silva, antónio marques da

António Marques da Silva nasceu em 1900, em Benquerença, Beira Baixa, e com poucos dias foi levado para a vila de Sarzedas que sempre considerou como a sua terra natal. Era filho de José Marques Baptista, pequeno proprietário e funcionário da empresa de máquinas Singer na Beira Baixa, e de Felismina da Cruz Marinho, doméstica e originária de uma família de Abrantes. Durante o período escolar, tanto António, o filho mais velho, como os seus irmãos, Ascensão e João, viveram em várias zonas da região, como Maxiais, Idanha-a-Nova, Penamacor e, finalmente, Castelo Branco. Na sequência da guerra de 1914-18, há uma grande crise, a companhia Singer encerra e José Marques Baptista, depois de vender parte do património familiar, recorre a outros negócios, fixando-se em Castelo Branco. Foi nesta cidade que os seus filhos frequentaram o Liceu, tendo António Marques da Silva obtido a conclusão do seu Curso da Escola Normal com 17 valores. No 1.º quartel do séc. XX, os futuros professores do Ensino Oficial Primário frequentavam estas escolas, para onde entravam com idades compreendidas entre os 16 e os 18 anos, após a conclusão do Curso Geral do Liceu. A duração dos cursos, com estágio, era de dois a quatro anos. O curso da escola de Castelo Branco era de três anos.

Marques da Silva prestou primeiramente serviço como professor na Escola Central de Castelo Branco e depois, para obter o grau de efetivo, concorreu para a Madeira, sendo colocado, em 1921, em São Jorge. Renovou o ensino primário nesta freguesia, portador, como era, de grande cultura, não obstante a sua pouca idade (21 anos), e sobretudo porque ia dotado com o conhecimento de modernas técnicas pedagógicas, com base em Maria Montessori, Decroly, Froebel e Claparède. Deixou na sua biblioteca um livro da Montessori e um exemplar de uma revista que assinava e colecionava – Educação Nacional –, graficamente de aparência modesta, mas muito rica na apresentação de pedagogos e práticas pedagógicas; os pedagogos citados aparecem muito sublinhados nesta revista.

Na prática docente em São Jorge, foi posto de lado o ensino baseado na memorização e apelou-se ao desenvolvimento da inteligência, ao culto dos valores e à aprendizagem centrada na observação e exercício da mão, com o desenho e trabalhos manuais. Assim, a História era dramatizada e as Ciências Naturais eram transmitidas com recurso a pequenos canteiros onde se faziam sementeiras e se observava o desenvolvimento das plantas. Em certos dias, professor e alunos passeavam pelos campos, fazendo recolha de mineralogia ou de espécies botânicas, e assinalando aspetos da Geografia. As crianças aceitaram este ensino e os resultados foram excelentes.

António Marques da Silva incentivou os seus alunos a prosseguirem estudos, e São Jorge tornou-se uma freguesia com muitos licenciados ou trabalhadores com formação técnica, destacando-se sacerdotes, professores, empresários e funcionários.

A princípio, a escola contava com grandes carências de mobiliário e de meios auxiliares, como mapas e quadros que facilitassem o processo de visualização. António Marques da Silva pedia aos alunos que trouxessem de casa bancos confortáveis para assistirem às aulas e os pais colaboravam fazendo banquinhos para os filhos. Posteriormente, deu aulas a adultos e, com o dinheiro obtido, conseguiu comprar mais mobiliário. Instituiu, depois, a Caixa Escolar, prática seguida em muitas escolas, em que cada aluno contribuía com uma pequena quantia, talvez o equivalente a um tostão, e com o montante recolhido adquiria mais material necessário à Escola.

A escola que Marques da Silva iria encontrar não era apenas paupérrima em mobiliário escolar; as crianças também se apresentavam numa situação lamentável de falta de higiene nesse remoto ano de 1921. O Professor providenciou um lavatório antigo, facilmente deslocável, e banheiras com água. Os alunos, antes das aulas, tinham de lavar a cara e a cabeça.

O professor descobriu também que os alunos não sabiam a sua idade nem, obviamente, o dia do seu aniversário e, com a ajuda do padre da paróquia, copiou esses registos. Depois contactou os pais e pediu-lhes que fizessem uma pequena festa no aniversário dos seus filhos, homenageando também, na escola, o aniversariante com canções e, possivelmente, rebuçados.

António Marques da Silva ensinou em São Jorge entre 1921 e 1933. Em 1929, casou-se com Maria Áurea Ribeiro, filha de João Escórcio Ribeiro, proprietário na freguesia, e de Ilda Augusta de Gouveia, irmã de Maria Lina de Gouveia e de Teodósio Clemente de Gouveia, que viria a ser o primeiro Cardeal missionário português. Teve 4 filhos, tendo nascido os 2 primeiros, Otília e António, em São Jorge e os outros 2, Luís e Jorge, em Santo António.

Entre 1934 e 1939, ensinou em Santo António na Escola da Madalena.

Em 1939, seguiu para Lisboa com o fito de se licenciar em Românicas. Continuou com a sua atividade como professor durante um ano, lecionando na Ajuda, sendo depois colocado no Ministério de Educação Nacional. As dificuldades derivadas de uma família já não pequena obrigaram-no a dar explicações particulares, desistindo do propósito que o levara até à capital. Regressou ao Funchal em 1943, quando se organizou a Escola do Magistério Primário, onde foi o primeiro professor efetivo. Preparou então imensos professores, ministrando as cadeiras de Pedagogia e Didática Especial. Lecionou ainda no Liceu de Jaime Moniz, como professor provisório. Reformou-se em 1963, mas continuou até ao fim da vida como professor do Ensino Liceal Particular.

Foi, desde longa data, membro das conferências de S. Vicente de Paulo e, nos últimos tempos da sua vida, presidiu às conferências da Sé e da Cadeia do Funchal.

O Professor António Marques da Silva pouco tempo sobreviveu à inesperada morte da esposa em 1977, vindo a falecer em 1978, no Funchal.

A vida intensa de trabalho como professor não impede António Marques da Silva de continuar a sua vocação artística e literária: desenhava e pintava, era um incansável leitor e escrevia. Quando chegou a São Jorge, continuou a dedicar-se à poesia e à prosa e frequentou uma tertúlia santanense em que pontificava Alexandre Teixeira de Mendonça com o irmão, João Gabriel Teixeira de Mendonça, e ainda Américo de Câmara Leme. Estes últimos eram artistas: João Gabriel na guitarra e Câmara Leme em todos os instrumentos de corda. A estes concertos musicais, juntavam-se as discussões literárias, sobretudo com Assis do Nascimento e o seu filho, Abel Almada do Nascimento, companheiro de vultos das letras portuguesas como José Régio, Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões e outros elementos do movimento Presença.

O Professor Marques da Silva, originário de uma zona muito diversa da que vai encontrar no norte da ilha, interessa-se pelos costumes madeirenses e regista o que vê e ouve, elaborando um retrato etnográfico de São Jorge que será publicado nos Mensários das Casas do Povo entre 1950 e 1961, e que posteriormente será citado em obras de etnólogos como Jorge de Freitas Branco e Rui de Abreu de Lima.

Também compôs imensos poemas que permanecem inéditos, mas a sua poesia sobre a infância foi compilada por Maria Mendonça em Os Anjos Descem, publicado em 1981. Em 1985, é editado pela Secretaria Regional de Turismo e Cultura o seu romance Minha Gente que se centra na freguesia de São Jorge. Em 2013, surge a obra Linguagem Popular da Madeira, que resulta de uma compilação dos textos publicados por Marques da Silva no Boletim Mensal da Sociedade de Língua Portuguesa entre 1952 e 1963, com o mesmo título e com o título “Sobrevivência do Falar Antigo”.

António Marques da Silva colaborou ainda em revistas culturais e jornais como o Jornal da Madeira, A Voz da Madeira, o Comércio do Funchal, Flama, Revista Esperança, de Feliciano Soares, e  revistas ligadas à linguística, como a Revista de Portugal. O seu interesse pela música levou-o a colaborar na revista Pró Música, uma publicação nacional de música erudita, reservando o pagamento recebido pelos seus artigos para a compra de novos discos. Nos seus muitos artigos no Jornal da Madeira, onde colabora a partir de 1954, distinguem-se, em 1973 e 1974, as séries “Vultos do Passado”, em que desenvolve a sua atividade de memorialista, relembrando madeirenses ilustres, alguns de São Jorge e Santana. Neste jornal publica ainda, ocasionalmente, alguma poesia. Na Voz da Madeira, a sua colaboração foi intensa, participando com uma coleção de muitos contos, alguns de índole histórica, crónicas dos seus passeios por Portugal continental, que batiza de “Horizontes de Férias”, e com artigos semanais sobre o estudo da Língua Portuguesa, intitulados “Notas de Linguagem”. Na conhecida revista Flama tem uma participação pontual que se traduz em dois contos de caráter histórico: “O Milagre”, publicado na secção Pedaços da Vida e da História; e “Campanha da Selva”, publicado na secção Os Nossos Contos.

Obras de António Marques da Silva: “O Milagre” (1957); “Campanha da Selva” (1957) Os Anjos Descem (1981); Minha Gente, Crónica romanceada (1985); Linguagem Popular da Madeira (2013). Fonte oral: SILVA, António Ribeiro Marques da Silva, entrevistado por Ana Isabel Marques da Silva [comunicação pessoal], Funchal, 25 jun. 2013.

Ana Isabel Marques da Silva

(atualizado a 03.02.2017)