staden, hans

Pela Madeira, nas novas rotas marítimas, passaram ao longo do séc. XVI naus armadas e bombardeiros contratados nos mais diversos locais, especialmente alemães, como é o caso de Hans Staden, nascido em 1525 e falecido em 1579, que nos deixou uma pequena descrição da cidade do Funchal. Este viajante, que depois se apresentou também com conhecimentos de fortificação, deslocou-se ao Brasil em 1547, passando pelo Funchal na nau do capitão Penteado, nome hoje de difícil identificação por vários comandantes de navio o terem utilizado e integrado numa pequena esquadra, que incluía mais uma caravela.

Hans Staden 1557_grav 1664
Gravura de Hans Staden, 1664, Arqui. Rui Carita.
Hans Staden_Alemanha
Hans Staden, Alemanha, Arqui. Rui Carita.

Esses bombardeiros ao chegarem ao Funchal receberam a missão de se deslocarem à costa de Marrocos, à “Berberia”, dada a informação de ali se encontrarem naus não portuguesas a negociar com os mouros, conseguindo aprisionar um desses navios, castelhano, da praça de Valência, carregado com açúcar marroquino, entre outras coisas, como tâmaras, amêndoas, peles de cabra e goma-arábica, “um carregamento bom e intato” (STADEN, 1974, 42), que trouxeram para o Funchal. O navio foi aprisionado no porto da antiga cidade portuguesa de Santa Cruz de Cabo de Guer, posteriormente Agadir, referida no texto como “Ighir Ufrani”, mas na ilustração como “Cape de Gell” do “Sheriffie in Barbaria”, pois que caíra em poder do sultão de Marraquexe em 1542, e na qual, inclusivamente, tinham perecido muitos madeirenses e outros haviam sido aprisionados, tendo levado anos para serem resgatados (Convento da Piedade de Santa Cruz).

nau com atrolábio e balestilha_1547
Nau com astrolábio e balestilha, 1547.
St Cruz de Cabo de Guer Agadir_1547
St. Cruz de Cabo de Guerra Agadir, 1547.

A nau em que Hans Staden seguiu para o Brasil em 1547 tinha por missão adquirir pau-brasil e levar alguns degredados para o povoamento de Pernambuco, acabando por ter tido combates com os nativos sublevados naquela capitania e, depois, com uma nau francesa. Regressando a Lisboa em outubro de 1548, Hans Staden optou por voltar à América do Sul, então ao serviço de Castela, saindo de Sevilha em 1549, com destino ao Rio da Prata. A nau castelhana veio a naufragar perto de Santa Catarina, acabando Staden por optar por seguir para S. Vicente, vindo a ser contratado para condestável e depois para comandante do pequeno forte de S. Luís, que ele próprio entretanto reedificara, segundo escreveu, dentro da dualidade de funções já descrita. Esta fortaleza, depois de reconstruída, passou a denominar-se S. José de Bertioga, a partir de 1762.

St Cruz de cabo de Guer_1547
St. Cruz de Cabo de Guerra, 1547, Arqui. Rui Carita.
Medição dos astros com astrolábio e balestilha_Funchal 1547
Medição dos astros com o astrolábio e baslestilha, Funchal, 1547. Arqui. Rui Carita.

O aventureiro alemão passou assim por diversas situações complicadas, inclusivamente tendo estado quase para servir de refeição aos antropófagos, de quem esteve refém durante vários meses, aventuras que regressado à Europa deu à estampa em Marburgo, em 1557, com o título geral de História do Brasil, trabalho que conheceu depois inúmeras edições e traduções.

Da edição original constam diversas gravuras, uma das quais de uma nau portuguesa com dois marinheiros a medir a altura dos astros com astrolábio e balestilha, ilustração inserida junto do texto sobre a visita ao Funchal e que será das imagens mais divulgadas pela bibliografia dos Descobrimentos. A gravura que representa Santa Cruz de Cabo de Guer é a mais antiga representação iconográfica desta fortificação portuguesa.

Folha de rosto das viagens de Hans Staden_1557
Folha de Rosto das Viagens de Hans Staden, 1557, Arqui. Rui Carita.

A passagem de Hans Staden pela Madeira e concretamente pelo Funchal, representa a estreita ligação da ilha ao Brasil e a sua deslocação a Agadir, a ligação da praça do Funchal com o comércio das praças do sul de Marrocos, mesmo depois de essas praças terem deixado de ser portuguesas.

Bibliog:: CARITA, Rui, História da Madeira, I vol., Povoamento e Produção Açucareira (1420-1566), Funchal, SER, 1999; Id., “L’Ile de Madére dans les relations marocaine-portugaises”, comunicação ao Colóquio Internacional Le Maroc et le Portugal: dialogue des cultures, Rabat, Universidade Mohamed V de Rabat, Faculdade de Letras e Ciências Humanas, 11-15 dez. 1991; STADEN, Hans, Warhaffige Historia Hud Bescherenbung Eines Landeschaft Der […] Meusceufresseerbriten In Amerika, Marbourg, André Kolbe, 1557; STADEN, Hans, Duas Viagens ao Brasil, Belo Horizonte/ São Paulo, Ed. Itatiaia/Ed. da Universidade de São Paulo, 1974;

Rui Carita

(atualizado a 03.03.2016)