talha

A talha no arquipélago da Madeira está ligada a templos de devoção religiosa católica. É utilizada nos retábulos, sendo estes o principal equipamento litúrgico e arquitetónico existente nos interiores. O uso da talha alargou-se a outros elementos culturais, como cadeirais, púlpitos, sacrários, castiçais, frontais, e molduras de janelas e de pinturas figurativas. Os conjuntos retabulares eram complementados com imaginária de vulto, azulejaria, estuques, e pintura ornamental e figurativa.

Durante o Antigo Regime, houve um grande empenhamento da Coroa, do clero regular, das confrarias e de particulares na encomenda dos equipamentos litúrgicos e artísticos. As obras da Coroa geralmente cumpriam o seguinte processo: pedido do pároco e sua aprovação, risco (projeto), orçamento, arrematação e sua aprovação, inspeção pelo Mestre das Obras Reais, e pagamento. Nos restantes tipos de encomendas, contratava-se um mestre, realizando-se por vezes uma escritura.

Diversos fatores contribuíram para a construção de retábulos: as diretivas religiosas, a atualização artística, a (re)construção de templos, bem como a deterioração através de humidades, de calamidades e da ação dos insetos xilófagos. Os que não estavam em condições de uso eram eliminados, reaproveitados ou vendidos a entidades de menores recursos. O material mais usado era a madeira originária da região, o castanho. Por vezes, há referências a cedro (imaginária de vulto), casquinha, bordo e carvalho. Muito raramente se usou a pedra: exemplificamos mencionando o retábulo em alabastro realizado para a Companhia de Jesus em 1625, o retábulo da capela do palácio da rua do Esmeraldo e o retábulo de Nossa Senhora da Piedade, na Qt. das Cruzes (c. 1700).

Os primeiros retábulos edificados são narrativos e os remanescentes são da época da criação da Diocese do Funchal (1514). Neste período, predomina a estética tardo-gótica de influência flamenga, que se vai abrindo ao classicismo italianizante. São retábulos trípticos com portas ou volantes, compostos por painéis figurativos em pintura e/ou relevo escultórico, alguns importados por mercadores relacionados com a época áurea do açúcar. Na Madeira, subsiste in situ o tríptico escultórico dos Reis Magos (c. 1520), na ermida homónima no Estreito da Calheta. A maior parte destes trípticos, executados por artistas nórdicos e que a partir do segundo quartel do séc. XVI vão refletir o gosto maneirista, transitou para o Museu de Arte Sacra do Funchal; é o caso dos trípticos das igrejas da Ponta do Sol (Nossa Senhora do Pópulo, S.ta Catarina e S.ta Bárbara) e de S. Tiago Menor (Santiago Menor e S. Filipe) ou Nossa Senhora do Amparo, da Sé.

Neste período surgem os primeiros retábulos monumentais que revestem a totalidade da parede testeira das capelas onde se inserem. A Madeira possui um grandioso exemplar, em talha dourada na capela-mor da Sé do Funchal (Fig. 1), datado de 1514-1516, restaurado em 2014 e que nessa altura continuava a não ter a sua autoria apurada com segurança. Foi mandado executar pelo Rei D. Manuel I, com o objetivo de adequar aquele templo às novas funções de igreja principal da nova Diocese, e apresenta três corpos e cinco tramos, estando os laterais preenchidos com pinturas e o central com sacrário, escultura do orago e cruz de Cristo. Os tramos são separados por finas pilastras, com pequenos nichos que albergam pequenas imagens. O ático é composto por um sobrecéu de talha fina vazada e profusamente decorada, destacando-se algumas representações alusivas à heráldica manuelina.

A partir de meados de Quinhentos, consolida-se a tendência de construir retábulos fixos, em madeira branca e dourada, com um ou dois corpos e um ou três tramos, delimitados por pilastras que enquadram tábuas pintadas. Os entablamentos, as pilastras e as predelas são revestidos por ornatos ítalo-flamengos como grotescos, ferronerie, mascarões, medalhões e recipientes com frutos e flores, executados com miudeza de entalhe. Dos diversos retábulos construídos na segunda metade do séc. XVI e nos princípios do XVII, ainda subsistem os retábulos da capela da Mãe de Deus no Caniço e da capela-mor da igreja matriz da Ponta do Sol (1560-1570) (Fig. 2), este remodelado nos sécs. XVII e XVIII. Em 1583, o mestre das obras reais Mateus Fernandes realizou as “traças assim por debuxo como por escrito” do sacrário da igreja do Caniço e, em 1589, as dos retábulos para as igrejas dos Canhas e de Água de Pena, obras já desaparecidas. Neste período surgem também, com atividade referenciada, os imaginários Luís Ferreira (1560 e 1577), Fr. António de Estremoz (1591), João da Costa (1602-1611), Álvaro Luís (1598, m. 1630), Jorge Fernandes (1617), e o mestre das obras reais Jerónimo Jorge que, em 1596, fez a coluna do círio pascal da Sé (SANTA CLARA, 2004, II, 125). Refira-se que, até inícios do séc. XVIII, os executantes da talha geralmente denominam-se imaginários, mas, a partir deste período, é mais comum o nome de entalhador, sendo também às vezes apelidados de carpinteiros ou marceneiros.

Da segunda metade do séc. XVI até à primeira metade do séc. XVII, existem informações sobre a construção de retábulos (talha e/ou pintura) nos templos edificados até então. Vejamos a título de exemplo: em 1581, foram enviados retábulos para S. Pedro da Ponta do Pargo e Nossa Senhora da Graça, do Estreito de Câmara de Lobos; a talha custou 14$948 réis e o pintor “e dourar em partes”, 40$000 réis (CARITA, 1991, II, 328); em 1583, há o mandado do bispo para ajuda do retábulo da Confraria do Rosário da Sé; em 1584, estava pronto o retábulo da capela dos Anjos, na Ponta do Sol; em 1588, é feito o pagamento do retábulo da capela do Senhor Jesus, na Ribeira Brava; em 1589, para além das traças acima referidas, existem alvarás para o retábulo do Porto Moniz; em 1590, foram feitos pagamentos para os retábulos da Confraria de S. Jorge na Sé, em Ponta Delgada, em São Pedro e em Câmara de Lobos; em 1591, para retábulos em Tabua, São Jorge; em 1592, houve uma doação para o retábulo da Confraria do Santíssimo da Sé; em 1634/35, existem pagamentos a um imaginário pelo retábulo para a confraria de São Martinho, na igreja homónima.

Os que perduraram são de estrutura arquitetónica clássica, com o frontão triangular, por vezes interrompido, ladeado com volutas enquadrando cartelas circulares com pinturas ou elementos entalhados. Foram empregues folhagens, cabeças de querubins, pontas de diamante, e dentículos nos frisos, nas predelas e dispostos na vertical, ou espiral no terço inferior das colunas estriadas com capitéis coríntios. Estas características podem ser observadas nos retábulos das capelas da Alegria, em São Roque, da Consolação, no Caniço, de Nossa Senhora das Neves, no Funchal, de Sant’Ana, nos Álamos, dos Anjos, na Ponta do Sol, do Corpo Santo, no Funchal, do Calvário, no Convento de Santa Clara (de execução particularmente cuidada), de Nossa Senhora no lado da epístola, na matriz da Ponta do Sol, e na capela-mor da capela de S. Paulo, no Funchal. Neste último, com uma reforma posterior, o terço central do fuste das colunas é liso com um losango ao centro.

Em meados do séc. XVII, como características relevantes apontamos o uso de composições com dois corpos e três tramos, que progressivamente tendem a ter um só corpo com um ou três tramos. Começa-se a empregar nos áticos frontões curvos interrompidos, numa composição mais complexa, tripartida, com tondos, cartelas ou pinturas retangulares ao centro delimitadas por consolos; nas ilhargas, constam aletas, volutas e segmentos de frontões curvos sobre os quais assentam imagens de anjos vestidos e de corpo inteiro. Estas características estão patentes em dois retábulos existentes no convento de Santa Clara, de meados da primeira metade do séc. XVII, dedicados a Nossa Senhora da Anunciação e Nossa Senhora da Assunção (Fig. 3), tendo este último a particularidade de ter um nicho emoldurado na parte central com imagem de vulto, retraído em relação à face dos retábulos. Esta solução do nicho vai ser utilizada nos retábulos protobarrocos, por exemplo, nos retábulos do Senhor Jesus e Evangelistas (Fig. 4), de São Francisco Xavier e de Nossa Senhora do Pópulo, os três executados por volta de 1648 na igreja do Colégio da Companhia de Jesus, no Funchal, e no retábulo de Nossa Senhora da Conceição, no Estreito da Calheta (c.1670), este mais singelo, diferenciando-se pelo par de colunas duplas, o ático que se restringe ao intercolúnio e o frontão triangular assente em aletas.

Em meados do séc. XVII, ainda se dispõe a talha ao gosto ítalo-flamengo, com querubins ao longo do entablamento, da predela com pedestais cúbicos e das colunas que são profusamente decoradas, como consta nos retábulos das capelas de Nossa Senhora da Graça, em Machico e de Nossa Senhora da Saúde, no Funchal (1661), no retábulo principal da igreja do Colégio (1660) e nos das capelas do Descanso e da Qta. das Virtudes, no Funchal, estes últimos em madeira escura. No retábulo de S.to António, no coro baixo do Convento de Santa Clara, as colunas são de fuste estriado, e no entablamento constam querubins e conjuntos de frutos. Surge o douramento total, característico do protobarroco, período que decorre entre o segundo e o terceiro quartéis do século XVII.

Análogo aos três retábulos mencionados da igreja do Colégio é o retábulo relicário das Onze Mil Virgens (Fig. 5), na mesma igreja, executado em 1654. Este último possui um par de colunas duplas (esquema pouco usual), que enquadram uma pintura que, retirada, torna visível nove nichos com bustos relicários. As colunas são de fuste liso com caneluras, o terço inferior é revestido por ornatos ítalo-flamengos e cabeças de querubins, e, na parte superior, sobrepostos às caneluras, constam dois conjuntos de ornatos com cabeças de querubins e frutos. Estes pormenores na parte superior das colunas repetem-se no retábulo de S. Gonçalo de Amarante, no Convento de Santa Clara (c. 1640-1650), nos retábulos mores da matriz de Machico (c.1665) e da Ordem Terceira do Carmo, no Funchal (1664-1665), no retábulo da Ressurreição, no Convento de Santa Clara (c.1690), no da capela de Nossa Senhora das Angústias, no Funchal (c.1690), no da capela de Nossa Senhora do Rosário, em São Roque (finais do séc. XVII) e no da capela dedicada ao Santíssimo na matriz da Calheta.

Face à crescente devoção ao Santíssimo Sacramento, houve a necessidade de elaborar retábulos para expô-lo solenemente em dias festivos, criando-se os chamados retábulos eucarísticos. A solução foi construir nos retábulos mores um camarim central de grandes proporções com um trono em degraus. Assim, em 1664-1665, foi construído o arco no vão do retábulo mor da igreja do Colégio. Já os retábulos das capelas-mores da igreja da Ordem Terceira do Carmo e da matriz de Machico (c. 1665) (Fig. 6) foram projetados de raiz com camarim. Por vezes, neste espaço era exposta uma imagem em vulto e na boca da tribuna colocava-se uma pintura amovível, prática de muita aceitação até a segunda metade do séc. XVIII.

As colunas, divididas em terços por anéis, apresentam grupos de grotescos e de elementos vegetalistas de folhagens de acanto helicoidais com querubins. Estes grupos, sem se misturarem, existem apenas no terço inferior, enquanto nos dois superiores ou em todo o fuste constam folhagens dispostas em helicoidal. Estas variantes podem ser apreciadas nos retábulos mor e de Nossa Senhora do Socorro (depois do Santíssimo), na igreja do Colégio, do Senhor Bom Jesus, na Sé (1677), do Espírito Santo, no Porto Santo, do oratório de Nossa Senhora dos Anjos, na Sé (c.1688), da capela-mor da igreja matriz de Santana e da Misericórdia do Funchal (depois transferido para a igreja da Boa Nova) (Fig. 7), este com a particularidade de as colunas do primeiro nível terem nos terços superiores um fino ramo de folhas e flores que entrelaça em sentido oposto as caneluras helicoidais decoradas com ramagens.

Desta época, além dos retábulos já desaparecidos e do grandioso camarim da Sé (já desmontado e cujos painéis remanescentes foram transferidos para o Museu de Arte Sacra), existem referências a outras peças, como por exemplo, os retábulos das capelas de Nossa Senhora do Desterro e das Almas do Purgatório, na Calheta (terminados em 1673, custando 15$000), de Nossa Senhora do Amparo, em Machico (com data de 1692 e de cor dourada), de Nossa Senhora da Piedade (1695) e de S.to António da Serra (1735).

O sacrário da igreja do Colégio, de meados do séc. XVII, com três andares, trifacetado, apresenta a morfologia do retábulo onde se insere. Este modelo, por vezes com um andar, foi espalhado pela Madeira, como podemos comprovar nas matrizes de Câmara de Lobos, Machico, Ribeira Brava, Ponta Delgada e nas paroquiais de São Roque, São Pedro e da Boa Nova no concelho do Funchal.

Estes retábulos do protobarroco são atribuídos à oficina do imaginário Manuel Pereira que esteve ativo entre meados da primeira metade do séc. XVII e faleceu em 1679. A talha deste período também se deve aos imaginários José Fernandes de Morim (1617, m. 1654), Domingos Moniz ou Martins (1646, m. 1661), Francisco Rodrigues (1672), Inácio Ferreira (1648, m. 1684) e ainda os mestres Brás Fernandes (c. 1631-1641), Manuel Dias (1639), Manuel de Lima (1651) e Francisco Fernandes (1669). Em finais do séc. XVII, são referenciados Manuel Pereira de Almeida (c.1648-1737), sobrinho de Manuel Pereira, o familiar João Rodrigues de Almeida (c.1650-1740), Manuel Fernandes (1675), Luís Dias (1684), Manuel da Silva (1686), Francisco da Silva (1689) e Francisco Afonso da Cunha (1683-1692).

Entre cerca de 1680 a 1730, no período do barroco pleno também apelidado de estilo nacional, desenvolveu-se um tipo de retábulo de esquema decorativo inovador e fácil aceitação. Apresentava corpo e tramo único em planta côncava, um nicho ou pintura ao centro, dois pares de mísulas a suportar duplas colunas torsas com sete espiras totalmente revestidas por parras, cachos de uvas, flores e, raramente, aves e meninos, e dois arcos salomónicos plenos e concêntricos cortados transversalmente por três ou cinco aduelas; utilizavam-se também largas folhagens de acanto nos painéis de talha, nas superfícies dos intercolúnios e nas grandes volutas das mísulas das colunas. Além do douramento total, por vezes utilizou-se a combinação do azul claro com dourado e policromia na carnação dos meninos e nas vestes. Solução pontual, complementar e/ou alternativa ao uso de colunas foi o uso de pilastras compósitas totalmente decoradas com ornatos vegetalistas, como ocorre no retábulo de S. Gregório da igreja da Sé (232$400 em 1736), no da capela-mor da igreja antiga de S. Martinho e no retábulo mor e colaterais da igreja de S.ta Luzia, no Funchal.

Este esquema de colunas rematadas em arco está patente no, talvez pioneiro, retábulo de Nossa Senhora da Luz (depois Nossa Senhora de Fátima), na igreja do Colégio (c. 1680), sendo possível atribuir o risco e o entalhe a um mestre originário de Lisboa, eventualmente Francisco da Silva. Neste caso, as colunas apresentam um tratamento plástico mais alisado do que os outros remanescentes da Madeira. Deste período, com o esquema e as características atrás apontados, são ainda os retábulos do altar de São Miguel e Almas na matriz da Ribeira Brava; da capela de Nossa Senhora da Nazaré e S. José, na Calheta (1689); de S.to António (c. 1680), S. Miguel Arcanjo (c. 1680) (Fig. 8), Nossa Senhora da Conceição (c. 1700) e S.ta Quitéria (c. 1700), estes quatro na igreja do Colégio; do altar de S. Francisco Xavier, na matriz de Machico; do altar do lado da epístola na igreja do Carmo; do oratório do Senhor Crucificado, da sacristia da igreja do Colégio; das ermidas de Nossa Senhora da Nazaré e de Nossa Senhora da Consolação, ambas no Funchal, este último proveniente do convento de S. Francisco, e da Misericórdia do Funchal, de finais do séc. XVII e de avultadas dimensões, com três tramos separados por pilastras e colunas, contendo o tramo central um camarim. Nesta época, o modelo compositivo definido por tribuna ou camarim central teve pouco uso, apontando-se como exemplo o da capela-mor da igreja paroquial da Tabua (c. 1688), existindo ainda nesta igreja dois retábulos colaterais, com características decorativas idênticas, mas com um frontão triangular. A tipologia com dois corpos e três tramos manteve-se até inícios do séc. XVIII, mas com decorações barrocas, onde os tramos são delimitados por colunas, apontando-se como exemplo o retábulo de S.to António, na Sé do Funchal (1697), e o do altar-mor da matriz da Ribeira Brava (c. 1707).

Os retábulos do barroco pleno tiveram a colaboração de alguns dos mestres atrás referidos e devem ter tido o imaginário Manuel Pereira de Almeida como um dos mestres orientadores, dado que, em 1697, dava ordem “como se havia de fazer a grade para se pregar nela o retábulo de Santo António” da Sé (RODRIGUES, II, 2012, 11). A transição para o barroco final, em vigor de 1720 a 1750, é feita com os entalhadores Manuel Pereira de Almeida, Francisco Martins (1753-1756), Julião Francisco Ferreira (c. 1730, m. 1771) e Manuel da Câmara (1723-1756), os dois últimos naturais dos Açores, sendo Julião um entalhador de transição para o Rococó, quando em 1764 executa a talha do retábulo da igreja de Nossa Senhora da Graça, no Estreito de Câmara de Lobos.

Neste período do barroco final, aparece o gosto em alargar a talha às paredes laterais, predomina a planta plana, utilizando-se o entablamento apenas nos tramos laterais, e continua-se a usar o vocabulário ornamental da fase anterior. Por vezes, o tratamento plástico das folhagens de acanto é trabalhado com turgidez, formando um amontoado de formas que torna quase imperceptíveis alguns elementos dos retábulos, por exemplo as aduelas e cartelas do ático, como podemos constatar no retábulo entalhado por Manuel da Câmara para a capela do Santíssimo da matriz da Ribeira Brava (1727) (Fig. 9). Também lhe é atribuído o retábulo da capela de Nossa Senhora da Conceição em Câmara de Lobos (1723) e os colaterais da matriz de S. Pedro, no Funchal (c.1724), bem como o da igreja do Porto da Cruz, de 1745, entretanto desaparecido). Nestes retábulos e nos colaterais da matriz da Calheta constam grandes volutas de folhas de acanto nas mísulas. Em alguns casos, os áticos tornam-se mais dinâmicos recorrendo a dosséis recortados, como no retábulo da capela do Santíssimo da igreja de S. Lourenço, na Camacha e nos quatro retábulos, os colaterais e os das paredes laterais, da igreja de S. Jorge (1752), que foram acrescentados à talha túrgida de anteriores peças (c. 1737).

Nos retábulos de gosto retardatário ainda se continua a recorrer ao uso de uma ou mais arquivoltas plenas e nos ornatos florais predomina a forma de sino. Estes elementos são visíveis nos retábulos da capela de S. Lourenço na Fajã da Ovelha, nos da sacristia da Sé, nos colaterais da igreja do Carmo, nos da capela de Nossa Senhora do Amparo, na Ponta do Pargo, e nos quatro dispostos na nave da capela do Espírito Santo, na Lombada da Ponta do Sol, um destes com o acréscimo na parte interna de um par de colunas torsas lisas na parte convexa. Por vezes, mantêm-se os áticos ao gosto do séc. XVII, como podemos observar nos retábulos das capelas de S. João da Ribeira, no Funchal (c.1750), de S. Roque, em Machico (1751) e no retábulo mor da igreja de S.ta Beatriz, em Água de Pena. Deste período são ainda os retábulos da capela do Santíssimo das igrejas de S. Pedro, no Funchal (1743), da Camacha (1750/1760) e da matriz de Santana, o dedicado à Deposição da Cruz na matriz de Câmara de Lobos, e o retábulo mor da igreja matriz do Porto Moniz, estes três últimos com reformulações posteriores.

Em 1742, os responsáveis da igreja de S. Pedro, no Funchal, encomendam dois riscos para o retábulo mor a um reconhecido entalhador rococó lisboeta, Félix Adaúcto da Cunha. Este retábulo demarca-se das soluções estruturais barrocas; a sua tipologia com um corpo e três tramos e o ático com frontão interrompido teve enorme aceitação na Madeira, nos modelos dos retábulos tardobarrocos, rococós e neoclássicos. Na gramática decorativa, este retábulo revela mudanças, como nas colunas torsas estriadas com oito espiras, diferenciadas no terço inferior por um anel e decoradas na parte côncava por uma fina grinalda de flores (Fig. 10). Surgem formas concheadas dinâmicas, grinaldas de flores, enrolados de folhas, e dos baldaquinos dos nichos nos tramos laterais surgem cortinados sustentados por sanefas e repuxados lateralmente, solução que vai repetir-se nos retábulos da capela-mor da matriz de São Jorge (c. 1750) (Fig. 11) e da capela do Santíssimo da Sé (1769-1770), tendo, no entanto, sido uma exceção o esquema do ático do retábulo da Sé. Neste, a partir dos capitéis das colunas, surge uma abóbada de nervuras que acompanha a estrutura do teto, que suporta um entablamento sinuoso semelhante a um dossel com sanefas e que faz de base a um friso horizontal em talha vazada baseada em ramagens.

Na década de 70, são feitos os últimos retábulos totalmente dourados com ornamentações vegetais policromadas, visíveis nos três retábulos atrás mencionados e nos da capela de Nossa Senhora da Boa Morte, na igreja de S. Pedro no Funchal (1770/1774), e da capela do Espírito Santo, na Lombada da Ponta do Sol (c. 1760); estes dois, com um equilíbrio entre a obra de talha e de carpintaria, ficaram numa “obra mais moderna que de presente se usa com os intalhes e lisos”, ao gosto tardobarroco e rococó (LADEIRA, 2009, 92). No retábulo mor da capela da Lombada, denota-se a fusão das influências do retábulo mor da igreja de S. Pedro e dos retábulos principais de S. Jorge e do Santíssimo da Sé, indo buscar ao primeiro o ático e aos últimos as colunas.

O progressivo depauperamento do erário régio e das elites locais foi correspondido com eficácia através da simplificação formal no período tardobarroco e rococó. Executaram-se muitos retábulos, fruto de substituições, da (re)construção de igrejas e da ação das confrarias.

Como autores de riscos, constam o pedreiro Domingos Rodrigues Martins, mestre das obras reais (1748-1779), que assinou em 1750 o do retábulo mor de S. Jorge, o único que sobreviveu. João António Villavicêncio (c. 1740-1796), natural de Tenerife, autor de vários painéis e tetos de igrejas e dourador, foi autor de riscos de retábulos como o principal da paroquial do Estreito de Câmara de Lobos (c. 1764) – um trabalho de vanguarda na Madeira, “tão liso de ornamento como pede a boa arquitetura” (LADEIRA, 2009, 98), com as suas colunas de fuste liso e marmoreadas (Fig. 12) -, o da capela de Nossa Senhora da Boa Morte na igreja de S. Pedro, no Funchal (1770), o de S.to António na igreja de S. Martinho (3$800 em 1774), e também um nicho para uma capela no Convento de S. Francisco (1781) e um retábulo para a igreja paroquial da Madalena do Mar (1791-1794). Foi mestre das obras reais (1781-1796), facto inédito para um pintor e que mais tarde se repete com o entalhador/carpinteiro Estêvão Teixeira de Nóbrega, em 1810. Refira-se que, até então, este cargo provinha dos mestres pedreiros da área da fortificação. Estão identificados outros pintores como autores de riscos, entre os quais António da Trindade da Cruz, que fez o do altar da irmandade da Ordem Terceira do Convento de São Francisco (1785), um para a igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São Vicente (1794/1795), e um para a capela do Santíssimo da matriz da Ponta do Sol (1795); José Agostinho da Costa apresentou um risco para a capela do Santíssimo da igreja de Santo António no Funchal (1789/1790) e Filipe Caetano da Trindade e Silva dois riscos para os altares de S. José e de S.ta Ana e S. Joaquim, ambos na Sé (1797/1798).

Os pintores João António Villavicêncio e António da Trindade da Cruz eram cunhados, tendo-se casado no Funchal, respetivamente em 1745 e 1756, com duas sobrinhas de Diogo Filipe Garcês, mestre das obras reais entre 1727 e 1740. O primeiro era cunhado do pintor José António da Costa, também natural de Tenerife. A relação familiar, social e profissional destes três pintores, que realizaram trabalhos em conjunto ou formaram uma oficina, revela o trabalho de equipa existente e que já vinha de épocas anteriores. Estes trabalhos abrangiam também as obras de talha, o que demonstra a sua grande área de intervenção do domínio do tardobarroco e do rococó na Madeira.

Estêvão Teixeira de Nóbrega (1746-1833) mantinha uma proximidade social e profissional com as famílias Garcês e Villavicêncio, reflexo do monopólio/trabalho de equipa nas obras. A maioria dos carpinteiros e entalhadores morava na freguesia de S. Pedro, pertencia à Confraria de S. José da Sé do Funchal e, como era comum desde a Idade Média, os filhos seguiam o ofício dos pais. Estêvão de Nóbrega esteve presente na talha desde o apogeu do rococó até ao neoclássico, na execução de talha na sua produtiva oficina, na execução de riscos, na direção de obras e como mestre das obras reais (1810-1833). Existiam diversos carpinteiros e entalhadores próximos dele, destacando-se António Mendes (c. 1760), Domingos Nunes (c.1760, m. 1801), Miguel Francisco da Câmara (1774-1809), José Rodrigues Gonçalves (c. 1770, m. 1800), José dos Reis da Silva (c. 1760-1811), António Francisco Xavier, cunhado, (1779-1824), António José, cunhado, (1775-1794), António de Agrela de Azevedo (1777, m. 1814), Manuel José Cabral (1784-1809) e José Joaquim da Trindade (1790-1807). Neste período, encontramos ainda referências a outros mestres: António João (1769-1771), Manuel Francisco Gomes (1769-1771), o escultor Agostinho José Marques (1769-1771) e o entalhador João da Câmara Sá (1787-1799).

Entre outros riscos que Estêvão de Nóbrega deve ter executado, destaque-se, de 1784, o risco e a execução da talha do retábulo da capela da Confraria de Nossa Senhora, Mãe dos Homens, e S. José, no Convento de São Francisco, por 834$000, e os dois riscos, de 1798 e 1800, para a reconstrução do camarim da Sé, orçamentado em dois contos de réis. Há referências atrabalho na talha nos retábulos riscados por Villavicêncio e atrás mencionados, exceto o da Nossa Senhora da Graça e o da Madalena do Mar, bem como os retábulos do altar-mor da matriz do Caniço (1779, 1350$000), da capela do Santíssimo da matriz de Santa Cruz (1783), do altar-mor da igreja de Nossa Senhora da Piedade, nos Canhas (1786), dos dois altares dedicados ao Espírito Santo e a S. João Batista no Convento de São Francisco (1786, 950$000), da capela do Santíssimo da igreja de Santo António (1789-1790, 700$000) (Fig. 13), da capela do Santíssimo da matriz do Porto Santo (1803), do altar de Nossa Senhora do Rosário da Sé (1809, 430$000), do altar de Nossa Senhora do Rosário da matriz da Tabua (1815), da igreja do Monte (1819-1821) e alguns trabalhos na Sé do Funchal, em finais do séc. XVIII.

Além destes trabalhos, neste período construíram-se muitos retábulos, impossíveis de referenciar na totalidade, destacando-se os colaterais da igreja matriz do Caniço, os da igreja de S.to António no Funchal, os seis altares dispostos nas naves laterais da Sé, os da igreja de S. Tiago, no Funchal, da igreja de S. Roque, no Funchal, da capela do Santíssimo e de Nossa Senhora de Fátima, na matriz do Porto Moniz, das capelas de Nossa Senhora da Conceição, na rua da Carreira, e da Penha de França, no Funchal. De finais do séc. XVIII, existem referências a retábulos entretanto desaparecidos, como o da igreja paroquial dos Canhas, o retábulo mor da paroquial do Estreito da Calheta, os devorados nos incêndios que atingiram as igrejas de Gaula e de Ponta Delgada e os do extinto Convento de São Francisco; destes últimos, há notícia de um ter sido colocado na capela-mor da igreja de S.to António, no Funchal.

Com o rococó, de entre as inovações então surgidas, destacam-se as colunas, que passaram de torsas lisas com sete espiras e percorridas por uma grinalda de flores na parte côncava (retábulo mor de S. Jorge, Santíssimo da Sé, Boa Morte, retábulos mores da capela do Espírito Santo, na Lombada, e da matriz do Caniço, retábulos colaterais da igreja de S. Jorge (esta última com o terço inferior estriado), para apenas lisas e brancas ou marmoreadas (verte antico, breccia, lápis-lazúli, castanho, púrpura, cinzento e rosa). Por vezes, no terço inferior das colunas eram aplicadas finas e delicadas grinaldas de flores em três espirais ou um ramo de flores suspenso por laço, ocasionalmente representados na parte superior dos fustes. Casos únicos são as colunas do retábulo mor da matriz da Calheta, com o terço inferior cilíndrico e o restante com quatro espiras, e o retábulo mor da matriz do Caniço (Fig. 14), com colunas torsas brancas com relevos dourados, únicas, a comprovar-se serem as cores originais e não um repinte posterior.

O esquema estrutural dos retábulos rococós é composto por corpo único, um ou três tramos separados por colunas e muito raramente por pilastras, estas visíveis nas bordas dos seis retábulos das naves laterais da Sé e na capela do Santíssimo da matriz da Ponta do Sol, que apresenta um único tramo ladeado por uma pilastra e duas colunas. Nos tramos centrais continua o esquema vindo do período anterior, e nos laterais são usadas cartelas com motivos decorativos ou devotos, nichos com esculturas formados por mísulas, e baldaquinos entalhados ou pintados ou apenas com mísulas e fundos decorativos. As predelas apresentam estilóbatas, que suportam as colunas e são decoradas com motivos simétricos. Entre as estilóbatas, existem cartelas com motivos decorativos e na parte central o sacrário, pequenas figuras de vulto, nichos para albergar imagens ou ainda um pedestal para colocar uma imagem. Nos retábulos de três tramos, o ático, de composição tripartida, é delimitado entre as partes por pilastras, segmentos de frontão e réplicas do entablamento, apresentando ao centro o brasão das armas reais ou cartelas e nas laterais segmentos de frontão, volutas, anjos, enrolamentos, festões, as letras C e S, motivos florais e vegetais (como folhas de acanto e outras ramagens, flores abertas e em botão), dispostos em grinalda e envoltos em cartelas ou isolados. O entablamento é decorado com frisos de talha em relevo dourado e pinturas decorativas ou marmoreados. Neste período, outro aspeto a salientar é o uso de estuques em molduras, como as das pinturas das paredes da capela-mor da Sé e em tetos, patentes nas capelas do Santíssimo das igrejas do Monte, da Sé e de S.to António, no Funchal, e ainda na capela de Nossa Senhora de Guadalupe.

A partir da última década do séc. XVIII, a ornamentação orientou-se para a simplificação, predominando cada vez mais o trabalho de carpintaria, as partes lisas e brancas e o progressivo desaparecimento do trabalho de entalhador em relevo escultórico, imperando novamente o neoclássico. Estas características podem ser observadas nos retábulos das igrejas matriz de Santa Cruz (Fig. 15), exceto o do Santíssimo, que é um pouco mais ornamentado, no altar-mor da igreja de Nossa Senhora do Rosário, em São Vicente, no altar-mor da capela de Nossa Senhora do Loreto, na Calheta, na capela de S.ta Rita, nos Piornais no Funchal, na capela de S. Lourenço, na igreja paroquial de S.ta Cecília, em Câmara de Lobos, numa dependência no lado da epístola da igreja de S. Pedro do Funchal, no altar de S.to António na matriz de Câmara de Lobos, e nos retábulos das paroquiais da Serra de Água, dos Prazeres, da Ponta do Pargo e dos Canhas.

A partir dos inícios do séc. XX, recorre-se ao revivalismo, principalmente das soluções tardobarrocas, rococós e neoclássicas, sendo o mais comum aquilo a que se chamava na época o estilo Renascença, e alguns retábulos são ecléticos e com inovações. Na década de 10 e 20 do séc. XX, há um surto de decoração dos templos, nomeadamente a pintura de tetos e a construção de alguns retábulos em talha, no contexto do qual a Escola Industrial e Comercial do Funchal desempenhou um papel importante na formação de artífices de marcenaria, de embutidos e de pintura ornamental.

O escultor madeirense Manuel Bernardes, autor de imagens em vulto, fez em 1915 um retábulo para a capela-mor da igreja do Senhor Bom Jesus na Ponta Delgada, com forte inspiração nos retábulos mores do séc. XVIII das igrejas matrizes da Calheta e do Caniço, talvez numa tentativa de cópia do anterior retábulo da igreja, que ardeu em 1908. Na mesma igreja existem provavelmente imitações de retábulos do séc. XVII, nomeadamente os colaterais e do Santíssimo; o retábulo da capela de Nossa Senhora de Fátima (Fig. 16), de três tramos e ático com frontão polilobado, parece ter reintegrado peças do séc. XVII, como os quartelões, que foram adaptados criativamente como mísulas.

O entalhador Manuel Inocêncio de Sousa, sedeado no Funchal, executou diversos frontais de altar e retábulos em talha, nomeadamente o altar-mor da igreja da Quinta Grande (1914), os três retábulos da igreja do Jardim do Mar (1915), o altar-mor da igreja do Curral das Freiras (1917), podendo ainda ser-lhe atribuídos o altar-mor da capela de Nossa Senhora da Conceição, no Arco da Calheta (1922), e o retábulo mor da capela de Nossa Senhora da Conceição, nas Babosas, no Monte (1910), que foi destruído no temporal de fevereiro de 2010.

Os das três primeiras igrejas são construídos dentro dos moldes neoclássicos e com marmoreados, o segundo com a particularidade de o frontão ser em forma de arco quebrado, e de a predela ser prolongada com mais um nível, onde sobre as estilóbatas assentam dois pedestais que suportam as colunas. O retábulo mor do Curral, de três tramos, é prolongado para os lados com duas pinturas emolduradas. O retábulo mor do Arco da Calheta (Fig. 17), branco e dourado, apresenta uma solução eclética inovadora: mostra um alto embasamento, três tramos definidos por um par de colunas marmoreadas com entablamento somente sobre as mesmas, e encimadas com pináculo. Nos intercolúnios, constam três maquinetas trifacetadas protegidas com vidro, sendo a central maior, e em cima de um trono. As maquinetas estão assentes no topo do banco, recuado em relação às colunas. Na capela de Nossa Senhora da Boa Hora, em Câmara de Lobos, existe um retábulo renascentista contendo aos lados duas maquinetas de estrutura idêntica, que se repetem na capela de Nossa Senhora da Vitória, no Funchal, contendo esta ao centro um nicho envolto numa imitação de frontispício exterior com empena triangular. Este último retábulo é muito semelhante ao da capela do Hospício da Princesa D. Maria Amélia, este sem as maquinetas, que poderá ter sido o exemplar pioneiro na Madeira. Refira-se que o Hospício foi concluído em 1860 e o retábulo foi adquirido em Munique por 100 libras.

A capela de Nossa Senhora da Conceição, no Arco da Calheta, possui ainda dois retábulos colaterais ecléticos neobarrocos, dourados e brancos, com frontão interrompido, colunas finas com dez espiras lisas e diversos motivos decorativos vegetalistas, presentes no ático, nos nichos com imagens e nos intercolúnios. Tendo em conta a data de construção da capela, estes retábulos são da década de 20 do séc. XX e, por comparação morfológica, são também deste período o retábulo da capela da Qt. do Til, no Funchal, o da capela de S.ta Cecília da Fundação Zino, e os diversos retábulos da igreja da Madalena do Mar. Nesta igreja, o retábulo do Santíssimo é exceção na morfologia, sendo idêntico ao da capela de Nossa Senhora de Fátima da igreja de São Brás do Arco da Calheta. Refira-se ainda a solução semelhante usada nas colunas do retábulo da capela de Nossa Senhora da Conceição nas Babosas no Monte. Neobarrocos são ainda os retábulos colaterais da igreja matriz de Câmara de Lobos, de influência do estilo nacional, um pequeno retábulo existente na capela da Qt. da Fonte, no Funchal, em talha gorda, e um retábulo lateral no lado do evangelho da igreja matriz da Ribeira Brava, dedicado a Nossa Senhora de Fátima, totalmente dourado, com colunas torsas lisas e ornatos vegetalistas na parte convexa, o que é pouco comum. Na capela de Nossa Senhora das Dores, em Câmara de Lobos, existe um retábulo de influência rococó, como também na capela dos Milagres, em Machico, ambos com colunas torsas e o último datado de 1850.

António Maria Cardoso, entalhador continental com ateliê no Funchal, fez em 1927 um frontal em estilo Renascença para o altar da capela-mor da igreja de S. Brás, no Arco da Calheta, podendo ter participado na elaboração dos dois retábulos colaterais e de um existente na nave, no lado da epístola (Fig. 18), invulgarmente esguios e apenas com trabalho de carpintaria. Estes são semelhantes aos existentes na capela de Nossa Senhora da Piedade da Cruz da Caldeira, em Câmara de Lobos (pintados em 1933), na igreja de S. Sebastião, no Caniçal, nas capelas de Nossa Senhora da Piedade, no Caniçal, do Espírito Santo, em Câmara de Lobos, de S.to Amaro, em Santa Cruz, do Espírito Santo e de S. João na matriz de Machico, e de Nossa Senhora da Ajuda e do Amparo, estas duas no Funchal. Em 1932, António Maria Cardoso fez um altar e respetivo frontal em talha para uma capela lateral, dedicada a S.ta Teresinha, da igreja de Boaventura. Nesta igreja também existem um retábulo mor e dois colaterais desta época, ao gosto neoclássico com marmoreados.

Na capela do Imaculado Coração de Maria, em Boaventura, existem três retábulos, sendo o da capela-mor de estrutura idêntica ao do Curral das Freiras. Os outros retábulos colaterais são idênticos, embora com entablamento e ático um pouco mais trabalhado. Estes retábulos foram edificados em maio de 1927 por João Rodrigues Pimenta. Entre 1930 e 1934, o mesmo mestre e os seus ajudantes receberam 23.791$35 escudos em três prestações, tendo sido gastos, em 1930, 10.262$45 em madeira e, em 1931, 7.878$00 em pinho mole para a edificação de um dos mais monumentais retábulos da Diocese do Funchal, o da igreja nova de S. Martinho, no Funchal (Fig. 19). É um retábulo de planta côncava, com um corpo e três tramos, camarim e nichos nos intercolúnios, colunas estriadas e um frontão de lanços profusamente decorado, tendo ao centro dois anjos e o triângulo da Santíssima Trindade.

Existem ainda retábulos inspirados – quase cópias – em séculos anteriores. Ao estilo de finais do séc. XVI e princípios do séc. XVII, na matriz de São Vicente existe um retábulo no lado da epístola, e dois retábulos colaterais na igreja matriz da Ponta do Sol, estes últimos executados, aparentemente, em gesso. Na matriz de São Vicente, existe um sacrário ao gosto da segunda metade do séc. XVII, nomeadamente a estrutura, destacando-se as colunas torsas com três helicoidais. Na matriz do Porto Santo, existe um retábulo colateral (do lado do evangelho) a imitar as colunas do barroco pleno, como também parece ter acontecido nos retábulos colaterais da matriz do Porto Moniz (ou reintegração das colunas barrocas). Na matriz da Calheta, constam dois retábulos de inspiração neoclássica, um dedicado a Cristo e datado de 1968, segundo uma inscrição na cartela. Na capela de S.ta Catarina, no Funchal, num altar colateral (do lado da epístola) da matriz do Porto Santo e numa capela dedicada a Nossa Senhora e a S.ta Rita de Cássia, na matriz de Câmara de Lobos, existem três retábulos de madeira pintada ao gosto do séc. XVII, com alguma influência no retábulo da capela-mor da igreja de Santa Luzia. As imitações de mármores, em tons ocres, vermelhos e verdes, estão patentes num retábulo do lado do evangelho da igreja de S. Pedro, no Funchal, concebido pelo engenheiro militar Adriano Augusto Trigo, que foi para a Madeira em 1904.

As soluções ítalo-flamengas ao gosto dos retábulos de princípios do séc. XVII estão patentes no retábulo da capela do cemitério da Calheta, obra do marceneiro Franco de Sousa, no retábulo de S.to Antão da matriz da Calheta, nos retábulos mores e colaterais da igreja do antigo Convento de S. Bernardino, em Câmara de Lobos, e no da capela-mor, com a particularidade de este apresentar um ático com frontão triangular com trabalho de embutidos e nas traseiras constar um arco quebrado. O retábulo da matriz do Porto Santo parece ter sido fruto de uma remodelação, em que foi aproveitada a talha com ornatos ítalo-flamengos do séc. XVII.

Outras soluções, mais criativas, existem no retábulo mor da capela de Nossa Senhora da Encarnação, no Porto Moniz, composto por três tramos, destacando-se, no central, um nicho oval com talha dourada e, nos laterais, nichos semicilíndricos ladeados por colunas estriadas, além de um frontão curvilíneo a unir as colunas centrais, encimado por um frontão triangular que une as laterais. Na igreja da Camacha existe um retábulo, de 1933, conforme inscrição, de planta mista com um corpo e cinco tramos, de inspiração rococó, com colunas torsas de nove espiras e perfis sinuosos, devocional a Nossa Senhora do Rosário de Fátima e outros temas. Na matriz da Ponta do Sol, no retábulo do Sagrado Coração de Jesus foi acrescentada uma maquineta com duas colunas, que são imitações de troncos com curtos ramos onde se enrolam duas serpentes. Colunas torsas de oito espiras, na parte convexa a imitar pele de serpente e na parte côncava com um entrelaçado de duas fitas intercaladas, podem ser contempladas no retábulo da Imaculada Conceição, na matriz do Porto Santo. A capela de Nossa Senhora da Conceição, no Monte (1936), projetada pelo arquiteto Edmundo Tavares, contém um retábulo formado por duas colunas a enquadrar uma pintura, e com dois nichos nas laterais, colados à parede.

Por fim, referimos que a Madeira possui um vasto património de talha, identificativo dos vários momentos da sua história, desempenhando as funções para que foi concebida: o culto dos fiéis e a valorização artística dos espaços onde se encontram.

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Paulo Ladeira

(atualizado a 30.01.2017)