teixeira, maria ascensão fernandes

Em 1949, com 20 anos, Maria Ascensão Fernandes Teixeira integrou o Grupo de Folclore da Casa do Povo da Camacha, a convite de António Martins Júnior. Esta viria a ser a sua principal atividade profissional. Antes disso, aprendera bordado, croché e costura, tendo sido professora e modista. No grupo de folclore, dinamizou atividades durante mais de 50 anos, que envolveram não só os elementos do grupo original, como também a formação de novos bailadores.

Palavras-chave: folclore; Camacha; Madeira; grupos folclóricos; internacionalização.  

Maria Ascensão Fernandes Teixeira nasceu a 13 de maio de 1926. Filha de José Nicolau Fernandes Teixeira e Conceição Fernandes Teixeira era a mais velha dos cinco filhos do casal, três raparigas e dois rapazes. Viveu toda a sua vida na freguesia da Camacha, apesar dos seus pais e irmãos se terem mudado para o Funchal, ainda não tinha concluído a escola primária. Foi na casa dos avós que permaneceu mesmo depois de iniciar a sua atividade como bailadora no Grupo Folclórico da Camacha a convite do Dr. Alfredo Ferreira de Nóbrega.

Aos 7 anos representa e canta no Auto de Natal, assumindo o papel de anjo. Aos 9 anos participa como saloia no Espírito Santo, acompanhada pela orquestra popular da freguesia, conhecida pelo povo como roquestra, na visita das insígnias do Espírito Santo pela Camacha. Maria Ascensão foi durante 4 anos seguidos a criança escolhida para integrar os festejos do Espírito Santo na Freguesia da Camacha.

De 1935 a 1938, foi assim a pequena Maria Ascensão o rosto desta tradição secular, sendo também a exceção à regra, uma vez que a participação nas celebrações do Espírito Santo, nesse tempo como atualmente, é de apenas um ano. A participação das saloias iniciava-se pelas 7 horas e 30 minutos da manhã de domingo, logo após a missa, e durava até ao anoitecer. Não era tarefa fácil para uma criança de nove ou dez anos de idade. Toda a gente a conhecia desde pequena e de facto aquilo que sempre demonstrou, foi o seu lado alegre contagiando os que com ela conviviam. Na adolescência ainda a residir no sítio dos Casais de Além, participava com muito entusiasmo nas romagens, cantando e dançando. Frequentou a escola primária da sua zona até 4ª classe, o máximo que a escola pública oferecia nesse tempo. Aprendeu bordado Madeira, crochet e mais à frente costura num curso, da Casa do Povo da Camacha.

Chegou a ser professora de corte e costura, mas já depois do casamento. Foi modista, em especial de vestidos de noiva feitos de encomenda, com a ajuda da sua prima ‘’Olivinha’’. A sua visibilidade e estatuto público, como personalidade marcante do seu tempo, não lhe modificaram a serenidade e humildade do seu dia-a-dia na freguesia. Demonstrava o mesmo afeto e disponibilidade com todos, independentemente da sua condição sócio profissional. Maria Ascensão foi um exemplo de cidadania e altruísmo, sendo por isso admirada por todos. A sua entrada num grupo de folclore, o único a que esteve ligada, aconteceu aos 22 anos. O convite para o Grupo de Folclore da Casa do Povo da Camacha, foi feito por António Martins Júnior, o principal bailador, com o conhecimento do diretor artístico Carlos Santos, corria o ano de 1949. Pelo percurso do grupo e pela entrega pessoal da própria Maria Ascensão, esta seria a sua principal atividade profissional, e em simultâneo a paixão da sua vida.

O grupo teve no folclorista, Carlos Santos uma referência importante, enquanto ensaiador e diretor artístico, mas com Maria Ascensão ganhou brilho e alegria, nos bailes de tradição secular. Casada com Abel Policarpo de Freitas no dia 4 de Novembro de 1957, elemento também do grupo, dinamizou por mais de 50 anos toda uma atividade que envolveu não só os elementos do grupo original, como também a formação de novos bailadores. Com ela, passando esse testemunho da cultura e tradição estiveram todos os elementos da coletividade, salientando-se os nomes de Adolfo Freitas, o vocalista do grupo folclórico, António Sérgio Martins tocador de brinquinho e porta-bandeira, José Valentim Rodrigues, António Policarpo e naturalmente o próprio marido, Abel Policarpo que começou por tocar rajão e mais tarde violino.

Na década de 60, o casal tomaria também a responsabilidade, enquanto elementos da direção, de levar a bom porto toda a ação da coletividade. Assim fizeram enquanto dirigentes, durante 42 anos. Já em 1949, Maria Ascensão foi entrevistada e fotografada pelo Século Ilustrado, em Lisboa. Esta revista de referência do Portugal daquela época, entrevistou «A loura da Camacha», de entre um leque de raparigas que compunham o Grupo Folclórico da Camacha. Essa primeira entrevista deu a conhecer ao país, que contava também com as colónias, Moçambique e Angola entre outras, não só o nascimento de um grupo folclórico mas de uma rapariga que representava a mulher rural madeirense, com toque feminino, em traje de cores garridas.

A imagem de marca de Maria Ascensão seria ao longo de décadas, o rosto do próprio Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Foram também muitas as estações de rádio e televisão que lhe registaram as entrevistas, o modo de bailar, até mesmo as cantigas e jogos cantados da sua infância, quando fazia parte das Saloias do Espírito Santo. De todas as partes, continentes e países, trouxe uma lembrança que depois perante os amigos recordava com as histórias vividas durante a digressão. Bastava expor todas estas pequenas peças para compreender o percurso do Grupo Folclórico da Camacha e da sua sempre presente Maria Ascensão. Na Madeira atuou no Reid’s Hotel, no Miramar Hotel e todas as semanas o grupo dançava a bordo de um navio de cruzeiro. Também atuavam na Feira do Marítimo e na Quermesse do Nacional.

A profissionalização, ou pelo menos o tocar e bailar, com caráter regular, levariam ao longo da década de 50 a uma entrega diferente, facto que não acontecia com os outros grupos ou ranchos amadores. O excelente nível das coreografias, a parte musical cuidada, o traje e acessórios dentro da tradição e cultura madeirense, não esquecendo o sorriso claro e simpático dos seus membros, levaram a crítica especializada a conceder um lugar de relevo a esta embaixada insular.

Em 1949, iniciava um ciclo de digressões fora do país, desta feita Madrid, no Grande Concurso Internacional de Danças. Um honroso 2º lugar, trouxe ao conjunto madeirense a atenção da comunicação social portuguesa e os convites apareceram um pouco de todo o lado. De jovens trabalhadores de uma pequena freguesia a membros de Grupo reconhecido internacionalmente em festivais de folclore foi um passo. Já em 1951, com a sua presença em Biarritz, tendo aproveitado esta viagem para exibir-se também em Saragoça, Madrid, e já em Portugal no Teatro Avenida e na casa da Madeira em Lisboa. Maria Ascensão participou no Documentário «Madeira Story», realizado por Horace Zino em 1951, sendo o rosto do Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha. Outro documentário importante tinha já recolhido imagens das danças, cantares e tocares da Madeira. Com realização portuguesa e apresentação de Artur Agostinho e João Villaret, dois nomes grandes da rádio e cinema nacionais, a película «Pérola do Atlântico», teve estreia no Teatro Municipal do Funchal a 30 de Maio de 1950, prolongando-se a apresentação por várias sessões.

No que diz respeito à rádio, o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha fora anteriormente alvo de uma atenção especial por parte da Emissora Nacional. Também a Revista Flama, incluíra na edição de Fevereiro de 1951 um artigo sobre a importância do Grupo Folclórico da Camacha, na propaganda dos Costumes da Madeira. Os primeiros postais a cores do Grupo, à venda nos principais quiosques da cidade, contavam sempre com a presença de Maria Ascensão, em poses de dança, a tocar instrumentos de corda tradicionais ou a bordar uma toalha madeirense. A rádio esteve presente na divulgação do projeto etnográfico, sendo um dos exemplos, o programa «A Voz do Campo», com edição semanal. A gravação exterior foi realizada toda ela na Madeira com entrevistas e números musicais.

Em 1954, no encerramento da Festa da Primavera, no Funchal, a arte de bailar e encantar de Maria Ascensão e do Grupo da Camacha, associavam-se no palco e na festa, à artista nacional Amália Rodrigues. Estas, eram as únicas referências do cartaz publicitário no Diário de Notícias da Madeira do dia 21 de Maio de 1954. Ao longo do mês de Junho de 1955, o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha, desenvolveu uma série de atividades de preparação para um grande festival internacional, a realizar-se na Inglaterra. A mais importante dessas aparições realizou-se perante o novo Presidente da República, Craveiro Lopes, nos Jardins da Quinta Vigia.

Maria Ascenção Teixeira
Maria Ascenção Teixeira

Sobre o espaço e organização do evento que reuniu 35 mil pessoas em Llangollen, País de Gales, pode-se aferir da dimensão e importância do festival que reuniu grupos de toda a Europa, Estados unidos da América e Canadá. Vários órgãos de comunicação, como a BBC, a France Press e a United Press, solicitaram entrevistas ao diretor do grupo, e os fotógrafos de toda a imprensa ali representada recolheram imagens do grupo. O Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha foi também um dos grupos portugueses a ser convidado para participar no grande acontecimento etnográfico, realizado entre 20 e 24 de junho de 1956 em Braga.

De entre as atuações exteriores da década seguinte, salientam-se o Festival Internacional de Folclore realizado pela Sociedade Estoril – Sol, em agosto de 1962. Em 1965, um outro convite, desta feita para a África do Sul, mais propriamente a cidade de Joanesburgo. Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha integrariam o voo inaugural da TAP para aquela cidade.

Em 1971, uma nova digressão europeia contemplava a cidade de Neuchatel, na Suíça, com muitas referências na imprensa regional. Em 1973, a consagração esperada há muito, a digressão aos Estados Unidos da América. A colónia madeirense residente em New Bedford endereçou o convite ao grupo da Camacha na Primavera de 1973 para a deslocação. Expressa oficialmente esta pretensão através da Confraria do Santíssimo de New Bedford, o grupo contaria uma vez mais com o patrocínio da TAP, tornando assim possível a realização de um sonho não só aos elementos da Camacha mas a toda a diáspora residente naquela região do mundo.

O voo direto para Nova Iorque realizou-se a 2 de Agosto de 1973 e o objetivo primeiro foi a atuação no Dia do Madeirense, na cidade de New Bedford, Massachusetts, uma grande festa onde participam, ainda hoje, milhares de conterrâneos que vêm de toda a parte tanto dos Estados Unidos como do Canadá. O Dia do Madeirense ou Festas do Santíssimo Sacramento desse ano de 1973, tiveram uma particular atenção dos diários locais como o The Standard Times ou o Portuguese Times no relato desse particular evento, com a presença da Loura da Camacha, como foi muitas vezes referenciada dentro e fora de Portugal. Em 1977, uma vez mais na África do Sul e em 1978, uma digressão à Venezuela, culminariam no que diz respeito a Maria Ascensão, a trinta anos de trabalho cultural, uma embaixadora da Ilha da Madeira, suas danças e costumes, papel que partilhava com outro ilustre conterrâneo, o cantor Max.

Em 1984, Maria Ascensão integra uma comissão de recuperação do ritual da Festa do Espírito Santo, sendo ela uma das mais importantes fontes de conhecimento da tradição oral, nomeadamente das antigas canções e melodias que se tinham perdido com o passar do tempo. Salienta-se o facto de ter sido eleita por esta altura Imperatriz, da Festa do Espírito Santo, algo de inédito na história das festividades. Um abrir de portas para o mundo feminino, e uma justa homenagem pela grande mulher que foi no reconhecimento pelo serviço prestado na preservação da tradição da Camacha e da Madeira. A 9 de Agosto de 2002, foi homenageada a título póstumo, sendo criada em sua memória a Gala Internacional do Folclore Maria Ascensão, uma grande festa da música, dança e cultura insular.

Bibliogr.: SARDINHA, Vítor, Maria Ascensão e o Grupo Folclórico da Casa do Povo da Camacha = Maria Ascensão and Folk Group of the Community of Camacha, [Madeira], Associação Cultural Encontros da Eira, D. L. 2008; PINTO, Rui Magno (2006), ”Fenónemos de Interacção entre Turismo e Folclore no Arquipélago da Madeira” em Revista Xarabanda, n.º 16.

Vítor Sardinha

(atualizado a 15.07.2016)