santa catarina, estado de (Brasil)

A ilha de Santa Catarina é um Estado federado do Brasil, com capital na cidade de Florianópolis. O Estado compreende a ilha do mesmo nome e uma área continental próxima, delimitada pelos Estados do Rio Grande do Sul e do Paraná.

A partir de 1660, com a criação da vila com o nome de Nossa Senhora da Graça do Rio de São Francisco, esta área começa a ser alvo de uma ocupação efetiva. Foi Francisco Dias Velho (?1622-1687), um bandeirante paulista que foi o principal colonizador e, depois, capitão-mor da ilha, quem mudou o nome de Ilha dos Patos para Santa Catarina. A ele se deve ainda a fundação do povoado de Nossa Senhora do Desterro, que deu origem à cidade de Florianópolis.

O povoamento das capitanias do sul do Brasil começou, pois, com colonos de Santos; no século XVIII, promoveu-se a sua ocupação com portugueses, nomeadamente da Madeira e dos Açores, em particular por via da emigração de casais para Santa Catarina e o Rio de Janeiro, com diversas levas entre 1748 e 1757. Foi a solução adotada para resolver os problemas sociais das ilhas atlânticas e garantir a soberania das terras do Sul brasileiro, nomeadamente a defesa das fronteiras do Tratado de Madrid. A 16 de novembro de 1746, Henrique de Betencourt de Berenguer foi admitido, a seu pedido, nesta emigração, saindo para Santa Catarina com a família, composta por 10 filhos, 1 primo e 19 criados. A fundação da cidade de Portalegre é feita por Jerónimo de Ornelas, madeirense; nesta cidade, a presença de colonos é fundamentalmente açoriana.

A ideia de que o povoamento da ilha e da costa próxima foi feito por açorianos tornou-se depois predominante; mas esta valorização do contributo açoriano para a construção do Brasil é um mito, criado e alimentado de ambos os lados do Atlântico a partir da década de 40 do século XX, que levou a que se desvalorizasse o contributo de gentes oriundas de outras regiões, como foi o caso da Madeira, fazendo depender dos açorianos todo o legado cultural dos colonos portugueses que aportaram a terras brasileiras no século XVIII. Assim, segundo a tradição brasileira, o engenho de Erasmos de Santos é uma aportação açoriana, sendo o seu modelo ou estilo arquitetónico dito “açoriano”, quando a verdade é que os Açores não tiveram propriamente uma economia açucareira, nem gentes experimentadas na cultura e técnica do açúcar. Deste modo, retira-se à Madeira, que desempenhou um papel de relevo na História do Brasil desde os primórdios até ao século XX, a importância que este arquipélago de facto teve.

Este mito do colonizador açoriano foi depois contestado. Assim, nos Anais da segunda semana de Estudos açorianos que decorreu em Florianópolis em 1987, Nereu Pereira desabafava que “tudo que diga e se faça entre nós é tido como cultura açoriana”; e Juliani Brignol observava: “Junto com os casais açorianos, vieram para Desterro também famílias das ilhas da Madeira. […] Embora os açorianos formem a maioria em termos de comunidade do interior da ilha é inadequado tributar somente a eles a ocupação do território” (VIEIRA, 2004, 26).

As festas em honra do Divino Espírito Santo são um exemplo típico desta confusão. Tais festividades ocorrem na solenidade do Pentecostes que, no calendário católico, tem lugar 50 dias após a Páscoa. Esta tradição foi difundida no ocidente através de França, e ganhou raízes em todo o Portugal por influência da Rainha Santa Isabel (1271-1336). O culto ao Divino acompanhou os portugueses na expansão, embora a sobrevivência destes rituais ancestrais se tenha mantido apenas em alguns espaços, em especial nos Açores e em muitos recantos brasileiros, como Alcântara ou Santa Catarina. Uma das caraterísticas da sua manifestação em solo brasileiro é a incorporação dos negros, através das caixeiras, um grupo de mulheres que tocam caixa em diversos momentos da “folia do Divino”. A coroação do imperador e o bodo aos pobres foram tradições comuns a todos os espaços.

Importa salientar, pois, que a colonização de Santa Catarina não ficou a dever-se exclusivamente aos portugueses oriundos dos Açores, já que ao arquipélago da Madeira também deu um importante contributo para esse povoamento, como aliás para o do Brasil em geral.

Bibliog.: O Brasil e as Ilhas. Actas do Colóquio Internacional, Funchal, CEHA, 2000; BARROSO, Vera Lúcia Maciel (org.), Presença Açoriana em Santo António da Patrulha e no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Est Edições, 1997; FERRAZ, Maria de Lourdes de Freitas, “Emigração Madeirense para o Brasil no Século XVIII”, Islenha, nº 2, 1988, pp. 88-101; FURLAN, Osvaldo António, Influência Açoriana no Português do Brasil em Santa Catarina, Florianópolis, UFSC., 1989; OLIVEIRA, Andreia, “Duas Ilhas e um Mesmo Oceano. Mitos, Símbolos e Identidade nas Lendas de São Francisco do Sul e da Ilha da Madeira, Anuário do CEHA, 2010, pp. 145-181; PEREIRA, Nereu do Vale, “Notas Sobre a Participação Madeirense na Colonização da Ilha de Santa Catarina”, in As Ilhas e o Brasil. VI Colóquio Internacional de História das Ilha Atlânticas, Funchal, CEHA, 2000, 337-348; PIAZZA, Walter F., A Epopeia Açórico-Madeirense (1746-1756), Funchal, CEHA, 1999; SANTOS, Maria Licínia Fernandes dos, Os Madeirenses na Colonização do Brasil, Funchal, CEHA, 1999; SILVEIRA, Enzo, A ilha da Madeira nos destinos do Brasil e de Portugal, Funchal, JGDAF, 1956; VIEIRA, Alberto (coord.), A Madeira e o Brasil: Colectânea de estudos, Funchal, CEHA, 2004; WIEDERSPHAN, Henrique Oscar, A Colonização Açoriana no Rio Grande do Sul, Porto Alegre, Escola Superior de Teologia São Lourenço de Brindes/Instituto Cultural Português, 1979.

Alberto Vieira

(atualizado a 18.02.2016)