sarmento, alberto artur

Filho de Artur Adolfo Sarmento e de D. Margarida Henriques Sarmento. Depois de frequentar o Liceu do Funchal, prosseguiu os seus estudos na escola Politécnica, em Lisboa, onde frequentava a casa de João de Freitas-Branco, verdadeiro centro de reunião de pensadores e artistas desse período e ali teve os seus primeiros contatos com o intelectualismo português. Embora ainda muito jovem, de acordo com o Visconde do Porto da Cruz, distinguia-se naquele meio “pela sua inteligência brilhante e pelas suas opiniões literárias”. Complementou os seus estudos na Escola Militar, onde tirou o curso de Infantaria. Terminado o curso, foi colocado na Madeira, onde permaneceu até morrer.

Em 1900, é promovido a Alferes, em 1922, a Tenente-Coronel e, em 1929, reforma-se do exército. Como militar, desempenhou diversas funções de comando e chefia, no Arquipélago, entre as quais se destaca o comando do Batalhão de Infantaria n.º 19 (BI 19, atual RG 3). Fez parte, como vogal auxiliar da Comissão da História Militar (Escola Militar do Exército), tendo apresentado alguns trabalhos. Durante vinte anos, exerceu a função de professor do Liceu, da disciplina de Ciências Naturais e, interinamente por duas vezes, foi governador militar da Madeira. Paralelamente com as suas atividades profissionais, também desenvolveu atividades como escritor, cientista, investigador histórico e como folclorista.

Fez parte da elite intelectual do Heraldo da Madeira. Colaborou noutros periódicos regionais, como o Diário de Notícias, A Esperança e O Jornal, e em numerosas revistas nacionais, como a Revista Portuguesa, e estrangeiros. Nos meses de março e abril de 1930, publicou no Diário de Notícias do Funchal uma série de artigos subordinados ao título “Ingleses na Madeira”. Evidenciou-se, ainda, como novelista e cultivou a forma literária do conto. Conciliou também a música e a escrita, pois por volta de 1893, ainda muito jovem, era discípulo do professor de música José Sarmento, seu tio, nos instrumentos de piano e órgão. Tomou parte, aos quinze anos, em vários concertos de beneficência e coadjuvava-o no cargo de organista da Sé, por motivo de doença que vitimou o professor. Deu forma literária à lenda da “Furna do Cavalum”, assim como ao episódio “Negaças de Amor” musicadas pelo maestro Manuel Ribeiro em Odes Sinfónicas; à “Balada do Porto Santo” musicada pelo maestro Gustavo Coelho; à canção “Saudades da Terra” musicada pelo maestro Francisco de Lacerda. Escreveu a letra da opereta regional Primeiros Aspetos musicada pelo maestro Manuel Ribeiro, levada à cena em 1917, no teatro Funchalense, quatro vezes, em benefício do núcleo n.º 12 da Associação Fraternidade Militar, ingressando por este motivo no quadro de honra da dita associação. Foi nesta opereta que pela primeira vez pisou o palco o tenor madeirense Lomelino Silva.

Ainda no âmbito da música e das artes, o Tenente-Coronel Alberto Artur Sarmento fez parte do grupo, formado por Luíz Peter Clode e William Clode, que teve a iniciativa de criar, a 27 de abril de 1943, a Sociedade de Concertos da Madeira, no Funchal, com a finalidade de despertar na população o gosto pela música e dinamizar a vida cultural na região. Este grupo criou as bases para a fundação, em 1946, da Academia de Música da Madeira, atual Conservatório-Escola Profissional das Artes da Madeira – Eng.º Luíz Peter Clode, nome adotado em 2004, em homenagem ao seu fundador.

Dedicou-se profundamente ao estudo das ciências naturais e da botânica. Em 1902, procedeu à recolha de plantas da ilha Deserta Grande, contribuindo assim para o conhecimento da sua flora estudada pelo botânico madeirense Carlos de Menezes, em parte mencionada no Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, tomo V, fascículo 2; “Contribution à l’étude de la flore de la Grande Déserte (Deserta Grande)”, 1911, e na “Flora do Arquipélago da Madeira”, 1914. Foi-lhe consagrada a subespécie de uma ciparácea indígena, planta encontrada no Pico de São João, que recebeu o nome de scirpus pugens sarmentoi, descrita por Menezes no supracitado boletim das ciências naturais em separata intitulada “Diagnose de deux cypéracées madériennes”. São muito apreciados os seus trabalhos sobre as aves e os peixes da Madeira, nos quais colaborou também o cientista Adolfo de Noronha. A título de curiosidade, refere-se que nos Annais of the Cornegie Museum, volume XVI, 1926, se publicou uma memória intitulada “A new species of dup water shark” com fotogravuras acerca de um pequeno peixe das grandes profundidades squaliolus sarmenti que lhe foi dedicado. Estudos posteriores fizeram modificar a classificação para euprotomicrus sarmenti.

Juntamente com Adolfo de Noronha, interessou-se pela fundação do Museu Regional e do selo especial para a Madeira em que tanto trabalharam até atingir os fins. Os seus esforços deram frutos com a aquisição, pela Câmara Municipal do Funchal, do Palácio de São Pedro – atualmente (desde 2010) designado por Museu de História Natural do Funchal. Desde o início do século XX, germinava a vontade da criação de um museu militar pelo Tenente- Coronel Artur Sarmento que não se concretizou em vida. Materializar-se-á, em 1979, com a realização da primeira exposição do museu militar e catálogo pelo Capitão Rui Carita.

Além de todas as atividades referidas, Alberto Artur Sarmento era tradutor público das línguas: inglesa, francesa e alemã, e chegou a traduzir alguns artigos científicos para o Heraldo da Madeira, jornal de que fazia parte do corpo da redação. Foi neste jornal que iniciou a publicação de artigos que serviram ao Elucidário Madeirense. O seu conhecimento das línguas estrangeiras fez com que fosse nomeado diretor da Censura Telegráfica e Postal na Madeira, durante o período da Grande Guerra.

Tem uma bibliografia vasta e abrangente, com temáticas várias sobre a ilha da Madeira que vão desde a botânica, passando pela numismática, ornitologia, história militar e história do arquipélago da Madeira, sem descurar a crónica dos costumes. Muitas vezes assinava os seus artigos, quando colaborava nos periódicos regionais, somente com um S., ou, simplesmente, Alberto Artur; escreveu, por vezes, sob o pseudónimo de Dr. Kahl.

Teve o mérito de reunir, num trabalho paciente e demorado, confrontando documentos e salvando alguns da incúria, elementos que lhe permitiram recuperar para a história dados e factos de particular interesse para a vida insular, dando, finalmente, coesão a um todo desarticulado só estudado, até então, sob determinados aspetos e épocas. Todos estes elementos singularmente identificados dão às suas obras um caráter sólido que sobrevive ao tempo. Foi condecorado Cavaleiro da Ordem de Santiago e Comendador da Ordem Militar de Avis e foi agraciado com várias medalhas: a Medalha da Vitória; a Medalha de Comportamento Exemplar; a Medalha das Campanhas do Exército Português e louvores. Foi membro de várias sociedades científicas e clubes (Academia Internacional de Geografia e Botânica de Sarthe (França); Conselho Supremo dos Monumentos; Sociedade Histórica da Independência de Portugal; Sociedade de Geografia de Lisboa, etc.).

Obras do autor: História da Madeira/Ciência Militar/Ciência Política: 1908, Os Alicerces para a História Militar da Madeira, Conferência Realisada no Quartel de Infantaria 27, no dia 21 de Março de 1908; (e-book: http://www.bprmadeira.org/imagens/documentos/File/bprdigital/ebooks/historia_militar.pdf); 1908 ,“O Funchal: quadricentenário da elevação do Funchal à categoria de cidade 1508-1908”; 1912, História Militar da Madeira, vol. 1; 1914, Um Ponto da História Pátria; 1928, Ecos de Maria da Fonte na Madeira; 1930-1931, As Freguesias da Madeira; 1932, Madeira: 1801-1802, 1807-1814 (notas e documentos sobre a ocupação inglesa. – A Madeira e as Praças de África; 1932, A Madeira e as Praças de África; 1933, Notícia Histórica-Militar sobre a Ilha do Porto Santo; 1935, Fasquias da Madeira, e-book :http://www.bprmadeira.org/imagens/documentos/File/bprdigital/ebooks/FasquiasMadeira.pdf; 1938, Os Escravos na Madeira; 1940, Documentos e Notas sobre a Época de D. João IV na Madeira (1640-1656); 1946, Ensaios Históricos da Minha Terra: Ilha da Madeira; 1943, A Princesa do Reino Unido: Portugal-Brasil na Ilha da Madeira, em 1817; 1945 – História do Açúcar na Ilha da Madeira; Geografia: 1903, As Desertas; 1906, As Selvagens; 1912 (1.ª ed.), 1936( 2.ª ed.)- Corografia Elementar do Arquipélago da Madeira. E-book: http://www.bprmadeira.org/imagens/documentos/File/bprdigital/ebooks/ArchMadeira1936.pdf; Zoologia: 1936, As Aves do Arquipélago da Madeira; 1936, Mamíferos do Arquipélago da Madeira; 1937, Subsídio para o Estudo das Formigas da Madeira; 1940, Répteis e Batráquios do Arquipélago da Madeira; 1948, Vertebrados da Madeira; Literatura e Prosa: 1912, As Migalhas (Contos e Esbocetos); 1931, Um Auto na Achada, Leitura de Verão para ser Lida à Sombra; 1943, Redemoinhos de Folhas (12 contos); 1944, Quadros sem Aro. Desenhados à Pena na Ilha da Madeira (contos); 1948-1949, Espumas do Vilão. A Lenda da Trovoada. O Brás a Cavalo (contos); Hagiologia/Culto Público: 193, Santo António de Lisboa Bosquejando na Madeira, Imagem da Freguesia de Santo António do Funchal; 1942, Nossa Senhora da Esperança: Ilha da Madeira; 1943, Santo António Pregador, Santo António Militar; Numismática: 1933, Moedas, Selos, Papel Selado e Medalhas na Madeira.; Economia: 1941, As Pequenas Indústrias da Madeira.

Bibliog.: ABREU, Paula, “Alberto Artur Sarmento: músico, militar, professor e botânico”, in Revista Olhar: Jornal da Madeira, Funchal, 6 de outubro de 2007, p. 9; BRANCO, Alfredo António de Castro Teles de Menezes de Freitas (Visconde do Porto da Cruz), Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, 3.º período – 1910- 1952, III.º Volume, Funchal, Edição da Câmara do Funchal, 1951; CÉSAR, César Figueira, Ilha da Madeira Paraíso Terrestre: A sua História, Povo e Mentalidade Aspecto Social, Económico, Turístico e Cultural, Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1985; CLODE, Luís Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses sécs. XIX e XX, Funchal, Edição da Caixa Económica do Funchal, (1984), pp. 431-433; CORREIA, João David Pinto, Os Militares e a Literatura Madeirense: Reflexões e Notas, Funchal, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1998, pp. 35-36; FREITAS, António Aragão de, e VIEIRA, Gilda França, Madeira- Investigação Bibliográfica – Catálogo por Assuntos, vol. II, III, Funchal, DRAC, 1984; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, III.º volume, Funchal, DRAC, 1998, p. 507; TEIXEIRA, Mariana Jacob, “Dos armazéns de armas aos atuais museus militares da Direção de História e cultura militar – análise de um percurso evolutivo”, in Ensaios e Práticas em Museologia, Porto, Departamento de ciências e técnicas do Património da FLUP, 2010, vol. 2, pp. 182-200; TORRES, Jorge, Para uma Bibliografia Madeirense: Cultura Tradicional, Funchal, Secretaria Regional de Educação, 1995; Revista Das Artes e Da História da Madeira, n.º 15, 1953, p. 31; digital: http://www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/190-diario-de-noticias-da-madeira-134-anos (acedido a 4 de setembro de 2014); http://www.castroesilva.com/store (acedido a 5 de outubro de 2014); http://escritoresdamadeira.no.sapo.pt; http://www.bprmadeira.org/index_digital.php?IdSeccao=413; http://www.jornaldamadeira.pt/artigos/%E2%80%9Cum-dia-com-artes%E2%80%9D-assinala-70-anos-da-sociedade-de-concertos-da-madeira; http://catalogo.bnportugal.pt/ipac20/ipac.jsp?session=141TX595A9375.111778&profile=bn&page=3&group=0&term=Sarmento%2C+Alberto+Artur&index=AUTHOR&uindex=&aspect=basic_search&menu=search&ri=1&source=~!bnp&1416660305078

Lucinda Maria da Silva Moreira

(atualizado a 04.08.2016)