clube desportivo nacional

O Nacional Sport Grupo, um grupo de rapazes liderado por Antonino Figueira, nasce a 8 de dezembro de 1910, com a intenção de fomentar a atividade desportiva, de promover a educação intelectual dos seus associados, de conservar e desenvolver a sua biblioteca e o seu gabinete de leitura, e de realizar reuniões familiares, palestras, conferências científicas e desportivas. O clube surgiu da vontade coletiva e da intenção de independência em relação ao Ateneu Comercial, local onde habitualmente reunia.

A primeira referência que encontrámos nos periódicos da época sobre o Nacional Sport Grupo surge a 15 de setembro de 1911, no Heraldo da Madeira. A 14 de novembro de 1916, O Povo revelava que seriam aprovados, por unanimidade, os estatutos do clube, bem como a nova bandeira, proposta por Carlos Figueira. Em 1917, anunciava-se o 7.º aniversário do clube, já sob a designação de Grupo Desportivo Nacional.

O Clube Desportivo Nacional viu o seu primeiro emblema ser desenhado por Carlos Figueira, irmão do sócio fundador, Antonino Figueira. Apesar de não termos encontrado qualquer imagem desse emblema, no boletim especial comemorativo dos 50 anos do clube, O Nacional, referia-se que “o emblema ou as insígnias eram uma folha de trevo com as iniciais N.S.G. sobre uma bola, chuteiras, caneleira de cricket e raquete” (O Nacional, 1960). O logótipo que se conhece é em forma de escudo, tal como o do União da Madeira, com fundo branco e listas pretas e brancas, encimado pelas iniciais do clube. Fugindo às cores da república (que eram as Clube Sport Marítimo) e às da monarquia (as do Sports Clube da Madeira), o clube adopta o branco e o preto, mantendo este logótipo até à déc. de 90, época em que uma circunferência com as cores da cidade do Funchal (o roxo e o amarelo), as inscrições “C. D. Nacional”, “Madeira” e duas bolas de futebol se juntam ao anterior. Ao contrário do Club Sport Marítimo, cuja ligação ao futebol é assumida desde o primeiro logótipo, no Clube Desportivo Nacional essa intenção só se concretiza após 80 anos de existência.

Foi Carlos Figueira o responsável pelo primeiro estandarte do Clube. Simbolizando invulgaridade, sobranceria e fortaleza, utilizou o condor, uma ave com plumagem preta e de asas esbranquiçadas, símbolo depois utilizado nas distinções honoríficas a atribuir a sócios cujo mérito tenha, de alguma forma, engrandecido o Clube. O seu hino é da autoria dos irmãos Freitas.

O primeiro campeonato organizado pela Associação de Futebol do Funchal, em 1916, conta já com a participação do Clube Desportivo Nacional, bem como do Clube Sport Marítimo, do União Football Club, do Club Sports da Madeira e do Sporting da Madeira.

Em 1921, o Nacional é campeão em table tennis com o atleta madeirense João Crisóstomo Luís. Dois anos mais tarde o Clube constitui uma equipa de infantis, a primeira a ser criada na Madeira. Nesse mesmo ano surge, a 14 de dezembro, o semanário desportivo da propriedade do Nacional, o Sport do Funchal. O Clube Desportivo Nacional, nos seus primeiros anos de vida, vai dedicar-se ao futebol, à natação, ao ténis e ao polo aquático. Entre 1922 e 1926 é, repetidamente, campeão no polo aquático.

É da responsabilidade do Clube Desportivo Nacional a construção do primeiro estádio na Madeira. A notícia de que o Clube adquirira um terreno para a construção de um estádio é-nos dada pel’O Desporto, a 15 de julho de 1923. Surge, em São Martinho, uma zona com a qual o Nacional tem uma ligação umbilical por ser a freguesia onde se situavam os entretanto extintos Campo do Brás – um terreno coberto de relva e cercado de plantação de cana-de-açúcar junto ao sopé do Pico da Cruz, assim conhecido por ser o apelido da família do proprietário do terreno – e Campo dos Pinheiros do clube – um terreno situado próximo da zona do Avista Navios, propriedade do médico António Alfredo da Silva Barreto (1845-1918) –, locais onde os primeiros jogadores terão dado os primeiros pontapés na bola.

A 8 de dezembro de 1923, no Golden Gate, António Nunes, o presidente da direção do Clube, que à data contava com cerca de 1000 sócios, afirmava que iriam construir a maior obra desportiva na Madeira, um bom campo de jogos, que substituiria o velho campo Almirante Reis. Em dezembro desse mesmo ano, seria adjudicada, pela Junta Geral do Distrito, a empreitada do troço da rua que ligaria o caminho de São Martinho à estrada Monumental, o primeiro passo para a construção do estádio dos Barreiros. As obras começaram em 1925 e prolongar-se-iam até 1930, gastando-se cerca de 848 contos. O estádio foi inaugurado em 1927, com a visita do Vitória de Setúbal.

Em 1926, e para ajudar o trabalho de uma comissão encarregada de construir um sanatório para a tuberculose, o Clube Desportivo Nacional organizou uma festa náutica denominada o Dia do Nacional.

Um ano mais tarde, por despacho conjunto dos ministros das Finanças e da Instrução Pública, publicado no Diário do Governo, n.º 90, II série, de 27 de abril de 1927, o Clube Desportivo Nacional era considerado instituição de utilidade pública.

Embora tenha usufruído da ajuda dos sócios, o Clube Desportivo Nacional teve ainda de recorrer a empréstimos bancários. Mas, numa época de instabilidade, agravada por uma grande derrocada económica – a falência do banco Henrique Figueira da Silva –, tornou-se tarefa árdua cumprir as suas obrigações financeiras. Várias ações foram colocadas em prática, mas o campo acabou por ser entregue à Junta Geral e ao desporto regional, a troco de 280 contos. Esta situação foi criticada nos periódicos da época, que, satiricamente, ficcionam um cortejo de carnaval onde a instituição alvi-negra é representada por uma visão do futuro em que o estádio se encontra terminado, com 35 bilheteiras e 1 porteiro, e cuja inauguração é feita com uma excelente equipa que o rei D. Sebastião traz de Alcácer-Quibir.

Em 1927, o Nacional vence o primeiro jogo do campeonato da Madeira, por cinco a dois, frente ao então campeão de Portugal, no mesmo ano em que inaugura, na cidade, a Escola de Aprendizagem de Futebol de Raul de Freitas, pioneira na Madeira, e a primeira equipa de basquetebol.

É na época de 1934/1935 que o Nacional alcança os primeiros grandes resultados futebolísticos, ao sagrar-se campeão da Madeira, situação que se repetiu por três anos consecutivos. Na época de 1941/1942, o Nacional vence o campeonato da Madeira, já com representação insular no campeonato de Portugal, mas com a conflagração mundial e o clima de insegurança que se vivia, nomeadamente no que dizia respeito ao tráfego marítimo, a Madeira deixa de fazer parte da prova. Em termos nacionais, em 1946/1947 verifica-se uma reforma profunda na competição, que começa a funcionar por pontos, em forma de liga e de modo hierarquizado. A Taça de Portugal sofre um interregno nas épocas de 1946/1947 e 1949/1950, por falta de transporte e de segurança, em consequência da guerra.

Em 1947, Vasco de Abreu e José da Silva, o “Saca”, conquistam os títulos de campeão nacional e de recordista absoluto de Portugal em natação. “Saca” ficaria para sempre na história da natação do país, por ter sido campeão nacional dos 1000 m e dos 1500 m e o detentor do recorde ibérico dos 1000 m, por ter batido o recorde da travessia Berlengas-Peniche (1956) e por ter atravessado, a nado, o Canal da Mancha (em 1957 e em 1958) sendo, no regresso, recebido na Madeira de forma apoteótica.

O Nacional participa no campeonato nacional de voleibol, sagrando-se campeão de Portugal em 1949. Poucos meses depois, vai aos Açores e participa, por diversas vezes, nos jogos intercidades que decorreram entre o Funchal e Ponta Delgada (futebol), entre o Funchal e as Caldas da Rainha (ténis de mesa) e entre o Funchal e Lisboa (voleibol).

Em 1956, entra em campo a primeira equipa de hóquei em patins do Clube e, em 1959, dá-se a estreia da equipa de andebol de sete.

O ano de 1959 fica marcado pela I Volta à Ilha em Automóvel, prova em que o nacionalista Juvenal Gualberto de Freitas obtém a melhor classificação madeirense. No ano seguinte, o atleta nacionalista João Nóbrega de Freitas vence a V Légua Nacional, em Coimbra, e, nas comemorações dos 50 anos de vida do Clube Desportivo Nacional, têm início as quermesses, o maior evento cultural dos anos 60 na Madeira, através das quais se cimentava o associativismo em torno do clube e se angariavam verbas interessantes e necessárias, muitas vezes para fins caritativos. Por aqui passaram, até 1964, os mais famosos artistas nacionais e estrangeiros, v.g. Max, o Conjunto Académico João Paulo, Xiomara Alfaro, o Duo Ouro Negro, Simone de Oliveira, Alberto Cortez, António Prieto, Raul Solnado e Madalena Iglésias.

O mesmo espaço onde decorriam as quermesses, a Qt. Vigia, foi utilizado para apresentar à sociedade civil e desportiva, a 8 de dezembro de 1956, a equipa de infantis, reservas e de honra de hóquei em patins e uma patinadora artística – Maria Boulander – de apenas 15 anos.

Em 1964, o Papa Paulo VI recebe, no Vaticano, peregrinos filiados no Nacional, através de quem o Sumo Pontífice envia uma bênção apostólica a todos os adeptos da instituição. No ano seguinte, o clube organiza, no Complexo Balnear do Lido, o grande festival luso-espanhol de natação.

A exemplo do que acontecera com as quermesses, o Nacional aposta em boletins e diverso material escrito, bem como na difusão de programas radiofónicos (o “Tempo Desportivo”), que haveriam de despertar curiosidade e adesão nos anos em que a rádio fazia espoletar revoluções.

Em 1975, após a conquista do campeonato da Madeira, o Nacional passa a integrar o campeonato nacional de futebol da terceira divisão. Na época de 1977/1978 ascende à segunda divisão e em 1987/1988 ao escalão máximo do futebol, do voleibol e da natação masculina, regressando, em 1991/1992, à segunda divisão de honra na modalidade de futebol.

No ano de 1993, o nacionalista Ricardo Fernandes é selecionado para participar nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em badmínton. Um ano mais tarde, o Nacional sagra-se campeão nacional de basquetebol de masculinos e cadetes, o jovem atleta Cristiano Ronaldo ingressa no Nacional, e a equipa sénior de futebol mantém-se na segunda divisão de honra, descendo para a segunda divisão B em 1995/1996.

Em 1999/2000, o Nacional regressa à segunda liga (a anterior divisão de honra) e, em 2001/2002, à primeira liga. Em 2003/2004, conquista a melhor classificação de sempre de uma equipa madeirense – o 4.º lugar, com 56 pontos –, garantindo a presença na primeira competição europeia do clube (taça UEFA), onde defrontou o Sevilha FC. Esta qualificação repete-se em 2006, ao classificar-se em 5.º lugar no campeonato nacional de futebol, defrontando e perdendo com o Rapid de Bucareste.

Nesse mesmo ano, o atleta Filipe Besugo consegue a melhor participação portuguesa até então em ginástica artística masculina, nos Jogos Olímpicos de Atenas.

Inaugura-se a Cidade Desportiva do Clube Desportivo Nacional no ano de 2007. Um ano depois, é a vez de a natação brilhar no panorama europeu, com o atleta Emanuel Gonçalves, que se destacou no Meeting de Berlim, ao estabelecer um novo recorde europeu nos 200 m mariposa (natação adaptada).

Em 2009, em São Petersburgo, o Clube Desportivo Nacional ganha ao Zenit FC, um dos gigantes do futebol europeu, vencedor em título da taça UEFA e da Supertaça europeia. Ao vencer o clube russo, o Nacional qualifica-se para a fase de grupos da liga Europa defrontando o Werder Breman, o Atlético de Bilbao e o Áustria de Viena.

O futsal dá os primeiros passos no Clube no início do séc. XXI, com presença, durante uma época, na terceira divisão nacional. Após regressar aos regionais, o Nacional ascende uma vez mais ao escalão máximo da competição na época de 2010/2011.

Em 2010, o Nacional comemora um século de existência. O programa oficial para celebrar esta efeméride era composto por um jantar de gala; pelo espetáculo Lago dos Cisnes, da responsabilidade da Moscow Tchaikovsky Ballet  e da Orquestra Clássica da Madeira; pelo colóquio Desporto e Globalização, tendo como preletores José Manuel Paquete de Oliveira, Fernando Gomes, José Manuel Castanheira da Costa, Emanuel Medeiros, Rui Alves e Fernando Paula; e pelo lançamento do livro Nac100nal 1910-2010: Álbum do Centenário.

Ao longo do seu primeiro século de vida, e passando pela direção de catorze presidentes, o Nacional viu surgir diferentes grupos de apoio: os Alvi-negros (1980), os Pretos-brancos (1980), a Força Alvi-negra (1983) e a Claque Feminina. Merecem ainda destaque muitos atletas internacionais que, durante os primeiros cem anos de vida do Clube, se salientaram nas mais variadas modalidades, como sejam José da Silva, Filipe Besugo, Fátima Freitas, Nuno Pereira, Ricardo Neves, Tiago Camacho, Rubina Andrade, Luís Pinto, Tomás Freitas, Mónica Freitas, Ricardo Fernandes, Paulo Franco, Emanuel Gonçalves e Fabiana Quintal.

Bibliog.: “Antonino Ascensão Figueira”, in O Nacional, 1960; NÓBREGA, Tolentino (coord.), Nac100nal 1910-2010: Álbum do Centenário, Funchal, Clube Desportivo Nacional, 2010; NASCIMENTO, Andreia Micaela, Quando a Identidade os (Des)Une – A Projecção Social e Cultural do Marítimo, Nacional e União na Madeira entre 1910-1926, 1945-1955 e 1974-1987/88, Dissertação de Mestrado em Gestão Cultural apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2011.

Andreia Micaela Nascimento

(atualizado a 03.03.2018)

gomes, álvaro reis

Diretor do Diário da Madeira e da Escola Industrial e Comercial do Funchal, dividiu-se pela advocacia, depois de cursar direito em Coimbra e Lisboa, pelo jornalismo e pela docência, empenhando-se desde a juventude no projeto que lhe trouxe maior reconhecimento: o ingresso do Club Sport Marítimo, enquanto campeão de futebol da Madeira, no campeonato nacional, que arrancara na época de 1921-1922. Nesse sentido, a missiva que inseriu n’O Sport de Lisboa (1 de abril de 1922) fez dele, em 1923, delegado da Associação de Futebol do Funchal para convencer a União Portuguesa de Futebol da justeza daquela pretensão. Só vinte anos depois, residindo em Lisboa, o relutante delegado conseguia junto da agora Federação Portuguesa de Futebol que um dos dois jogos da eliminatória da Taça de Portugal fosse no Funchal. Houve justiça, por isso, na atribuição do Leão de Ouro (1953), o mais alto galardão do clube, a quem, desde 1917, já exercia funções diretivas e foi presidente da Assembleia Geral em 17 mandatos, entre outros cargos.

A sua bibliografia é a de um conferencista e descansa nas páginas ou informações de jornais; exemplo disso é a conferência, proferida em 14 de setembro de 1925 no Salão Nobre do Teatro Municipal, sobre o tenor madeirense Lomelino Silva. A colaboração impressa, sucinta (máximo de 30 páginas) e vária, não muito aprofundada, reduz-se a poucos títulos: “O Comércio: sua Origem e Evolução Histórica”; “Mutualismo” (edição do autor), palestra proferida no Montepio Madeirense, com elogio de Ferreira de Castro, o animador da “Semana do Mutualismo”, no lisboeta O Século: “o escritor ilustre e profundamente humano – o mais profundamente humano de todos os nossos escritores” (1933, 9).

O elogio, diametralmente oposto, de um situacionista cai em 1938: “A Lição de Salazar: Dez Anos no Ministério das Finanças a Bem da Nação”; consensual, celebra o “Almirante Gago Coutinho: a sua figura e méritos”, em curto artigo da revista Independência (Lisboa, 1959), da Sociedade Histórica da Independência de Portugal, aonde regressa, também com separata, para festejar “Portugal e Brasil na Celebração do ‘Dia da Comunidade Luso-Brasileira’” (1967).

No salão nobre da Casa da Madeira em Lisboa (Palácio Pombal), curou de “António Feliciano Rodrigues (Dr. Castilho): o Grande Poeta Madeirense”. E na Revista Municipal alfacinha (n.º 112/113, 1967, 16-25) insere, com separata, “Madeira e Madeirenses na Toponímia de Lisboa”, onde nomeia, topografa e historia ou biografa: Av. Ilha da Madeira; R. Gonçalves Zarco; R. Tristão Vaz; R. Bartolomeu Perestrelo; R. do Funchal; praceta Aires de Ornellas; R. Augusto José Vieira; R. Dr. Câmara Pestana; R. Francisco Franco; R. Francisco Luís Pereira de Sousa; R. Comandante Freitas da Silva; Lg. de D. João da Câmara; R. Quirino da Fonseca; R. Reis Gomes; Pç. do General Vicente de Freitas. Rastreamos um derradeiro artigo, “A Ilha da Madeira Vista por Grandes Nomes das Letras Nacionais e Estrangeiras”, em Das Artes e da História da Madeira: Revista de Cultura da Sociedade de Concertos da Madeira (Funchal, vol. VIII, n.º 38, 1968, 27-29).

Obras de Álvaro Reis Gomes: “O Comércio: sua Origem e Evolução Histórica” (1929); “Mutualismo” (1933); “A Lição de Salazar: Dez Anos no Ministério das Finanças a Bem da Nação” (1938); “Almirante Gago Coutinho: a sua Figura e Méritos”, Independência (1959); “António Feliciano Rodrigues (Dr. Castilho): o Grande Poeta Madeirense” (1965); “Portugal e Brasil na Celebração do ‘Dia da Comunidade Luso-Brasileira’” (1967); “Madeira e Madeirenses na Toponímia de Lisboa” Revista municipal (1967);“A Ilha da Madeira Vista por Grandes Nomes das Letras Nacionais e Estrangeiras”, Das Artes e da História da Madeira (1968).

Ernesto Rodrigues

(atualizado a 24.09.2015)