springett, william samuel pitt

William Samuel Pitt Springett nasceu em 1818 e faleceu em 1860 em França. Filho de Charles Springett (1785-1833) e de Mary Kentish (1792-1831), casou-se em Inglaterra, em 1841, com Matilda Penford (1820-1890). Deste casamento nasceram 13 filhos. A mulher de William Samuel Pitt Springett era filha de William Penfold (1776-1835) e de Sarah Gilbert (c. 1777-1856), devendo ter nascido na Quinta da Achada e sendo a irmã mais nova de Emma Penfold (1807-c. 1870), que se casara com George Stoddart (1795-c. 1860); o casal Stoddart vivia na altura na Quinta do Faial, em Santa Maria Maior, propriedade do abastado morgado liberal João José de Bettencourt e Freitas.

Tendo o pai de Matilda, William Penfold, falecido em 1835, alguns dos filhos teriam sido acolhidos em casa de familiares em Inglaterra e o casal Springett deve ter ido à Madeira nos meados de 1843, provavelmente para o pintor ser apresentado à família e para a mulher rever as irmãs que ainda se encontravam na Ilha. Segundo informa William Samuel no prefácio do seu álbum, datado de dezembro de 1843 na Quinta do Faial, os seus trabalhos destinavam-se inicialmente a decorar uma sala, “my wife’s drawing-room” [a sala de estar da minha mulher], onde Matilda se pudesse recordar da ilha da Madeira, para o que trouxera material de trabalho, embora estivesse ciente que os seus desenhos não chegariam à qualidade dos anteriores trabalhos de Andrew Picken (1815-1845). No entanto, a forma como fora recebido e a necessidade de retribuir todas essas amabilidades haviam-no levado a empreender a edição desses mesmos trabalhos (SPRINGETT, 1843, 7).

O autor faz depois uma resenha geral da magnífica paisagem da ilha, de como fora bem recebido na “English Reading-Room” [Sala de Leitura inglesa] pelo irmão mais novo do conde Tojal (1788-1852), Alexandre Oliveira, que por essa data instalava a Associação Comercial do Funchal, que era por vezes assim designada, tal como refere elogiosamente aquele que era então o mais importante jardim fundado nas antigas quintas madeirenses, o de Mrs. Penfold (sua sogra), na quinta da Achada. Deve ter sido, assim, por seu incentivo, que a cunhada, Jane Wallas Penfold (1821-1884), se abalizou então a dar à estampa o álbum Madeira Flowers, Fruits, and Ferns, editado em Londres, em 1845 (Litografias e litógrafos), data aproximada em que também deve ter saído o de Springett, embora datado no prefácio de dezembro de 1843.

O álbum Reccollection of Madeira, dedicado na folha de rosto a Mrs. Geo Stoddart e tendo como autor William Samuel Pitt Springett, foi uma edição de autor, tendo tido como litógrafo Thomas Picken (1815-1870), irmão de Andrew, e que acabaria os seus dias na Austrália, e tendo sido executado na casa editora onde ambos trabalhavam: Day & Haghe, Lith.rs to the Queen, London, 17 Gate St., Lincoln’s Inn F.ds; o álbum não se encontra datado, salvo no prefácio. A folha de rosto apresenta uma vista da Igreja de Nossa Senhora do Monte e, embora algo distante da qualidade dos trabalhos de outros autores, tem o especial interesse de parecer retratar com pormenor a estadia do casal Springett na Ilha, com vistas da capela da quinta do Faial, e ainda, muito provavelmente, os retratos das irmãs Emma e Matilda, tal como dos maridos, ou seja, o autor e o cônsul George Stoddart.

Emma Stoddart parece encontrar-se representada no pequeno campanário da capela do Faial, tal como depois na litografia Aguardando o nascer do sol, com sua irmã Matilda, estando o autor protegido pelo largo capote da mulher e o cônsul George Soddart à conversa com os carregadores. Matilda parece igualmente estar retratada na senhora da litografia The Palanquim, tal como o cônsul é, muito provavelmente, o divertido comerciante de botas altas da litografia The Hammock, tendo como fundo a igreja do Santo da Serra. Relacionada com a família deve ser a jovem Mary Lee, falecida a 9 de outubro de 1839, com 17 anos, para a sua sepultura e memorial terem merecido, em Stanger’s Grave uma página de destaque neste álbum.

A descendência de William Samuel e Matilda Springett espalhar-se-ia pelo vasto império britânico, tal como a dos vários irmãos e irmãs Penfold, tendo o autor acabado por falecer em Varengeville, França, a 5 de junho de 1860. O interesse do seu álbum, para além do retrato do quotidiano madeirense e dos seus costumes (como por exemplo o pagamento de uma promessa na capela de Nossa Senhora do Faial, onde também figura a igreja anglicana; e a representação do padre católico, da freira de Santa Clara e de vários tipos madeirenses), reside ainda nos apontamentos do quotidiano de uma família inglesa, com alguma intimidade e descontração, o que não era muito habitual Em 1990, o colecionador Paul Alexander Zino (1916-2004) custeou pessoalmente uma reedição deste álbum.

Bibliog: NASCIMENTO, João Cabral do, Estampas Antigas da Madeira, Funchal, Club Rotário do Funchal, 1935; PENFOLD, Jane Wallas, Madeira Flowers, Fruits, and Ferns, litografias de William Lewes Pugh Garnons, London: Reeve, Brothers, 1845; SAINZ-TRUEVA, José de (org.), Viagens na Madeira Romântica, catálogo de exposição no Teatro Municipal, Funchal, SRTC/DRAC, 1988; SOUSA, Francisco Clode de, “Aparências e permanências”, in Estampas, Aguarelas e Desenhos da Madeira Romântica, catálogo de exposição na Casa Museu Frederico de Freitas, Funchal, DRC/SRTC, julho a dezembro de 1988, pp. 15-38; SPINGETT, William Samuel Pitt, Reccollection of Madeira, dedicated to M.rs Geo. Stoddart, Londres, Day & Haghe, Lith.rs to the Queen, 1843 a 1845;

Rui Carita

(atualizado a 05.02.2016)