, publicando versos, ainda na Madeira, no semanário A Verdade (1918-1919), n’ O Brado do Oeste, no qual escreveu poemas dedicados a Carma, e no suplemento “Domingo Literário” do Diário da Madeira (1920-1925). Em A Verdade publicou sonetos, normalmente com destinatário específico: uma “cruel mulher” a quem oferta um “amor puro” (“Soneto A H.”, 11/2/1918); uma “mulher querida” (“Beijo de Apolo”, 25/03/1918); sua mãe “que se alou, qual subtil ave, / para junto desse Deus meigo e suave” (“Saudade”, 25/02/1918); ou o poeta Octávio de Marialva (20/05/1918). Já na Faculdade de Letras, criou e dinamizou as Tardes de Letras, reuniões de convívio literário estudantil, onde se destacou entre os alunos e apresentou alguns poemas seus, caracterizados pela originalidade e reveladores de “um finíssimo temperamento de poeta através do modernismo, sequioso de perfeição” (CLODE, 1983, 417). Outros versos seus, como o poema “Esmorzo do Pinheiral” (março de 1925), descrevem certas memórias da terra natal, próprias de alguém que vive longe, como as lembranças dos “pinheiros do Balançal”, “um velho pinheiral crispado de agonia”, “estátuas de remorso e de tortura”, que trazem ao eu poético “lembranças milenárias duma agrura / que eu já senti em épocas remotas” (PORTO DA CRUZ, 1953, III, 164-166). Uma certa negatividade grassa também em poemas como “Jardim do meu tédio”, onde realça a sua “agonia”, “os tédios que eu esmago”, “no meu jardim de pesadelo e mágoa”, denunciando estados de espírito melancólicos e sombrios. No entanto, depois de 1925, cessou a produção poética, que assinava como Manuel F. Rosa ou Manuel Rosa, e até interrompeu uma coletânea lírica que tinha como projeto, denominada de Ilha de Calipso – Este é o meu livro de bizarria e de tortura, um trabalho muito elogiado por Horácio Bento de Gouveia devido à procura de perfeição no ritmo, imagens e pensamentos.

Em 1930, iniciou a sua longa carreira nas colónias portuguesas, primeiro como professor e reitor do Liceu do Infante D. Henrique (São Vicente, Cabo Verde) e, a partir de 1934, como professor do Liceu e chefe dos serviços de instrução de Luanda. Em 1945, foi promovido a Inspetor do Ensino do Ultramar ou do Ensino Colonial, tendo supervisionado todos os graus de ensino em toda a África Portuguesa. Durante mais de 40 anos, ministrou, orientou e organizou o ensino nas colónias, criando várias leis e regulamentos, entre os quais se destaca a proposta para o Regulamento do Ensino Rudimentar e do Magistério Rudimentar e seus programas, a ser aplicado na Guiné Portuguesa e aprovado por portaria em dezembro de 1951. Este documento cria uma completa Lei de Bases do Sistema Educativo da Guiné, definindo minuciosamente áreas como os curricula, as escolas, os professores e o material pedagógico.

Durante os anos de exercício laboral nas colónias, proferiu diversas palestras e redigiu vários artigos, em Lisboa e no Ultramar, muitos dos quais foram publicados em revistas como Boletim Cultural da Guiné Portuguesa, Boletim Geral do Ultramar, Boletim Geral das Colónias, Panorama, Ultramar, Revista de Ensino, entre outras. Abordou questões históricas, filosóficas e sociológicas relativas à colonização portuguesa (“Novas perspectivas de colonização”, 1946), defendendo que a Europa, em geral, e Portugal, em particular, vivendo uma crise socioeconómica com o fim da Segunda Guerra Mundial, que trouxe grandes insuficiências alimentares, apenas poderiam evadir-se para África (sobretudo para Angola e Moçambique, no caso português) para empregar a população, produzir matéria-prima, ser celeiro de um continente em défice de bens alimentares e, assim, salvar os povos através de um processo de colonização agropecuária que implicaria ainda uma racionalização e especialização industrial. Versou igualmente, nos seus artigos e conferências, temas económicos (“Apontamentos sobre alguns aspectos da economia da Guiné Portuguesa”), geográficos (“Panorama de Angola”, “Cabo Verde”), linguísticos e culturais (“A Expansão da língua portuguesa”) e históricos (“O significado da revolução do 1º de Dezembro de 1640”).

No entanto, a maioria dos seus artigos centrou-se nas questões do ensino, na pedagogia e na didática, como consequência do cargo que ocupou, abarcando áreas transversais à educação, como a psicologia, a sociologia e a antropologia, numa constante preocupação com a alfabetização dos povos africanos, sem os desenraizar da sua ambiência, e com a reorganização do sistema educativo. A título exemplificativo, destacam-se os seguintes ensaios: “O apetrechamento educacional da colónia de Angola”, “A nova orientação educacional do indígena”, “Psicologia e didáctica”, “A reforma do Ensino Primário Elementar nas províncias ultramarinas”, “A Escola para Angola – uma escola diferente”, “Contribuição para o estudo do ensino de base das populações ultramarinas em desenvolvimento”, “Educação e ensino no Ultramar”, entre outros. Muitos dos seus trabalhos na área da educação foram publicados, em 1973, no livro O ponto e o rumo do ensino ultramarino: testemunhos de pensamento e acção, para além de já ter publicado anteriormente, em 1971, outro ensaio mais curto: O projeto da reforma geral do ensino. Como reconhecimento dos cargos que ocupou (diretor dos serviços de educação, em Angola, inspetor do ensino ultramarino, inspetor superior de educação do Ultramar e na direção geral do referido ministério), obteve louvores oficiais e foi agraciado com a Comenda da Ordem da Instrução Pública.

Ao longo da sua vida, foi ainda diretor do quinzenário académico Os Novos (do qual foi cofundador, em maio de 1920, com Horácio Bento de Gouveia, entre outros madeirenses), colaborou nos periódicos Diário de Notícias, O Debate, Revista Portuguesa, revista Cultura e A.B.C. (Luanda), e foi secretário da Empresa das Edições Ultramar. Além de ter escrito com o seu nome próprio, usou os pseudónimos Vieira Ferreira, J. d’Almada Bettencourt, Ribeiro S. e E. Neves.

Em 1980, a Câmara Municipal de São Vicente (Madeira) publicou o seu ensaio Horácio Bento de Gouveia: escritor ilhéu e populista – ensaio de entendimento, no qual, através de uma linguagem lexicalmente rica e de uma vasta erudição cultural, analisa a biobibliografia do referido escritor madeirense, centrando-se num retrato sociológico de três figuras dos seus romances: o “vilhão” de Canga, a bordadeira de Lágrimas correndo mundo e o emigrante de Torna viagem. A publicação desta monografia decorreu no âmbito de uma homenagem da referida autarquia ao escritor nortenho.

Manuel Ferreira Rosa preparou outras publicações literárias e coletâneas com os seus estudos de sociologia, psicologia social e psicologia individual, que seriam uma recolha da sua obra dispersa em jornais e revistas, mas nunca procedeu à sua edição, até porque a morte o levou a 24 de agosto de 1982, em Cascais, quando ainda preparava estes textos. Legou uma vasta obra que se poderá subdividir em ensaios de doutrina política (alguns sobre o Estado Novo), ensaios ultramarinos, ensaios sobre educação, ensaios sobre literatura, relatórios oficiais (sobre os vários graus de ensino nas colónias portuguesas), crónicas (como “Recordações da Ilha Maldita”, sobre São Vicente de Cabo Verde) e lírica. A sua obra poética nunca foi publicada na íntegra; Luís Marino organizou um volume intitulado Manuel Ferreira Rosa e a sua obra poética, que não foi editado.

Obras de Manuel Ferreira Rosa: A H.” (1918); “Saudade” (1918); “Beijo de Apolo” (1918); “Ao Octávio Marialva” (1918); “O apetrechamento educacional da colónia de Angola” (1936); “A nova orientação educacional do indígena” (1937); “Novas perspectivas de colonização” (1946); “Apontamentos sobre alguns aspectos da economia da Guiné Portuguesa” (1951); “Panorama de Angola” (1951); “Cabo Verde” (1952); “Psicologia e didáctica” (1962); “O significado da revolução do 1º de Dezembro de 1640” (1962); “A Escola para Angola – uma escola diferente” (1964); “A reforma do Ensino Primário Elementar nas províncias ultramarinas” (1964); “Contribuição para o estudo do ensino de base das populações ultramarinas em desenvolvimento” (1965); “Educação e ensino no Ultramar” (1969); “A Expansão da língua portuguesa” (1970); O projeto da reforma geral do ensino (1971) O ponto e o rumo do ensino ultramarino: testemunhos de pensamento e acção (1973); Horácio Bento de Gouveia: escritor ilhéu e populista – ensaio de entendimento (1980).

Bibliog.: impressa: CLODE, Luiz Peter, Registo bio-bibliográfico de madeirenses: sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; MARINO, Luís, Musa insular (poetas da Madeira), Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & comentários para a História Literária da Madeira, III volume, 3º período (1910-1952), Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1953; digital: SANTOS, Thierry Proença dos, “Cronologia de Horácio Bento de Gouveia e da fortuna da sua obra”, www.uma.pt/hbento/cronologia.html (acedido a 6 maio 2014).

João Carlos Costa

(atualizado a 13.06.2016)