silbert, albert

Historiador francês, nascido em 1915, que desenvolveu de forma pioneira vários estudos sobre a história contemporânea de Portugal, a qual teve uma destacada importância na nova geração de historiadores portugueses que despontaram nas décs. de 60 e 70, como foi o caso de Miriam Halpern Pereira.

Nesta fase, há uma grande ligação da história das ilhas e do mundo atlântico à historiografia francesa. Desde o pioneiro estudo de Fernand Braudel, O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrânico na Época de Filipe II (1949), que, às ilhas, foi atribuída uma posição-chave na vida do oceano Atlântico e do litoral dos continentes. Foram, na verdade, os franceses que, a partir dos anos 40, deram um impulso decisivo à história do espaço atlântico. Segundo Pierre Chaunu, foi ativa a intervenção dos arquipélagos da Madeira, das Canárias e dos Açores – o “Mediterrâneo Atlântico” – na economia europeia dos sécs. XV a XVII. Para além desta valorização do espaço atlântico, temos uma chamada de atenção para os estudos de história contemporânea, em que a figura de Albert Silbert foi central com as suas teses de 1966: a dissertação complementar sobre Le Problème Agraire Portugais des Temps des Premières Cortes Libérales (publicada em 1968) e a tese sobre Le Portugal Mediterranée a la Fin de l’Ancien Régime (publicado em 1978).

A ligação de Albert Silbert à Madeira começou já em 1949, através da apresentação do trabalho de Orlando Ribeiro no Congresso Internacional de Geografia, realizado em Lisboa. É na sequência disso que apresenta, em 1954, ano em que publica o seu ensaio sobre a Madeira, uma breve nota sobre a publicação de Orlando Ribeiro, dando a entender a sua passagem pelo Funchal no intervalo de tempo que medeia o congresso e a publicação do texto nos Annales.

O presente ensaio, que cobre o período de 1640 a 1820, pretende clarificar o papel da Madeira no emaranhado de relações que se estabelecem no espaço atlântico. O ponto de partida, tal como o autor refere, são os relatórios dos cônsules franceses, aos quais junta dados de documentos do Arquivo Histórico Ultramarino e do British Museum. A documentação do consulado reporta-se ao período de 1671 a 1793 e revela-se fundamental para saber dos interesses franceses nestas paragens. O estudo, embora hoje em dia seja visto com algumas reticências por certos historiadores e estudiosos madeirenses, continua a ser uma referência no âmbito dos trabalhos que envolvem, de forma clara, a Madeira nos mundos gerados pelo oceano atlântico a partir do séc. XVII, nos quais se articulam várias formas de expressão do poder do mar e dos impérios.

Em 1954, a propósito da intervenção de Orlando Ribeiro no Congrès International de Géographie de 1949 sobre a Madeira e da publicação que se lhe seguiu em livro, aproveita para fazer um breve apontamento sobre a Ilha, destacando múltiplos aspetos relativos ao turismo e à história. Assim, nos Annales, considera que “a sua reputação de paraíso terrestre parece merecida”, concluindo que “a Madeira, ilha atlântica, deve tudo à circulação oceânica. As produções da ilha não suscitaram o tráfego deste espaço, antes foi o tráfego atlântico que fez a Madeira, foi ele que, em particular, permitiu o desenvolvimento da vinha” (SILBERT, 1954, 516). Atente-se que esta informação é depois utilizada no artigo que fez publicar sobre a Madeira nos referidos anais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras.

Não podemos esquecer que foi ele quem abriu as portas da investigação sobre a ilha a outro francês, Frederic Mauro, que, na déc. de 60, volta a seguir os mesmos caminhos de valorização da Madeira no espaço atlântico, mas, desta feita, escudado com a documentação disponível nos arquivos locais. Por força da criação do arquivo distrital em 1949, esta oferecia aos investigadores nacionais e estrangeiros um campo de investigação inexplorado que, felizmente, mereceu os estudos que conhecemos.

Obras de Albert Silbert: Le Problème Agraire Portugais des Temps des Premières Cortes Libérales (1968); Le Portugal Mediterranée a la Fin de l’Ancien Régime (1978).

Bibliog.: AIMÉ, Perpillou, “Le Congrès International de Géographie de Lisbonne (Avril 1949)”, Annales de Géographie, t. 59, n.º 314, mar.-abr. 1950, pp. 81-92; CHAUNU, Pierre, Sevilla y América. Siglos XVI y XVII, Sevilha, Universidade de Sevilha, 1983; ELLIOTT, John, En Búsqueda de la Historia Atlántica, Las Palmas, Cabildo de Gran Canaria, 2001; EMMER, Pieter, “In Search of a System: The Atlantic Economy, 1500-1800”, in PIETSCHMANN, Horst (ed.), Atlantic History. History of the Atlantic System, 1580-1830, Göttingen, Vandenhoeck and Ruprecht, 2002, pp. 169-178; AA.VV., Ler História, n.º 32, 1997; MAURO, Fréderic, Le Portugal et lAtlantique au XVlle siècle, 1570-1670, Paris, SEVPEN, 1960; Id., Portugal, o Brasil e o Atlântico, 1570-1670, trad. de Manuela Barreto, Lisboa, Estampa, 1988; MEINIG, D. W., The Shaping of América: A Geographical Perspective on 500 Years of History, vol. I, New Haven, Yale University Press, 1986; RIBEIRO, Orlando, L’Ile de Madère: Étude Géographique, Lisboa, UGI, 1949; SILBERT, Albert, Un Carrefour de l’Atlantique: Madère, sep. de Anais do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, t. II, vol. XXI, Lisboa, 1954, pp. 389-442; Id., “À Madère, Avec Orlando Ribeiro”, Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, 9.e année, n.º 4, 1954, pp. 513-516; Id., Uma Encruzilhada do Atlântico: Madeira (1640-1820), Funchal, CEHA, 1997; SILVA, José Manuel Azevedo e, “A Importância dos Espaços Insulares no Contexto do Mundo Atlântico”, in VIEIRA, Alberto (coord.), História das Ilhas Atlânticas, vol. I, Funchal, CEHA, 1997, pp. 125-161; SOLOW, Barbara L., Slavery and the Rise of the Atlantic System, New York, Cambridge University Press, 1991.

Alberto Vieira

(atualizado a 30.12.2017)