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Nasceu no Funchal, na Rua da Conceição, freguesia da Sé, a 8 de abril de 1921, e faleceu na mesma cidade a 11 de julho de 2014. Era filho de Carlos Maria dos Santos e de Maria Antonieta dos Santos. Casou com Alda Teixeira da Silva de quem teve um filho.

Fez o curso complementar do comércio e de habilitação complementar das escolas industriais e o curso do Instituto Comercial do Funchal. Desempenhou funções na Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira, sendo condecorado, em 1966, com o grau de cavaleiro da Ordem do Infante D. Henrique. Foi chefe de serviços administrativos na Empresa de Electricidade da Madeira e colaborou, já aposentado, na organização do arquivo daquela empresa e no Museu de Electricidade – Casa da Luz. Exerceu ainda funções como presidente da Assembleia Geral da Associação de Socorros Mútuos «4 de Setembro de 1862».

Rui Santos dedicou-se também ao jornalismo, sendo autor de numerosos artigos, de interesse histórico e cultural, sobre o arquipélago madeirense, promovidos em periódicos regionais, nomeadamente, no Jornal da Madeira e nas revistas Islenha e Xarabanda.

Realizou diversos estudos, resultado das suas investigações em bibliotecas e no Arquivo Regional da Madeira, mas também socorreu-se da sua própria vivência para legar um importante testemunho sobre a história, a vida, a cultura, os usos e os costumes dos seus conterrâneos. Neste sentido, entre 1992 e 1999, publicou na revista Islenha, um vasto estudo sobre o cemitério israelita do Funchal, elaborou uma análise à família judaica de nome Abudarham, pela sua importância na sociedade funchalense, dos finais do século XIX e princípios do século XX; fez um trabalho sobre as ilhas Desertas; realizou um estudo sobre a demolição da muralha da cortina que defendia a cidade do Funchal e referiu a importância da obra do engenheiro Amaro da Costa, no aproveitamento dos recursos hidráulicos da Madeira. Entretanto, apresentou na revista Xarabanda, dois textos sobre o património material e imaterial madeirense: “A Estátua do Mercado D. Pedro V” (1992) e “Jogos tradicionais. Damas de doze e vinte e um” (1994).

Porém, foi no Jornal da Madeira que teve uma colaboração mais regular, onde, aliás, já tinha trabalhado o seu pai, como jornalista e chefe de redação. Naquele periódico publicou, ao longo de vários anos, grande número de crónicas relativas ao arquipélago da Madeira, abordando temas sobre a história, a cultura e a sociedade madeirense, em particular sobre o Funchal, a que ele denominava de “nossa cedadezinha”.

Em 1996, por iniciativa da Associação Musical e Cultural Xarabanda, deu à estampa Crónicas de outros tempos, uma compilação de crónicas reproduzidas, entre 1986 e 1995, no Jornal da Madeira e nas suas revistas (JM Magazine e JM Revista). Nesta coletânea, estão reunidos textos sobre antigos estabelecimentos comerciais; profissões passadas; alimentos e bebidas típicas; pequenos detalhes do quotidiano; jogos e divertimentos e ainda aspetos relativos à ilha do Porto Santo.

Nos anos seguintes, Rui Santos continuou a escrever as suas narrativas no Jornal da Madeira, interessando-se por múltiplos assuntos, de valor para o conhecimento da vida no arquipélago. De salientar a abordagem aos vários problemas citadinos da época, ao quotidiano e ao património madeirense; às comemorações e às efemérides, como o Carnaval, a Páscoa, o Natal e os centenários; às tradições e aos arraiais; à arquitetura da cidade e edifícios demolidos e ainda às ilhas do Porto Santo e das Desertas. Há ainda a realçar as recordações e homenagens que prestou a diversas personalidades, nacionais e internacionais, entre as quais, D. Maria I, Imperatriz Isabel da Áustria (Sissi), Napoleão Bonaparte e Winston Churchill, e a vultos madeirenses, como João Cabral do Nascimento e Edmundo de Bettencourt.

Deixou também um grande número de elementos sobre a toponímia funchalense, contribuindo para o conhecimento dos nomes e da história de ruas, travessas, becos, avenidas, praças, largos e outros espaços urbanos, lugares que constituem uma componente do património cultural local. Destaca-se, assim, a série de crónicas sobre artérias do Funchal, divulgadas naquele periódico, em 1987 (“Toponímia citadina”); em 1993 (“Ruas da cidade do Funchal”) e entre 2001 e 2002 (“Retalhos da história da cidade”).

No dia 1 de janeiro de 2001 o mundo entrou no século XXI. Rui Santos, então com 80 anos, escreveu no jornal onde era colaborador assíduo, artigos de opinião sobre o novo ano, o recente milénio e o século que se iniciava. No mesmo ano publicou Coisas do Porto Santo (2001), outra compilação de diversos artigos seus, difundidos no Jornal da Madeira, entre 1985 e 2001, sobre vários assuntos da ilha do Porto Santo, reunidos e editados pela Direção Regional dos Assuntos Culturais. Um ano depois, escrevia sobre o euro, a moeda única que entrava em circulação em 12 países membros da União Europeia, entre outros temas da época que foi abordando.

Rui Santos revelou-se um observador atento da realidade do seu tempo, através dos textos que foi publicando na imprensa regional, ao longo dos anos, de temática diversificada, escritos que não só demonstram o seu empenho no estudo e na promoção da cultura e da história da Madeira mas também contribuem para um maior conhecimento do arquipélago.

Além da produção literária publicada na imprensa periódica, Rui Santos, foi autor das seguintes obras: Divisão das capitanias da Madeira: estudo (1953); A construção do Teatro D. Maria Pia (1994); Crónicas de outros tempos (1996) e Coisas do Porto Santo (2001).

Bibliog.: CLODE, Luís Peter, Registo Bio-bibliográfico de Madeirenses: Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; FIGUEIREDO, Fernando et alli, Crónica madeirense: (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; SANTOS, Rui, “O Cemitério Israelita do Funchal”, Islenha, n.º10, Jan.-Jun. 1992, pp. 125-164; Id., “A Estátua do Mercado D. Pedro V”, Xarabanda, n.º 1, maio de 1992, pp.15-16; “A família Abudarham do Funchal”, Islenha, n.º 12, Jan.-Jun. 1993, pp. 106-139; “Jogos tradicionais . Damas de doze e vinte e um”, Xarabanda, n.º 6, 2º semestre 1994, pp. 48-50; Id., Crónicas de outros tempos, Funchal, Associação Musical e Cultural Xarabanda, 1996; Id., “As desertas: sua dependência administrativa”, Islenha, n.º 21, Jul.-Dez. 1997, pp. 23-34; Id., “Eng.º Amaro da Costa: o Homem da água”, Islenha. Funchal. 24 (Jan.-Jun. 1999) 85-92; Id., “A demolição da muralha da cortina da cidade”, Islenha, n.º 25, Jul.-Dez. 1999, pp. 38-58; Id., Coisas do Porto Santo, Funchal, Secretaria Regional dos Assuntos Culturais, 2001; SILVA, Lúcia M., “Partiu o homem das crónicas sobre o Funchal”, Jornal da Madeira, n.º 27535, 15/07/2014, p. 8; digital: VERÍSSIMO, Nelson, “Rui Santos, 1921-2014”, Blogue Passos na Calçada, 14/07/2014, http://passosnacalcada.wordpress.com/2014/07/15/rui-santos-1921-2014-2/ (acedido a 18/09/2014); Id., “Rui Santos”, Blogue Passos na Calçada, s.d., http://passosnacalcada.wordpress.com/escritores-da-madeira/rui-santos/ (acedido a 18/09/2014); Jornal da Madeira (crónicas publicadas entre 1986 e 2005).

Sílvia G. Gomes

(atualizado a 05.08.2016)