preto, alberto gonçalves

Pedro Alberto Gonçalves Preto nasceu na freguesia da Sé, Funchal, a 7 de setembro de 1907, filho de Francisco M. de Freitas Gonçalves Preto, advogado e jornalista, e de Sofia Amélia Gonçalves Preto. Casou-se com Maria Aurora de Sousa Gonçalves Preto, com quem teve um filho, Edgar Reinaldo de Sousa Gonçalves Preto, cineasta. No dia 12 de dezembro de 1917, com apenas 10 anos, foi atingido por estilhaços de uma granada num ataque de submarinos alemães, que despejaram sobre o Funchal 50 obuses de grosso calibre em plena Primeira Guerra Mundial, ficando com uma permanente, mas ligeira, deformação no braço direito.

Morador na R. da Carreira, no Funchal, Gonçalves Preto tirou o curso no Liceu Jaime Moniz e frequentou a Universidade em Lisboa, cidade que “de lés-a-lés calcorreou de velhusca capa e batina” (Re-nhau-nhau, 25 maio 1971, 4) e onde contactava frequentemente com o conterrâneo e amigo Teixeira Cabral e o caricaturista Reinaldo Ferreira, conhecido como Repórter X.

Desde o tempo do liceu começou a firmar qualidades enquanto jornalista. Fundou e dirigiu, em conjunto com Arnaldo Barão, a Piada Académica, cuja realização foi para Preto uma espécie de alvorada no jornalismo.

Trabalhou no jornal O Fixe, sob a direção de Jaime de Macedo, de onde sai em consequência de uma cisão. Ao lado de João Miguel, amigo de longa data, Gonçalves Preto funda o Re-nhau-nhau, um jornal satírico.

Sob a direção de Gonçalves Preto e tendo como editor João Miguel, o primeiro número, especial, sai no dia 16 de dezembro de 1929. Trimensário humorístico cuja redação foi montada no n.º 42 da travessa das Violetas, dirigia-se, na primeira página, “Aos briosos da briosa academia” do liceu do Funchal, título acompanhado de duas caricaturas, uma de Teixeira Jardim, presidente da academia, e outra de Liberato Ribeiro, presidente da executiva. Na capa deste número especial, o Re-nhau-nhau dá os primeiros ares da sua graça ao ser dedicado aos “‘miaus’ futuros pais da pátria em geral e às noivas em particular”. No dia 20 de dezembro de 1929, saía para as bancas, já com cariz mais político, o n.º 1, intitulado “Donde irradia a ordem e o progresso!…”. Gonçalves Preto dirigiu o trimensário durante 42 anos, ininterruptamente, até ao final da sua vida. A edição de 25 de maio de 1971 ainda o refere como diretor.

Ao mesmo tempo que dirigiu esta publicação, Gonçalves Preto foi chefe da secção de serviços administrativos da Caixa de Previdência e Abono de Família do distrito de Funchal.

Ou assinando com o seu nome, ou com o pseudónimo Gonçalves Cor Ausente, Gonçalves Preto escreveu tanto prosa como poesia, sendo neste género literário que publica, em 1955, Versos de Gonçalves Preto – Perfis de donzelas várias: “Tão linda que em pequenina/Havia um rapaz, por graça/Que ao vê-la passar, ladina/Dizia em voz cristalina:/– “É a minha noiva que passa”.//Cresceu, tornou-se mais linda,/E agora, o mesmo rapaz/Cheio de saudade infinda/Ao vê-la, suspira ainda,/E já não sabe o que faz,//Seus doces olhos castanhos/Duma suave ternura,/Têm qualquer coisa de estranho,/E a qualquer criatura/No coração fazem lenhos” (PRETO, 1955, 2).

Nos palcos do teatro amador e nos salões privados, Gonçalves Preto declamava poesia. Em 24 de agosto de 1933, com João Santana Borges e Filipe Correia, chegou a estrear, no Teatro Municipal do Funchal, uma revista teatral com o título O fim do mundo.

Pedro Gonçalves Preto morreu no hospital dos Marmeleiros, no Funchal, no dia 15 de maio de 1971. Foi sepultado no cemitério Nossa Senhora das Angústias, em São Martinho.

 

Obras de Pedro Gonçalves Preto: Versos de Gonçalves Preto – Perfis de Donzelas Várias (1955).

Bibliog.: CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses. Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; PRETO, Pedro Gonçalves, Versos de Gonçalves Preto – Perfis de Donzelas Várias, Funchal, Ed. Re-nhau-nhau, 1955; Re-nhau-nhau, n.º especial, 16 dez. 1929; Re-nhau-nhau, n.º 1, 20 dez. 1929; Re-nhau-nhau, n.º 1344, 25 maio 1971.

António José Macedo Ferreira

(atualizado a 03.02.2017)

teatro, salas de

Do grego théatron, o teatro procura, inicialmente, representar as ligações do humano com o divino, por um lado, e envolver os espectadores num ambiente mágico, por outro, até se tornar naquilo que é nos tempos modernos: a representação de ações através de vozes e gestos, levada à cena por atores.

Na Madeira, os locais das primeiras representações teatrais são os locutórios dos conventos e as igrejas, espaços improvisados que nem sempre respeitam a santidade do lugar. Ainda que as constituições do bispado do Funchal determinem “que se não façam nas igrejas ou ermidas representações […] de dia nem de noite, sem especial licença do prelado, pelos muitos inconvenientes e escândalos que disso se seguem” (SILVA e MENESES, 1998, III, 602), tal como aconteceu em 1578, aquelas não deixaram de se realizar nas centúrias seguintes. Em 1622, é representado um auto religioso na igreja de São João Evangelista, por ocasião da canonização de S. Francisco Xavier, e, em 1718, na igreja ou convento de Santa Clara, há uma representação dramática, da autoria de Francisco de Vasconcelos Coutinho, representada pelas freiras residentes, por ocasião da despedida do governador e Cap.-Gen. João de Saldanha da Gama, em que eram personagens a Ilha, a corte, a saudade, a religião e a fama.

A partir do séc. XVIII, as casas de espetáculo tornam-se uma preocupação para as autoridades municipais. A Casa da Ópera, no Lg. da Restauração, uma modesta casa de espetáculos na rua das Fontes, nomeada Comédia Velha nos princípios do séc. XIX, e o teatro Grande, edificado em frente do palácio de S. Lourenço, são os principais espaços de representação existentes no Funchal.

O teatro Grande ocupa, em 1780, uma grande parte do então Lg. da Restauração. É uma construção ampla, dispendiosa e demorada, o maior teatro do país depois do teatro S. Carlos, o qual, diziam as vozes mais dissonantes, não seria necessário para uma localidade pequena como o Funchal. Consumido pelo fogo no final do século, é utilizado como arrecadação de víveres e de apetrechos das tropas inglesas no início da centúria seguinte, na altura da ocupação, entre 1801 e 1802, embora se encontre em estado adiantado de ruína. Após a reedificação, nos anos seguintes, é habilitado com 90 camarotes, 300 assentos de plateia e 100 de varanda, e nele representam várias companhias, nacionais e estrangeiras, como a Companhia Grotesca, de Fabri, que canta operetas e executa bailados, segundo noticia o Patriota Funchalense, em 1821. No ano seguinte, num espetáculo solene, é apresentada uma sinfonia composta por António Francisco Drumond e a representação de A Festa do Olimpo, drama em três atos, de Manuel Caetano Pimenta de Aguiar.

Durante as lutas civis, o teatro é encerrado por longos períodos. Quando episodicamente se abre ao público, é palco de manifestações de carácter político, com alterações da ordem e com intervenções da força armada. Em algumas noites de espetáculo, os partidários das ideias constitucionais aproveitaram a reunião do grande número de espectadores para expandirem os sentimentos liberais, tanto no palco como na plateia, apesar da afronta que causam às instituições vigentes. Desta forma, o despotismo do governo absoluto e a guerra civil que assolam o país privam o Funchal desta grandiosa e bem ornamentada casa de espetáculos. Os adeptos da demolição defendem que se trataria de uma construção contígua à fortaleza, que causaria embaraços à defesa da cidade, e que o alargamento da rua e o embelezamento da entrada do palácio dos governadores seriam necessários: argumentos que contribuem para o fim do teatro em 1833.

Cerca de 1820, o teatro Bom Gosto é erguido a poucos metros de distância do teatro Grande. Situado entre a R. de São Francisco e o edifício da Misericórdia, possui entrada para aquela rua e para o lado do antigo Passeio Público. Presume-se que a sua edificação tenha sido um capricho do 1.º conde de Carvalhal, a quem pertenceu. Ao regressar do exílio, em 1834, manda fazer reparações e o espaço é transformado numa regular casa de espetáculos com 18 camarotes de primeira ordem, 6 de segunda, 230 lugares na plateia e 2 varandas, uma para homens e outra para mulheres. Não se sabe quando é encerrado, apenas se sabe que, em 1838, ali se realiza um espetáculo, embora se encontre em estado adiantado de ruína.

O teatro Prazer Regenerado, inaugurado em Dezembro de 1840, é um aproveitamento do refeitório e de outras dependências do extinto convento de São Francisco. A sua existência não tem larga duração.

As sociedades dramáticas são uma realidade na Madeira, embora nem sempre possuam espaços próprios para as representações. A escola Lancasteriana é, entre outros, um local utilizado para a execução de concertos musicais e representações. O teatro Concórdia, elevado na R. do Monteiro em 1842, é impulsionado pela sociedade dramática com o mesmo nome. O conhecido ator Robio é um dos elementos que integra o elenco. Em 1844, é ali levado à cena o drama Amor e Pátria, de Sérvulo de Medina e Vasconcelos, um dos seus marcos históricos. Em 1851, ainda se dão récitas no seu espaço.

Por 1858, funda-se no Funchal uma sociedade dramática conhecida pelo nome de Thália. Dá representações em diversos locais e, posteriormente, arrenda uma casa no Lg. do Pelourinho. Não se sabe quando deixa de existir nem quem eram os seus sócios e dirigentes, mas ainda apresenta récitas ao público em 1859.

Em 1858, o teatro Esperança nasce de uma sociedade dramática que propõe concretizar representações teatrais e proceder à construção duma pequena casa de espetáculos, e de que fazem parte Júlio Galhardo de Freitas e Pedro de Alcântara Góis. O comerciante João de Freitas Martins cede um armazém na R. dos Aranhas, e a Câmara e o conde de Carvalhal impulsionam as obras e assumem a manutenção do grupo. A inauguração solene realiza-se a 10 de março de 1859. António José de Sousa Almada, compositor dramático e redator duma revista teatral, presta à sociedade Esperança vários serviços, tanto na escolha como no ensaio e na representação de peças, até ao início dos trabalhos de abertura da rua 5 de Julho, altura em que são demolidas algumas das dependências do espaço. Em 1887, o mesmo é adquirido pelo conde de Canavial e, até 1888, ano em que é inaugurado o teatro D. Maria Pia, o pequeno teatro Esperança é a única casa de espetáculos da Madeira, levando ao palco várias companhias dramáticas e de opereta. Em 1915, é vendido ao empreiteiro João Pinto Correia, que pouco depois procedeu à sua demolição.

Até à construção do teatro D. Maria Pia, as salas usadas para espetáculos, como o teatro Thália, o teatro Concórdia, o teatro Esperança e o teatro Conde do Canavial, estabelecem-se aproveitando espaços já existentes, ligados a empreendimentos privados, e dependentes da vontade de sociedades dramáticas, de orquestras musicais e de outros entusiastas das artes. O objetivo destes locais, e dos que funcionam colateralmente com o D. Maria Pia, é a criação de espaços de lazer e a divulgação das produções artísticas dos amadores, associadas a iniciativas culturais de cariz filantrópico.

A segunda centúria do séc. XIX é marcada por várias tentativas de carácter particular e oficial para dotar a cidade do Funchal com um espaço grandioso e belo como o teatro S. Carlos de Lisboa. O desejo da população é concretizado durante a presidência de João Sauvaire da Câmara. Os trabalhos de construção são iniciados em 1884 e concluídos em 1887. O edifício possui 18 frisas, 20 camarotes de primeira ordem, 21 de segunda, 100 fauteuils, 160 cadeiras e 200 lugares de geral. A inauguração solene é realizada a 11 de março de 1888, altura em que sobe à cena a zarzuela Las Dos Princesas, pela companhia espanhola de José Zamorano. Nos anos seguintes, importantes companhias de zarzuelas, de líricas, de operetas, dramáticas, de concertistas, de prestidigitadores e de variedades levam à cena nomes sonantes da cultura e do espetáculo, nacionais e estrangeiros.

Inicialmente, no tempo da monarquia, é denominado teatro D. Maria Pia, passando a teatro Manuel de Arriaga em 1910, com a chegada da República. Mas o antigo deputado pela Madeira recusa que seja dado o seu nome ao espaço e a Câmara Municipal batiza-o de teatro Funchalense. Só após a sua morte, e até à posterior designação de teatro Balthazar Dias, na década de 30 do séc XX, é denominado teatro Manuel de Arriaga.

Apesar da existência de outros espaços de lazer, é no teatro principal que o público se revê. Expressões como “o nosso teatro”, “o elegante teatro”, “o nosso primeiro teatro”, “a nossa primeira casa de espetáculos” leem-se frequentemente na imprensa, dado ter sido um sonho dos madeirenses. Pelo seu palco, passam grandes companhias internacionais e nacionais, as melhores produções dramáticas e musicais de madeirenses, nos seus espaços organizam-se exposições de pintura, e as figuras públicas sobem ao palco em datas comemorativas, ocasiões em que a sociedade vai em peso ao teatro para participar dos momentos solenes.

Pelo pavilhão Paris e pelo teatro Circo passam sobretudo companhias portuguesas, onde permanecem dois e três meses seguidos, contrariamente ao que acontece no teatro principal, onde raramente excedem um mês de permanência. Durante a estadia, os artistas mais conhecidos organizam uma festa artística, ou um dia de destaque na representação, que geralmente dedicam a coletividades ou a personalidades, como forma de atração do público. As companhias nacionais dão récitas de caridade, uma tradição na Madeira, por ser uma região com elevados índices de pobreza.

As grandes companhias, dado o elevado custo das deslocações, pedem auxílio à Câmara do Funchal, e a sua ida só se concretiza mediante a recolha de assinaturas para conjuntos de 10 récitas, como nos casos da companhia de Italia Vitaliani, em 1913 e 1914, considerada pelo engenho erudito da edilidade funchalense um elemento educativo de inapreciável valor prático. Eventos desta envergadura são acautelados pelas autoridades locais que, a pensar no proveito, fazem melhoramentos na plateia do teatro, de modo a obterem um maior número de lugares; assim aconteceu por ocasião da vinda de Henrique Beut, em 1914, com a criação de melhores condições elétricas, e na altura da estadia de Italia Vitaliani e da representação da Guiomar Teixeira, de João dos Reis Gomes, com a colocação de lâmpadas mais económicas e mais intensas, ficando o teatro com o triplo da luz de que dispunha.

Nos anos de 1910 e 1911, marcados pelas enfermidades da cólera e da tuberculose, e também em 1914, por ocasião da deflagração da Primeira Guerra Mundial, dado a navegação ser reduzida, as companhias dramáticas fazem-se anunciar, mas não chegam a vir deslocar-se ao Funchal, sendo as produções locais e os concertos musicais as principais distrações dos madeirenses neste tempo. Efetivamente, nos períodos em que as companhias de profissão não visitam a Ilha, a elite social, com o propósito de realizar ações de caridade e de beneficência, organiza os mais variados eventos e leva ao palco das várias salas de espetáculo da Madeira, mais especialmente do teatro Funchalense, artistas amadores. Alguns deles celebrizam-se no meio, sendo aplaudidos como profissionais e bem vistos pelos críticos de arte. Outros chegam a ter projeção nacional e internacional. Os principais artistas amadores são nomes de famílias ilustres, como Emma Trigo, Isabel Soares, Angelique Beer Lomelino, que representam peças conhecidas do reportório das companhias nacionais e de autores madeirenses, e que, não raras vezes, se inserem nas companhias de fora, representando ao seu lado. Os concertos musicais são um marco do teatro na Madeira durante a República, destacando-se a atuação de músicos no início e nos intervalos das representações e das exibições cinematográficas, não apenas no teatro Funchalense, mas também no pavilhão Paris e no Teatro Circo. Os madeirenses revelam um apurado gosto pelo teatro, repugnam as imitações e a fraca qualidade da revista, condenam o excesso de obras estrangeiras, incentivam o trabalho dos amadores, escrevem peças de teatro de elevado mérito, representadas nos melhores teatros do país, e sobressaem na área da crítica teatral.

Bibliog.: BAPTISTA, Elina, Emigração e Teatro em Portugal no Século XIX. Retratos da Madeira e de Madeirenses, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos., 2008; Id., O Teatro na Madeira e a República”, in VIEIRA, Alberto (org.), República e Republicanos na Madeira, 1880-1926, Funchal, CEHA, 2010, pp. 425-468; SANTOS, Rui, A Construção do Teatro D. Maria Pia, Funchal, DRAC, 1994; SARMENTO, Alberto Arthur, “Teatros Antigos da Madeira”, Das Artes e da História, vol. vii, n.º 37, pp. 81-94; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos de Azevedo de, 1978, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978.

Elina Baptista

(atualizado a 30.01.2017)

arte na educação

Em matéria de arte na educação, a RAM aproveitou a descontinuidade territorial, que a separa do continente português e a privou de usufruir de muitas valências, invertendo a seu favor o sabor da insularidade. Usufruiu do mar e do que, em matéria social, este podia oferecer, proporcionando uma estreita relação com outros povos que ali paravam. Falamos, e.g., de uma forte relação com a comunidade inglesa, que por lá se estabeleceu no séc. XIX e com individualidades de outras nacionalidades, como a alemã, a espanhola e a russa, que ao longo dos séculos se distinguiram na relação com os autóctones.

Pelos registos apurados, podemos afirmar que, desde o início do séc. XIX, as artes fizeram regularmente parte da educação. Existem referências à aprendizagem da música, à prática do canto, às danças de salão, às récitas teatrais e às artes e ofícios, a par de outras atividades de cariz artístico, como os lavores e a aprendizagem das línguas. Fazendo um périplo pelos periódicos entre 1821 e 2015, é possível observar-se o lugar que as artes ocuparam em instituições de ensino regular, bem como confirmar a existência de aulas artísticas de cariz doméstico e até em instituições mais regulamentadas.

Na Madeira, as escolas com opção de disciplinas de âmbito artístico fizeram parte da educação ao longo do séc. XIX. Quando, em 1835, se assistiu à implementação do ensino primário obrigatório, uma das consequências foi a criação de múltiplas escolas e colégios. Na Madeira, a rede pública de escolas deveria ser notoriamente insuficiente, visto que encontramos, ao longo de Oitocentos, diversas escolas em espaços domésticos ou sem designação oficial onde era possível as famílias optarem por uma ou mais atividades artísticas, como o ensino do canto, da guitarra, do piano ou da dança, a par do desenho. Além destas atividades, as escolas e os pequenos colégios permitiam igualmente a opção pelo ensino das línguas, nomeadamente a francesa e a italiana, justificando-se esta última, sobretudo, quando do bel canto se tratava. Estas disciplinas (artísticas e línguas) tinham normalmente um custo acrescido.

Apesar do ensino feminino já existir no reinado de D. Maria I, foi com a reforma do ensino primário, em 1836, que foram implementadas as “escolas de meninas”. Na Madeira, também encontramos referências ao ensino feminino na imprensa, registando-se que as escolas ou colégios para meninas eram dirigidas por senhoras, como atesta o seguinte anúncio: “Colégio para educação de meninas, direção de Felisberta Augusta Teixeira” (com opção de lições de piano, dança e desenho com pagamento extra) (A Flor do Oceano, 12 set. 1839, 4). Neste contexto, é interessante constatar a presença contínua do ensino da dança, a par de disciplinas ligadas às línguas, à música e ao desenho.

As aulas de artes não aconteciam apenas em escolas ou colégios de ensino primário. Ao longo de todo o séc. XIX, há registos de aulas particulares, organizadas nas casas dos professores ou mesmo dos alunos. Entre outros, recolhemos anúncios na imprensa local de aulas de dança ministradas por Eduardo Soares e Paulo Valentino d’Ornelas Costa; lições de música, rabeca, piano, violoncelo e violino dadas por Nuno Graceliano Lino; e de piano e canto pelo P.e João Aleixo de Freitas. Até ao último quartel do séc. XIX, os docentes eram essencialmente masculinos, começando as mulheres, nessa altura, a predominar no ensino das artes. Importante, já então, era a presença de professores de naturalidades diferentes da portuguesa, proprietários, e.g., da Eschola Collegial Inglesa, que tinha lições de música e do Collegio de Jane H. Manly Tello. Estes factos revelam bem, ao nível da educação, a influência da comunidade inglesa na Madeira oitocentista.

Além do ensino artístico em contexto doméstico, também era possível desenvolver-se uma prática artística em contexto institucional, principalmente nas sociedades e clubes que proliferaram no séc. XIX, depois da revolução liberal. Neste âmbito, salienta-se o coro da Sociedade Philarmonica; a Academia Marcos Portugal, que proporcionava lições de solfejo para violino, violeta, violoncelo, rabecão grande e instrumentos de metal e palheta; e a Sociedade Recreio Musical, com aulas de dança dadas por Eduardo Soares, que acumulava com aulas que lecionava no Theatro D. Maria Pia.

Como se depreende do anteriormente enunciado, a maior parte das instituições e aulas artísticas desenvolvia-se fora do domínio público, embora houvesse algumas exceções. O Liceu, e.g., apresenta-se como uma escola oficial genérica que incluía atividades de educação artística. Outro caso de atividades artísticas promovidas por uma instituição pública é o da escola municipal de D. Francisco Vila y Dalmau, onde era possível estudar canto e dança.

Por fim, uma categoria que não deve ser esquecida: as aulas proporcionadas por professores e companhias que passavam pelo Funchal, como, e.g., as aulas de dança do Circo Equestre, em 1865. Era comum que os artistas que passavam pela Madeira para realizar concertos e espetáculos se disponibilizassem também para dar aulas particulares a quem estivesse interessado, situação que se manteve na primeira metade do séc. XX, como mostram os seguintes casos divulgados pela imprensa periódica: maestro Ricardo Nicosia Cortesi (piano); professor Cleto Zavala (lições de piano); cavalheiro inglês, muito competente para ensinar violino; professor D. Domingo Bosch (lições de piano).

Na transição do séc. XIX para o XX, qualquer novo estabelecimento de ensino vocacionado para mulheres que fosse criado no Funchal teria mesmo de incluir, quase obrigatoriamente, a disciplina de piano, embora de forma opcional, pois era lecionada em regime de aulas individuais. No colégio para meninas de D. Christina Adelaide Gomes, e.g., o currículo era constituído pelas disciplinas de inglês, francês, português, piano, machete, canto, viola e dança, em 1895. Em 1909, o colégio para raparigas João de Deus informava que as suas alunas podiam ter “aulas especiais de canto, piano e dança” com a professora Cora Cunha, discípula de Maria Capitolina Crawford do Nascimento Figueira (Almanach de Lembranças Madeirense, 1909, 288-289). Poucos anos mais tarde, por volta de 1912, foi criada, no convento de S.ta Clara, a Escola de Utilidades e Belas Artes, que se destinava a raparigas e que incluía no seu currículo também as áreas de música e de dança, assim como o ensino de piano em aulas individuais, de forma opcional.

Mª Adelaide Meneses e alunas. Autor desconhecido. Fonte: Arquivo Sílvio Fernandes
Mª Adelaide Meneses e alunas. Photographia Vicentes. Fonte: Arquivo Sílvio Fernandes

Este aumento do papel da mulher na educação artística contribuiu, provavelmente, para a sua emancipação profissional através da música. Enquanto noutras áreas era considerado pouco apropriado que a mulher de classe média assumisse uma profissão, no caso da música, a mulher começou regularmente a aparecer como professora, sobretudo nas áreas do canto, do piano e da dança. No período entre 1812 e 1880 surgem poucas mulheres a lecionar, mas a partir de 1870 inverte-se esta tendência, aparecendo frequentemente mulheres a lecionar música como atividade profissional remunerada, desaparecendo, e.g., quase por completo, os professores de piano masculinos.

No séc. XX, a par das reformas a no ensino oficial das artes, continuaram a ser criadas diversas escolas particulares de cariz doméstico que ofereciam no seu currículo a opção de atividades artísticas. Temos, assim, o Collegio de Santa Clara (piano e canto); o Collegio Maria José Ferreira (classe de dança, francês, inglês e música); o Colégio do Lisbonense (classes de instrução primária, português, francês, inglês, piano, dança e lavores); e o Colégio Madeira (classes de dança por Eugénia Rêgo).

É igualmente relevante encontrarem-se anúncios com a redação que se segue, sem nomear as professoras: “Uma senhora devidamente habilitada dá lições de piano e francês em sua casa ou na das alunas, por preços moderados” (DNM, 9 out. 1911, 1); “Senhora competentemente habilitada dá lições de piano e bandolim” (DNM, 26 mar. 1915, 1); ou ainda, o pormenor, “Classe de dança – Para principiantes e praticantes” (DNM, 6 out. 1911, 2); “Chamamos a atenção para o anúncio que hoje publicamos sob a epígrafe, ‘Classes de piano’, recomendando a professora, que tem toda a competência requerida” (DNM, 19 ago. 1917, 1).

No ensino específico e particular, nomeadamente em contexto doméstico, encontramos referências a lições de música dadas por Eduardo Antonino Pestana; Isabel Pamplona Spínola; Nuno Graceliano Lino; Artur Maria Lopes; Alfredo A. Graça, com o pormenor de se referenciar o método (piano e rabeca pelo curso do Real Conservatório de Lisboa, e bandolim pelo método de Christofaro y Gautiero); Angelique de Beer Lomelino; Gabriella Campos (lições de piano e solfejo pelo método do Conservatório de Lisboa); Maria Eugénia de Afonseca Acciaiolly Rêgo Pereira (ensinava coreografia erudita e folclórica a membros das classes alta e média madeirense num salão de dança); M. Graça Rego (ex-aluna dos professores Cleto Zavala, em piano e Beer Lomelino, em canto, dava lições de piano e canto); Maria Izabel Ferraz (aulas de dança). Denota-se uma preocupação com a metodologia aplicada e os fins a que se destinava. Leia-se “Lições de música. Curso geral completo pelos métodos mais modernos adotados no Conservatório de Lisboa” (DNM, 16 maio 1917, 1); “Professor Vasco de Oliveira (curso de violino seguindo todo o programa do conservatório (escola de Leonard)” (DNM, 4 abr. 1919, 1). Mantêm-se as escolas dirigidas por estrangeiros com atividades artísticas e as sociedades e clubes com atividades de educação artística: o artigo “Academia Dançante” referencia já o Atheneu Commercial com a professora Mathilde Xavier Ferraz, que dá lições de dança; o Grupo Recreativo da Mocidade Portuguesa proporciona aulas de música e classes de dança acompanhadas pelo pianista Leandro S. C. de Freitas.

No contexto das escolas oficiais de ensino genérico, existem igualmente diversas menções ao ensino de disciplinas artísticas: no Instituto de Ensino Secundário e Comercial, referem-se aulas de música, em que os métodos adotados são os mesmos do Conservatório de Lisboa e um curso de canto regido por uma distinta professora, que dava lições individuais e em classe; no Liceu Jaime Moniz, o professor de canto coral era Júlio Câmara, contanto a tuna académica e o orfeão com a direção de Gustavo Coelho; na Escola de Utilidades e Belas Artes (estabelecimento de ensino feminino), era possível aprender dança, piano e canto.

Em 1943 ocorreu um dos principais acontecimentos no campo da educação artística na Madeira, uma iniciativa que, em 2015, continua a dar frutos. Nesse ano, Luiz Peter Clode e seu irmão William Clode fundaram a Sociedade de Concertos da Madeira, que reunia um escola de intelectuais e artistas portugueses e estrangeiros, naturais ou residentes na Ilha, com a finalidade de contribuir para o crescimento de artistas e público especializado. No seguimento da criação dessa instituição, a prática das expressões artísticas cresceu substancialmente e, a partir de 1946, altura em que foi fundada, no âmbito da mesma, a Academia de Música da Madeira, que mais tarde conseguiu o paralelismo pedagógico com o Conservatório de Música de Lisboa, contribuiu para a creditação de professores e alunos madeirenses. Este estabelecimento foi sucessivamente restruturado após o 25 de Abril, vindo a integrar o ensino profissional das artes na viragem do século, alterando a sua designação, em 2000, para Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira e, em 2006, para Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira Eng. Luiz Peter Clode, em homenagem ao seu mentor.

Os cenários dos sécs. XX e XXI são completamente distintos e acompanham o natural desenvolvimento do ensino artístico na Região, tendo contribuído fortemente para o efeito o trabalho realizado, ao longo de 35 anos (1980-2015), pela Direção de Serviços do Ensino Artístico e Multimédia (antigo Gabinete Coordenador de Educação Artística). A par do trabalho de campo desenvolvido em toda a Região, motivou o surgimento de associações, filarmónicas e grupos de iniciativa privada que, em conjunto, contribuíram para os resultados atingidos: o ensino artístico integra, em 2015, a quase totalidade da rede do pré-escolar como atividade obrigatória e o ensino técnico profissional e especializado abrange já todas as áreas da expressão artística: a dança, a música, o teatro e variantes.

Bibliog.: impressa: “Academia Dançante”, DNM, 1 nov. 1912, p. 2; Almanach de Lembranças Madeirense, 1909; “Annuncios”, A Flor do Oceano, Funchal, 8 jan. 1837, p. 4; “Circo Equestre”, A Flor do Oceano, 20 maio 1865, p. 4; “Classe de Dança”, DNM, 6 out. 1911, p. 2; “Collegio”, A Flor do Oceano, Funchal, 13 jan. 1866, p. 4; “Collegio para Meninas”, DNM, 17 nov. 1895, p. 1; “Dança”, DNM, 16 nov. 1876, p. 1; “Escola de Canto Julio Camara”, DNM, 1 jan. 1920, p. 5; “Escola de Utilidades e Belas Artes”, DNM, 23 out. 1915, p. 1; “Escola de Utilidades e Belas Artes”, DNM, 31 jul. 1915, p. 2; “Explicação de Musica e Solfejo”, DNM, 6 fev. 1903, p. 1; “A Festa da Escola de Artes e Ofícios”, DNM, 2 jun. 1951, p. 4; GOMES, Carlos Alberto, Contributos para o Estudo do Ensino Especializado da Música em Portugal, Memória Final do CESE em Direção Pedagógica e Administração Escolar apresentada ao Instituto Jean Piaget Escola Superior de Educação de Almada, Almada, texto policopiado, 2000; “Lições de Música”, DNM, 16 maio 1917, p. 1; “Lições de Piano e Bandolim”, DNM, 26 mar 1915, p. 1; “Licções de Piano e Canto”, DNM, 1 set. 1877, p. 3; “Licções de Violino”, DNM, 9 nov. 1911, p. 2; “Marcos de Portugal”, DNM, 31 jan. 1893, p. 1; “Nuno Graceliano Lino”, DNM, 1 nov. 1896, p. 1; “Piano e Francez”, DNM, 9 out. 1911, p. 1; “Professora de Piano”, DNM, 19 ago. 1917, p. 1; “Prospecto”, A Flor do Oceano, 12 set. 1839, p. 4; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, SREC, 1978; digital: DIREÇÃO GERAL DE EDUCAÇÃO E CULTURA/COMISSÃO EUROPEIA, Eurybase, Base de Dados de Informação sobre os Sistemas Educativos na Europa. O Sistema Educativo em Portugal. 2006/07, http://www3.uma.pt/nunosilvafraga/wp-content/uploads/2007/07/eurydice-o-sistema-educativo-em-portugal-2006-2007.pdf (acedido a 26 out. 2015); GRUPO DE TRABALHO CONSTITUÍDO PELO DESPACHO CONJUNTO N.º 1062/2003, DE 27 DE NOVEMBRO, Relatório do Grupo de Trabalho Ministério da Educação Ministério da Cultura, abril de 2004, http://www.educacao-artistica.gov.pt/documentos/Rel_MEd_MC.pdf (acedido a 26 out. 2015).

Paulo Esteireiro

Teresa Norton Dias

(atualizado a 26.09.2016)

associação teatro experimental do funchal

O Teatro Experimental do Funchal (TEF), associação desde 2015, nasceu em 1975 pela comissão dos serviços culturais da Câmara Municipal do Funchal (CMF) com a denominação de Grupo Experimental de Teatro do Funchal (GETF), após a realização, no teatro municipal Baltazar Dias (TMBD), do Festival de Teatro do Operário promovido pelo Inatel.

A 9 de janeiro de 1976, o GETF estreou o Auto do Curandeiro, do poeta popular António Aleixo, numa encenação coletiva sob a orientação de Carlos Abreu. Estreou em 1977 o Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, com encenação de Orlando Barros, tendo como primeira parte o exercício teatral “Como se Prepara Um Ator”, da autoria do encenador. O trabalho foi integrado no que foi definido como 1.º Curso de Formação de Atores (CFA). O grupo continuou o trabalho de ator, sob a responsabilidade de Carlos Franquinho.

Os serviços culturais da edilidade reabriram o TMBD após a sua recuperação, convidando para esse fim o professor e encenador Leopold Kielanowsky, que fez a adaptação da peça A Noite de Reis ou o que Quiserdes, de William Shakespeare, com cenografia de Gino Romoli. O trabalho de preparação do espetáculo começou em novembro de 1977 e a peça estreou em janeiro de 1978, tendo reunido não só os atores que já faziam parte do grupo – Carlos Franquinho, Juvenal Garcês, Paula Camacho e Bento Abreu – como também outros elementos que faziam teatro na Região – Bernadette Andrade, Isaura Melim, Raúl Silva, Ambrosina Barbeito, Eduardo Luiz, António Plácido, Paulo César, Rui Honorato, Énio Gomes, Porfírio Fernandes e Ana Gouveia, entre outros.

Desde 1978, o grupo manteve o firme propósito de não se deixar extinguir. Nesse mesmo ano, a Fundação Calouste Gulbenkian apoiou a contratação do encenador Roberto Merino que, durante quatro anos, além de montar espetáculos, preparou e formou intérpretes de teatro, potenciando no grupo uma consciência do estar e do ser ator, como amador ou profissional. Este percurso tornou o ator mais coeso e consciente do seu trabalho, concorrendo beneficamente para o seu desenvolvimento, e o do teatro em geral, na Região. Ainda nesse ano, a CMF, através dos serviços culturais, atribuiu um valor monetário simbólico aos atores, contribuindo para a responsabilização e a dignificação do seu trabalho. Roberto Merino e Júlio Couto dirigiram o 2.º CFA e o grupo participou no 1.º Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica (FITEI), com a peça Woyzeck, de Jorg Büchner, com encenação de Roberto Merino.

Durante os quatro anos seguintes, Roberto Merino formou atores, e dirigiu e encenou várias peças: Histórias de Hakim, de Norberto D’Ávila, em estreia mundial, com a presença do autor (peça reposta em 1981); Tartufo, de Molière (reposta em 1980); Da Arte de Bem Governar, de John Arden; O Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry; Vinicius de Moraes – Homenagem, a partir de Vinicius de Moraes (1980); Farsas Populares, de Lope de Rueda, Cervantes e um anónimo francês do séc. XV (com que participou no 4.º FITEI e no Encontro Regional do Funchal, em Lisboa); Enquanto o Mundo For Mundo, de Francisco Ventura e Carlos Lélis (1981); Uma Terra de Paz e O Círculo de Giz de Augsburgo, a partir do Almanaque de Bertolt Brecht, e Liberdade, Liberdade, Liberdade, de vários autores (1982), que fez apenas uma representação para uma plateia convidada.

A saída de Roberto Merino obrigou o grupo a procurar novo diretor artístico e encenador. A 27 de setembro, após uma reunião de atores, o grupo passou a denominar-se TEF. Agora constituído por Carlos Franquinho, Bernardette Andrade, Eduardo Luiz, António Plácido, Fátima Rocha, Paulo Brazão, Nuno Gonçalves, António Ascensão e Henrique Vieira, iniciou um novo percurso.

De 1983 a 1985, Fernando Heitor foi o encenador do TEF, realizando também o 4.º e o 5.º CFA. Os serviços culturais da CMF propuseram ao encenador a montagem de um espetáculo diferente, com um cunho regional, o que veio a acontecer no princípio de 1983 com Noites da Madeira, escrito por vários autores de revista a partir do romance O Bairro, de Vasco Pratolini, com dramaturgia de Fernando Heitor. Foi o segundo espetáculo que contou com música ao vivo (o primeiro fora Uma Terra de Paz), numa antestreia apresentada com o grupo Algozes, mais tarde denominado Xarabanda. Em 1983 – ano que marcou a saída do TEF dos serviços culturais da CMF, devido a prioridades de ordem política –, Fernando Heitor encenou Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams.

Na impossibilidade de manter o grupo durante a presidência do edil João Fernandes, foi sugerida a formação em cooperativa, para o TEF poder concorrer aos diversos apoios existentes. Formaram a cooperativa Eduardo Luiz, António Plácido, Bernardette Andrade, Anita Abreu (que entrara em Doce Pássaro da Juventude), António Ascensão, Elmano Vieira, Henrique Vieira, Fernando Matta, Paulo Brazão, Fernando Heitor e Mavélia da Guia.

Com a produção de Doce Pássaro da Juventude, ainda foi esboçado um plano para novas apresentações fora do TMBD. Porém, a logística inviabilizou a concretização da ideia. A 12 de abril de 1984, o TEF constituiu-se como cooperativa de responsabilidade limitada. Nesta condição, o grupo foi apoiado financeiramente pela Direção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC) e pela CMF. Nesse mesmo ano, o Ateneu Comercial do Funchal (AtCF) recebeu o grupo, cedendo espaço para ensaios e espetáculos. O TEF apresentou-se como uma entidade cultural e artística de teatro, obtendo um apoio da Secretaria Regional de Turismo e Cultura (SRTC), através da DRAC. O guarda-roupa do grupo acabou por ser todo o espólio do grupo de teatro Os Cómicos, do qual Fernando Heitor fazia parte e que acabara de fechar as portas; foi o início dum extenso património que durante anos o grupo foi construindo.

Nesse ano, estreou Nostalgia, a partir de vários autores, com dramaturgia e encenação de Fernando Heitor, um espetáculo de café-concerto que aconteceu na sala de bailes do AtCF. Abrilhantaram o espetáculo, em algumas apresentações, o bailarino Michel e a atriz Maria Emília Correia. Ainda em 1984, Fernando Heitor fez a dramaturgia e encenou A Andorinha e as Árvores Falantes, um projeto da autora Bernardette Falcão, com apoio da DRAC e com apresentações no TMBD.

No ano de 1985, o TEF apresentou A Mosqueta, de Ângelo Beolco, com dramaturgia e encenação de Fernando Heitor, no palco do salão nobre do AtCF. Este trabalho foi o percursor dos espetáculos de itinerância por todo o arquipélago, concluindo mais tarde com uma apresentação no TMBD. Fernando Heitor regressou a Lisboa, mas não sem deixar a encenação de um espetáculo preparada (trabalho de cooperação entre o TEF e os grupos de teatro Colagem e 2+1), possibilitando a Eduardo Luiz a direção dos ensaios de As Criadas, de Jean Genet, com a assistência de Lília Bernardes e Ester Vieira (duas das intérpretes da peça). Neste mesmo ano, Eduardo Luiz iniciou o seu percurso como encenador residente no TEF. O grupo subiu ao palco do Casino da Madeira com um espetáculo para crianças: O Bosque Encantado, com textos, encenação e direção artística de Eduardo Luiz, integrado no Clube da Malta do Manel, uma rubrica da responsabilidade do Diário de Notícias (DN) da Madeira. Com encenação de Miguel Martins, Fantastomático, a partir da peça Kikerikist, de Paul Maar, espetáculo para crianças, estreou no AtCF, partindo depois em itinerância.

Em 1986, estreou As Criadas, de Jean Genet, com encenação de Fernando Heitor e direção de ensaios de Eduardo Luiz. O Natal em Casa de Castafiore estreou também neste ano, com texto e direção artística de Eduardo Luiz e integrado no Clube da Malta do Manel. O Emigrante, de João França, pelo grupo de teatro Colagem, tornado sócio da cooperativa, e ainda As Maçãs de D. Abúndio, da autoria de Roberto Merino, foram trabalhos encenados por Eduardo Luiz para o público infanto-juvenil e que seguiram a linha da itinerância. Ainda em 1986 decorreu o 6.º CFA, dirigido por Eduardo Luiz, no Inatel.

O 7.º CFA realizou-se em 1987 e foi dirigido por Raija Kaeste, no TMBD. Por sugestão do edil do município, João Dantas, o TEF voltou às instalações do TMBD e a CMF, através da Junta de Freguesia de S. Pedro, disponibilizou uma sala da escola primária da Carreira para sede do grupo. Estreou O Amoroso, a partir de O Morgado de Fafe Amoroso, de Camilo Castelo Branco, encenado por Eduardo Luiz, que assumira as funções de diretor artístico da cooperativa. O público infanto-juvenil contou também com o espetáculo O Grilo Perlimplim, com texto e encenação do grupo de teatro 2+1, que se apresentou no TMBD, e com O Avarento Maruf, de Norberto D’Ávila, com encenação de Eduardo Luiz, ambos em itinerância. Eduardo Luiz encenou um texto com adaptação e dramaturgia do próprio e de Ester Vieira: Teatroscópio, a partir de Paulo César. Este espetáculo foi a primeira tentativa de elaborar um projeto de teatro para a infância e a juventude. Ainda subiram ao palco Lembrar Pessoa… Conhecer os Nossos Músicos – um espetáculo poético com declamação e momentos musicais com direção de António Plácido – e Teatro Diaporama, com textos de vários autores, dirigido por Ester Vieira. Todos os espetáculos desse ano se realizaram no TMBD, com grande envolvência do grupo.

Durante o ano de 1988, Eduardo Luiz encenou A Estalajadeira, de Carlo Goldoni, além de diversos projetos de bar: Café-Concerto I, II e III, bem como Theatron e Saltimbancos, ambos com textos de Karl Wallentin, Raymond Devos, Vasco Santana, entre outros. Encenou ainda um espetáculo de poesia: Noite de Poesia Madeirense, com textos de vários poetas selecionados por José António Gonçalves.

O ano de 1989 é o ano em que A Farsa do Advogado Pedro Pantaleão – de um anónimo francês do século XV, com adaptação e encenação de Eduardo Luiz, a partir de Léon Chancerel – serviu como base para um trabalho de itinerância por todo o arquipélago. Seguiu-se a gravação de um teledramático – Um Dia Em Cada Ano – para a RTP Madeira, com texto de Lília Bernardes e realização de Paulo Valente. Ainda no mesmo ano, uma versão continuada do texto escrito para a RTP Madeira estreou no Festival de Teatro Madeirense promovido pelo Inatel, na Camacha, com o título de Gente e com encenação de Eduardo Luiz. Iniciou-se também o 8.º CFA, orientado por Eduardo Luiz e realizado nas instalações do TMBD.

A companhia fez a reabertura do teatro municipal em 1990, após nova recuperação do edifício, levando à cena Os Fantasmas, de Eduardo de Filippo, com encenação de Eduardo Luiz, e Há Festa no Céu, a partir de um conto do Nordeste brasileiro e com encenação de Ester Vieira, para o público infantil. Gravou também, para a RTP Madeira, em vários episódios, o espetáculo Teatroscópio, num conjunto de programas para o público infanto-juvenil, com realização de Paulo Valente. Realizou ainda o 9.º CFA, orientado por Eduardo Luiz.

No ano de 1991, o TEF montou dois espetáculos com textos de Raul Brandão: O Gebo e a Sombra e O Nojo da Vida. Este último integrou textos como “Eu Sou um Homem de Bem”, “O Rei Imaginário”, “O Avejão” e “O Doido e a Morte”. O TEF preparou ainda um espetáculo de itinerância –A Comélia de Espavento –, a partir de Ângelo Beolco, e o espetáculo A Bruxa Carpidim, de Fernando Passos, todos com encenação de Eduardo Luiz. O TEF retomou com A Bruxa Carpidim – projeto idealizado para estruturar um elenco fixo de atores para espetáculos regulares infanto-juvenis – organizando uma agenda de contactos com as escolas, de forma didática e com programas devidamente preparados para sensibilizar para a ida ao teatro.

Promoveu em 1992 o 1.º [Diogo: esta alteração de romano para árabe foi confirmada? Idem abaixo] Encontro Regional de Teatro (ERG Teatro). O projeto Teatro para a Infância e Juventude começou a ganhar forma, com dois espetáculos encenados por Eduardo Luiz: Ana e o Pássaro Azul, de Roberto Merino, e As Aventuras do Príncipe de Zaratustra, de Carlos Manuel Rodrigues, onde se tornou visível a presença das escolas nos espetáculos que a companhia programava anualmente. As Preciosas Ridículas, de Molière, com encenação de Eduardo Luiz, completou a produção definida para aquele ano artístico.

Em 1993, o 2.º ERG Teatro realizou-se no TMBD. Deu-se a estreia de: Pluft o Fantasminha, de Maria Clara Machado; O Diabrete Encantado, de Manuel Couto Viana e Oscar Von Pfuhl; e A Maluquinha de Arroios, de André Brun – todos encenados por Eduardo Luiz. Com encenação e interpretação dos formandos do 8.º CFA, Élvio Camacho, Duarte Rodrigues e Miguel Vieira fizeram a montagem de Frémitos, Virgindade e Sucedâneos, com textos de August Strindberg e Virgílio Martinho, utilizando diversos espaços do edifício do TMBD. Neste mesmo ano, em cerimónia realizada no teatro da Trindade, em Lisboa, o ator, diretor artístico e encenador Eduardo Luiz foi galardoado com o prémio Miguel Torga, com o título de Mérito ao Teatro Amador, juntamente com Joaquim Benite e Carlos Oliveira.

No ano de 1994, numa encenação de Eduardo Luiz, o TEF apresentou, no palco do TMBD, O Dragão Atchim, de José Jorge Letria, e História para Um Tesouro de Natal, de Roberto Merino e José Vaz, para as crianças. Esta última obra foi gravada posteriormente para a RTP Madeira, com realização de António Plácido. Uma nova versão, em oito sketches, do original Teatroscópio foi estruturada para os programas ao vivo no palco do TMBD, integrados no programa infantil O Comboio Corre. O espetáculo para itinerância Quase por Acaso Um Emigrante – a partir de João França, que se manteve em reportório até 1997 – e um outro integrado nas comemorações do aniversário do teatro municipal – O Homem no Seu Berço Natal, sobre Baltazar Dias, também de João França –, ambos com encenações de Eduardo Luiz, definiram um ano artístico que incluiu As Vedetas, de Lucien Lambert, em mais uma encenação experimental de dois formandos do 8.º CFA: Miguel Vieira e Duarte Rodrigues. Concluiu-se o ano artístico com a realização do 3.º ERG Teatro e – integrado no projeto de itinerância – a peça Quase por Acaso um Emigrante, de João França e encenação de Eduardo Luiz, apresentou-se no teatro Circo, em Braga. Os ensaios passaram a decorrer no auditório do jardim municipal.

Foi no ano de 1995 que, no palco do TMBD, o TEF apresentou O Chapeuzinho Vermelho, de Maria Clara Machado. A Floresta dos Sonhos, a partir de Mendes de Carvalho e Orlando Neves, marcou a estreia da companhia no cineteatro municipal de S.to António (daqui por diante, Cineteatro), cedido pela edilidade para residência artística do grupo. Ainda para o público adulto, seguiu-se a estreia de A Excomungada, de Bernardo Santareno, e de A Boda, de Bertolt Brecht. As quatro encenações do ano artístico ficaram à responsabilidade de Eduardo Luiz.

No ano de 1996, teve lugar o 10.º CFA, por Eduardo Luiz. Estrearam: O Natal do Gato Amarelo, de Marcela Costa; Antes… Que a Noite Venha, de vários autores; O Papão e o Sonho, de José Jorge Letria (gravada posteriormente para a RTP Madeira, com realização de António Plácido); e Soprou Vento Leste, de Lília Bernardes, que se manteve em itinerância até 2006 – todas encenações de Eduardo Luiz.

O TEF, em 1997, celebrou um contrato-programa com a RAM, através da Secretaria Regional do Plano e da Coordenação e da SRTC, passando a receber um subsídio anual e a contar com uma nova sede para o funcionamento integral das suas atividades. Estreou as peças Big Bang – Missão (Im)Possível, de Kiko Palmeira, e Hakim – O Contador De Histórias, de Norberto D’Ávila, ambas com encenação de Eduardo Luiz. Subiram à cena no TMBD A Ilha de Arguim, de Francisco Pestana (mais tarde gravada para a RTP Madeira, com realização de António Plácido) e o recital Fugas – Sons, Palavras e Movimentos, com seleção de textos de Fátima Marques, ambas com encenação de Eduardo Luiz.

Em dezembro de 1998, a sede passou da rua nova de S. Pedro para o centro cívico Edmundo Bettencourt. Com o apoio do Inatel e do departamento cultural da CMF, realizou-se o 4.º ERG Teatro. Ocorreu também o 11.º CFA, dirigido por Eduardo Luiz. Estrearam: A Viagem De Um Barquinho, de Sílvia Ortoff, com encenação e adaptação de Cíntia (Kiko) Palmeira, no Cineteatro; No Limiar da Loucura, de Michel de Ghelderode, com encenação de António Plácido, e A Ilha Dos Escravos, de Marivaux, com encenação de Élvio Camacho, ambas apresentadas no TMBD. Estrearam ainda A Outra História da Carochinha, de Natália Teles, com encenação de Ester Vieira; e O Enterro, de Fernando Augusto e encenação de Carlos Cabral, no Cineteatro.

Em 1999, o Estabelecimento Prisional do Funchal e o TEF celebraram um protocolo de serviços. Estreou Era uma Vez… Duas Histórias Duma Vez, de António Manuel Couto Viana, com encenação de Miguel Vieira. Foi um espetáculo infanto-juvenil representado durante três semanas no TMBD, alcançando 9000 espetadores. Estreou também o espetáculo de café-concerto Strip – Apêndice de Humores, de vários autores, e Iria E. Biritá, de Magda Paixão, ambos com encenação de Eduardo Luiz e representadas no Cineteatro.

No ano de 2000, realizou-se o 5.º ERG Teatro. O grupo, ao fim de 25 anos, registou uma série de espetáculos e de outras atividades que lhe permitiram estruturar de maneira diferente os seus serviços. A designação de “Companhia Teatro Experimental do Funchal” surgiu como forma de definir o grupo, constituindo para isso um elenco artístico para os espetáculos infanto-juvenis. Estrearam novas produções: O Noivado, de Almeida Garrett, com encenação de Márcia das Dores, no palco da Juventude Antoniana; e Ema, a partir do romance de Maria Teresa Horta, com dramaturgia e encenação de Duarte Rodrigues, no teatro municipal. No Cineteatro ocorreram os seguintes espetáculos: O Feiticeiro De Oz, de Lyman Franck Baum e encenação de Kot-Kotecki, para o público infanto-juvenil; As Rosas Suicidam-se, de Ramon Gómez de la Sierra (baseado na tradução de Jorge Silva Melo), com encenação de Bruno Bravo e Élvio Camacho, em itinerância até 2001; e A Tia Proezas, de Magda Paixão, com encenação de Eduardo Luiz.

Os seguintes espetáculos definiram o ano artístico de 2001: O Planeta De Cristal, com autoria e encenação de Fátima Rocha, e Pastéis de Nata Para a Avó, de Fernando Augusto, com encenação de Eduardo Luiz, ambos no TMBD; A Menina do Sorriso Branquinho, de Magda Paixão, com encenação de Eduardo Luiz, no jardim municipal; À Porta Fechada, de Jean Paul Sartre, com encenação de Kot-Kotecki, também no TMBD; e A Canção Do Realejo, com autoria e encenação de Ester Vieira.

No ano de 2002, fizeram parte da programação: Um Gil, Agora o Direi, com textos de Gil Vicente, compilação e encenação de Carlos Cabral, integrado nas comemorações vicentinas no TMBD; A Máquina Do Tempo, de Natália Teles, com encenação de Fernando Augusto; Max, espetáculo de improvisação dirigido por Fabrizio Pellagatti; As Aventuras Do Pinóquio, a partir de Carlo Collodi, com encenação de Kot-Kotecki; Mééé, Tudo É Como É, com textos de Fernando Pessoa e do seu heterónimo Alberto Caeiro, com encenação de Élvio Camacho e Paula Erra. Estes espetáculos mantiveram-se em itinerância até 2009.

No ano artístico de 2003, quatro espetáculos se destacaram: Caminhos em Lama, de Magda Paixão, com encenação de Eduardo Luiz para palco (mais tarde gravado para a RTP Madeira, com realização de António Plácido); Quem Tem Medo de Anton Tchékhov, de Anton Tchékhov, com encenação de Bruno Bravo; Atirem-Se ao Ar, de António Torrado e com encenação de Rui Sérgio; e O Circo dos Bonecos, de Oscar Von Pfuhl e com encenação de Eduardo Luiz.

Subiram à cena em 2004: A Menina Do Sorriso Branquinho, de Magda Paixão, com encenação de Eduardo Luiz (reposto no jardim municipal); Audição com Daisy ao Vivo no Odre Marítimo, de Armando Nascimento Nóbrega, com encenação de Eduardo Luiz, no TMBD; Maria Minhoca, de Maria Clara Machado, com encenação de Kot-Kotecki; e Rometa e Juliú, com versão cénica de Eduardo Luiz e Magda Paixão, a partir do texto de Yara Silva, com encenação de Eduardo Luiz.

No ano de 2005, o TEF acolheu a teatroteca Fernando Augusto, um espólio de livros e revistas de teatro do ator Élvio Camacho. Subiram à cena no TMBD: O Tartufo, de Molière, com encenação de Bruno Bravo; e Matemáticas Assassinas, de Magda Paixão, a partir de Kjartan Poskitt, com encenação de Eduardo Luiz, Os espetáculos definidos no plano artístico foram: Atores de Boa-Fé, de Marivaux, com encenação de Kot-Kotecki; e Lianor no País Sem Pilhas, de Armando Nascimento Rosa, com encenação de Élvio Camacho. O TEF foi nomeado para a 1.ª Gala da RTP-DN, onde foi galardoado com o troféu vencedor, na categoria Teatro.

Foi em 2006 que a natureza jurídica do TEF passou para “associação cultural sem fins lucrativos”. Estrearam nesse ano: Zaragata no Calhau, de Carlo Goldoni, com encenação de Élvio Camacho, no TMBD; A Princesa Dos Pés Grandes, de Natália Teles, com encenação de Élvio Camacho; e O Patinho Feio, a partir de Maria Clara Machado e Hans Christian Andersen, com encenação de Eduardo Luiz, no Cineteatro. A 19 de dezembro, o Governo Regional da Madeira homenageou o TEF “pelos relevantes serviços prestados na área da cultura”.

Em 2007, foi atribuído à associação o estatuto de “utilidade pública de pessoa coletiva”. Produziram-se diversos espetáculos, como: Verdes Aventuras de D. Quixote, de Fernando Augusto e com encenação de Élvio Camacho; Credo, de Craig Lucas, com encenação de Élvio Camacho; e, com encenação de Eduardo Luiz, Branca Como A Neve, mais uma produção para o público infanto-juvenil, com texto e dramaturgia de Magda Paixão, a partir do original do encenador. Zaragata no Calhau foi reposta no Cineteatro.

No ano de 2008, estreou-se Strip, Bang-Bang – Mixórdia do Gargalho, de vários autores, com encenação de Eduardo Luiz. Para as comemorações dos 500 anos da cidade do Funchal, montou-se no TMBD um espetáculo a partir de Thornton Wilder: A Nossa Cidade, com encenação de Élvio Camacho. O ano artístico completou-se no Cineteatro com Histórias da Deserta Grande, de José Viale Moutinho, e Aventura no Funchal, de Avelina Macedo, também com encenações de Élvio Camacho.

Apresentou-se em 2009: Greve de Sexo, de Aristófanes, com encenação de Élvio Camacho, no TMBD e no Cineteatro; O Pomar de D. Abundância, a partir de Roberto Merino; e Amigos e Diabretes, com versão de Eduardo Luiz e Magda Paixão, a partir de Kikerikiste, de Paul Maar, com encenações de Eduardo Luiz.

No ano de 2010, durante as comemorações do centenário da República, o TEF estreou: O Conde Barão, de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos, com encenação de Eduardo Luiz, no Cineteatro (reposto ainda nesse ano, no TMBD); Zé Pateta, Zé Poeta, de Natália Teles, com encenação de Élvio Camacho; e O Príncipe que Queria um Castelo no Ar, de Avelina Macedo, com encenação de Eduardo Luiz.

Em 2011, foram apresentados os seguintes espetáculos: A Mandrágora, de Maquiavel, e A Estrela Perdida, de Magda Paixão, a partir do conto de Francisco Fernandes, com encenações de Eduardo Luiz; Madeira My Dear, a partir de Ernesto Leal, que se manteve em itinerância até 2013; e Vampirilda, de Paulo Sacaldassy, com encenações de Élvio Camacho.

Os espetáculos da temporada artística de 2012 foram: Schweik na Segunda Guerra Mundial, de Bertolt Brecht, com encenação de Élvio Camacho; O Príncipe com Orelhas de Burro, a partir de Fernando Passos, com encenação de Eduardo Luiz; O Amansar da Fera, de William Shakespeare, com encenação de Diogo Correia Pinto; Os Prisioneiros, a partir de Mário Golen, com encenação de António Plácido; e Um Bolo de Mel para o Cusca, de Magda Paixão, com encenação de Eduardo Luiz. A teatroteca Fernando Augusto deixou a associação devido à dificuldade de gestão desse fundo.

No ano de 2013, com dramaturgia e encenação de Diogo Correia Pinto, estrearam: Dramas e Papaias, em parceria com o grupo QuandoéqueteCalasTeatro, e, com produção do TEF, O Avarento, de Molière. Estrearam ainda: Hakim e a Arca de Sândalo, a partir de Norberto D’Ávila; e Big-Bang, Missão (Im)Possível, de Cíntia Palmeira (versão diferente da apresentada em 1997), com dramaturgia e encenação de Eduardo Luiz.

Durante o ano artístico de 2014 o TEF apresentou: A Vizinha do Lado, de André Brun, com encenação de Eduardo Luiz; As Três Cidras do Amor, de Yvette K. Centeno, com encenação de Duarte Rodrigues; e A Gata Borralheira, a partir de Maria Clara Machado, com encenação de Eduardo Luiz.

Até julho de 2015, subiu à cena Uma Freira dos Diabos, a partir de Miguel Mihura, e Tio Elvão e a Boneca Abandonada, de Eduardo Luiz, a partir de Alphonse Sastre, ambos com dramaturgia e encenação de Eduardo Luiz.

Em 2015, faziam parte da associação Eduardo Luiz, António Plácido, Pedro Cabrita, Emanuel Abreu, Paulo Renato, Duarte Rodrigues, Norberto Ferreira, Mário Bettencourt, Eugénio Cabral, Sílvia Marta, Ester Vieira, Magda Paixão, Márcia das Dores, Margarida Gonçalves, Ana Graça, Ana de França, Henrique Vieira, Maria dos Anjos, Cristina Loja e Carlos Pereira. Pela direção artística passaram: entre 1975 e 1978, Orlando Costa e Leopold Kielanowsky; entre 1978 e 1983, Roberto Merino; entre 1983 e 1985, Fernando Heitor; entre 1985 e 2015, Eduardo Luiz (em parceria com Élvio Camacho entre 2005 e 2012).

Dentro da área de interpretação, o TEF contou com os seus sócios e com outros intérpretes, quer independentes, quer de outros grupos de teatro. Desde os anos 1990 até julho de 2015, conforme os arquivos existentes na associação, assistiram aos espetáculos do TEF mais de 428.000 espetadores, perfazendo uma média, nos últimos 25 anos, de 17.000 espetadores por ano. Dos 134 espetáculos produzidos desde a sua formação, 62 foram especificamente para o público infanto-juvenil. O grupo apresentou um variado género de espetáculos: performances e instalações teatrais, bem como animação, teatro e poesia de rua. Na sede do grupo, situada no centro cívico Edmundo Bettencourt, além dos serviços administrativos, encontrava-se também, em 2015, o espólio de guarda-roupa e adereços do grupo, assim como um pequeno salão para ensaios, formações e trabalhos. No Cineteatro, local para ensaios e espetáculos, mantinha-se armazenada parte do material cenográfico, assim como toda a sua aparelhagem de luz e som.

Desde 1984 até 2015, o grupo obteve diversos apoios sendo o Governo Regional através da DRAC, o seu principal patrocinador. Entre 2012 e 2014, o TEF usufruiu de um apoio subsidiário de 20.000 € por ano e da cedência do espaço onde funciona a sede da associação. A CMF, por seu lado, tem apoiado com a cedência do Cineteatro. O TEF tem contado também com apoios de várias empresas em géneros, que faz diminuir em muito os custos de produção. A existência de um património que foi sendo acumulado ao longo dos 40 anos de atividade teatral permitiu-lhe continuar a montar peças de teatro a baixo custo, contando também com a colaboração gratuita de artistas e técnicos de todas as áreas.

O TEF promoveu várias oficinas de formação para artistas e para a comunidade (crianças, jovens e adultos) em diversas áreas de teatro, contando com professores e artistas da associação, do país e do estrangeiro. Apoiou animações culturais, diversos grupos de teatro na RAM e instituições de solidariedade social. Contou, no seu percurso, com a colaboração do AtCF, do Inatel, da Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, do teatro nacional D. Maria II, da Secretaria Regional da Educação e da Escola Profissional de Artes e Ofícios do Espetáculo Chapitô. Desde 1999, apoiou o Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira Eng.º Luiz Peter Clode no empréstimo e cedência de adereços, de guarda-roupa e de espaços para as apresentações dos exercícios práticos do Curso Profissional de Artes do Espetáculo – Interpretação. Sob parceria protocolar, os formandos do 3.º ano realizaram a sua formação em contexto de trabalho, através de um estágio, integrando um dos espetáculos do TEF. Apoiou também diversas entidades (escolas, juntas de freguesia, grupos de teatro e privados), emprestando adereços e guarda-roupa, e cedendo espaços para ensaios e apresentações. Em 1997, iniciou o programa de rádio A Voz do Teatro (mais tarde Bastidor), emitido durante 17 anos (inicialmente no posto emissor do Funchal e, mais tarde, na RDP Antena 2).

Os principais objetivos e a missão da associação – além dos mencionados estatutariamente, através do seu grupo TEF e do seu núcleo de formação para crianças, jovens e adultos (Núcleo de teatro infantil Tefos [ex-Tefinhos], grupo de teatro juvenil e 12.º CFA) – foram sempre sensibilizar e promover o teatro no arquipélago da Madeira, centrando-se no teatro para a infância e a juventude e num trabalho de itinerância, de forma a abranger os diversos níveis etários, sociais e intelectuais.

A companhia estabeleceu o seu trabalho artístico de forma eclética, estruturando-o pontualmente, tendo sempre em atenção a atualidade, o tipo de público e o seu conhecimento de teatro e das suas obras.

Eduardo Luiz

(atualizado a 04.10.2016)

dramaturgos

A literatura dramática é entendida como aquela que implica uma comunicação direta das personagens entre si e destas com os recetores do texto. Para que essa função se cumpra, o texto dramático tenta representar as ações e reações humanas, privilegiando a dinâmica do conflito e possibilitando alguma forma de interação entre o texto e o seu público. Este serve, com frequência, o teatro, que tem como objetivo específico a representação e o espetáculo. Além disso, a literatura dramática, porque apoiada na realidade, acaba por retratar os quotidianos e, dessa forma, guardar, no reservatório da memória, a identidade do povo e o modo como sente a vida e o mundo.

Desde a Antiguidade que o teatro é detentor de uma importância fundamental na construção do homem, explicada pela função pedagógica que os textos podem cumprir: experimentando emoções, o homem é levado a refletir sobre as suas paixões e, dessa forma, a alterar os seus comportamentos.

Em Portugal, é a História que fornece, em grande parte, a matéria da literatura dramática. O teatro acaba por ser considerado um retrato do homem no tempo, evocando, no palco, os momentos fulcrais da História e mantendo, deste modo, na opinião de Luís Francisco Rebello, o esquema formal da tragédia antiga. O mesmo autor considera que as origens do teatro moderno aparecem, em Portugal também, já entre as brumas da Idade Média, confundidas com os ritos cristãos, apesar de não se esgotarem neles. Refere-se, por exemplo, aos jograis, na linha da tradição dos antigos mimos e histriões, ou aos autos apresentados durante as cerimónias do casamento da Infanta D. Leonor com Frederico III, Imperador da Alemanha, em 1451, evocados por um dos poetas do Cancioneiro Geral, Duarte de Brito, um autor da Ilha. Na Madeira, há notícia de que, nas Igrejas e nos locutórios dos conventos se representavam autos e poemas de caráter religioso.

Em finais do séc. XV, nasce, na Madeira, aquele que pode ser considerado o primeiro autor dramático na senda de Gil Vicente, Baltazar Dias, o poeta cego. Escreveu lendas de santos, feitos de heróis portugueses, casos de amores desventurados, exílios, visões de peregrinos. De acordo com alguns estudiosos, nomeadamente o Visconde do Porto da Cruz, os temas dos seus autos religiosos teriam sido sugeridos por elementos do clero, para comemorar datas litúrgicas. A sua obra está ainda imbuída dos valores medievais: o espírito da fé, do heroísmo e da renúncia. Por ela, passa ainda a ideia de criticar comportamentos e vícios, para que, uma vez conhecidos, possam ser alterados. Note-se, por exemplo, uma crítica muito marcada à luxúria, aos costumes, à administração da justiça, à violência, ao despotismo. Escreveu: Auto de Santo Aleixo, Auto de El-Rei Salomão, Auto da Paixão de Cristo, Auto da Feira da Ladra, Auto de Santa Catarina, Virgem Mártir, Auto do Nascimento de Cristo, Conselhos para Bem Casar e Tragédia do Marquez de Mantua.

O Funchal havia sido elevado à categoria de cidade, em 1508, e tudo acontecia, na azáfama de construções, de novidades que vinham do lado de lá do mar, no movimento do porto, por entre trocas comerciais e gente que se encontrava, a pretexto do comércio e das trocas que, ali, na babugem do mar, se operavam.

Neste ambiente novo, a poesia dramática é muito bem aceite. Talvez por esse motivo, Baltazar Dias foi tão admirado, quer pelo povo, quer pela nobreza, até porque as suas obras são herdeiras do humor de Gil Vicente e isso agradava a todos, não obstante alguns dos seus textos só terem sido publicadas no séc. XVII: Auto da Malícia das Mulheres, História da Imperatriz Porcina, Mulher do Imperador Lodonio de Roma e Trovas sobre a Morte de D. João de Castro.

Cidade do açúcar e do vinho, o Funchal altera-se. Os ingleses influenciam os ambientes luxuosos que acolhem as manifestações artísticas e a literatura. Sente-se, então, na ilha, a influência continental do academismo e do arcadismo. Considerado como um dos poetas mais representativos do período barroco português, Francisco de Vasconcelos (1655-1723), madeirense, escreveu uma pequena peça, Residência do Governador e Capitão General da Ilha da Madeira, que prima pela simplicidade do argumento e que pretende demonstrar que o verdadeiro governador é aquele que é humilde, justo, correto e verdadeiro. Este texto foi publicado e representado, em 1718, pelas freiras de Santa Clara, no momento da despedida de João Saldanha da Gama, que foi Governador da Ilha da Madeira entre 1715 e 1718.

Trata-se de um texto de temática local que testemunha a sociedade madeirense da época, uma sociedade marcada pela fé e pela justiça, num mundo barroco, cheio de contrastes e de imprecisões. Para este autor, o teatro assume uma função muito importante na construção da sociedade, quer como diversão, quer como espaço de reflexão, assumindo a sua função de espetáculo, enquanto música, canto, dança, mas também a sua função pedagógica. O teatro apresenta-se como um meio privilegiado para a transmissão de princípios que deveriam nortear o comportamento dos homens, face a um mundo cheio de contradições e de excessos, evidenciando o sentido da justiça e da razão.

Numa listagem de nomes que Cabral do Nascimento apresenta como pedreiros livres, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar (1765-1832) aparece como “dramaturgo”. Na verdade, o autor é considerado por alguns como o verdadeiro percursor de Almeida Garrett. Seguindo a orientação dos trágicos franceses, escreveu algumas tragédias que, à época, tiveram algum sucesso. Em 1816, publicou Virgínia, seguindo-se, até 1820, data da sua última peça, as seguintes obras: Os Dois Irmãos Inimigos, D. João I, Arria, Destruição de Jerusalém, D. Sebastião em Africa, Conquista do Peru, Eudoxia Liciana, Morte de Socrates e Carácter dos Lusitanos. Tal como é próprio da tragédia, escreveu as suas composições em verso, imitando, desta forma, os trágicos gregos e franceses.

Há ainda que referir Francisco Manuel de Oliveira (1741-1819), poeta, tradutor e professor que nos deixou alguns dramas líricos, com destaque para aquele que escreveu para a reabertura do Teatro Público da Cidade do Funchal.

No séc. XIX, os autores dimensionavam o texto dramático e a sua representação como uma forma de espelhar o quotidiano, aproximando o espectador da cena, na medida em que este se revia naquilo que se passava no palco. Apesar de envolvida numa certa atmosfera romântica, a escola francesa exerce grande influência nos autores dramáticos portugueses: a realidade toma conta do palco e o dramaturgo reflete acerca dela, dos problemas políticos, sociais e culturais. Neste século, na Madeira, é também no texto dramático que se escreve a própria vida, que autores como João Nóbrega Soares, João de Andrade Corvo e Álvaro de Azevedo trazem para cena. Além disso, o teatro é uma das formas mais eficazes de comunicação e os dramaturgos recorrem a alusões históricas e à metáfora para exprimir os seus sentimentos liberais, mesmo que muitas das peças escritas no princípio do século, apesar de impressas, não tivessem acesso aos palcos. Será a Revolução de setembro de 1836 e a restauração da Carta Constitucional que farão a restauração do teatro português (e em português).

No terceiro quartel daquela centúria, a literatura dramática muda de direção: a par do romance da atualidade, surge o drama da atualidade, que se caracteriza pela reprodução dos costumes contemporâneos da vida e da sociedade da época. A literatura dramática apresenta-se, deste modo, como uma forma de intervenção sobre o espectador, sobre a sociedade e sobre o mundo.

Na Madeira, o teatro passou pelas mesmas fases por que passou o teatro nacional. Há casas de espetáculo referenciadas no Funchal antes do séc. XIX, o que demonstra a importância desta atividade. É, porém, neste século de novecentos que a literatura dramática ganha um maior protagonismo, ou que, pelo menos, é mais conhecida.

Influenciado pela escrita de Almeida Garrett – que é considerado um precursor do drama romântico, abrindo caminho para o teatro da atualidade –, surge, na Madeira, João Nóbrega Soares (1831-1890), com um texto de sucesso, A Virtude Premiada. Este autor, que tocou, ao longo da sua vida, vários géneros literários, entendia que a literatura dramática tinha de ser um espaço de reflexão e transformação social da ilha.

Álvaro de Azevedo (1824-1898) é um outro autor desta centúria que, apesar de não ter nascido na ilha – sendo natural de Vila Franca de Xira –, a ela dedicou o seu tempo e o seu trabalho. Escreveu o drama A Família do Demerarista (1959), no qual demonstrou a sua sensibilidade aos problemas madeirenses desse tempo, nomeadamente ao tema da emigração e a todos os dramas daí provenientes.

Outros autores madeirenses fizeram da literatura dramática madeirense uma página importante da dramaturgia nacional, por entre o séc. XIX e o séc. XX. Luís da Costa Pereira (1818-1893) dedicou-se às coisas do teatro, tendo traduzido e adaptado à cena portuguesa algumas peças de teatro estrangeiro. Foi ator, autor, ensaiador, diretor técnico, professor de declamação e da arte de representar. Está referenciado no capítulo XXXIII do livro de Ferdinand Denis, Resumé de l’Histoire Littéraire du Portugal. Manuel Luís Viana de Freitas (1820-1861) era considerado uma autoridade em assuntos teatrais. Escreveu a peça D. Luis d’Atayde. Carolina Dias de Almeida (?-1895), atriz e autora, publicou a peça Henriette, Cena Cómica (Funchal, 1887). Matilde Sauvayre da Câmara (1871-1951), detentora de uma cultura humanística fora do vulgar para a sua época, levou à cena algumas operetas da sua autoria, no Teatro D. Maria Pia, e, aquando da visita do rei D. Carlos I e da rainha D. Amélia, em 1901, organizou uma festa de gala, apresentando duas peças da sua autoria – Morte à Força e Arraial Madeirense. De Major João dos Reis Gomes (1869-1970), destaque para a sua obra dramática Guiomar Teixeira, uma peça histórica em que, no fundo da tela presente no palco, se desenrola, pela primeira vez, uma cena do cinema. É ainda considerado por alguns autores o primeiro crítico de teatro do país. Eugénia Rego Pereira (1875-1947), professora de coreografia e escritora teatral, escreveu algumas peças levadas a cena no Teatro Municipal: Gente do Mar, Sol e Gelo, De Norte a Sul, Asas Misteriosas, Feitiço Quebrado, Espuma de Champanhe, Ana Maria (com Teodoro Silva) e No Hotel do Descanso. João Maximiliano d’Abreu Noronha (1875-?) escreveu dois dramas alusivos à guerra de 1914-1918: Coração de Criança e Alma de Portugal. Alberto Artur Sarmento (1878-1953), oficial do exército, professor e naturalista, escreveu, entre muitas obras, a letra da opereta regional, Primeiros Aspetos, levada à cena no Teatro Funchalense, em 1917. José Jorge Rodrigues dos Santos (1879-1958) dedicou-se à poesia e ao teatro, tendo escrito duas peças que foram representadas no Teatro Nacional, em Lisboa: Festa de Actriz e Crime de Amor. Álvaro Manso de Sousa (1896-1953) deixou algumas peças de teatro para amadores e publicou, numa edição da Câmara Municipal do Funchal, Auto do Voto e Auto de São Tiago Menor. De Augusto Elmano Vieira (1892-1962), foram apresentadas as peças A Madeira, por Dentro (revista), A Menina dos Bordados (opereta) e A Última Bênção (drama). João França (1908-1996) escreveu várias peças em um ato, os dramas Mimi, O Regenerado e Amor Sem Deus. A 7 de julho de 1944, foi estreada, no Teatro Avenida, a opereta da sua autoria O Zé do Telhado, que teve um grande sucesso em Lisboa e no Porto, cidades onde esteve em cartaz mais de quatro meses.

Na primeira metade do séc. XX, outros nomes aparecem no panorama da literatura dramática madeirense: Ernesto Leal, com Afonso III, um texto de 1970, António Aragão, com a peça Desastre Nu (1980), e Carlos Cristóvão, que assinou, entre outros textos, O Senhor dos Milagres (peça em dois atos), de 1971, e, do mesmo ano, A Morgadinha que o Amor Levou.

À semelhança do que acontece no país, também na Madeira surge um grupo de autores a escrever para operetas, teatro de variedades e teatro de revista a partir do princípio do séc. XX, no âmbito do teatro musicado. Os textos que lhe estão subjacentes pretendem apresentar factos e situações da atualidade, críticas sociais e políticas, através de uma linguagem muitas vezes eivada de comentários picantes e de trocadilhos. Em termos gerais, é composto de várias cenas de cariz cómico, satírico, entremeadas com números musicais. Caracteriza-se por um guarda-roupa exuberante – muitas plumas e lantejoulas – e por um tom especial na forma de declamar o texto.

Consta que teria sido Festejo dum Noivado, de Braz Martins, a primeira revista a subir à cena, em Portugal, no ano de 1852, no Teatro Gymnasio. Entre 1854 e 1870, outras se lhe sucederam, em vários teatros de Lisboa. De realçar Fossilismo e Progresso (1856), de Manuel Roussado, A Revista de 1858, de Joaquim António de Oliveira, e Os Melhoramentos Materiais (1860), de Andrade Ferreira.

A literatura dramática madeirense tem, aqui também, alguns representantes: João Maximiliano d’Abreu Noronha (Tito Lívio) escreveu as revistas Basta que Sim!, levada à cena no Teatro Municipal, Teatro Circo e Pavilhão Paris, nos Açores, Ora Bolas! e De Pernas para o Ar; Adão de Abreu (1885-1958) escreveu algumas revistas que foram representadas no Teatro Municipal do Funchal, o posterior Teatro Baltazar Dias: Semilha e Alface (1917), Água Vai (1921), Golpe de Vista (1929), A Novela (1934) e Lá Vai Fogo (1935); Pedro Gonçalves Preto (1907-1973) escreveu uma revista levada à cena a 24 de agosto de 1933, intitulada O Fim do Mundo; Teodoro Clemente da Silva (1900-1976), nome indissociável da literatura dramática funchalense, sobretudo a do teatro de revista. Entre outras, assinou À Pressa, A Madeira é Isto, Cá e Lá, Viva a Loucura, Bolas de Sabão, Ana Maria (em colaboração com Eugénia Rego Pereira), Tudo Louco (com Adão Nunes), Amor sem Deus (com João França) e Rosário de Cantigas.

Algumas revistas marcaram épocas. A censura sempre espreitou estes textos que aproveitavam a linguagem – muitas vezes metafórica e cheia de trocadilhos – para passar mensagens de crítica aos regimes vigentes ou às autoridades desportivas, civis ou religiosas do país e da ilha.

A literatura dramática parece ter passado a ter poucos adeptos na ilha da Madeira, por razões de ordem vária. Apenas um registo: João Francisco de Sousa Pestana nasceu na Ribeira Brava, em 1969. É ator profissional desde 1972, sendo um dos fundadores da Comuna. Iniciou-se na escrita teatral em 1992. Em 1994, a peça A Ilha de Argüim valeu-lhe o prémio do concurso Inatel/Novos textos.

O Funchal parece, deste modo, seguir os modelos do continente, as modas culturais e literárias do país. A sociedade funchalense tenta, sobretudo até ao séc. XIX, copiar o que se passa na corte. A literatura dramática madeirense percorre, então, os mesmos caminhos da que se produz em Lisboa. Assim, de um modo geral, os escritores do arquipélago nunca se desligaram da tradição literária portuguesa, o que se pode explicar, em larga medida, pelo facto de muitos deles terem estudado no continente, nomeadamente em Coimbra, onde a cultura e a literatura se desenhava, ou desempenharem funções em Lisboa.

Não nos podemos também esquecer que o Funchal é um lugar de chegadas. À ilha chegavam escritores que, naturalmente, influenciavam os que nela viviam. Há, ainda, que acrescentar que os visitantes, sobretudo ao longo dos sécs. XVIII e XIX, buscavam, na Madeira, remédio para os seus males do corpo – nomeadamente a cura da tísica pulmonar – e da alma e procuravam distrações para o tempo que passavam na cidade. A literatura dramática cumpre, dessa forma, a sua função no limiar da modernidade, do mesmo modo que já o tinha feito no princípio: tendo sido uma arma doutrinal, pedagógica, servia agora para fruição do público.

O séc. XX traz a revista que, para além de divertir e de inserir no palco outras formas de arte, nomeadamente a música, o canto e a dança, revela novas temáticas, sendo portadora de marcas regionais. É a história do arquipélago e dos seus mais importantes representantes; é a vida da cidade e do campo; são referências humanas, sociais, históricas, culturais e políticas.

Bibliog.: impressa: BAPTISTA, Elina Maria Correia, Emigração e Teatro em Portugal, no Século XIX. Retratos da Madeira e de Madeirenses, Funchal, Funchal 500 anos, 2008; CLODE, Luiz Peter, Registo Bibliográfico de Madeirenses, Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; NASCIMENTO, João Cabral do, Os Pedreiros Livres na Inquisição e Corografia Insulana, Funchal, Arquivo Histórico da Madeira, 1949; REBELLO, Luís Francisco, O Teatro Romântico (1838-1869), Lisboa, ICALP/MEC, 1980; Id., O Primitivo Teatro Português, ICALP/MEC, Lisboa, 1984; RODRIGUES, José Joaquim, Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal, CMF, 1950; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., Funchal, SREC, 1978; VISCONDE DO PORTO DA CRUZ, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vols. 1, 2 e 3, Funchal, CMF, 1949, 1951, 1953; digital: DINIS, Cidália, “Francisco de Vasconcelos Coutinho: A Magia do Teatro Barroco”, Revista Pandora Brasil: http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/teatro/cidalia.pdf (acedido a 9 out. 2015).

Graça Maria Nóbrega Alves

(atualizado a 05.04.2016)

conferências do teatro: madeira de a a z

Cartaz - Conferências do TeatroNuma organização conjunta do Centro de Línguas e Literaturas Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da Cátedra Infante D. Henrique para os Estudos Insulares e a Globalização, da Universidade da Madeira, com o apoio da Agência de Promoção da Cultura Atlântica, no âmbito das atividades dinamizadoras do projeto Aprender Madeira, que irá editar o Novo Dicionário Enciclopédico da Madeira, o Teatro Municipal Baltazar Dias abrirá ao longo do ano de 2017 as suas portas na primeira Quarta-feira de cada mês para acolher uma nova conferência alusiva a temas constantes do Dicionário Enciclopédico em construção.

A sessão de abertura oficial destas conferências decorrerá no próximo dia 11 de Janeiro, às 18 horas, no Teatro Baltazar Dias e contará com a presença do Presidente da Câmara Municipal do Funchal e com o coordenador científico do projeto Aprender Madeira, o Professor Doutor José Eduardo Franco. A primeira conferência será alusiva à história da evolução de Teatro na Madeira e em específico a história do Teatro Municipal Baltazar Dias, com intervenções dos investigadores Rui Carita e Elina Batista.

Abaixo, deixamos-lhe a planificação das conferências entre janeiro e março, sendo ainda de referir que o acesso às mesmas é livre ao público em geral.

MêsDiaEfeméride/TemaEntradaAutor
janeiro11Inauguração das Conferências: 15 de Janeiro de 1622: nascimento de MolièreAbertura das Conferências
História do Teatro
Baltazar Dias
José Eduardo Franco
Elina Baptista
Rui Carita
fevereiro15Dia Mundial da Língua Materna
AlcunhasNaidea Nunes
Mês de nascimento de Luísa Grande LomelinoLuzia
Cláudia Neves

Dia da Vitima do CrimeCriminalidadeArmando Correia
Óscar Correia
março22Dia da MulherLiteratura Feminina
Violência doméstica
Luísa Paolinelli
Teresa Carvalho
Dia Mundial do ArtesãoOfícios e ArtesãosAlberto Vieira

alfredo de frança

Alfredo de França nasceu na freguesia do Faial, concelho de Santana, a 14 de dezembro de 1883, não havendo registos da data e do local da sua morte. Filho de Alfredo Abel de França, cursou Direito em Coimbra, não tendo concluído o bacharelato. Dedicou-se à poesia, produzindo, ainda nos seus tempos coimbrãos, os opúsculos “Poema Rubro”, “A Imagem” e “O Pajem”, com o pseudónimo de Abel Moreno, respetivamente em 1904, 1905 e 1906.

No jornalismo, destaca-se a sua colaboração em diversos jornais, como A República, Heraldo da Madeira, Diário da Madeira, Sempre Fixe, Diário de Notícias, Diário do Funchal, Almanaque de Lembranças Madeirense, Revista Literária, entre outros, tendo sido redator do jornal O Século.

Na dramatologia, publicou a peça Coimbra, em 1906, levada à cena pela primeira vez no Teatro do Príncipe Real, em Coimbra, na noite de 15 de dezembro de 1906. “O Pajem”, com versos recitados por Araújo Correia, foi apresentado na festa artística, na noite de 26 de janeiro de 1907, também em Coimbra. Alfredo de França foi também funcionário do antigo Ministério das Colónias e filiado na Maçonaria.

Obras de Alfredo de França: “Poema Rubro” (1904); “A Imagem” (1905); Coimbra (1906); “O Pajem” (1906).

Bibliog.: impressa: CLODE, Luís Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; FREITAS, Alfredo Vieira de, Era Uma Vez… na Madeira: Lendas, Contos e Tradições da Nossa Terra, Funchal, ed. do autor, 1964; MONTEIRO, Manuela et al. (coord.), Dicionário de Biografias, Porto, Porto Editora, 2001; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vol. III, 1.ª ed., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1953; SILVA, Fernando Augusto da e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Funchal, DRAC, 1984; digital: DUARTE, Raul, “Personalidades da Freguesia”, A Freguesia do Faial (Madeira), 20 mar. 2006: http://juntafreguesiafaialmadeira.blogspot.pt (acedido a 18 set. 2015).

Miguel Fonseca

(atualizado a 01.12.2015)

azevedo, maximiliano eugénio de

Maximiliano de Azevedo. Fonte - BNP
Maximiliano de Azevedo. Fonte – BNP

Nasceu no Funchal a 16 de fevereiro de 1850 e faleceu em Lisboa a 4 de dezembro de 1911. Mais conhecido por Maximiliano d’Azevedo (ainda que utilizando também os pseudónimos de Alberto de Magalhães, Silvestre, Zélio e Max), exerceu funções de coronel no Exército Português, distinguindo-se como autor de diversas obras de caráter histórico e de peças teatrais, jornalista e crítico da arte dramática.

Filho de António Pedro de Azevedo e de D. Teresa Rosa Bernes foi, também, afilhado de batismo do príncipe Maximilian Von Eichstätt, duque de Leuchtenberg e príncipe de Eichstaedt, que, na altura do seu nascimento, se encontrava na Madeira. Concluídos os estudos secundários no Liceu Nacional do Funchal, frequentou os estudos preparatórios da Escola Politécnica em Lisboa, ingressando depois na Escola do Exército e concluindo o curso de Artilharia, em 1875.

Iniciou a carreira de oficial de artilharia, sendo 2.º tenente em Santarém e na Companhia de Artilharia n.º 1 aquartelada na cidade da Horta, nos Açores. Seria promovido a tenente em 1878. Casou em 1879, na Horta, com Valentina Morisson, permanecendo na ilha do Faial até 1881, ano em que foi transferido para Lisboa. Aí, construiu o resto da sua carreira, sendo promovido a capitão em 1884, a major em 1897, a tenente-coronel em 1903 e a coronel em 1911, posto que detinha quando faleceu, sendo então o coronel comandante do Regimento de Artilharia n.º 12.

Aquando do seu falecimento, a revista Brasil-Portugal dedica a este seu assíduo colaborador, com um relato sentido da celebração fúnebre, uma saudosa secção elogiosa onde descreve o coronel de artilharia e o escritor dramático de espírito culto como “oficial de uma arma científica dos mais ilustrados, autor de uns contos militares que tiveram muita voga”. Acrescenta a mesma revista que o escritor viajou muito e que “durante alguns anos foi secretário de Latino Coelho, cujo convívio grandemente contribuiu para a ilustração que tinha”, destacando ainda a sua colaboração em numerosos jornais e revistas, o cargo de gerente do teatro D. Maria II que exerceu, a infinidade de peças que deixou, principalmente traduções, que escolhia a primor de entre as melhores obras literárias europeias, e a sua inteligência e caráter sem mácula. Todavia, terá sido “no teatro que mais deixou vincados os traços da sua individualidade”, conhecendo como poucos a “alma popular” (“Maximiliano de Azevedo”, Brasil-Portugal, 16 dez.1911, 343).

Com forte pendor intelectual, ligou a sua carreira militar a várias atividades culturais realizadas no contexto militar e na sociedade civil, com destaque para trabalhos no âmbito da historiografia, da arquivística militar e da imprensa, tendo sido redator de vários jornais. Aplicou-se, igualmente, na escrita e crítica dramáticas e na tradução de textos dramáticos, sendo vogal do Conselho de Arte Dramática e comissário do Governo junto do teatro D. Maria Pia, em Lisboa.

Manifestou grande pendor para o teatro, detendo um vasto conhecimento da história teatral nas suas vertentes literária e artística. Escreveu e traduziu, por vezes em colaboração com outros autores, várias peças e, no final da vida, geriu, como comissário régio, a companhia Teatro Normal de Lisboa. A sua obra mais popularizada é o drama Inez de Castro (1894), peça estreada no teatro do Príncipe Real, em 1894, com enorme sucesso por contrariar os moldes da geração romântica e privilegiar caracterizações psicológicas das personagens articuladas com as coordenadas sociais e políticas do quadro histórico em que se moviam, envoltas nos seus conflitos sentimentais e com lances de exacerbado melodramatismo. Trata-se de um drama em cinco atos, representado depois em Matosinhos, que inclui um parecer do censor de 1953, classificando a peça para maiores de 13 anos, com respetiva apreciação.

No âmbito militar, foi várias vezes nomeado para missões culturais, entre as quais a organização da biblioteca e arquivo do Ministério da Guerra (1890), tendo sido também vogal da comissão encarregue de elaborar a história da artilharia em Portugal (1893). Como resultado, veio a colaborar, tal como fizera o seu pai, na elaboração de Documentos para a História das Cortes Geraes da Nação (1883/1891), com relatos e contos artísticos e elucidativos da situação histórica do país.

Jornalista de mérito, foi redator do Jornal da Noite entre 1882 e 1884, estando a sua extensa produção escrita igualmente espelhada em diversos periódicos, entre os quais o Discussão (na redação, a convite de Pinheiro Chagas), O Occidente, Revista illustrada de Portugal e do Estrangeiro, o Jornal do Domingo e o Atlântico. Colaborou, ainda, na Revista das Ciências Militares e nas revistas Brasil-Portugal e Serões.

Coadjuvou, com Latino Coelho, durante mais de 10 anos, a preparação da História Política e Militar de Portugal, desde Fins do Século XVIII até 1834 (3 volumes publicados entre 1874 e 1891), colaboração que se iniciou na déc. de 1880 e se estendeu por vários anos. Exerceu também funções de sócio correspondente nacional do Instituto de Coimbra, em 1898. Entretanto, viajando pela Europa, entre os anos de 1889 e 1900, redigiu notas e apontamentos, apresentando longos e circunstanciados relatórios dessas viagens.

No âmbito da sua obra, destaca-se Em Campanha e no Quartel (Lisboa, 1900), conjunto de 15 contos e narrativas de índole militar com significado histórico, entre as quais se salienta “A Execução dos Martyres da Patria” (contada por um soldado), ilustrada com reproduções a preto e branco e belíssimas aguarelas da autoria de P. Marinho, bem como a coletânea de contos Histórias das Ilhas: Reminiscências dos Açores e da Madeira (Lisboa, 1899). Esta última obra reflete a experiência insular do autor nos arquipélagos da Madeira e dos Açores, tendo sido na época um sucesso editorial. Trata-se de uma agradável e bem humorada recolha de pequenos contos sobre os arquipélagos portugueses, na qual se consegue sentir, em cada história, a cor das ilhas e o caráter dos ilhéus. Destacam-se, neste contexto, as seguintes narrativas: “O Casamento do Veterano” (Terceira), “Os Filhos do Frade” (Madeira), “O Primeiro Desengano” (Madeira), “Alegria do Mar” (Faial), “A Lampreia” (S. Miguel), “Mau Homem” (Terceira), “A Licença do Domingo” (S. Miguel), “O Contrabando” (Faial), “Piloto” (Faial), “Na Vindima” (Pico), “O Jantar do General” (Madeira), “O Aprendiz de Barbeiro” (Pico), “A Alemã” (Madeira), “O Marraxo” (Porto Santo), “O Pai do Jacinto” (Madeira), “A Folga” (Faial), “O Paiol” (S. Miguel), “As Feiticeiras” (S. Miguel) e “Mary” (Madeira).

Sendo já reconhecido no teatro, escreveu também, em coautoria com Gervásio Lobato, O Rapto de um Noivo, comédia em um ato representada no teatro D. Maria II. Esta peça trouxe um novo alento à dramaturgia nacional, brilhando junto dos ilustres D. João da Câmara, Eduardo Schwalbch, Marcelino Mesquita, Henrique Lopes de Mendonça, Lino d’Assunção, Ernesto da Silva, António Enes, Lorjó Tavares, Abel Botelho e Alberto Braga, reconhecidos entusiastas nacionais da escrita dramatúrgica. Ainda no contexto da sua atividade no mundo do teatro, Maximiliano de Azevedo participou num momento memorável ao fazer parte do júri de admissão ao conservatório da famosa e genial atriz Maria de Matos, juntamente com Eduardo Schwalbch, D. João da Câmara, Júlio Dantas, Carlos Malheiro Dias e Henrique Lopes de Mendonça.

Enquanto correspondente nacional do Instituto de Coimbra, em 1898, foi autor da Enciclopédia do Comerciante e do Industrial e diretor da revista A Nossa Pátria. Na revista Brasil-Portugal, vemos anunciada a colaboração de Maximiliano de Azevedo na peça “Sá da Bandeira e os Dois Patacos”. A revista Serões (dez. 1911) acolhe também uma publicação do autor, desta vez sob o pseudónimo de Alfredo Guimarães, mais especificamente o texto “O Jornal do Mar” (com duas vinhetas e oito ilustrações). Para além disso, traduziu e apresentou Consciência dos Filhos, drama em quatro atos por Gustave Dévore, como anuncia a revista Serões (“Variedades”, Serões, maio-jun. 1903, 7). A produção e a tradução de várias obras teatrais valeram-lhe a presença no Diccionario Bibliographico de I. F. Innocencio, continuado por Brito Aranha.

Em Serões (1904), é-nos dada a conhecer outra publicação de Maximiliano de Azevedo: Em Casa do Filho (comédia em um ato sobre costumes madeirenses, datada de 1905). No número seguinte, em 1905, é-nos apresentado o início do seu extenso texto intitulado “Emilia Adelaide: Recordações de Theatro”, em 13 páginas e 16 ilustrações, que fixa memórias da talentosa atriz esquecida que representava com garbo e gentileza, inclusive em papéis masculinos e que, na opinião do autor, seria a segunda melhor atriz portuguesa.

O seu discurso dedicado ao marquês de Pombal, recitado em forma de composição superior, no teatro Valenciano, por ocasião do sarau literário-musical realizado a 8 de maio de 1882, reflete o espírito magnânimo deste escritor, que, numa longa composição poética, antecedida de uma dedicatória intitulada “Aos Meus Amigos”, na qual justifica a sua modesta publicação e alude ao seu apreço pelo marquês, nos diz: “I. De joelhos heróis! Baixai a fronte altiva,/ Que passa triunfante, aureolada e viva/ A sombra de outro herói! – a lusitana gloria/ Que há um século morreu para viver na História./ […] É justo que façais dupla consagração:/ Ao génio da Epopeia e ao génio da Instrução!”

Ernesto do Canto atribui a Maximiliano de Azevedo o discurso sobre Garrett proferido no sarau realizado pelo Grémio a 10 de junho de 1880 (CANTO, 1882), nas comemorações do tricentenário de Camões.

Num dos momentos sensíveis da sua vida, em maio de 1885, aquando do falecimento de Gervásio Lobato, seu grande amigo, Maximiliano de Azevedo fez parte obrigatória da comissão de homenagem à memória do ilustre escritor, com dedicatórias efusivas.

Em 1909, o dramaturgo coordenou com D. João da Câmara, José António de Freitas e Raul Brandão O Livro das Creanças Portuguezas e Brazileiras. Ainda com Raul Brandão e João da Câmara elaborou distintamente, em 1903 e 1904, o compêndio Livro de Leitura para as Escolas de Instrução Primária, destinado à 1.ª, 2.ª, 3.ª e 4.ª classes, que foi aprovado pelo ministro de então e pela comissão técnica (Diário do Governo, 22 nov. 1910) e considerado o manual perfeito com que sempre o governo sonhara. Este surgiu, assim, como um manual inovador no panorama nacional, como considerou João de Barros, diretor-geral na altura, convencido de que todo o aluno que por ali estudasse ficaria informado e mergulhado no sentido patriótico e moral. Com os mesmos autores, Maximiliano de Azevedo organizou Patria Portugueza, em 1906, livro destinado aos alunos distintos nas escolas de instrução primária.

Dois anos antes da sua morte, em 1909, os seus conhecimentos bélicos e literários valeram-lhe a nomeação para integrar a comissão que desenvolveu o enorme programa da exposição para as comemorações da Guerra Peninsular, com a participação de todas as bibliotecas do país, juntamente com João Carlos Rodrigues da Costa (general e presidente da comissão), Alfredo Pereira Taveira de Magalhães (coronel do Estado-Maior e vice-presidente), Jaime Leitão de Castro (coronel de artilharia), Adelino Augusto da Fonseca Lage (tenente e tesoureiro), João Severo da Cunha (major de engenharia), Guilherme Luís dos Santos Ferreira (major de infantaria), Cristóvão Ayres de Magalhães Sepúlveda (tenente-coronel de infantaria), Luís Henrique Pacheco Simões (capitão de infantaria) e José Justino Teixeira Botelho (capitão e secretário).

Agraciando a sua longa amizade com o autor, Raul Brandão publica, em 1914, o registo de cariz histórico intitulado A Conspiração de 1817, em memória de Maximiliano de Azevedo.

Obras de Maximiliano Eugénio de Azevedo: Inez de Castro (1894); Histórias das Ilhas: Reminiscências dos Açores e da Madeira (1899); Em Campanha e no Quartel (1900); “Sá da Bandeira e… os Dois Patacos” (1903) (em colaboração com Ribeiro Carvalho); Em Casa do Filho (1905); “O Jornal do Mar” (1911) (pseud. Alfredo Guimarães); O Epílogo, Por força!; Rosinha do Castelo; Santos de Casa; Zefa; Veteranos e Galuchos; Tiro das Bocas de Fogo; Causa Célebre; Crime das Picoas; O Amor; Susana; A Tosca; O Convento do Diabo; O Incêndio do Lugre Atlântico; A Mendiga; Os Dois Órfãos; O Sargento de 5 de Linha; A Sereia; O Capitão de Bandidos; O Mestre de Obras; Educação Errada; O Romance de uma Actriz; João José; Os Filhos do Capitão Grant; Naná; Maridos e Amantes; Os Jesuítas; A Honra; Paulo; Vida Curada; Duas Crianças; Os Anos da Menina; O Epílogo; Cinto e Bordão; Templo de Salomão; Rapto de um Navio; Entre a Vítima e o Carrasco; Gostos Não se Discutem; Ralham as Comadres; Maridos que Choram; Um Pai da Pátria; Sozinha; Marido Ó; Paulo e Virginia; Capricho de Sogra; Prisioneiro da Palavra; Um Homem Sério; O Diário do Governo; O Homem das 16 Mulheres; Engaiolado; Lua Cheia; As Vitimas do Folhetim; No Dia do Noivado; O Às de Paus; A Feiticeira; A Galdéria; Luis XI e os Senhores Feudais; O Segredo do Padre; O Demónio dos Mares; A Moda; A Ave Agoureira; A Mãe da Minha Mulher; Frou-Frou; A Pesca Milagrosa; Condecorado; As Surpresas do Divórcio; Os Beijos do Diabo; Margarida do Monte; Ideias de Mme. Aubry; Marchas e Estacionamentos (em colaboração com Artur Perdigão); A Rosinha do Castelo; Contos e Bordão; Purgatório de Casados; Homenagem ao Marquês de Pombal (pseud. Alberto de Magalhães).

Bibliog.: ANDRADE, Adriano Guerra, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1999; Boletim das Bibliothecas, 9.º ano, n.º 13, 1908; BRANDÃO, Raul, A Conspiração de 1817: Quem Matou Gomes Freire, Porto, Typ. da Empresa Literária e Typographica, 1914; “Maximiliano d’Azevedo”, Brasil-Portugal: Revista Quinzenal Illustrada, n.º 310, 16 dez. 1911, p. 343; CANTO, Ernesto do, “O Gremio Litterario”, Archivo dos Açores, n.º 49, VI, Faial, Tip. do Archivo dos Açores, 1882; CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; Diário do Governo, n.º 41, Direção Geral da Instrução Primária, 22 nov. 1910; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, 3 vols., Funchal, CMF, 1949-1953; “Variedades”, Serões, n.º 19, maio-jun. 1903, pp. 1-8; Ibid., n.º 24, 1904; Ibid., n.º 78, dez. 1911; SILVA, Inocêncio F., Dicionário Bibliographico Portuguez, vol. XVII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1973; SILVA, F. A., e MENEZES, C. A., Elucidário Madeirense, vol. I, Funchal, CMF, 1965.

Helena Paula F. S. Borges

(atualizado a 30.08.2016)

lomelino, edmundo da conceição

Capitão, professor, pianista e autor de música para teatros de revista. Edmundo da Conceição Lomelino foi capitão do exército, condecorado pela participação na I Grande Guerra. No domínio social, ganhou relevo por ter sido um músico especialmente ativo entre as décadas de 1930 a 1950, altura em que compôs a música para alguns dos principais êxitos do teatro de revista madeirense.

Desconhece-se com quem terá estudado música, mas a sua atividade musical começou a destacar-se no período entre as duas grandes guerras. No Diário de Notícias, de 29 de abril de 1921, surge o primeiro registo conhecido sobre o seu talento musical, sendo referido numa notícia, que era «um mestre consagrado na arte do piano e compositor de real mérito». O prestígio no domínio social e musical deveria ser elevado visto que no ano seguinte, em 1922, foi convidado para integrar a Comissão de Concertos e Festas Musicais das Celebrações do 5.º Centenário da Descoberta da Madeira, juntamente com Manuel dos Passos Freitas, o cantor lírico e bandolinista Júlio Câmara, de entre outras individualidades da época. Ainda durante esta década há notícias que referem a sua participação musical em récitas de caridade (no Colégio Lisbonense) e eventos de homenagem aos Bombeiros Voluntários do Funchal.

O seu período áureo musical iniciar-se-ia, no entanto, na década de 1930, quando começou a compor, com alguma regularidade, música para teatros de revista e se dedicou ao ensino na Escola Industrial e Comercial “Augusto Aguiar” (Funchal), cujos alunos integraram o elenco de muitas das suas revistas. O género “revista” já ocupava um lugar de destaque no panorama musical madeirense desde cerca de 1909, mas só atingiu o seu período mais fértil, nas décadas de 1930 e 1940, incentivado pelas atividades da mocidade portuguesa e pela época dos centenários que então se vivia. Inclusivamente, os programas de concerto referiam frequentemente que as récitas seriam «em benefício do Fundo de Camaradagem dos Centros Escolares da Mocidade Portuguesa (Masculina e Feminina) da Escola Industrial e Comercial “António Augusto de Aguiar”».

Na Madeira, o género revista ocupou culturalmente um lugar de especial relevo, por ter reunido libretistas, coreógrafos, figurinistas, cenógrafos, caracterizadores e músicos regionais, entre os quais se destacou Edmundo da Conceição Lomelino. Atualmente, ainda subsiste um repertório de revistas extenso, derivado da ação de músicos como: Augusto Graça, Manuel Ribeiro, Dario Flores, os Irmãos Freitas e Edmundo Conceição Lomelino. No domínio dos libretos, a variedade de autores é igualmente elevada, destacando-se nomes como Alberto Artur Sarmento, Adão Nunes e mais tarde Teodoro Silva. No domínio da coreografia, a personalidade que se destacou foi Eugénia Rego Pereira.

As revistas compostas por Edmundo Lomelino alcançaram um enorme sucesso entre o público do Funchal, com apresentações esgotadas por diversas vezes, no Teatro Municipal Baltazar Dias. Entre as apresentações mais importantes, destacam-se as revistas: Água Benta; A Primavera; A Madeira em festa (1938), também representada nos Açores; Carnaval (1939); Bolas de Sabão (1944), com três antes espetáculos esgotados antes da estreia; Flores da Madeira (1945); Sónia boneca encantada (1948); Sentinela Alerta (1953), com a participação de militares do Batalhão Independente de Infantaria N.º 19; e, finalmente, Deixa Passar, uma das últimas revistas madeirenses, deste período áureo do teatro de revista regional.

As histórias das revistas estavam maioritariamente ligadas a cenas características da Madeira – um «arraial nos Canhas», uma «exposição de flores», um «bailarico» – a críticas de costumes ou a acontecimentos políticos da época. Na revista Carnaval, por exemplo, o texto do libretista Teotónio da Silva (1900-1976), o dramaturgo com quem o compositor colaborou mais frequentemente nas suas revistas, representou uma paródia à conferência de Munique de 1938, onde a Inglaterra e a França cederam às intenções da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, assinando o “Acordo de Munique”. Esta revista foi produzida de acordo com o espírito de sátira política no Estado Novo, incluindo um número patriótico intitulado “Glória a Portugal”.

Musicalmente, Edmundo Lomelino foi um compositor que se dedicou aos novos géneros musicais de influência americana – rumbas, one steps, tangos e outros – e nacionalistas – fados, bailaricos e hinos patrióticos – que marcaram a vida musical madeirense, a partir do final da década de 1920. Entre as suas obras para piano destacam-se A Little Kiss, American Intermezzo (One Step), publicada pela Valentim de Carvalho e Desalento (Valsa Lenta). Edmundo da Conceição Lomelino faleceu em 1962.

Bibliog.: CLODE, Luiz Peter (1983), Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses Sécs XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal; ESTEIREIRO, Paulo (2008), “Edmundo da Conceição Lomelino”, 50 Histórias de Músicos na Madeira, Funchal, Associação de Amigos do Gabinete Coordenador de Educação Artística; MELO, Luís Francisco de Sousa, CARITA, Rui (1988), 100 Anos do Teatro Municipal Baltazar Dias: 11 de Março 1888-1988, Funchal, Câmara Municipal. Periódicos consultados: Diário de Notícias e Jornal da Madeira.

Paulo Esteireiro

martins, henrique

HENRIQUE MARTINSPUB: 11/03/92DN
HENRIQUE MARTINSPUB: 11/03/92DN

Bailarino, coreógrafo, professor de dança, Henrique Aguiar Gusmão Martins nasceu no Funchal, na Freguesia da Sé, a 2 de outubro de 1904. Profissional incansável, vanguardista influenciado por Paris dos anos vinte, marcou a vida cultural madeirense com o seu elevado sentido plástico e criativo, que expressou nos inúmeros espetáculos que levou à cena.

Oriundo de uma família de classe média, cresceu num ambiente ligado às artes. Os pais, José Gusmão Martins e Corina Aguiar Martins, frequentavam os saraus de poesia, o teatro e outras iniciativas culturais que então decorriam nos salões das casas de particulares e das sociedades recreativas e desportivas.

No início do século XX, a vida cultural funchalense animou com a presença de companhias de teatro de Portugal continental e do estrangeiro que viajavam até à Madeira. A ilha beneficiou também da presença de artistas dos navios que faziam escala no Funchal e que levavam à cena espetáculos no palco do Teatro Baltazar Dias.

Foi neste tempo que Henrique Martins se iniciou na dança. Aos seis anos de idade, integrou as aulas da professora Emengarda Vieira, num colégio de ensino primário, situado na Rua do Estanco Velho, propriedade da sua mãe. A aprendizagem continuou com a poetisa Eugénia Rego Pereira, na sua casa, à Rua do Bispo, então ponto de encontro de vários artistas.

Até aos 18 anos, conciliou os estudos com a dança, mas a necessidade de preparar-se para os negócios da família alterou-lhe o percurso. Em 1924, então a frequentar o 6º ano no Liceu do Funchal, por vontade do pai, sócio da fábrica de bordados Madeira House, viaja para Paris, a bordo do Andes, com o objetivo de estudar comércio na École Pigier. Assim aconteceu. Matriculou-se na referida escola e durante seis meses frequentou as aulas, mas o convívio com artistas, jornalistas e escritores em Montparnasse, Saint-Germaindes-Prés e Montmatre muda-lhe o destino.

Incentivado por amigos, frequenta as aulas do professor Jean Oram e dois anos depois, sobe ao palco da sala de espetáculos parisiense Oympia, como segundo bailarino da sua companhia. Entre ensaios e espetáculos, que a família desconhecia, vive em Paris até 1927, ano em que por vontade dos pais viaja até Londres para estudar inglês, objetivo que foi adiado, pois o interesse pela dança fê-lo regressar a Paris e à referida companhia, por mais três anos.

Em 1930, a permanência em França estava comprometida. A família não podia custear a sua vida na capital francesa. Henrique Martins regressou então à Madeira, ingressando na empresa Madeira House – onde desempenhou funções de desenhador e escriturário – e frequentando também o antigo salão da Rua do Bispo, onde então decorria o ensaio da opereta Gente do Mar. Foi a convite de Eugénia Rego Pereira que coreografou o espetáculo. Seguiram-se outros sucessos de bilheteira, como: As asas da fantasia, Sol e Gelo, apresentados no Teatro Baltazar Dias. Henrique Martins conciliou então a dança com outra atividade artística, a pintura. Entre 1937 e 1939 integrou o atelier do pintor polaco Colber que residia na Madeira.

Durante a II Guerra Mundial, a presença de gibraltinos na ilha imprimiu maior dinamismo à vida social e cultural funchalense. Promoviam festas, saraus, espetáculos variados, recorrendo a Henrique Martins como coreógrafo e ensaiador.

Em 1951, abriu uma sala de dança na Rua Fernão de Ornelas onde ensinou danças de salão e iniciou as aulas de ballet. Em 1954 mudou-se para um salão situado no 1º andar do n.º 4, à Rua da Ribeira de São Lázaro, atual Rua Brito Câmara. Ali, ao longo de toda a vida, ensinou gerações a dançar.

Foi com a revista Olha p’ra isto, da autoria de Calado Nunes, apresentada no Teatro Baltazar Dias a 9 de junho de 1958, cujo sucesso foi enorme, que mostrou o seu talento fora da ilha. Com apoio da FNAT (Federação Nacional da Alegria no Trabalho) apresentou o espetáculo no Teatro Variedades, no Parque Mayer. A revista foi levada à cena 29 vezes.

De regresso à ilha continuou a coreografar e a ensaiar espetáculos promovidos por sociedades recreativas, clubes e estabelecimentos escolares, como: Liceu, Escola Industrial e Comercial e Escola de Magistério Primário, que apresentavam as suas récitas à comunidade local.

Com o declínio dos espetáculos na década de 70, continuou a sua atividade de professor e em 1976 foi convidado para ensinar ballet da Academia de Música e Belas Artes da Madeira, onde lecionou durante um ano. Dificuldades financeiras da instituição levaram a que Henrique Martins regressasse ao ensino da dança no seu antigo salão. Por esta altura dirigiu também o Grupo Folclórico Ilhéus.

O entusiasmo não esmoreceu e o mestre preparou um novo tempo. Criou então o Grupo experimental de ballet do Funchal, constituído por 18 jovens estudantes que conciliavam a dança com o estudo. Foi com este grupo que Henrique Martins, com algum apoio dos Serviços Culturais da Câmara do Funchal, levou à cena variados espetáculos no Teatro Baltazar Dias, no final dos anos 70 e princípios de 80, entre os quais se destacam os bailados: Primeiros encontros, Intrusa, Canção da Primavera, Loja dos Brinquedos, Fantasia, Pescador de Pérolas, Do amor e da morte, Romance de la luna luna, Espaço e Jesus Christ Super Star.

Alguns dos espetáculos do Grupo experimental contaram com a participação de bailarinos da ex-Companhia Calouste Gulbenkian, como Carlos Fernandes, seu antigo aluno, Marta Atayde e Ubrike Caldas entre outros, como o levado à cena no Teatro Baltazar Dias, a 4 e 5 de abril de 1978. Mas a falta de apoio efetivo, por parte das entidades culturais, no sentido da profissionalização do grupo ditaram o seu fim. O mestre continuou.

Em abril de 1990, a Câmara Municipal do Funchal disponibilizou uma sala no Teatro Baltazar Dias, onde Henrique Martins deu aulas de ballet a crianças e jovens.

A 11 de março de 1992, a referida instituição distinguiu-o. Em sua homenagem foi então inaugurada uma exposição de pintura e desenho relativa aos seus 50 anos de atividade como bailarino, coreógrafo e pintor.

Criador por excelência viveu de sonhos, de projetos que apesar das dificuldades punha em marcha. Henrique Martins ensinou gerações a dançar e amar a dança. Nas horas vagas pintou retratos, cenas de ballet, figuras mitológicas, desenhou figurinos para o guarda-roupa dos seus bailados. Fazedor de espetáculos, o seu apurado sentido estético revelava-se na idealização da música, na conceção da coreografia, do cenário e do guarda-roupa. Esse saber fazer com beleza e criatividade fez com que permanecesse no tempo. Continuou até ao fim a ensinar a dançar no salão da Rua Brito Câmara, muitas vezes só por amor à arte. Henrique Martins faleceu no Funchal em agosto de 1996.

Bailarino, Henrique Martins
Bailarino, Henrique Martins   
Bailarina, Henrique Martins
Bailarina, Henrique Martins

Bibliog.: JORGE, António Andrade (1979), “Bailarinos profissionais e amadores numa simpática noite de ballet no Funchal”, in Jornal da Madeira, Funchal, 6 de abril; TEIXEIRA, Anjos (1980), “Espetáculos no Funchal”, in Diário de Notícias, Funchal, 3 de fevereiro, pp. 13-16; FLORENÇA, Teresa (1992), “104 anos do Teatro Municipal Baltazar Dias”, Funchal, Câmara Municipal do Funchal; FLORENÇA, Teresa (1992), “Cidade homenageia Henrique Martins”, in Diário de Notícias, Funchal, 16 de março, p. 10.

  Teresa Florença

(atualizado a 22.07.2016)